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Electric Arguments
09/11/2008Paul McCartney não é nenhum aventureiro no território da música instrumental. Pelo contrário. Considerando que é impossível comentar um trabalho novo do ex-beatle sem olhar a carreira dele em retrospectiva, voltemos aos primórdios dos Silver Beatles e lá encontraremos toscas gravações instrumentais executadas nos primeiros palcos da vida. Os então garotos John, George e Paul sofriam influência da mais variada gama de grupos instrumentais, o principal deles, The Shadows. Paul incursionou pelo tema como nenhum outro beatle. Em 1966 quando eles decidiram pôr fim às apresentações ao vivo o grupo experimentou uma espécie de separação consensual. Enquanto os outros optaram por tirar férias, Paul foi para o estúdio com um projeto absolutamente pessoal, a trilha sonora do filme The Family Way. O trabalho inteiro (com toques eruditos e ajuda de George Martin) era uma variação musical sobre o mesmo tema, Love in the Open Air. Quando de sua primeira incursão solo, no disco McCartney (1970), Paul recheou a produção com faixas instrumentais, vinhetas, loops e até um acanhado solo de bateria (Kren Akrore). Em 1977 surgia um dos álbuns mais obscuros de todos os tempos, contendo a versão instrumental das faixas do disco RAM, trabalho conduzido pelo desconhecido maestro Percy 'Thrills' Thrillington. O disco, estranho, apresentava arranjos orquestrais pegajosos para todas as músicas do segundo disco solo do ex-beatle. Não foi difícil concluir que o maestro Percy Thrillington não existia. Nada mais era que Paul McCartney usando pseudônimo ao tempo em que se divertia com arranjos no melhor estilo Paul Mauriat para as faixas do RAM. O álbum Thrillington foi durante anos objeto de disputa entre os fãs porque a 'tiragem' do vinil foi limitadíssima, e serviu para que o ex-beatle cometesse tão somente mais um experimento instrumental.
A partir dos anos 1990 o ex-beatle consagrado no planeta julgou estar maduro o suficiente para tentar vôos mais radicais na música instrumental e avançou para o erudito, lançando sua mais ambiciosa peça até então, Liverpool Oratorio. Depois dele outros se sucederiam como Standing Stone, Working Classical e, mais recentemente, Ecce Cor Meum, que inclui toques operísticos. Só que antes de realizar o sonho de compor música erudita, Paul McCartney deu outra guinada radical ao firmar parceria com o músico Youth, cujo nome verdadeiro é Martin Glover, conhecido e respeitado na Inglaterra como produtor musical, baixista do Killing Joke e também DJ nas horas vagas. O sucesso de Glover com música eletrônica e 'ambient music' fascinou o ex-beatle, levando-o a exercitar novamente sua paixão pelo instrumental e o experimentalismo.
Em 1993 eles lançaram o primeiro disco do The Fireman. Strawberries Oceans Ships Forrest retoma a idéia da variação musical sobre o mesmo tema. Misturava 'dance music', 'ambient electro', 'house' e 'drum'n'bass' entre outras tendências em voga na metade dos anos 90. O disco era absolutamente experimental. Não foi feito com propósitos comerciais e arrastava Paul McCartney para uma praia que não era a sua, no caso a 'dance music'. Valeu para ele como mais um experimento musical, até porque serviria para influenciar algumas produções futuras, como o disco Memory Almost Full.
Cinco anos mais tarde (1998) The Fireman produziria Rushes, uma etapa avançada da parceria entre McCartney e Youth. Se o primeiro Fireman parecia bem pouco com o ex-beatle, no segundo ocorria o contrário. Rushes é uma peça instrumental que também inclui 'ambient electro' e 'drum'n'bass', mas é bem mais rica que 'Strawberries Oceans Ships Forrest'. Seus andamentos e harmonias indiscutivelmente remetem a algumas linhas mestras da produção melódica de Paul McCartney, embora a idéia de experimentalismo se mantenha, com o compromisso do disco instrumental, sem vocais nem apelo comercial. Afinal a principal intenção do projeto The Fireman era apresentar Paul McCartney tentando não ser Paul McCartney, objetivo que convenhamos, foi alcançado nos dois primeiros volumes.
Mas os tempos mudaram e o terceiro The Fireman é bem menos Youth e bem mais McCartney. Martin Glover dessa vez é um ator coadjuvante de luxo que ajuda no estúdio a desovar um 'não assumido' álbum-solo do ex-beatle, que é exatamente o que vem a ser esse The Fireman - Electric Arguments. Numa audição atenta pode-se concluir sem muito esforço que a idéia 'experimental' que justificava a existência do Fireman pode ter se encerrado com esta produção. Parte dele é um novo disco de inéditas da carreira regular de Paul sem a menor sombra de dúvida. Pode até não vender o esperado, mas consegue aliar claras intenções comerciais com experimentalismo, pop/rock com coisas obscuras, dance music, tiques instrumentais, efeitos sonoros, sons indianos, flautas, guitarras, tablas, belos arranjos com levadas antigas da década de setenta bem a La Wings, e por aí vai...
Mas não se iludam. Electric Arguments é um álbum dúbio, que começa sim com um frescor pop, mas vai-se obscurecendo aos poucos, cedendo espaço para um instrumental pesado, tenso, por vezes beirando o fantasmagórico, ocasião em que a voz de Paul McCartney e algumas boas idéias melódicas da primeira metade do disco saem de cena como que se esvaindo lentamente, engolfadas pelo peso colossal da ambientação eletrônica, o que então aproxima essa produção dos dois primeiros Fireman. Este terceiro volume é, portanto, um produto genuíno da inquietude de Paul McCartney aos 66 anos. Aonde ele quer chegar, exatamente? Difícil dizer. Talvez na ausência de novas idéias musicais (não se pode cobrá-lo por isso) Macca tenha feito a opção de esconder por trás de alguns 'argumentos elétricos' uma parte da sua produção simples, contemporânea e eficiente, onde a meu ver ele mais acerta que erra, ainda que se tenha mostrado preocupado com os riscos de o disco vir a ser duramente criticado e, de alguma forma, prejudicar-lhe a carreira. Balela. Paul certamente entrou nessa com o risco absolutamente calculado, produzindo um disco que se pode resumir como surpreendente.
Começa com Nothing Too Much Just out of Sight um blues pesado, marcado por uma parede de efeitos sonoros providenciada por Youth, e com uma letra onde o ex-beatle canta raivosamente enquanto ameaça o amante de alguém. É possível que não tenha composto em causa própria? Difícil é provar. Daí em diante 'Electric Arguments' vai levando o ouvinte a curiosas 'viradas e guinadas', e pode-se afirmar que quem dá esse tom é justamente a vocalização. Two Magpies é uma baladinha que tem muito a ver com os dois álbuns anteriores, Memory Almost Full e Chaos and Criation in a Backyard. É simples e belamente interpretada, com Paul pontuando ao violão, enquanto no sentido inverso The Fireman ataca com o som de fitas voltando, ruídos, efeitos...
Sing the Changes é outra viagem. Uma viagem ao universo de Paul McCartney que conhecemos tão bem. Uma música de melodia deliciosa, pop/rock de primeira como o ex-beatle tão bem sabe fazer, apesar do esforço de Youth em disfarçá-la como psicodélica com toneladas de sons e efeitos. A surpresa seguinte é ainda mais arrebatadora, porque Travelling Light, cantada em tom lúgubre é um dos mais inspirados momentos entre todos os 'argumentos elétricos' deste The Fireman volume 3. É uma canção para fechar filme épico, de preferência com imagens de desolação. Um pequeno clássico com loops e fitas (seriam mesmo fitas?) tocando ao contrário, enquanto a voz de Paul num timbre quase cavernoso passeia pelo arranjo hipnótico. Highway é puro dance music, um pop bem casual, bastante comum e com os tradicionais 'backing vocals' pegajosos, típicos desse tipo de produção. Uma guitarra bem pesada impulsiona o arranjo. Parece-me uma das faixas menos inspiradas e por certo mais improvisadas de um álbum cujas canções - cada uma das treze - ficaram prontas em um dia, o que cria um certo clima de 'jam session' que permeia o álbum inteiro, apesar da pós produção adicionada pelas intervenções eletrônicas.
Light From Your Lighthouse mistura elementos 'country music' com vocalização que relembra de leve o arranjo de Midnight Special. A voz de Paul ganhou efeitos pesados, graves, enquanto ouvem-se banjos e harmônicas que vêm e vão. Ao longo das canções é inegável o esforço dos produtores em seguir o padrão sonoro dos dois Fireman anteriores, quando elementos do arranjo de uma faixa surgem noutra, dentro da idéia da variação musical sobre o mesmo ritmo. Aqui os sons se entrelaçam, mas de forma errática - adicionados, mixados tão somente, sem maiores preocupações com o contexto das melodias.
Sun is Shining é uma balada com efeitos de eco e sons de pássaro no belo arranjo pontuado pelo baixo e violão. Lembra um pouco Wings. Seguramente uma das melhores faixas do álbum. Dance Til We're High entrega um arranjo calcado no violão ao longo de um pesado riff do baixo. Mais uma vez recorreu-se à estratégia de modificar a voz de Paul com efeitos sonoros. Ouve-se também um lindo arranjo de cordas, o qual, desconfio, seja puro sintetizador, e não cordas de verdade. Lifelong Passion foi a primeira composição do novo The Fireman a ganhar o mundo, posto que presenteada ao 'Adopt a Minefield' e disponibilizada para download pago no site da instituição. Tem forte acento de 'indian music' com a utilização, inclusive, daquele instrumento 'mridangam' incluído no arranjo de The Inner Light. Considero este um dos momentos mais inspirados entre a tentativa de casar o experimentalismo do Fireman com o pop do Paul. Is This Love? A flauta que abre esta canção empresta-lhe um acento de latinidade andina. A longa introdução parece perfeita como trilha sonora incidental para um filme. O pesado efeito vocal sobre a voz de Paul dificulta a audição da letra. E o andamento geral é monótono. Não é uma canção recomendada para quem é familiarizado com o lado mais comercial de Paul McCartney.
Lovers in a Dream talvez seja a faixa mais parecida com o que nos acostumamos a ouvir do The Fireman. Pesados sons elétricos criam um ambiente de 'dance groove'. A vocalização existe, embora soterrada pela quantidade de efeitos.
Universal Here, Everlasting Now começa com um piano, e na seqüência efeitos aleatórios e ruídos (cão latindo, aves gorjeando, relógio despertador, pessoa sussurrando). Seguramente o maior dos 'argumentos elétricos' de todo o disco, com uma vigorosa batida. É mais um exemplo bem clássico dos dois primeiros The Fireman, com fechamento que remete de volta à singeleza do piano. Vocais esparsos de Paul. Don't Stop Running começa bem lenta e num ambiente que tenta criar algo parecido com o som de um sonho. Na seqüência o arranjo de cordas leva de volta ao acento andino detectado em Is This Love? Paul entrega um vocal fantasmagórico que vira o arranjo para a sonoridade típica do disco Rushes (o segundo do Fireman). Curiosamente ele repete, de forma hipnótica a frase "Don't Stop Worring". Alguma coisa a ver com o chavão do filme Help? Provavelmente não. E atenção para a surpresa: embora esse take tenha mais de dez minutos de duração, ele sofre um 'fade out' a partir dos 5:54 min. mas a canção continua e o que se segue aparentemente é uma faixa bônus que só se inicia aos 7:57 min. Antes de (re) começar o ouvinte é brindado com quase 2:03 minutos de total silêncio! Continuação ou não, este 'pedaço extra' não segue o arranjo de Don't Stop Running. O que temos são sons bem estranhos, fortes efeitos sonoros ampliados por muito eco, alguma vocalização de Paul perdida no lúgubre ambiente criado, e o terceiro The Fireman se encerra obscuro, quase 'tumular' sem lembrar o frescor pop de sua primeira metade. É, quem sabe, um disco de extremos, para amar ou odiar. CLÁUDIO TERAN ccsteran@yahoo.com.br | ||
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