Let It Roll: The Songs of George Harrison
Nova Coletânea no Mercado

Chega ao mercado mundial uma nova coletânea de canções de George Harrison. O lançamento é parte de uma estratégia de mercado que tem por objetivo ocupar o hiato entre petiscos mais saborosos que estão por vir, como o filme do cineasta Martin Scorcese que promete ser um compreensivo passeio pela história de vida e carreira de um dos mais inventivos e influentes guitarristas da história do rock. Para trazer George Harrison de volta a produção desta coletânea seguiu um padrão (acertado) que vem das mais modernas publicações mundiais. Buscou-se para a capa do disco uma 'vintage image' do beatle Harrison, pinçada de arquivos que remetem à gloriosa série Mad Day Out do aclamado fotógrafo Tom Murray. Em 1968 Murray fotografou John, Paul, George, e Ringo num passeio pelas ruas e logradouros vazios de Londres. O material correu o mundo e virou livro. Além de clássico, o clique é em preto e branco, o que confere um charme extra a embalagem 'digipack' do CD nas lojas desde 16 de junho. O produto também inclui um livreto de vinte e oito páginas com fotos raras e inéditas, além de novas 'liner notes' assinadas pelo jornalista Warren Zanes.
Em termos de conteúdo a coletânea é interessante. Pela primeira vez um álbum com o 'Melhor de George Harrison' na carreira-solo contempla todas as fases dele, da EMI ao selo próprio Dark Horse. A produção faz questão de deixar claro que as faixas foram remasterizadas digitalmente em 2009 nos estúdios Abbey Road por Giles Martin. Vale registrar, todavia, que todo o catálogo de Harrison foi remasterizado recentemente e que as melhores amostras já apareceram em lançamentos caprichados como a caixa The Dark Horse Years e os álbuns Living in the Material World e The Concert For Bangladesh (CD e DVD). E o frescor de modernidade vai mais além. Nos sites de vendas o álbum está disponível para download pago por módicos $: 9,49 (18,20 reais no Brasil). O CD custa um pouquinho mais, $: 9,99 (19,20 no Brasil). Mas não é só. O consumidor também pode adquirir seus hits preferidos do álbum 'Let it Roll: The Songs of George Harrison' através do mesmo sistema de download pago. É possível comprar as canções individualmente em mp3 por $: 0,99 (2 reais no Brasil). A única exceção é Isn't It a Pity, cujo valor é $: 1,99 (3,90 reais no Brasil). Vale o registro de que os valores expostos em moeda local têm por objetivo tão somente revelar o preço (barato) do item nos EUA. Aqui certamente a coletânea custará em torno de 40 reais.
E o que dizer de Let it Roll em termos de conteúdo? Começa com Got my Mind Set on You, último 'number one' de um dos ex-beatles, obtido no ano de 1987, hit do último disco solo de inéditas lançado em vida por George Harrison naquele mesmo ano. Daí o CD dá uma guinada ao começo dos anos 70 com Give me Love; Ballad of Sir Frankie Crisp (Let it Roll); My Sweet Lord e All Things Must Pass. Em seguida 'pula' para a fase póstuma (Any Road) e centra fogo em canções de discos mais recentes (Somewhere in England, Cloud 9, Brainwashed) abrindo exceções para três beatle hits registrados no palco do Madison Square Garden em 1971 durante o Concert For Bangladesh (Here Comes the Sun, While my Guitar Gently Weeps, Something).
Não podiam faltar 'petardos' como What is Life, Blow Away e All Those Years Ago, e a coletânea ousa ao selecionar até uma faixa instrumental, a tocante Marwa Blues. Há também como aspecto positivo a inclusão de canções 'injustiçadas' como Isn't It a Pity, clássico que pela primeira vez aparece no setlist de um disco com os melhores momentos de George Harrison. A grande surpresa, entretanto, é I Don't Want to Do It, canção de Bob Dylan gravada e lançada oficialmente em 1985, e que finalmente é contextualizada num disco de George Harrison. Até então a música só estava disponível em um single de vinil e nas versões em vinil e CD do filme Porky's Revenge (Porky's Contra-Ataca, no Brasil) os três fora de catálogo há muito tempo.

Aos que certamente irão reclamar que Let it Roll: The Songs of George Harrison 'esnoba' discos como Dark Horse, Extra Texture e 33 & 1/3, um consolo. Canções desses álbuns estão disponíveis em coletâneas mais antigas como The Best of George Harrison e The Best of Dark Horse, que continuam valendo. Também pode ser considerada 'discutível' a inclusão dos hits dos Beatles tocados ao vivo no palco do Madison Square. Nos meus contatos com fãs país afora tem quem reclame a ausência de takes extraídos da turnê de 1974, cujo conteúdo só circula na pirataria. Outros acham que se poderia ter incluído faixas tocadas ao vivo na turnê do Japão em 1991, o que privilegiaria três momentos marcantes da carreira solo de George nos palcos. Pondero que o papel da presente coletânea é transitório, considerando que 'insere' o trabalho do ex-beatle na tecnologia digital do download pago, o que na visão dos produtores pode levar o conteúdo a um público mais contemporâneo, abrangente, jovem e que estaria por 'descobrir' o ex-beatle. A chamada 'era do download' também permite ao fã adquirir com exclusividade no i-Tunes uma versão 'demo' inédita de Isn't It a Pity, da qual falaremos mais adiante. O CD, além da bela capa, inclui um livreto com 28 páginas de textos, fotos raras e algumas inéditas. A divulgação também distribuiu para a imprensa um vídeo de 05min26seg com informações acerca da coletânea. Imagens variadas, depoimentos de Olívia Harrison e do próprio George compoem o cardápio. Aí poucas novidades. As falas de Harrison provêm do mesmo video promo utilizado para divulgar o álbum Brainwashed, de 2002. Para aguçar os fãs mais antigos, 'teasers' de imagens da turnê de 1974 e um ou outro corte rápido de cenas aparentemente nunca vistas do ex-beatle.
Por outro lado se comenta que o produtor Jeff Lynne estaria trabalhando num futuro álbum de inéditas com sobras de estúdio de gravações que George teria deixado inacabadas. Consta que em seus últimos anos de vida (entre 1997 a 2001) o guitarrista teria dedicado muitas horas aos estúdios de gravação, o que acabou gerando as faixas que resultaram no álbum póstumo Brainwashed, de 2002. Informações não confirmadas dão conta que Olivia Harrison teria pedido ao produtor para completar canções pinçadas de um grande lote deixado sem conclusão para lançá-las num futuro álbum que poderia chamar-se After Life. O que seriam exatamente essas 'sobras'? Aparentemente o melhor desse material inconcluso foi publicado no disco Brainwashed. Ou não? Boatos, por ora.
No contexto geral, independente das razões mercadológicas expostas, considero 'Let It Roll: The Best of George Harrison' a mais coerente coletânea da carreira-solo daquele que o mundo conhece como Quiet Beatle.
Let It Roll: Songs of George Harrison
"FAIXA A FAIXA"
Got My Mind Set On You - 3:52
Lançada em 1987 em single e no álbum Cloud 9. Foi um sucesso mundial chegando ao 'número um' na América e Reino Unido. Foi a última vez que um dos quatro EX-BEATLES emplacou um hit no primeiro posto das paradas. Até agora (jun 09).
Give Me Love (Give Me Peace On Earth) - 3:35
Hit número um em todo o mundo, editado em single e no disco Living in the Material World de 1973. Segunda aparição em coletâneas de George Harrison.
Ballad Of Sir Frankie Crisp (Let It Roll) - 3:48
A canção feita para homenagear o primeiro dono da mansão Friar Park onde George morou até o fim de seus dias, é uma das 'injustiçadas' de seu repertório. Ganha o merecido destaque (e empresta o subtítulo) a esta coletânea.
My Sweet Lord - 4:40
Essa dispensa maiores apresentações. Primeiro single do álbum triplo All Things Must Pass e mega-sucesso mundial. Segunda aparição em coletâneas de George Harrison.
While My Guitar Gently Weeps (Live At Madison Square Garden) - 4:46
A magistral interpretação desse clássico dos Beatles durante o Concert For Bangladesh justifica a inclusão aqui.
All Things Must Pass - 3:46
Esta canção é 'injustiçada' desde o tempo dos Beatles, quando John e Paul se recusaram a gravá-la, magoando George. McCartney fez seu mea culpa em 2002, quando passou a interpretá-la ao vivo em seus shows. Agora é o destaque definitivo numa coletânea dos melhores trabalhos do ex-beatle.
Any Road - 3:52
Destaque no CD Brainwashed esta faixa foi single e ganhou videoclipe para divulgar o disco póstumo de George.
This Is Love - 3:47
Esta linda canção recebeu a missão de substituir When We Was Fab nas paradas, tendo virado o terceiro single e videoclipe de Cloud 9 em 1987. Pode-se concluir que fez boa figura.
All Those Years Ago - 3:46
A homenagem a John Lennon lançada em 1981 'juntou' na mesma gravação os companheiros Ringo Starr e Paul McCartney. Virou hit mundial e foi um dos primeiros produtos da divulgação de música em larga escala através de videoclipes nos anos oitenta.
Marwa Blues - 3:41
Ousadia, privilegiando a qualidade. Numa coletânea cujo objetivo primordial é 'vender' o artista para novos públicos, a inclusão dessa faixa do álbum Brainwashed adiciona charme ao produto final. Para agradar todo mundo.
What Is Life - 4:25
Este foi o segundo grande sucesso do aclamado álbum triplo All Things Must Pass. 'Puxou' o single escalado para suceder My Sweet Lord. Uma das músicas preferidas do próprio George. Segunda aparição em coletâneas-solo do ex-beatle.
Rising Sun - 5:27
Autentica canção-testamento, transformada em clássico instantâneo tão logo foi lançada postumamente em 2002.
When We Was Fab - 3:51
Esta recebeu a missão de substituir Got my Mind Set on You nas paradas. Foi o segundo single e promo video de Cloud 9 em 1987. O clipe com Ringo Starr e Elton John como convidados especiais, e irônicas citações aos Beatles, mereceu prêmios da MTV.
Something (Live At Madison Square Garden) - 3:10
Outra magistral interpretação de clássico dos Beatles no Concert For Bangladesh em 1971.
Blow Away - 3:59
Este 'número um' do álbum 'George Harrison', de 1979, ocupa espaço em duas de suas três coletâneas, com justiça. Na época do lançamento original ganhou um acanhado videoclipe.
Cheer Down - 4:06
Em 1988 George Harrison deu esta composição, juntamente com 'That Kind of Woman' e 'Run So Far' para Eric Clapton gravar. Achava que o amigo optaria por Cheer Down, mas ocorreu o contrário. Clapton não gostou de Cheer Down e gravou as outras duas. George então fez sua versão e cedeu a faixa para a trilha sonora do segundo filme da série Máquina Mortífera. Cheer Down ficou lá até ser 'acolhida' ao catálogo de Harrison através da coletânea The Best of Dark Horse (1989).
Here Comes The Sun (Live At Madison Square Garden ) - 2:54
Terceiro hit dos Beatles selecionado para esta compilação e gravado em formato acústico, ao vivo no Concert For Bangladesh, com acompanhamento aos violões da 'linha de frente' do extinto grupo Badfinger, ou seja, Tom Evans e Pete Ham.
I Don't Want To Do It - 2:54
Entre março e junho de 1985 George Harrison ocupou espaço nos estúdios Record Plant em Los Angeles (EUA) para finalmente gravar em caráter oficial essa canção de Bob Dylan (nunca por este gravada) do final dos anos 60. A primeira tentativa foi nas sessões para All Things Must Pass, em 1970, mas não passou de uma 'demo version'. Situação semelhante ocorreu em 1983, quando novos 'demos' foram produzidos. Em 1985, Michael Shrieve (da banda do mexicano Santana) e David Edmunds estavam com a incumbência de 'fechar' a trilha sonora do filme Porky's Revenge. Disposto a adicionar mais qualidade no soundtrack, Edmunds 'convenceu' George Harrison a voltar aos estúdios de gravação, três anos após seu último lançamento (Gone Troppo).
Um time de primeira linha de músicos (Chuck Leavell nos teclados; Kenny Aaronson no baixo; Michael Shrieve na bateria; David Edmunds e Jimmie Vaughan nas guitarras) ajudou Harrison a registrar a gravação. Em duas distintas versões. A do single de vinil inclui uma guitarra líder com levada country não incluída na versão oficial do LP com a trilha sonora de Porky's Revenge. Embora I Don't Want to Do It não tenha galgado espaço nas paradas comerciais, o fato de estar nesta coletânea é um resgate que 'contextualiza' a composição no catálogo do ex-beatle. Antes era mais fácil encontrar essa gravação na pirataria.
Isn't It A Pity - 7:07
Esta grande canção deu a George Harrison mais um 'number one' como integrante do aclamado álbum triplo All Things Must Pass e por formar num compacto com 'dois lados A' (reconheça-se) com o mega hit My Sweet Lord. Apesar de sua inegável qualidade, somente agora ganha o reconhecimento de integrar uma coletânea dos melhores momentos do ex-beatle. Surgiu de forma despretensiosa, como uma espécie de paródia de Hey Jude. O tempo de duração é quase o mesmo. Vale registrar que George & Paul tiveram atritos por conta do arranjo de Hey Jude. É justo acreditar que esta grande composição tenha se originado do desentendimento com McCartney.
Isn't It A Pity (earliest demo version)
Versão inédita, disponibilizada com exclusivamente para download pago pelo site i-Tunes. Não consta, portanto, do CD regular. Não consta como bônus nem na edição japonesa. Trata-se de uma linda gravação com George se acompanhando a guitarra. O pesado processo de redução de ruídos permite-nos ouvir um take 'limpo' com a voz se sobressaindo. O material seguramente não foi gravado nos estúdios da EMI, mas provêm de um multi track tape.