RINGO STARR LIVERPOOL 8
European Capital of Culture 2008

Liverpool fez justiça para Ringo Starr. E não poderia haver lugar melhor que a 'oitocentona' cidade portuária ao Norte da Inglaterra para dissipar velhas e teimosas dúvidas quanto a relevância da contribuição deste ex-beatle para a música popular do planeta. Tratado como um rei em sua terra natal, onde nasceu pobre e foi morador de casa popular cedida pelo governo, SIR (porque não?) Richard Starkey recebeu todas as reverências possíveis e imagináveis, cabendo-lhe a honraria de dar o pontapé inicial, numa noite fria do dia 11 de janeiro deste 2008, no portentoso evento que abriu as comemorações alusivas à elevação de Liverpool a condição de capital cultural da Europa.

Ringo Starr vestia um cachecol para proteger a garganta. Estava com um gorro de lã, e coberto dos pés a cabeça com agasalhos próprios para o frio. A bordo de um contêiner (!) içado por cabos de aço, sentado a sua bateria Ludwig, brindou o público com um raro 'drum solo'. Isso mesmo! Iluminado por holofotes poderosos, e com a imagem exposta em telões laterais de uns dez metros de altura, foi possível ver e ouvir Ringo Starr - por minutos que pareceram durar mais do que o normal - fazendo 'desenhos' e 'viradas', com suas baquetas - rufando os tambores - daquele seu jeito único, enquanto fogos de artifício multicoloridos espocavam por todos os lados, fazendo o povão delirar.

O evento que ocupou o teto do magistral edifício St. George's Hall, ainda reservaria espaço para um coro de 50 mil vozes a entoar com ele a faixa-título de seu novo CD, Liverpool 8. As pessoas choravam e bradavam - orgulhosas - o nome da própria cidade, a plenos pulmões: “Liverpooool”!!! Ninguém parecia se importar com a chuva fina, nem com o frio cortante, enquanto Ringo Starr e Dave Stewart insuflavam os 'liverpoodlianos' a cantar mais.

E o ex-beatle não parou. No dia seguinte (12.01) comandou a inauguração do espaço Liverpool Echo Arena entoando mais uma vez "Liverpool 8" e também "With a Little Help From my Friends". Foi assim que Liverpool, 'a casa dos Beatles', exibiu-se ao mundo como Capital Cultural da Europa. Com um deles como mestre de cerimônias. A noitada de eventos que durou dois dias ainda surpreenderia mais, com uma inusitada interpretação de Ringo Starr para "Power to the People" (!) com apoio vocal dos demais músicos que participaram dos dois shows.



A escolha não se deu por acaso. 'Power to the People' foi a canção perfeita para celebrar um fato que marca toda a história de Liverpool - trata-se de um município operário, onde muitos trabalham pesado desde a fundação da cidade nos estaleiros quase medievais às margens do Mersey. Acrobatas e músicos vestidos como operários marcaram essa faceta municipal, subindo e descendo de cabos de aço pendurados nos prédios. A demorada obra de reurbanização de Liverpool, que durou vinte anos, também foi lembrada nas exibições dos artistas. Não é demais recordar que saiu dos estaleiros de Liverpool o famoso navio conhecido como RMS Titanic, o inafundável.

“Inafundável” provou ser Ringo Starr, vendendo saúde, bom humor e vitalidade aos 67 anos. À distância seu corpo magro parecia com o do 'beatle Ringo' no começo da carreira, na ocasião em que acenou para os fãs da sacada do prédio da prefeitura da cidade, em 1963, acompanhado dos companheiros, John, Paul e George. Não poderia deixar de mencionar a participação histórica do ex-beatle durante os dias 11 e 12 de janeiro em Liverpool para ilustrar a introdução do review do seu novo álbum. Liverpool 8. Vamos a ele.



LIVERPOOL 8 - The Album
A crítica internacional aponta que Ringo Starr seria um dos poucos artistas de sua idade a produzir álbuns pop. Mas o que é exatamente este novo disco? É uma produção que você ouve e, logo no final da primeira audição tem a sensação de já tê-lo escutado antes. Não é mera impressão. O maior pecado de Liverpool 8 está na insistência em repetir a mesma fórmula. Seu som, arranjos e 'pegada' soam familiares porque fazem parte de uma 'quadrilogia' iniciada com Vertical Man (1997); passa por Ringo Rama (2003 - o melhor dos quatro); e Choose Love (2005). Liverpool 8 bebe na mesma fonte - e isso tem muito a ver com o guitarrista, produtor e arranjador Mark Hudson, amigo pessoal de Ringo e partícipe de todos os seus últimos discos.

A produção de Liverpool 8, iniciada em 2007, teve problemas. Bom lembrar que o disco foi prometido para o final da primeira metade do ano passado e acabou não saindo. Por quê? Em parte porque Ringo e Mark se desentenderam, ao ponto do ex-beatle 'demitir' Hudson e a banda The Roundheads. A informação chegou a 'vazar' mas poucos deram importância a ela. Com a produção interrompida, Ringo dedicou-se a outras questões, como a 'digitalização' de sua discografia na EMI e a negociação com o i-Tunes para disponibilizar os álbuns para download pago. Em paralelo produziu um CD (Photograph: The Very Best of Ringo Starr) para marcar essa nova fase - que culminou com o retorno à gravadora EMI.

Retomar Liverpool 8 tornou-se possível pela insistência de um 'mediador', Dave Stewart (Eurythmics), e o futuro álbum ganhou uma nova concepção com vistas ao evento do começo de 2.008 em sua cidade natal, na qual Ringo Starr atuaria como anfitrião. Os mais inventivos momentos de Liverpool 8 estão justamente onde se consegue detectar a presença de Stewart como produtor, arranjador e compositor. Os mais repetitivos tem a inconfundível pegada de Mark Hudson e os Roundheads, readmitidos para tocar o trabalho - em parceria com Dave - até o final.

Liverpool 8 tem vários significados. A expressão indica a área regional da cidade onde Ringo residiu. Mas também é o título do mega evento que marca o ingresso da cidade como Capital Européia da Cultura. E ainda é a canção que 'puxa' e batiza o disco. O clima do álbum em geral é de pura nostalgia, com bons momentos representados por algumas canções inspiradas, e outras nem tanto.

No comparativo com Vertical Man; Ringorama; e Choose Love, Liverpool 8 é o pior dos quatro. Ou o mais fraco, por assim dizer. Mas é uma produção agradável de ouvir. A receptividade do álbum na mídia mundial me parece muito boa. Não são poucos os 'reviews' no geral positivos, publicados em mídias importantes como Time, Uncut, The Guardian, Mojo Magazine entre outras. Para nós o grande regozijo é ter Ringo Starr ativo aos 67 anos de idade, produzindo, compondo, gravando, viajando para divulgar um novo produto musical. Queremos mais. E teremos. Ele justificou em Liverpool que não poderá tocar com Paul McCartney em junho, porque naquele mês estará em turnê pela América. É aguardar...



LIVERPOOL 8 - FAIXA A FAIXA
'I Was a Sailor First'

LIVERPOOL 8: Canção datada, co-escrita por Ringo e Dave, cuja proposta aparente foi tornar-se uma nova 'Never Without You'. O refrão é pegajoso, e a letra autobiográfica. Destaque para o arranjo inventivo, que inclui violino e uma excelente base de guitarra. Cumpriu com louvor a missão de tornar-se hino da cidade dos Beatles conforme ocorreu nos dias 11 e 12 de janeiro passado. Com o passar dos anos, não duvido que essa música substitua 'You'll Never Walk Alone' no coração dos 'liverpoodlianos' e, quem sabe, do grande time de futebol local.

THINK ABOUT YOU: Este rock com levada meio blues é um dos melhores momentos do disco, mas sua sonoridade é puro Mark Hudson. Lembra um pouco a levada de “The Turnaround” (Choose Love); e outras tantas composições dos discos feitos com The Roundheads.

FOR LOVE: Primeira balada do álbum, também seguindo a inconfundível sonoridade de canções de discos anteriores, sobretudo Choose Love. Destaque para as guitarras de Dave Stewart e Steve Dudas (Roundheads).

NOW THAT SHE'S GONE AWAY: A percussiva introdução dessa faixa, com Ringo nos tom-tons, remete de imediato a introdução de Back of Boogaloo. Sonoridade à la Dave Stewart. Belo trabalho de bateria, com aquela 'pegada' única de Ringo Starr.

GONE ARE THE DAYS: Sua introdução psicodélica me parece um pouco longa (01min 23 seg). Trechos da letra citam a frase, 'it don't come easy'. Há um belo trabalho de 'backing vocal' de Dave Stewart e distinta guitarra base. O fade out também ocorre com sons psicodélicos semelhantes à era Revolver.

GIVE IT A TRY: Um rock ballad com bom arranjo bem no clima dos Roundheads. Esta faixa foi uma das primeiras produções compostas e gravadas para o novo disco. Fosse noutros tempos, era uma boa canção para tocar no rádio. Só que Ringo se queixa há anos que as rádios o esqueceram...

TUFF LOVE: Mais uma canção romântica, cujo arranjo inclui uma vigorosa bateria de Ringo Starr. A sonoridade em geral lembra muito algumas faixas do Ringo Rama, Vertical Man e Choose Love. Gosto particularmente dos vocais de Ringo aqui.

HARRY'S SONG: Ringo homenageia seu grande amigo Harry Nilsson com uma grande canção, onde resgata nos arranjos um pouco dos timbres e levadas dos primeiros discos de Nilsson. O arranjo por sinal é num formato bem retrô, com o som percussivo do baixo (acústico) e bateria 'das antigas'. E muito agradável de ouvir. O final psicodélico inclui fitas tocando ao contrário, sons estranhos, eco e outros efeitos. Forte participação de Dave Stewart na produção.

PASODOBLES: Ringo retoma um acento de latinidade nesta música de levada espanhola, com violões e percussão que poderiam ser adicionados às antigas trilhas sonoras dos 'westerns spagetti'. Ringo já gravara canções dessa natureza antes, como é o caso de "Las Brisas", do álbum Rotogravure. A entonação do ex-beatle ao cantar, “the pasodobles” é engraçada, irônica, e certamente arrancaria risos de John Lennon.

IF IT'S LOVE THAT YOU WANT: Essa tem cara de 'B' side dos discos Ringo Rama e Choose Love. É a menos inspirada do disco. Há um bom solo de guitarra de Steve Dudas.

LOVE IS: A grande composição do CD. Sua levada romântica é beneficiada pela interpretação emocional de Ringo. A delicada introdução privilegiando a voz e o arranjo de guitarra se completa com perfeição no momento quase solene da entrada do baixo e da bateria. 'Love Is' tem um clima de "King of Broken Hearts" (Vertical Man) e "Imagine me There" (Ringo Rama), o que não deslustra a beleza de sua melodia. Harpas, oboés e outros instrumentos emprestam classe a composição.

R U Ready: Aqui temos uma brincadeira dos músicos que participaram das sessões, puxada por Dave Stewart. Não pense que seu equipamento de áudio está com problemas. A faixa de levada country é propositalmente adicionada ao disco com um som semelhante ao de um rádio de pilhas. Na realidade é uma gravação demo na quase totalidade. A outra surpresa é que o lead vocal é de Stewart, e não de Ringo. Essa faixa , digamos assim é a “Free Drinks” (Choose Love) do Liverpool 8, embora um pouco melhor.

N.R: Quando o presente review foi feito, a fonte utilizada para avaliar o álbum Liverpool 8 foi uma ‘advanced copy obtida via ‘download’. Neste, a faixa “RU Ready” parece vir de outro mix onde não se ouve os vocais de Ringo Starr, mas somente Dave Stewart. No álbum todavia, a voz do ex-beatle aparece mixada no canal direito e a de Stewart no esquerdo.



Liverpool 8 (USB wristband)
O Disco que Você Vai Comprar Duas Vezes

Se você é um colecionador como eu, terá de comprar Liverpool 8 duas vezes. A versão 'normal', em formato de CD de 12 faixas para ouvir no som de casa ou do carro, e a 'edição limitada' - uma 'pen drive' em formato de bracelete, cor branca com a inscrição LIVERPOOL 8 - RINGO STARR. O produto pode ser saudado como o 'créme de la créme' da modernidade. Além da opção de circular com um adereço de Ringo Starr no pulso (vai depender do gosto de cada um) você poderá conectar a 'pen drive' em forma de bracelete no seu computador através da entrada USB. Nessa condição encontrará o dobro da informação contida no CD.

A pen drive (reutilizável segundo sua embalagem) inclui o álbum Liverpool 8 completo, uma mensagem pessoal em vídeo e uma entrevista com imagens das sessões de gravação. O pacote também inclui comentários faixa a faixa do ex-beatle para as novas composições. Disponíveis também 'ringtones' para diversificar os toques de seu celular. E fotografias. É provável que Ringo Starr seja o primeiro artista do mundo a usar esse tipo de mídia para comercializar música oficialmente. No site amazon.com somente ele possui um disco disponível nesse formato.

Poderiam ter incluído o belo clipe de Liverpool 8 estrelado por Ringo e Dave Stewart na 'pen drive', mas isso foi 'esquecido'. Não duvidarei se, em futuro próximo, uma nova edição do disco vier a ser lançada com um DVD bônus, faixas bônus e a inclusão do promo vídeo. Isso nos obrigaria a comprar o mesmo produto pela terceira vez. O lançamento de Liverpool 8 se completa com massivo trabalho de divulgação no mundo inteiro, nas lojas e nos sites de vendas. E não esqueça: você ainda pode fazer um 'download' oficial (pago, claro) do CD inteiro no i-Tunes. E viva os tempos modernos. Eles chegaram, puxados por Ringo Starr!



CLAUDIO TERAN
ccsteran@yahoo.com.br




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