The Last Homeland Tour - 1965
A História da Turnê Quase Secreta dos Beatles


O ano de 1965 foi o auge para a beatlemania. Chegou ao mercado o filme Help! com suas cores mágicas e memorável trilha sonora. A tour americana foi um sucesso incomensurável. Pela primeira vez um show de rock and roll realizou-se dentro de um estádio – sendo inteiramente filmado para a posteridade. As performances vararam os Estados Unidos de costa a costa – sempre com casas lotadas. E a banda tocou pela segunda vez na concha acústica do Hollywood Bowl, tendo novamente o registro dos dois concertos gravados pela EMI com pretensões, quem sabe, de lançamento futuro. Os Beatles eram assunto obrigatório em toda a mídia. John, Paul, George e Ringo eram celebridades mundiais. Estavam nas capas de milhares de revistas pelo mundo. Eram destacados na televisão. Suas canções tocavam sem parar nas rádios. Eram imitados, idolatrados. Vendiam milhões de cópias de seus LPs, e singles. Era a consolidação e a consagração.

Mas nem tudo ia exatamente, bem. Os Fabs não suportavam mais o pandemônio das turnês. Estavam cansados do show-biz, do pânico, do improviso e da desorganização das excursões. A música não era ouvida pelas audiências nos precários sistemas de P.A das locações onde eles se apresentavam. As pessoas iam para vê-los, tão somente. O refúgio para a música de qualidade era cada vez mais os estúdios – e por isso na segunda metade de 1965 os Beatles finalizavam seu mais elaborado disco até então - Rubber Soul – quando o empresário Brian Epstein irrompeu em Abbey Road para informar que fechara uma pequena e portanto rápida turnê somente para solo inglês. Nove locações apenas. Dois shows por dia. E depois, férias. E em seguida a maratona para divulgação do novo álbum.

Eles concordaram a contragosto. Refutaram com veemência a participação nos eventos programados para a divulgação do novo disco – uma segunda apresentação para a realeza no Royal Variety Show, e aquela que seria a terceira edição do Christmas Show – ocasião onde Brian divulgava os Beatles e também os utilizava como "escadas" para chamar a atenção para outros contratados da NEMS Enterprises. Foi assim nos anos anteriores. Não seria em 65. Eles estavam fartos. Mas não escapariam da turnê. Mal sabiam que essas performances se tornariam objeto que hoje aguça a curiosidade pela sequência de fatos inusitados que apresentam. Questão que poucos parecem perceber...


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Os Ensaios e o Tracklist

Até a realização dessa turnê, eram pequenas as variações em termos de repertório. Geralmente os Beatles tocavam os singles de sucesso, e as faixas de trabalho dos LPs. E aproveitavam para promover os compactos que acabavam de desovar no mercado. Com a pequena tour de 1965 essa condição mudou em alguns aspectos. Pela primeira vez não havia Twist and Shout no repertório. O tracklist iniciava com I Feel Fine. E é um dos mais inusitados de toda a carreira da banda, dado o ecletismo das canções selecionadas. E o ineditismo de pelo menos uma delas em performances ao vivo dos Beatles – We Can Work It Out.

Os ensaios foram esparsos, e ocorreram durante apenas uma semana, na finalização de Rubber Soul. Essas apresentações, embora em solo inglês (ou talvez por isso mesmo), não ganharam a dimensão que mereciam. Os Fabs tocaram em lugares importantes do país como o Finsbury Park Astoria e o Hammersmith Odeon. Circularam pelo interior do Reino Unido como reis - situação capaz de remeter-lhes à nostalgia, numa inusitada viagem ao tempo em que ralavam feito loucos por um lugar ao sol, à bordo do furgão de Neil Aspinall. Os shows em geral foram um sucesso. Casa lotada em cada uma das datas.

É de se perguntar porque não há registro de nada disso. Fotografias e reviews desses shows são raros. Tomemos por base os livros de Mark Lewisohn - "Live" e "Chronicle". Lá o espaço dedicado a essa significativa tour – a última que os Beatles fariam em solo inglês – é dos mais econômicos. Lewisohn não comenta quase nada de nenhum dos concertos. Mesmo na série Anthology essas datas são relegadas ao desprezo. Não há referências. Uma linha sequer foi mencionada. O mesmo pode ser notado nos programas que foram ao ar pela TV ou nos atuais DVDs. O que faziam as rádios inglesas naquela ocasião, que não registraram um só concerto? Ainda hoje não se tem noticia sequer de algum precário audience tape. O que só faz aumentar o mistério, e a curiosidade em torno dessa Last Homeland Tour. Quando 1966 chegou, os Beatles caíram na estrada para a realização da última excursão. Prepararam-se. Ensaiaram. Pinçaram boa parte do repertório, daquele balão de ensaio pouco conhecido, do final de 1965 ao norte da Inglaterra. Mas aí a história é outra. De 1966 temos registros para ouvir, e ver. Da última turnê dos Fab Four em seu território nunca apareceu nada - o que temos são resgates como este que publicamos no Beatles Brasil – onde o objetivo foi compilar o pouco de informação que existe sobre esse momento raro, mágico, e quase sem registro.



Curiosidades e Diário de Bordo da Mini-Tour 1965

» Uma guitarra Gretsh Country Gentleman, pertencente a George Harrison, caiu do automóvel no qual era transportada para a sequência dos concertos. Um caminhão passou por cima do 'case' destruindo o instrumento. O incidente aconteceu após a primeira data, em Glasgow, e durante a viagem do equipamento que eles utilizariam nas duas próximas performances, em Newcastle.

» Em relação a esse episódio da destruição da guitarra, existe uma declaração de George Harrison à revista New Musical Express onde ele comenta o episódio. "Foi um acidente. Um buraco na estrada. Durante uma brusca manobra os instrumentos voaram do compartimento de carga do automóvel. Uma delas, justamente uma das minhas 'Gretsches' ficou na pista e foi destruída por não um, mas 13 caminhões que passaram por cima do 'case' antes que nosso motorista pudesse chegar perto. Um deles, com o que sobrou do instrumento nas mãos, perguntou ao nosso motorista se aquilo era um banjo para tocar em casa para a esposa. Algumas pessoas – quando eu lamentava a perda da guitarra – olhavam para mim e diziam: 'ora, você pode comprar outra igualzinha'. Não compreendiam o valor sentimental que a guitarra tinha para mim", disse Harrison. Um modelo idêntico do instrumento podia ser adquirido em Londres em 1965 por 300 libras.

» Os Beatles levaram 14 guitarras para utilizar durante essa turnê – encerrando com 13 delas, pelos motívos expostos acima.

» George Harrison subia ao palco com uma guitarra Gibson SG vermelha. Para If I Needed Someone usava uma Rickenbacker de 12 cordas. Não há imagens ou áudio de George tocando 'ao vivo' com esse instrumento (Gibson SG). Nós o veríamos com essa guitarra pela primeira vez nos promos para Rain e Paperback Writer.

» We Can Work It Out entrou num tracklist dos Beatles apenas por ocasião dessas nove datas! John Lennon ia para o órgão, George fazia a base, e Paul ficava no baixo e lead vocal. Pela primeira vez um teclado foi utilizado numa turnê dos Fabs. E essa se tornava a música mais complexa para execução ao vivo incluída no repertório até então.

» Yesterday é outro caso à parte. George, John e Ringo deixavam Paul sozinho no palco. Ele interpretava a canção acompanhando-se no órgão! Na tour de 66 a canção era tocada pela banda inteira. E sem teclado.

» Estreavam no repertório além das faixas do novo disco, If I Needed Someone e Nowhere Man, também Yesterday, Day Tripper, e a já citada We Can Work It Out.

» Pela primeira vez o tracklist distinguia a participação dos quatro Beatles nos lead vocals. As quatro primeiras faixas foram assim selecionadas: I Feel Fine (John), She΄s a Woman (Paul), If I Needed Someone (George), Act Naturally (Ringo).

» Foi a última apresentação dos Beatles em sua terra natal – Liverpool. E a derradeira tour em solo inglês.

» Foi o primeiro tracklist dos Beatles em anos que não vinha puxado por Twist and Shout.

» O transporte dos Beatles entre uma locação e outra deu-se à bordo de um automóvel Austin Princess preto e com vidros fumê. No total foram nove locações, oito cidades, dez dias de trabalho, e dezoito apresentações no total – duas por dia.

» Não circula na pirataria um só registro dessa tour. Também não há informações de transmissão radiofônica ou filmagens de qualquer uma das nove datas. Sempre que surgem notícias de algum 'tape perdido' de show dos Beatles que é localizado – acompanho a notícia na esperança que seja desse período. O que até agora está por acontecer.

» É difícil encontrar souvenirs registrando a história dessa turnê. Itens como ingressos são raríssimos. Não foi produzido um 'programa' padrão para essas datas. Ao contrário do que ocorreu com as North American Tours de 64/65/66.

» Os Beatles embolsaram mil libras por cada uma das 18 apresentações.

» No camarim do Odeon Cinema, em Glasgow, os Beatles gravaram uma mensagem de boas vindas para saudar a chegada ao mercado de mais uma emissora de rádio pirata – a Radio Scotland. Na época as rádios piratas cumpriam um papel fundamental porque abriam espaço na programação para o acesso irrestrito ao rock and roll, soul, e o rhytm and blues.

» Nas apresentações de Liverpool – segunda data da turnê – 40 mil pessoas queriam ingressos. Entretanto o Empire Theatre só comportava audiência de 2.550 pessoas por show. Milhares de 'liverpoodlianos' portanto, deixaram de assistir o último concerto dos Beatles em casa. Parentes, aderentes e amigos de John, Paul, George e Ringo foram privilegiados com acentos nas primeiras filas.

» Antes dos Beatles se apresentarem, a abertura era feita pelos Moody Blues(incluindo Denny Lane); Steve Aldo; Beryll Marsden; The Koobas, e The Paramounts. Em relação a The Koobas, uma curiosidade: no show da noite em Liverpool, Paul McCartney deu uma inesperada 'canja' – saiu do camarim para tocar bateria (!) durante a performance dos caras para Dizzy Miss Lizzy, deleitando a platéia.

» O mau tempo durante a tour causou alguns contratempos. Em Manchester, o grupo foi atrapalhado pela densa 'fog' do inverno inglês e chegou ao local de apresentação com quase duas horas de atraso. Em Newcastle o atraso foi em decorrência do acúmulo de neve na estrada. E em Birmingham eles se defrontaram com um temporal quando estavam à caminho para os concertos.

» Em Glasgow, e por razões de segurança e sossêgo, Brian Epstein fêz reservas para o grupo num pequeno hotel fora da cidade, localizado num ponto ermo da rodovia de acesso. O mau tempo mudou os planos. O jeito foi abrigar os Beatles no Grande Hotel, bem no centro da capital escocesa. Houve caos no trânsito, concentração maciça de fãs no local, tumulto e total falta de condições para o sossêgo almejado.

» Os dois maiores públicos se registraram no Finsbury Park Astoria – três mil pessoas por apresentação – ou seja: todos os ingressos vendidos.

» Em Mancheter, antes das apresentações, os Beatles e Brian participaram de uma reunião com o produtor Walter Shenson, dos filmes Help e A Hard Days Night. Na ocasião discutiram a possibilidade de rodar um terceiro filme para o cinema. Shenson entregou-lhes um esboço de roteiro, chamado A Talent For Loving. A idéia jamais sairia do papel.



Last Homeland Tour Dia Por Dia

- Odeon Cinema
Glasgow
03.12.65

- City Hall
Newcastle-upon-Tyne
04.12.65

- Empire Theatre
Liverpool
05.12.65

- ABC Cinema
Ardwick Mancheter
07.12.65

- Gaumont Cinema
Barker΄s Pool, Sheffield
Yorkshire
08.12.65

- Odeon Cinema
Birmingham
09.12.65

- Odeon Cinema
Hammersmith, London
10.12.65

- Astoria Cinema
Finsbury Park, London
11.12.65

- Capitol Cinema
Cardiff
12.12.65



O Tracklist e suas Onze Canções

Se você tem familiaridade com outras turnês dos Beatles por certo concordará comigo quanto ao 'ecletismo' apresentado nessa pequena excursão, avaliando as faixas que foram tocadas diante dos privilegiados que assistiram esses concertos:

- I Feel Fine
- She΄s a Woman
- If I Needed Someone
- Act Naturally
- Nowhere Man
- Baby΄s in Black
- Help
- We Can Work It Out
- Yesterday
- Day Tripper
- I΄m Down



Allan Smith
As Histórias do Jornalista 'Embedded'



'Embeddeds'. Assim foram definidos os jornalistas 'infiltrados' junto às tropas inglesas e americanas na invasão do Iraque. Não estavam lá como clandestinos, mas convidados de honra para documentar de acordo com as ambições megalomaníacas de Bush e Blair o conflito que aniquilou a autoridade iraquiana e tornou o país – hoje – uma espécie de colônia. 'Embedded' também estava Alan Smith, um jornalista inglês que atuava na revista New Musical Express e teve o privilégio de assistir cada um dos dezoito shows que os Beatles fizeram em sua última turnê britânica. Não foi só. Ele viajou com John, Paul, George e Ringo. Hospedou-se nos mesmos hotéis. Das locações, Smith escrevia seus reviews e mandava para a revista. Resgatamos dois deles para dar um pouco mais de dimensão do que foi essa magical and mystery tour...



GLASGOW WANTS THE BEATLES
10.12.65
By Alan Smith

"WE WANT THE BEATLES! WE WANT THE BEATLES! Assim eles foram recebidos quando pisaram no palco do Odeon Cinema. As fãs gritaram essa frase a plenos pulmões no mínimo seis vezes. Por trás das cortinas foi possível ouvir um riff de guitarra e saquei que se tratava de uma conferida na afinação para iniciar I Feel Fine. A cortina se abre e lá estão eles. A platéia enlouquece, um ruído ensurdecedor toma conta do espaço não muito grande do Odeon Cinema. São gritos verdadeiramente selvagens. Os Beatles acenam, conferem microfones e amplificadores. E então John Lennon lidera a banda no primeiro número, I Feel Fine. John sorrí, faz gestos estranhos e diverte a platéia. Logo em seguída, em She's a Woman, Paul McCartney assume os lead vocals e entrega uma performance onde canta como se negro fosse. Seus agudos conseguem ficar acima da gritaria generalizada.

George Harrison canta em seguída a melhor composição que fêz até agora, If I Needed Someone. Então é a vez de Ringo com um vocal talhado para Act Naturally. As pessoas aplaudem, gritam todo o tempo. Tenho dúvidas se prestam atenção no show em sí. Começa Nowhere Man, uma composição do novo disco Rubber Soul com grande harmonia vocal de John, Paul e George. Depois vem a valsa Baby's in Black, seguida de Help, e We Can Work It Out. A banda deixa o palco nesse momento. Paul fica, as luzes se apagam e ele interpreta Yesterday acompanhando-se no órgão elétrico. A platéia diminui a intensidade dos gritos. Os Beatles voltam para incendiar o público com Day Tripper e I'm Down. E depois desaparecem por trás das mesmas cortinas de onde saíram meia hora antes. O show acaba. E deixa um público suarento e exaltado pedindo por mais.



FINSBURY PARK ASTORIA 'BATTERED' BY FANS
17.12.65
By Alan Smith

Eu estou escrevendo esse review momentos após deixar o show dos Beatles no Finsbury Park Astoria em Londres, no sábado. Nem sei por onde começar. O que eu sei é que assisti a mais quente e mais selvagem performance dos Beatles em dois anos. As garotas estavam enlouquecidas e deixando descontrolados os robustos 'seguranças' da Casa. Algumas estavam histéricas e eu ví uma delas sendo carregada para fora do teatro aos berros, se debatendo e com lágrimas que desciam por seu rosto transtornado de emoção. Três mil pessoas assistiram cada um dos dois shows. Eu estava entre os que xingavam as meninas para que ficassem pelo menos sentadas nas cadeiras para que fosse possível ver a banda. Agora, com o teatro vazio dá para ver o estrago. Muitas cadeiras quebraram ou foram arrancadas. Outras apresentavam os delicados acentos amassados ou fora de lugar.

Na noite anterior, no Hammersmith Odeon aconteceu coisa pior, e alguns fãs se feriram levemente. Tenho a dizer que a Beatlemania Está de Volta! O número de desmaios foi de mais de duzentos em cada uma das Casas. No último review que publiquei para New Musical Express eu disse que 'os fãs dos Beatles estavam mais calmos e se sofisticando'. Eu estava errado. Nos camarins do Astoria encontrei um George Harrison completamente suado dos pés à cabeça. Emocionado ele me disse: "esse foi um dos mais incríveis shows que nós fizemos. Está acontecendo tudo de novo". John Lennon reagiu diferente. Em seu habitual estilo sêco, afirmou: "O que aconteceu? Nós fomos agraciados com um prêmio ou alguma coisa desse tipo?".

Depois da performance a polícia continuou sem ter sossêgo. Barreiras foram erguidas para tentar controlar o tráfego, e era possível ler nas placas de trânsito, "área perigosa". Dentro do Astoria os Beatles relaxavam em silêncio, assistiam um programa qualquer na TV enquanto aguardavam. Não conseguiriam sair dali tão cedo. Poucos privilegiados entraram, entre eles o grupo The Walker Brothers e a cantora Helen Shapiro. Mais tarde – e bem mais relaxado, John Lennon me disse: "nada se compara com o que aconteceu aqui essa noite. Nós costumávamos pensar que os londrinos eram frios, calmos. Era nosso ponto de vista. Pela reação deles, fizemos a beatlemania voltar". Depois disso saí para escrever o que vocês acabam de ler.







CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com


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