"VH1 Classic albums"
A HISTÓRIA DO DISCO PLASTIC ONO BAND

O canal de televisão a cabo VH1 iniciou há alguns anos uma série chamada Classic Albums que rendeu duas coisas: boas histórias acerca de discos famosos e lançamentos de DVDs. Em alguns casos os programas contribuíram até para revitalizar carreiras que se encontravam em declínio. A iniciativa começou no rádio, em 1988, unindo a Capital Radio (USA) e a BBC 1 (UK). Idealizada pelo produtor John Pidgeon, a série estreou com a apresentação do DJ Roger Scott. O primeiro programa dissecou o álbum Brothers In Arms, do Dire Straits e foi um êxito que geraria todos os demais.

Roger Scott foi um famoso e respeitado 'disc jockey' inglês. E um dos primeiros do mundo a abrir espaço no rádio para tocar as diversas vertentes do rock and roll, ritmo que amou por quase toda a vida. Ele morreu de câncer aos 46 anos de idade no dia 31 de outubro de 1989, cinco meses após o início da série concebida para revelar os bastidores de discos famosos, permitindo ao ouvinte 'escutar' trechos dos 'masters' das gravações enquanto acompanha depoimentos e demonstrações de técnicos envolvidos na produção. E dos músicos participantes.

Com a morte de Scott, o produtor John Pidgeon vendeu a idéia para a TV BBC e para a rede VH1. O programa sofreu modificações básicas para adaptar-se ao mundo da televisão e as produções começaram a sair, resgatando para o grande público a historia de álbuns marcantes como Goodbye Yellow Brick Road (Elton John); Beggar's Banquet (Rolling Stones); Who's Next (The Who); The Dark Side of the Moon (Pink Floyd); Graceland (Paul Simon); Catch a Fire (Bob Marley), entre vários outros.

A maioria dos discos destacados na série foi lançada em DVD, com uma diferença importante. Na telinha o formato é resumido, dura 52 minutos entremeados por comerciais. No lançamento doméstico a produção é estendida com extras que duram trinta e cinco minutos, enriquecendo o documentário. Na televisão há ainda a figura do apresentador. O americano Richard Skinner substituiu Roger Scott. Nas versões em DVD o material não inclui as passagens com o apresentador.

Para nós, fãs dos Beatles, nada melhor que o programa especial que dissecou o histórico Plastic Ono Band, formalmente o primeiro disco solo (de canções inéditas) lançado por John Lennon. Levado ao ar em 24 de junho de 2007 pela VH1, o especial foi lançado em DVD no dia 23 de abril de 2008. Trata-se de uma das mais bem cuidadas e felizes produções do gênero. Correta em tudo. Produção, roteiro, extras, edição, depoimentos... tudo perfeito. Até a simplicidade da embalagem merece nota positiva porque o presente lançamento está disponível a preço bem acessível se considerarmos o conteúdo, bem acima da média de similares.

A produção independente uniu os esforços da Eagle Rock Entertainment, Isis Productions e NRK, empresas que utilizaram a mão de obra de documentaristas de mão cheia, como Terry Shand e Geoff Kempin, ambos com experiência e currículo expressivo na documentação de histórias envolvendo o mundo do rock and roll, além de apaixonados pelo tema. À VH1 coube a exibição do produto final, com supervisão dos produtores da série Classic Albums, Nick de Grunwald e Martin R. Smith.

Como recontar a história de um disco simples e denso - certamente um dos mais importantes de toda a história do rock - se seu protagonista não está mais neste plano? A equipe de produção começou resgatando tudo o que podia encontrar em depoimentos de John Lennon ligados direta ou indiretamente ao Plastic Ono Band. Não foi muito difícil. Esse material está integralmente catalogado pela Apple/EMI como resquício positivo da edição da mega série Anthology. Infelizmente não há imagens do curto período em que a produção aconteceu, entre 26 de setembro e 9 de outubro de 1970 nos estúdios Abbey Road e no Ascott Sound Studios, montado na mansão dos Lennon. Os Beatles já estavam separados.

Aos que certamente ficarão surpresos com o curto tempo em que se produziu o disco vale um lembrete: John Lennon queria desse jeito mesmo, músicos tocando direto, ao vivo no estúdio, sem rebuscamentos. A idéia original do projeto Get Back/Let it Be (1969) era exatamente essa, e John um dos mais entusiasmados em levar os Beatles de volta à simplicidade do disco Please Please Me, gravado integralmente numa noite fria de 1963. Se não deu certo com os Beatles, funcionou com Plastic Ono Band. O lançamento do LP na Inglaterra ocorreria no período de aquecimento das vendas natalinas - 11 de dezembro de 1970.


Para contextualizar a participação de John Lennon no documentário, se recorreu ao farto material em áudio disponível. Há muitas menções dele ao disco Plastic Ono Band em entrevistas concedidas para emissoras de rádio e em gravações feitas por repórteres de revistas e jornais. O passo seguinte foi contatar os sobreviventes que participaram da gravação histórica: Ringo Starr & Klaus Voorman estão na fita com depoimentos maravilhosos - capazes de transportar o expectador a um cantinho do Estúdio Dois de Abbey Road na condição de testemunha ocular e auditiva da história. Yoko Ono, claro, não poderia faltar. Os engenheiros de som Phill McDonald & Richard Lush, dois veteranos das gravações dos Beatles também foram arregimentados. Eles passam o programa inteiro no controle das mesas de som de Abbey Road tocando as fitas originais das gravações e detalhando passagens desta ou daquela canção.

Mas o documentário foi ainda mais além. Abriu espaço para contextualizar a época (única) em que Plastic Ono Band foi concebido. Aborda de leve o fim dos Beatles e a busca de John Lennon pelo autoconhecimento. Nesse aspecto está inserido o doutor Arthur Janov, autor da teoria do grito primal. Envelhecido pela passagem dos anos, Janov continua ativo e colabora com depoimentos esclarecedores. Afinal, goste-se ou não da liberação da gritaria como forma de expulsar os fantasmas interiores do corpo e da mente, a tese de Arthur Janov mexeu com Lennon e está presente em faixas de Plastic Ono Band, como "Mother" e "Well Well Well". O disco de letras cruas e diretas, onde o ex-beatle expõe seus dramas com honestidade indiscutível foi um êxito de público e de crítica somente superado na disputa-solo dos ex-Beatles por All Things Must Pass, a obra-prima de George Harrison, que - aliás - bem merecia destaque numa série como Classic Albuns.

Como a idéia de mostrar Plastic Ono Band como o retrato de uma época foi o fio condutor da produção, os documentaristas acertaram em cheio ao deixar claro que o embrião do álbum começou alguns meses antes quando John Lennon e banda lançaram os singles com 'Instant Karma' e 'Cold Turkey'. Ao rememorar essas histórias os olhos de Klaus Voorman brilham, demonstrando saudade e satisfação por ter estado lá.


Na primeira cena em que ele aparece, observamos a seu lado o velho baixo fender jazz bass de grandes histórias. Foi com aquele instrumento que Klaus tocou com John no Live Piece in Toronto (1969). Também o empunhou no Concert For Bangladesh (1971) e em memoráveis gravações de estúdio. O contrabaixo não exibe mais a pintura psicodélica - foi raspado - mas continua funcionando. Ele é utilizado durante o especial, permitindo ao expectador ver e ouvir Klaus Voorman demonstrar algumas lindas e singelas passagens que tocou em faixas como 'Hold on', e 'Remember', por exemplo.

Nessa idéia de enxergar 'Plastic Ono Band' e sua época por dentro e por fora, a produção do especial Classic Albums contou com a colaboração do co-fundador da revista Rolling Stone, Jann Wenner, figura lendária e que entrevistou as principais personalidades do rock em toda a história. O depoimento de John Lennon a ele concedido após a separação dos Beatles virou o livro Remember John. Outra opinião certeira é a do fã, colecionador e especialista Mark Lewisohn. Chamou-me a atenção os brevíssimos depoimentos de Eliott Mintz, secretário particular dos Lennon por anos. Ele não disse nada de relevante, mas está cada dia mais esquisito, vale registrar. Há quem diga que Mintz (que não trabalhava para John na época em que Plastic Ono Band foi gravado) seria hoje a pessoa de maior confiança de Yoko Ono para administrar o legado e os interesses da carreira do ex-beatle quando ela vier a falecer.

Por outro lado, entre todos os depoimentos, os mais significativos vêm de Ringo Starr. O baterista deixa bem claro que o envolvimento das pessoas com a produção de Plastic Ono Band foi total, dentro do espírito que John queria transmitir ao mundo pela via musical. O ex-beatle desce a detalhes técnicos das gravações, fala do desempenho pessoal na bateria, explica como fez para diferenciar uma a uma as 'viradas' do take final da canção "God", e - com honestidade e ironia - zomba dos gritos da viúva de Lennon no disco 'avan garde' gravado quase simultaneamente: Yoko Ono Plastic Ono Band. Ringo Starr também não deixa barato o ajuste de contas com Phill Spector, avaliando que a produção do disco foi de John. "Eu honestamente não sei o que foi que ele fez lá", afirma secamente. Esse pensamento é corroborado por Klaus Voorman, que resume Phill Spector como "um homenzinho esquisito que adentrou aos estúdios dando gritos e ordens, mas que depois sumiu sem deixar rastro". São declarações curiosas, já que John Lennon no começo dos anos setenta idolatrava o produtor, tanto que o nome dele está na capa de quase todos os seus lançamentos até 1975.




AUSÊNCIA
Harvey Phillip Spector, o Phill Spector, atualmente com 67 anos de idade (nasceu no dia 26/12/1940), teria muito a dizer - até em sua própria defesa - se não tivesse afundado na excentricidade que sempre marcou sua vida. Ele não fala com a imprensa. Só em raras ocasiões, como em dezembro de 2002, quando concordou em falar ao jornal Daily Telegraph. Entre outras declarações estranhas afirmou que tinha transtorno bipolar e que se considerava um homem relativamente insano. Dois meses mais tarde ele seria preso pela polícia de Los Angeles, acusado de assassinar a atriz de filmes 'B' Lana Clarkson, encontrada morta em sua mansão.

Spector negou o crime. Limitou-se a dizer que a morte de Lana foi um 'suicídio acidental'. Para responder o processo em liberdade ele pagou fiança de um milhão de dólares e o caso parece longe do desenlace. As investigações e as audiências se sucedem, mas a acusação ainda não conseguiu provar que o produtor é o assassino. Até julgamento já houve, em setembro de 2007, quando um exame de DNA realizado no corpo de Lana Clarkson não detectou sinais de que o produtor tenha tocado nela. O exame de balística só encontrou digital de Lana no revólver usado no crime, e comprovou que a arma foi colocada em sua boca, reforçando a tese de suicídio e levando os jurados a um impasse para julgar o caso.

Em 1980 ele produziu End of the Century, álbum dos Ramones. A tensão durante as sessões chegou a tal ponto que Phill Spector mixava o disco com um revólver sobre a mesa de som. Ele teria obrigado Dee Dee Ramone a tocar baixo seguindo as instruções que dava, e com um revólver apontado para o músico. Mesmo assim Johnny Ramone disse certa vez que o disco resultou muito bom em termos de 'pegada rocker'. John Lennon também se assustou quando Spector lhe ameaçou com um revólver durante as tumultuadas sessões que resultariam no álbum Rock'n'Roll.

Avesso a aparições públicas e entrevistas, o produtor permaneceu na inatividade musical até 2002, quando encasquetou de produzir o disco Falling Into You, de Céline Dion. A melosa cantora achou mais prudente recusar a ajuda. O último trabalho dele até a data foi a produção de uma canção, Crying For John Lennon, lançada em 2006 por um desconhecido cantor chamado Hargo, em seu álbum In Your Eyes. Hargo procurou Spector naquele ano em busca de um depoimento dele para o filme-tributo a John Lennon intitulado Strawberry Fields. Durante a conversa o cantor mostrou a composição e Phill se ofereceu para produzir.

Esse capítulo adicional teve o objetivo de explicar por que Phill Spector não aparece no documentário da série Classic Albums.

GOD IS A CONCEPT
O DVD ainda oferece trinta e cinco minutos de material que não foi ao ar no programa televisivo. São os 'extras', onde um dos destaques é o segundo clipe extraído do programa Top of the Pops para 'Instant Karma'. É o primeiro lançamento desse 'promo' em DVD. Antes só estava disponível em 'John Lennon Collection', produção fora de catálogo e lançada apenas em VHS & LD. Mas o biscoito fino dos extras de Plastic Ono Band está numa singela passagem. Um momento intimista do engenheiro Richard Lush, que exibe a gravação master de um dos primeiros takes de God. A versão é linda, a voz de John Lennon faz o expectador calar para prestar atenção, enquanto o produtor Richard Lush em silêncio como se rezasse, deixa o rock e a emoção rolarem.

Do sofá da sala - na primeira vez que assistir isso - você haverá de pensar que aquilo não irá até o fim. Não é comum em documentários exibir-se canções por inteiro, ainda mais se o que estiver disponível seja tão somente o áudio. Mas nos extras de Plastic Ono Band foi diferente. Contrariando o lugar-comum das produções do gênero somos brindados com a execução linda, integral, sem cortes de uma versão absolutamente inédita de "God", que ficou de fora da caixa Anthology de John, da série Lost Lennon Tapes, e de qualquer disco pirata que você conheça. Recomendo concentração e silêncio para acompanhar essa passagem do especial porque o momento é sublime.

PLASTIC ONO BAND DVD
Video & Áudio em Detalhes

Como aparentemente não existem imagens colhidas nas sessões de gravações, a produção do documentário usou trechos de alguns vídeos para ilustrar o especial. Detalhamos de onde vêm as imagens com comentários

- Um breve clipe de John no 'Alexandra Palace' prestigiando um evento psicodélico em Londres no dia 29 de Abril de 1967, ou seja, durante a reta final das gravações do disco Sgt. Peppers.

- Outras seqüências foram retiradas de um especial chamado BBC '24 Hour Documentary' exibido originalmente no dia 15 de dezembro de 1969, quando formalmente os Beatles ainda existiam.

- Uma das imagens mais raras mostra John & Yoko participando do legendário programa do apresentador Michael Parkinson na TV BBC, levado ao ar no dia 17 de julho de 1971. Fica a dúvida se o programa existe preservado integralmente, já que nunca foi reprisado, como é costume na televisão britânica. Foi também a única entrevista dos Lennon para Parkinson.

- Outros pequenos trechos vistos no especial mostram imagens retiradas dos filmes Imagine (1988) e do clipe de Imagine (1971), além de cenas do Live Piece in Toronto com grande qualidade. É possível observar o registro de alguns ângulos diferentes na edição dessas imagens em relação às produções originais.

Plastic Ono Band - Áudio
Talvez o ponto alto deste DVD esteja na audição das gravações do disco 'Plastic Ono Band', ouvidas diretamente do multitrack tape dos estúdios Abbey Road. Os engenheiros que trabalharam no álbum não só exibem as gravações como 'isolam' canais para que possamos ouvir trechos específicos do instrumental e do vocal.


- A produção filmou em close até mesmo as caixas de várias fitas originais, indicando dessa maneira as datas precisas em que esta ou aquela gravação aconteceu. Nesse aspecto um dos fatos mais curiosos é ouvir takes de "Remember", onde John improvisa o cântico de 'parabéns' para ele mesmo, já que no dia 9 de outubro de 1970, aniversário de 30 anos do ex-beatle, as gravações foram concluídas.

- Tive o cuidado de 'pausar' pacientemente o DVD para 'capturar' algumas datas escritas nas caixas com as fitas gravadas. Em 26 de setembro de 1970 - primeiro dia de gravações - ouvem-se pedaços do take 61 de "Mother". É possível que '61' seja uma brincadeira de John, já que nenhuma canção do Plastic Ono Band foi exaustivamente gravada, sobretudo "Mother", que exigia muito da voz. Os registros históricos revelam que a canção ficou pronta em cinco ou seis takes, na realidade.

- Na mesma caixa estão contidas gravações de "Working Class Hero" - takes 1 a 9. Pedaços são ouvidos no especial.

- Outra caixa exibe a data 27 de setembro de 1970, e guarda uma preciosidade, as gravações de 'God', takes 1 e 2 onde John Lennon tocou a base ao violão, para jamais aproveitá-la na versão final.

- Na mesma caixa estão gravados os takes de 1 a 4 para "Well Well Well". Trechos dos takes de 1 a 6 de "Hold On" são ouvidos na fita master gravada no dia 30 de setembro de 1970.

- Na caixa com a fita master do dia 7 de outubro de 1970 estão registradas, "Look at Me" (take 1), e novos takes de "God" (de 1 a 8 de uma regravação ainda com um violão na base.

- Na caixa do dia 9 de outubro de 1970 estão os takes de 1 a 4 de "Remember", e o Parabéns Prá Você que John canta para ele mesmo, em tom de brincadeira no estúdio.

- Na caixa com data do dia 17 de outubro de 1970 ouve-se novamente "Mother", mas aqui aparentemente o que temos é uma sessão de overdubs.

- Mais overdubs para "Mother" na caixa master do dia 24 de outubro de 1970. A gravação de "Isolation" (takes 24-29) e "Well Well Well" (takes 5-6 de uma regravação) podem ser ouvidos brevemente no especial, mas não é possível ver o que está escrito na caixa master. A data provável é o final de setembro de 1970.

OS EXTRAS


Os trinta e cinco minutos dedicados aos extras incluem mais gravações originais das sessões com detalhamento dos engenheiros e a oportunidade de conferirmos a audição de mais canais isolados dos mixes de áudio.

- Uma versão completa de "Mother" e outra quase integral de "Well Well Well", ambas tocadas ao vivo no Madison Square Garden em 1972 (One to One Concert) são exibidas com grande qualidade e formato wide screen.

- Outro presente é o clipe de "Instant Karma!" levado ao ar no programa Top of the Pops, no dia 19 fevereiro de 1970, com bela qualidade de som e imagem.

O DVD Plastic Ono Band se encerra assim, resgatando a história de um disco genial, concebido há trinta e oito anos, presenteando o expectador com um pouco de suas entranhas. Pure Gold.

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@yahoo.com.br




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