Yoko Ono
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e os Efeitos da Opinião Publicada

Sabe aquela frase feita, surrada, batida, dita sabe-se lá por quem – "Os Beatles são um fenômeno atemporal"? Faz tempo que foi publicada n'algum jornal ou revista. Daí por diante virou opinião de quem opinião não tem. Costumo tropeçar na afirmativa aqui ou ali, reproduzida por alguém. Ao ouvi-la tenho de quem a repete, a mesma impressão – não expressa um ponto de vista pessoal, mas a reprodução alegórica daquilo que pensava seu autor. Ressalve-se: nada contra o autor de tal frase. Mas, para tomar emprestada tal afirmação, é preciso antes compreender e/ou concordar com seu significado. Com Yoko Ono ocorre situação semelhante. Nada temos com a vida pessoal dos nossos ídolos, por mais públicos e famosos que sejam. Acho tola e estéril esse tipo de curiosidade, mas ela existe. Estão aí as revistas "Caras", da vida, onde o objetivo é o culto ao "eu". Só isso explica folhear-se uma página da publicação para encontrar fotografias apoiadas em manchetes sensacionais onde se lê: "fulano de tal mostra o banheiro de sua mansão". O banheiro?
Pois é. Sem entrar no mérito da vida íntima do casal Lennon, não tenho pudores de execrar Yoko Ono. Mas reconheço que é mais fácil apegar-se às frases feitas para vê-la como "brilhante artista de vanguarda", "alguém que tinha luz própria independente de John Lennon", "uma performática", "ela representa a mãe que Lennon nunca teve", "a precursora do punk", "ela e Lennon são a personificação do amor no século 20". Quem nunca leu por aí qualquer dessas frases feitas para definir Yoko Ono e sua relação com John Lennon, que atire a primeira pedra no micro. Antes da pedrada porém, questione-se: você pensa assim?

Yoko chegou à vida de John Lennon por volta de 1966. Ele era um beatle famoso, consagrado, entediado pelo final das turnês e sem saber exatamente o que viria a seguir. Um jovem inteligente, à frente de seu tempo, impulsivo, talentoso. Nada é frase feita. Penso isso. Num dos primeiros diálogos travados pelo casal, Yoko mentiu. Disse jamais ter ouvido falar nos Beatles! Ela, que vivia na swinging London! No underground total, mas em Londres. À época existiam fãs-clubes dos Beatles em Arapiraca, interior de Alagoas, e em Quixeramobim, interior do Ceará. Suas canções atravessavam a então Cortina de Ferro graças ao som clandestino de rádios piratas captadas do lado de lá do Muro de Berlim. Yoko, em Londres, afirma na cara de um John Lennon impressionado, que "não conhecia os Beatles, mas ouvira falar de Ringo", e por questão das mais prosaicas: o nome do baterista soa muito próximo da expressão "maçã" no dialeto japonês.
John Lennon foi "pregar o prego... imaginário" depois dessa. Mas – problema dele – acreditou em Yoko! Ela em Londres, na Londres dos anos 60 dominadíssima pelos Fabs repita-se, não os conhecia no sentido de ouvir falar. Vai ver que tal ajudou no frutificar do relacionamento. Teria sido óbvio demais que ela se declarasse uma fã dos Beatles. E certamente não era o que Lennon estava procurando posto que já casara com uma fã – Cynthia Powell. Daí por diante o que se seguiu foi um relacionamento que ficaria encerrado naquele oito de outubro de 1980. Mudaria para sempre a vida de John Lennon, dos Beatles, do Rock and Roll e das fãs que por ele se descabelavam.

Como não é propósito dessa análise invadir a privacidade de quem venero, me resta analisar Yoko Ono pelo que ela dizia e fazia. John Lennon tem nas suas canções, produção poética e pensamento político, um lirismo incontestável. Não há pragmatismo em sua produção. Desde quando começou a escrever à sério – como em "I'm a Loser" ou "In my Life", o que temos é a visão do poeta, com suas ilusões, coração e sentimentos expostos em meia dúzia de versos, rimas e estrofes. Yoko era – e é – diferente. Sempre foi mais pragmática que John Lennon. Para o bem e para o mal. Quando encontrou-se com o primeiro-ministro francês Pierre Trudeau, do Canadá, Lennon saiu impressionado. Julgou estar diante do homem perfeito. Não conseguiu ler em Trudeau o político carreirista. Leu altruísmo. Imaginemos porém qual efeito teria, a subida de um John Lennon no palanque de um político da época, aconselhando a juventude a confiar seu voto naquela pessoa? Iríamos segui-lo em massa porque estávamos num tempo em que existia liderança forte nesse planeta para todos os gostos – da política ao Rock and Roll. Yoko captou essa energia melhor que ninguém. Se amava Lennon, não discuto. Isso não tem interesse para nós. Yoko Ono compreendeu no entanto que o homem que estava a seu lado era uma personalidade capaz de – por amor – sair nu na capa de um LP ao seu lado, pouco se importando que a reação do público e da crítica poderia devastar-lhe a carreira. Paul McCartney – outro pragmático de carteirinha – não embarcaria naquela nem por todo o ouro, ou amor, do mundo.
Na famosa entrevista do Bed-In em Montreal, é tocante tentar compreender o pensamento de nosso ídolo. Ele se expressa com uma ingenuidade tal, que qualquer pragmático à sua volta imagina que, ou ele é louco ou está brincando. Caso do cartunista Al Capp, protagonista de discussão memorável com os Lennons, documentada e editada no VHS do Bed-In.
Daí em diante o que temos? Um Lennon apaixonado, panfletário, e falastrão, dedicado e decidido com sinceridade a mudar o mundo pela via das canções, da paz e do amor. Empunhava a letra de Imagine, de Power to the People ou de Working Class Hero. Era a própria vontade que expressava. Mas Yoko Ono estava firme ao seu lado, dando corda e aparecendo como se fosse do mesmo tamanho e envergadura que ele. Das suas artes plásticas incompreensíveis à ignorância do planeta, Yoko diversificou. Enquanto John Lennon panfletava, a mulher dele entrava de gaiata - gaiatíssima, diga-se de passagem - nos estúdios Abbey Road para gravar um LP!

Foi mais fácil para ela produzir um álbum chamado Yoko Ono Plastic Ono Band, que para os Beatles chegarem lá com Please Please Me! Já parou para pensar nisso? E Please Please Me foi o final de um ciclo no qual a banda ralou o tempo todo. Foi John Lennon, Paul McCartney e George Harrison, com Pete Best de contrapeso, que a Decca Records esnobou. Com Yoko foi diferente. Valendo-se da personalidade que era seu marido, ela foi para o estúdio 3 de Abbey Road sem pedir licença a ninguém.
Não era (nem é) cantora. Mas gravou seu primeiro disco tendo como banda de apoio um tal de Klaus Voorman, um tal de Ringo Starr e o maridão John Lennon. É caso único na música universal. Quem coloca o álbum para tocar e escuta "Open Your Box", com seus torturantes 8 minutos e tanto de urros, ganidos, e vagidos fica a se perguntar se o autor da frase feita, "Yoko é a precursora do punk", ouviu mesmo aquilo. Haveria muito mais depois dessa estréia-solo. O balão de ensaio saíra antes com
Two Virgins,
Life With the Lions e
Wedding Álbum. Ela lançaria em paralelo com ele, álbuns próprios, duplos, com produção esmerada de capa, contracapa e mídia, além de horas de estúdio, etc. Ou seja, a japonesa tomou gosto pela nova forma que encontrou para a auto-divulgação. John Lennon amava Yoko. Com aquele coração imenso que demonstrou para o mundo através do pensamento que deixou gravado nas canções, em seus hinos pacifistas, panfletagens, manifestos como o "war is over – if you want it" e tantos outros. Yoko amava John? Não há como saber. Apreendi a compreender que Yoko amava o que John Lennon representava e viabilizava para ela. O mundo tinha de engoli-la se quizesse sorver um pouco de John Lennon. Aí talvez resida a maior de todas as reservas contra essa senhora. John, por amor, abriu-lhe as portas. Humilhou-se até.
A capa do LP Mind Games é emblemática. Um John pequenininho, quase some numa pradaria, enquanto atrás dele agiganta-se uma montanha de rocha sólida representada pelo rosto de Yoko. Um grande amor, sem dúvida. John amava Elvis, Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins, Fats Domino e o Rock and Roll. Mas Yoko reclamava quando em seus "quiet years" Lennon era flagrado em recaídas assistindo a reprise do show do Shea Stadium na TV. Ela lhe perguntava se não crescera. Ele, envergonhado admitia que precisava mesmo crescer. Então, fora Rock and Roll! Só um amor gigantesco, imensurável, incompreensível quem sabe, para justificar a anulação. Para justificar também as canções de beleza incomparável que John fez para ela. Só esse amor de Lennon por Ono o levaria a abandonar a condição de superstar quando não havia qualquer mal nisso. Quem melhor para estimulá-lo a fazer aquilo que gostava, que a própria mulher que amava? O John Lennon do Rock and Roll, dos Beatles, esse, com vida própria, a meu ver não servia a Yoko. Mas servia o famoso, o carismático brilhante, porque ao lado dessa pessoa, "ela" brilhava. É assim que compreendo Yoko Ono na vida de John Lennon.

Não tenho vergonha de desqualificá-la. "Ah, mas John era consciente, fazia isso tudo porque queria!". Será? Faltou, a meu ver, que vivesse toda a plenitude de seu amor por Yoko Ono mas sem esquecer da pessoa pública que foi. E é. Quando Double Fantasy saiu, John Lennon declarou ao mundo que dali em diante todos os seus álbuns (era época do LP ainda) teriam uma faixa dele e outra dela. Ou seja: uma estratégia para nos forçar a engoli-la.
Yoko Ono é aplaudida por "lançar material inédito" ou pela liberação das fitas que resultou no gigantesco especial radiofônico
The Lost Lennon Tapes – quase 4 anos no ar. Ora. Sem isso o que seria de Yoko Ono publicamente? Emblemática talvez tenha sido a tentativa que fez de brilhar numa carreira-solo, quando agendou uma turnê pelo Japão e Europa, não faz muito tempo. Após alguns concertos, a agenda foi suspensa porque o evento empacou. Os ingressos encalhavam nos pontos de venda, por falta de interessados em assisti-la. Inclusive em seu país! O mundo disse não a Yoko, e a seus lobistas de plantão mundo afora. Talvez dissesse "sim" se John Lennon estivesse no palco fazendo-lhe escada. Aturá-la por ele vale a pena, como disseram alguns fãs ouvidos pelo canal CBS americano em 1971, à saída de um concerto feito especialmente para o Partido Comunista americano, a pedido de Yoko. Muitos agüentaram cêrca de 8 horas de discursos políticos somente para ouvir John cantar, ao final, 3 canções.
Talvez a questão que fique seja – porque Yoko não se contentou com o "ser e estar" com John Lennon? É o que Chuck Berry parece perguntar-se, durante a improvisada performance de Johnny B.Goode e Memphis no Mike Douglas Show em 1972. Enquanto eles se abandonam nos riffs do rock básico, ela – sem qualquer função na jogada – passa a emitir ganidos insuportáveis. Calada e reverente, teria prestado inestimável contribuição a um momento único e marcante na história do Rock and Roll.
Mostrando a Cara
1968 - Lá está ela nos backing vocals de Bungallow Bill e em Birthday, em plena guerra fria do Álbum Branco. Consta que mudou-se para o estúdio a bordo de uma cama. Contrariando os demais Beatles, técnicos, etc.
1969 - Foi levada para a capa de um compacto dos Beatles! Como se fosse um quinto integrante da banda! As caras dos outros 3 na foto, revelam de forma indelével o que pensaram de tal questão.
1969 - No Peace Festival, em Toronto, John subiu ao palco com um super-grupo onde era ladeado por Eric Clapton, Alan White e Klaus Voorman. Tocaram seis rocks incendiários. A maior fatia de tempo, no entanto, coube a Yoko. Ela berra, urra e se debate por quase 18 minutos de registro torturante. Gravado e lançado. Clapton e Lennon resignavam-se em fazer... "distorção", encostando as guitarras nas caixas de retorno. E piorando aquilo que é profundamente ruim.
1968/1970 - Três discos são lançados pela Apple sem conter músicas, mas "idéias performáticas" do casal Lennon. John nu na capa de Two Virgins causou a maior controvérsia. Ele fez por amor. Arriscando a história da carreira. Ela...
1970/1975 - Sai o primeiro álbum de Yoko. Seriam vários. Sempre utilizando-se do staff disponível para John Lennon. O conteúdo de tais produções jamais emplacou em lugar algum do planeta.
1971 - Durante as filmagens das sessões de Imagine, o autoritarismo de Yoko Ono fica evidente. Ela dá ordens, opina, influi na formação dos arranjos."Ah! mas John deixava", dizem seus defensores. Ela dava pitacos em um estúdio com John Lennon, George Harrison, Phill Spector, Allan White, Nicky Hopkins! Pergunto aos músicos que estão conosco no site se abririam a boca diante de tal "fanfarra".
1972 - Nos dois eventos "One to One Concert" Yoko ocupa enorme fatia das performances. "We're All Water" e "Open Your Box" são dois dos piores momentos. Felizmente não foram editados no CD e LDs lançados comercialmente.
1972 - Sometime in New York City é provavelmente o disco mais Yoko Ono lançado por John Lennon. Ela levou a nata do underground americano para o álbum. Gente completamente desconhecida ganhou espaço num projeto lançado mundialmente. Lennon – apesar de Ono – brilha como o rocker que sempre foi, sendo o melhor exemplo "Woman is the Nigger of the World".
1974 – Yoko e John se separaram no final de 1973. Temendo que Lennon caísse em excessos, Yoko arranjou a japonesa May Pang para "tomar conta" dele. No livro
Loving John, onde conta essa história, May Pang não poupa Yoko.
1975/1980 - Com um bebê em casa, John Lennon sai de cena. É um período nebuloso, em que trabalha solitário em seu estúdio caseiro e cuida de Sean. Yoko tomou a frente dos negócios e da administração familiar.
1980 - Os repórteres de Playboy fazem uma entrevista histórica com John – separada em blocos – com Yoko Ono, e sem Yoko Ono. Os editores explicariam quando do lançamento do material na revista (e em livro) que tomaram essa atitude porque notaram com clareza a diferença de comportamento do ex-beatle na presença da mulher e longe dela. Longe, John se comporta de maneira descontraída, fala do passado sem problemas ou patrulhamentos. Com Yoko, é ela quem fala. John concorda.
1981/1995 - Yoko tenta – sem qualquer sucesso – estourar em carreira musical-solo. Não consegue. Seus discos são fiascos de venda e execução em rádio, mas sempre arranjam lobistas capazes de elogiá-los em jornais e revistas. Ao tentar sair em turnê em 1995 e se dar mal, ela volta às artes plásticas e aos lançamentos de material de John Lennon, dando um tempo (aparente) em suas ambições de cantora ou compositora.
Ponto Final

O presente "dossiê" expressa uma modesta opinião. Sei que é polêmico, evidentemente. Mas entendo Yoko como a mulher de um grande cara, um homem do mundo. E que a amou muito. Poderia ter continuado assim. O que incomoda é a falta de compreensão dela para um fato: todo o brilho sempre foi DELE. Yoko associou-se tanto quanto pôde. Insistiu muito, mas o mundo não lhe queria, preferindo sempre John Lennon. Sem John, Yoko voltou ao underground – de onde jamais deveria ter saído. Sua associação musical com ele só se tornou benéfica quando ele compôs para homenageá-la. Longe de criticá-la por preconceito, ou qualquer questão que invada a intimidade. Isso, repito, não nos interessa. No mais, a era digital encarregou-se de facilitar as coisas. O que significa que, sem hipocrisia, pulamos com um clique de controle remoto, os momentos em que ela invade a praia alheia com seus urros e gritos, em busca da próxima faixa com John Lennon nos vocais.
Claudio Teran
Fortaleza - CE