LENHANDO NO MUNDO MATERIAL
Por Ben-Fong Torres
Tradução: Cláudio Teran
Na noite em que George Harrison voltou ao Madison Square Garden para o primeiro dos três últimos concertos de sua turnê-solo (19.12.1974), amanheceu nas bancas de jornais a edição da revista Rolling Stone (à época um jornal tipo tablóide) contendo esta extensa reportagem assinada pelo jornalista Ben-Fong Torres. Ele acompanhou tudo dos bastidores e publicou uma reportagem magistral - no meu entendimento uma visão certeira, direta e sem rodeios da North American Tour. Com a publicação fechamos mais uma sequência das revistinhas virtuais do Pop Go The Beatles, ao mesmo tempo que encerramos as comemorações de 30 anos deste evento que marcaria para sempre a carreira de George Harrison. Antes de iniciar a leitura, uma dica: ponha para tocar o concerto do Baton Rouge, ou o de Seattle - ou o de Forth Worth. E você entenderá melhor ainda o relato que segue...

Santo Khishna! Que tipo de noite de abertura para a primeira turnê solo de um ex-beatle era essa pensei eu, instalado num ponto privilegiado do Pacific Coliseum, em Vancouver, escalado que fui para cobrir um evento que por certo entrará para a história - a primeira turnê-solo de um dos quatro ex-Beatles, na América. Ao centro do palco, Ravi Shankar vestido como um sacerdote indiano pede silêncio. Solicita que não fumem durante a apresentação. 'Silêncio é muito importante, diz ele, porque a música é eterna. E do silêncio vem a música'. O público não o atende. Pelo contrário. Vaia e berra pedindo barulho e rock and roll! Começa então um estranho concerto de 'indian music', e o público silencia - não para atender Shankar - mas por absoluta indiferença. George Harrison volta para o bis com uma versão irreconhecível de My Sweet Lord. Só os ocupantes das primeiras filas, na boca do palco aplaudem. Este é um resumo do que foi a estréia do ex-beatle em turnê-solo, diante de uma platéia...
Pat Luce, publicitário a serviço da A & M Records e Dark Horse, demonstrava preocupação. Tentou explicar que, 'a banda é boa - afirma que ensaiou muito - e diz que a rouquidão de George é passageira - ele vai ficar bom.' A imprensa, literalmente 'apertou' o publicitário, e Pat Luce acabou admitindo que pelo menos três coisas teriam de mudar para as próximas apresentações: o tamanho do concerto em si, a duração da performance dos indianos, e a necessidade que Harrison fale menos entre as canções.' O produtor Bill Graham, menos diplomático que Pat Luce, estava irritado. Promoter das turnês de Bob Dylan e Crosby Stills Nash & Young, Graham é um sujeito experiente. Conversou detidamente com Dennis O'Brien - assessor pessoal de George Harrison - e com o saxofonista Tom Scott (um dos arranjadores musicais da tour) no sentido que os problemas críticos e artísticos da estrutura do show precisavam ser corrigidos. Graham entendia de público. Ele me disse que com Bob Dylan e CSN & Y a satisfação foi total porque 'os artistas tocaram e cantaram todo o tempo - até 3 horas de show.' 'Aquí deu para perceber que o público quer mais George Harrison! Essa é a minha crítica. Tenho grande respeito pelo talento e habilidade de George, mas acho que diante do público ele não voltou a máquina do tempo o suficiente. A cada show bem feito de Dylan nós fumávamos uns cigarros cubanos. Aqui não havia cigarros', disse Graham.
Em Los Angeles, durante a coletiva George falou: 'tenho consciência do espaço que os Beatles cavaram nos anos 60. E o fato de que muitas pessoas cresceram com os Beatles. E estão presas a isso. Esse é um dos problemas de nossas vidas - ficar excessivamente presos a certas coisas. Eu entendo que os Beatles em muitos caminhos foram grandes, e eu aprecio as pessoas que ainda gostam deles. O problema começa quando muitos querem viver no passado, e com medo da mudança.'

A última vez que vi George Harrison ele já era uma estrela mundial. Os Beatles estavam no Candlestick Park. Foram 11 canções para 26 mil pessoas em 30 minutos. No Madison Square Garden, em agosto de 1971, George decidiu cair em campo e voltar à estrada. Billy Preston revela que o sucesso de Bangladesh foi fundamental para encoraja-lo a se mostrar ao mundo como artista-solo, arregimentando músicos para ensaios que resultariam na presente turnê. Três semanas mais tarde, George Harrison ficou sem voz. Na coletiva chegou a dizer que, 'considerou a idéia de fazer os primeiros shows sem cantar - só instrumental.' Não teria sido má idéia. A abertura com Hari the Good Boy Express (NR: a imprensa achava que era esse o título da música, já que a mesma não havia sido lançada até então. Trata-se de Hari's on Tour Express) chamou a atenção de todos porque bem executada por ele e os demais membros da banda. Ao cantar pela primeira vez a faixa Lord Loves the One, George foi mal, cantou fora do tom, e a voz apesar da estréia soava cansada. O público dispersou-se. Poucos reagiram com aplausos. Com Who Can See It foi a mesma coisa. A música parecia interminável. Os expectadores passaram a observar os demais músicos, conversar, comentar sobre o imenso banner da Dark Horse montado no alto do palco. Jornais de Vancouver como o Province foram duros no dia seguinte. A jornalista Jeane Reed escreveu: 'Bob Dylan esteve aqui e cantou errado as suas músicas mas tinha o controle da situação. George veio, cantou errado e eu tenho dúvidas se sabia o que estava fazendo.' Dan Stanley, do jornal Vancouver Sun escreveu: 'ele tentou fazer com seu material o que Dylan fêz com o dele, com a diferença que terminou agonizante, rouco...'
Bob Dylan assistiu dois shows no Forum em Los Angeles com a esposa e amigos. Falou rapidamente com os jornalistas e disse ter gostado dos concertos. Um dos momentos mais curiosos dessas três noites foi protagonizado por Sly Stone. Aparentemente alucinado com o som que vinha do palco, ele decidiu participar. Tentou subir para uma 'canja' mas não conseguiu. Não foi reconhecido pelos seguranças, irritou-se, foi empurrado, ofendido e tratado como um inconveniente qualquer. Sequer foi notado por George e os demais músicos que se encontravam no palco.

A serviço da Rolling Stone eu assisti os concertos de Vancouver, Seattle, San Francisco, Oakland, Long Beach e os três de Los Angeles. Em Oakland, Phill Elwood do The Examiner escreveu: "muito rouco George simplesmente berou ao cantar a delicada Something." Em Los Angeles, Robert Klemintz do Herald escreveu: "George quase não suporta a levada rápida de While my Guitar Gently Weeps. E pior: parecia um Bob Dylan endemoniado ao gritar a letra de Something." No primeiro dos 3 shows de Los Angeles cantou Maya Love e o público silenciou. Ele notou e criticou: 'não sei como estão se sentindo aí. Mas sinto que vocês estão muito mortos.' Ao final do show, bateu boca com um fã que não parava de pedir que interpretasse Bangladesh. 'Eu teria que reescrever a letra para canta-la aqui. Não fique gritando Bangladesh. Faça alguma coisa para ajudar. Você pode cantar Krishna, Krishna, Krishna e talvez se sentirá melhor, mas se você só gritar Bangladesh, Bangladesh não ajudará ninguém,' disse George entre vaias e aplausos. No bis, depois desse papelão ele pediu desculpas ao público. Nos 3 dias de Fórum é necessário reconhecer o sucesso de público - 9 mil, 11 mil e 18 mil expectadores compareceram nas três datas. Os ingressos custavam 9,50 dólares. Quem pagou esperava ver um Beatle Show. Quem sabe um 'revival' da Alma de Borracha. Resgatar coisas que estavam na memória. Mesmo respeitando George eles queriam sim um beatle no palco. George refutou. Tom Scott conta que nos ensaios eles tocaram 18 canções - nenhuma dos Beatles. Sentindo a resistência de George, os músicos apelaram a Ravi Shankar para que o persuadisse a tocar alguns velhos standards, levando em conta o desejo da platéia. 'George está maduro, não é nem pode ser o mesmo de 10 anos atrás, respondeu-lhes Ravi'. Apesar dessa afirmação ele conversou com George Harrison e certamente a partir daí o repertório ganhou algumas composições da era dos Fab Four, sendo a mais surpreendente a inclusão de In my Life.
George Harrison cometeu todas as gafes e atitudes anti show business que se pode imaginar ao longo desses concertos. Ao introduzir Ravi Shankar ele apelava - quase implorava à platéia pedindo paciência e atenção. Acabava recebendo vaias. Entre as músicas era comum que se desculpasse insistentemente pelas condições de sua voz. A adoração por Ravi Shankar soava estranha para o público. George ajoelhava-se no palco, e tocava os pés do mestre. Depois colocava as duas mãos sobre a cabeça do indiano, numa clara demonstração de humildade diante de seu amigo e mentor espiritual. A execução de música indiana tinha início, e George Harrison permanecia no palco como se fosse um 'roadie', segurando um microfone para amplificar os instrumentos acústicos usados pela banda de Ravi Shankar. No refrão para a faixa I Am Missing You ele tocava tamborim e atuava nos backing vocals.
Outro momento no qual George Harrison ficava em segundo plano era durante a performance de Billy Preston. Desajeitado, estalava os dedos durante a execução de Will it Go Round in Circles, e protagonizava com Preston uma cômica dança do 'can-can' antes de reassumir a guitarra e voltar para seu lugar. Alguns críticos denominavam essa sequência dos concertos como "The Billy Preston Show". E não estavam de todo errados. Billy, com seu imenso penteado afro, contagiava a platéia com sua destreza nos teclados, a energia poderosa de seus funks e soul music. Durante Nothing From Nothing ele se exibia pelo palco acompanhando-se com uma 'escaleta'. O público dançava, cantava, aplaudia e se identificava com músicas que conhecia bem, já que as canções de Billy Preston são hits de ocasião.
Para mim ele é um músico excepcional, um bom compositor, além de um contagiante black/pop showman, mas não é um extraordinário cantor nem capaz de inovações. Ele não tem o talento de Sly Stone ou Stevie Wonder, e em termos de música e carisma não chega aos pés de qualquer dos Beatles. É preciso reconhecer entretanto que foi o salvador momentâneo da turnê de George, pois quando assume o comando tira o público da apatia. Com ele gritando 'querem festa'? o povo se ergue dos acentos. Curiosamente George Harrison voltava ao comando das ações quando Billy Preston o chamava.

Esses fatos deram a Bill Graham a noção de que a direção da North American Tour estava errada. Em Vancouver, a platéia até que suportou com razoável polidez as duas performances de música indiana. No segundo concerto, em Seattle foi diferente. Um canal de TV entrevistou as pessoas à saída do show. O público afirmava desconhecer as canções do disco Living in the Material World, à exceção de Give me Love. Reclamavam a ausência de faixas conhecidas do álbum All Things Must Pass, e é claro, queriam mais músicas dos Beatles!
Outro fator determinante para aumentar a rejeição à indian music era a precariedade do equipamento e da estrutura de palco. Era difícil ouvir aqueles estranhos instrumentos em ambientes como de estádios ou ginásios. Até 80 microfones eram ligados de uma vez na tentativa de amplificá-los, mas o resultado era distorção e muita microfonia. Após o show de Seattle, todos se reuniram num hotel para discutir os problemas. Ninguém queria ver Ravi Shankar exposto à hostilização do público. Questionado sobre a longa duração das músicas, Ravi Shankar explicou que editara todas elas para adapta-las à tour! Para completar, os especialistas em música indiana atacavam Shankar, afirmando que ele estava descaracterizando uma cultura milenar e até utilizando instrumental estranho, e músicos de uma banda de rock. Um sacrilégio. Para rebater essas críticas, Ravi me disse que essa seria sua última turnê ao lado de figuras ligadas ao rock and roll. Declarou que desde o Monterrey Pop Festival estava determinado a afastar-se de concertos de rock, já que ficara impressionado com o alto consumo de entorpecentes. 'Nossa música é muito séria e exige respeito para ser executada e sentida. Quando percebi que não é possível essa concentração entendo que o melhor a fazer é sair de cena'.
As coletivas das quais participei eram eventos complicados para George Harrison. Ele se irritava com as críticas, o sarcasmo e as perguntas indiscretas de alguns jornalistas. Ele chegou a pedir ao publicitário Pat Luce que montasse um questionário com perguntas relativas a assuntos que gostaria de abordar, entre eles: Dark Horse Records, a banda Splinter, e seu novo álbum. O questionário também comparava gostos e declarações de George feitas em 1963 confrontadas com as atuais, feitas em 1974. A imprensa recebia de bom grado esse press kit mas quando a coletiva começava, mas ninguém o utilizava. No Fórum, em Los Angeles, George disse a 40 jornalistas: 'sou um músico, não um falador. Então quero discorrer sobre o que entendo. Estou pedindo muito?'
É provável que o mais desagradável para o público tenha sido as mudanças que George Harrison fêz nas suas clássicas composições. Ele começava Something cantando, 'something in the way/she move it.' O refrão ficou assim: 'you're asking me will my love grow/I hope so/I donīt know.' While my Guitar Gently Weeps também foi adulterada: 'I look at you all/see the love there that sleeping/while my guitar gently smiles.' Nem In my Life - composição assinada por Lennon-McCartney escapou de mudanças na letra. Ao final George cantava: 'In my life/I love God more.' Além das modificações nas letras, os arranjos musicais descaracterizaram bastante as canções. A regra quase geral era seguir um formato de soul music. O ápice foi a 'desconstrução' de My Sweet Lord. Billy Preston me disse que George não queria tocar Something, somente o fazendo a seu pedido.

Talvez George Harrison tenha o direito de adulterar letras e arranjos. Afinal é o autor das músicas. Mas como você reagiria se Frank Sinatra num show cantasse: 'I didn't his way?' Ou se Dylan modificasse a letra de Blowin' in the Wind para cantar: 'the answer my friend, is coming from within'/the answer is coming from within'? Mudar as letras para mim é desrespeito com o público. Além de tolice.
Analisando os shows completos que assisti anotei que em duas horas e meia eram apresentadas vinte e três canções. George Harrison cantava apenas oito. De Seattle a Los Angeles não tivemos variações no setlist - Hari the Good Boy Express, Something, While my Guitar, e Will it Go Round in Circles (Billy Preston), Sue me Sue you Blues e a sequência de música indiana. George e a banda ficam no palco para acompanha-los em Zoom Zoom Zoom composição de Ravi Shankar inspirada no som da broca de um dentista, após dolorosa consulta a que se submeteu! Depois vinha I Am Missing You e Dispute and Violence. Tínhamos então um intervalo de cerca de 10 minutos. Nada mais anti-showbiz.
Entretanto o intervalo era necessário para a retirada dos indianos e seus badulaques do palco. Fechava-se uma hora de concerto com apenas 3 músicas cantadas por George! Na segunda hora, a reabertura ao invés de incluir um hit arrebatador trazia uma irreconhecível For You Blue. Em seguida Give me Love e finalmente o público reagia com aplausos, porque essa era a primeira composição reconhecida nos acordes iniciais. A seguir In my Life com vigoroso naipe de metais e órgão hammond substituindo os delicados piano e violão originais. Não era possível perceber se o público identificava a canção. Tom Scott assumia o comando com a instrumental de levada jazz, Tom Cat. Na sequência era apresentada a desconhecida Maya Love cujas linhas de guitarra são remanescentes de Sue me Sue You Blues. Aí temos o ponto mais consistente de cada show - Billy Preston e seus hits Nothing From Nothing e Outta Space.

George retorna com a desconhecida Dark Horse. E What is Life. Para o bis, My Sweet Lord completamente descaracterizada, e com improvisos na letra para exaltar mais ainda a Deus. Ele repete insistentemente: "Christ/Krishna... Christ/Krishna". As composições Lord Loves the One e Who Can See It foram tão mal recebidas em Vancouver que resultaram tocadas somente naquela ocasião. Não se pensou em substitui-las por faixas melhores, e conhecidas do grande público.
Um dos acertos de George Harrison foi a escolha da banda. A imprensa reconhece a inventiva percussão de Emil Richards, a poderosa bateria de Andy Newmark, a solidez do baixo de Willie Weeks, os teclados impecáveis de Billy Preston e a exuberante guitarra blues/rock de Robben Ford. É brilhante a sessão de metais de Jim Horn e Tom Scott. Apesar disso os concertos soam belamente desagradáveis.
Para rebater as críticas à 'indian music', George disse que em cada show, 'uns 50 bêbados vaiavam enquanto 17 mil silenciavam para ouvir e sentir a música'. Na realidade os críticos diziam que as pessoas deixavam os acentos para ir ao banheiro, comprar lanche, ou simplesmente conversar, enquanto os indianos tocavam. Perguntado sobre o que achava das pessoas que gastam 9,50 dólares no ingresso para sentir um pouco do gosto dos Beatles, sem recebê-lo, George Harrison respondeu: "Por quê eles querem um beatle? Eu não digo que sou o beatle George. Ghandi disse que é preciso criar e preservar a imagem de nossa escolha. A imagem de minha escolha não é ser o beatle George. Se querem isso eles deviam assistir Paul e Wings. Por quê viver do passado? Esteja aqui agora. Gostando de mim ou não é isso que sou neste momento".
Meu gravador permaneceu ligado, e George Harrison continuou: 'eu sempre quis ser um lenhador, na realidade. Eu nunca fiz disso uma razão para viver. Não quero ser herói para ninguém. Críticas sempre acontecerão, mas minha vida me pertence, ou melhor, pertence a Lord Krishna. Nunca estive tão bem em toda a minha existência. Não estou forçando ninguém a nada. Ninguém está obrigado a vir me ver, ou comprar meus discos. Não dou a mínima. Estou fazendo o que tenho vontade de fazer'.
'Como foi a entrevista?', perguntou-me Bill Graham por trás das cortinas do último show no The Forum com casa lotada em Los Angeles, no dia 13 de novembro passado. 'Ótima', respondi. 'George parece muito feliz com seus shows'. 'Se ele está feliz, eu também estou feliz, afirmou sorridente o calejado empresário Bill Graham, dentro do espírito do show business'.
NR: três concertos foram filmados profissionalmente - Detroit, Toronto e Landover permanecem não lançados. As faixas Sue me Sue You Blues, Give me Love e In my Life - de um dos shows em Nassau - circulam em super 8 mm.