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Um Ciclo se Fecha na Beatlemania ![]() Quando eu escrevi a revistinha virtual da coluna Pop Go The Beatles sobre os 37 anos de realização do concerto dos Beatles no Shea Stadium (www.thebeatles.com.br/pop/beatles-shea-stadium.htm), uma questão me incomodava há anos. Na nossa Lista Beatles Brasil o clamor pelo lançamento oficial do mega evento era (e ainda é) recorrente. E combustível para isso não faltava, sobretudo após o embevecimento geral ocasionado pela exibição inacreditável das imagens durante a série Anthology. Minha paixão pelo evento do Shea era mais antiga. E as pesquisas em torno do assunto também. Não me saía da mente a bela qualidade de áudio de Everybody's Trying to be my Baby editada no Anthology 2 e extraída certamente de um master. Mas que master? Do filme original do Shea? Certamente não. Viria o material de um nagra tape? Em quais condições a produtora de Ed Sullivan teria 'capturado' o som dos Beatles naquele estádio de baseball? Então mergulhei na pesquisa e o resultado do trabalho rendeu a revistinha virtual com o título, The Beatles Live at Shea Stadium - Apoteose, Histórias e Estórias. Achei então que cumprira o papel de esclarecer as pessoas através do portal Beatles Brasil. E preconizava que os problemas dos bastidores do maior concerto realizado pelos Fab Four impediriam para sempre seu lançamento oficial como todos gostariam, em um dvd documental duplo, com imagem e som maravilhosos, recheado de extras como depoimentos, reportagens de canais de televisão da época, e coisas do gênero. As imagens e áudio do Shea Stadium em circulação desde junho de 1966 são as mesmas do especial levado ao ar pela TV BBC no começo daquele ano - com a supressão de duas faixas, She's a Woman e Everybody's Trying to be my Baby. 'Overdubs' e regravações aplicados à maioria das músicas transmitidas para 'corrigir' erros e problemas técnicos da performance ao vivo. E 'agressões' como a substituição por completo do 'live audio' de Act Naturally pela versão de estúdio da música lançada em disco. Sem esquecer da 'voice over' de Brian Epstein e dos próprios Beatles aplicada durante quase toda a execução de A Hard Days Night. E o filme original do Shea? Continua misterioso. Não há informações seguras de que estaria integralmente preservado. Mas como a velha pirataria de guerra sempre pode surpreender, aconteceu o surgimento - finalmente - de uma edição integral em áudio dos Beatles tocando ao vivo - de verdade - tal como aconteceu, no palco do Shea Stadium em 1965. Ouvir e reouvir atentamente a gravação é como 'invadir' a privacidade de quatro cidadãos do mundo. 'Escutar' o que de fato aconteceu naquele palco armado no centro de um popular estádio de baseball de Nova York serviu para responder muitas indagações, tirar dúvidas que perduravam por décadas, e - pelo menos no meu caso - ampliar mais ainda a paixão pelos Fab Four e sua causa. Voltamos ao assunto em mais uma revistinha virtual do Pop Go The Beatles, motivada pelo fechamento de um ciclo da história. E movida certamente por uma eterna paixão... The Real Thing
A Yellow Dog caprichou na embalagem. Embora o item tenha caído na pirataria e venha sendo 'baixado' em larga escala, recomendo a busca pela edição original. Pelo aspecto histórico representado pela descoberta desse áudio. Talvez seja coisa de tradicionalista, já que vivemos na era do download. A embalagem digipack inclui dois CDs. Num deles o 'som' completo do filme oficial do Shea - com a melhor qualidade possível - tal como foi levado ao ar pela TV BBC em 1966. O tesouro está no primeiro disco, onde o 'Grande Concerto do Shea' aparece pela primeira vez com o áudio original, completo, sem cortes, sem overdubs nem qualquer edição ou supressão. O forte ruído do público está lá, mas dessa vez situado abaixo do som e vocais da banda. A gravação (na parte dos Beatles), capturada provavelmente na velocidade 7 ½ pés em gravador de rolo, dura pouco mais de 37 minutos, e provém do PA (public address) System, ou seja é o som dos Beatles tal como foi feito no palco e jogado no sistema de som do estádio.
O gravador que registrou isso há 42 anos (felizmente) foi conectado no meio do caminho. É possível ouvir também exatamente como aconteceu, os 'opening acts' protagonizados pelos inexpressivos artistas americanos da época. Numa consulta que fiz ao maestro Beto Ianiccelli, ele concorda comigo que a 'captura deste áudio' pode ser encarada como um 'soundboard' dos tempos antigos. Acompanha a caprichada embalagem um livreto tamanho 14 x 16 cm com vinte páginas de fotos em cores e compreensivas 'liner notes' com informações acerca do maior e mais famoso concerto realizado pelos Fab Four... Dúvidas históricas, que permaneciam sem respostas claras há quase 42 anos estão respondidas agora, após a audição da versão original do concerto. Da mesma forma que fizemos na revistinha dois desta coluna, aqui também abordamos a 'coisa real' com breves comentários faixa a faixa... INTRODUCTION: o áudio original do concerto começa com a introdução feita pelo produtor do evento, o lendário Sid Bernstein, que 'anuncia' o apresentador Ed Sullivan. Este sobe ao palco e emite sua clássica frase de chamamento aos Beatles. Os Fabs sobem, e demoram-se um minuto e meio em 'ajustes técnicos' fazendo soar breves acordes de guitarra. Ringo testa a bateria. Nos microfones eles se esgoelam gritando 'hellos' para o público. Aí um prenúncio claro da qualidade precária do retorno de som. Incompatível para o local. O 'hiato' entre o anúncio de Sullivan e o início da execução de Twist and Shout que agora podemos ouvir, foi integralmente cortado da versão em filme. TWIST AND SHOUT: no filme do Shea, o áudio da gravação original dessa faixa foi substituído pela versão tocada no Hollywood Bowl. Por quê? Ouvindo-se agora é possível notar que o volume do som oscila um pouco no começo. A voz do John está extremamente baixa, sendo suplantada pelos backing vocals aqui e ali. Ouve-se bem o 'baixo' e a bateria. As guitarras, nem tanto. A tradicional versão 'encurtada' dura pouco mais de um minuto. A audição dessa performance 'truncada' de Twist and Shout permaneceu inédita nos últimos 42 anos. SHE'S A WOMAN: esse take é uma raridade. Foi tocado, porém não aparece no filme. Também não circulava na pirataria. Até então. Nenhum overdub foi feito na gravação, de acordo com as fichas técnicas de Abbey Road e do CTS (Cine Tele Sound) Studios. Porque rejeitaram She's a Woman? Não são poucos os problemas técnicos apresentados. Paul erra a letra logo no começo. E sua voz parece um tanto cansada. A guitarra de George soa baixinho, melhorando no solo. Backing vocals inaudíveis. A gravação, porém é vigorosa, com destaque para o som do George. Paul 'aborta' a canção logo após o solo e parte para o encerramento, da mesma forma como faria noutros concertos daquela fase, como os do Hollywood Bowl. Som da platéia quase desaparecido. I FEEL FINE: Essa foi a primeira faixa integralmente regravada para inclusão no filme do Shea Stadium, por recomendação específica de George Martin. Por quê? Após introdução de Paul, os Beatles começam a tocar e os problemas logo aparecem. A voz do John muito baixa chega a sumir em algumas passagens. Backing vocals desencontrados, mais altos que o lead vocal, e quase somente a voz de Paul audível. John erra a letra na segunda estrofe. George e Ringo se destacam no trabalho instrumental apesar das dificuldades de retorno. Quando a performance é encerrada John grita para o público, perguntando se está sendo ouvido. Logo após o anúncio de Dizzy Miss Lizzy tem-se a impressão de um corte ou emenda na fita. DIZZY MISS LIZZY: Quase não se ouve a platéia. Na versão do filme, o 'baixo' foi regravado. Ouvindo-se neste lançamento a versão original é difícil para quem não é músico como eu, entender porquê. O que certamente justificaria a regravação seria o 'sumiço' do som do instrumento em alguns trechos. Todo o restante da canção entrou no filme tal como aparece tocada aqui. O 'suingue rocker' da voz passional de John está impagável nesta performance. TICKET TO RIDE: Este take aparentemente foi para o filme sem a adição de qualquer 'overdub' tal como foi capturado pela fita original. No CTS existem informações de que 'algum overdub' teria sido efetivamente realizado na canção. EVERYBODY'S TRYING TO BE MY BABY: A faixa de George no concerto foi tocada, mas não selecionada para o filme. Não foi mexida na sessão de overdubs. Considero uma das melhores performances do Shea Stadium. Única gravação original do concerto oficialmente lançada (no Anthology 2). É difícil compreender por que a rejeitaram para o filme. Perseguição? CAN'T BUY ME LOVE: Para inclusão no filme só o contrabaixo foi regravado. Leigos jamais notariam problemas na linha de baixo original, que agora ouvimos como foi tocado, neste lançamento. BABY'S IN BLACK: Mais um caso em que para o filme, o baixo foi regravado. Agora temos o som original executado por Paul McCartney. Na introdução dessa música é possível ouvir John 'comentar' a invasão do gramado perpetrada por alguns fãs. ACT NATURALLY: Provavelmente a faixa mais importante para se compreender bem a saga do Shea Stadium. No filme, optaram por substituir o som original pela versão de estúdio. Por quê? As respostas estão neste lançamento. Ringo entra fora do tom e só vai encontrar-se mais à frente. Além do baixo de Paul e do vigoroso som da bateria e vocais rascantes de Ringo Starr, quase nada mais se escuta. A base de John está inaudível, assim como os backing vocals. A guitarra country and western de George, excessivamente baixa. Para completar, um mistério. Não se ouve por trás o som rouco da gritaria do público. Os gritos retornam quando John anuncia a próxima faixa. Aparentemente porque os microfones da parte da frente do palco captavam melhor a gritaria. Ainda em relação a Act Naturally, quem decidiu apresentá-la no filme com o áudio da versão de estúdio foi a equipe de pós-produção e montagem, totalmente à revelia dos Beatles. A HARD DAYS NIGHT: esta gravação também é uma raridade. Agora podemos escutá-la por inteiro sem a 'voice over' de John, George e Brian (que ouvimos no filme, abafando a canção). A voz de John está bem mais alta e nítida que a de Paul, prejudicando a estrofe onde McCartney faz o lead vocal. Os dois também passam certo cansaço, uma coisa meio ofegante. Mas o suingue é fantástico, muito rock and roll, espetacular. O solo de George com a rickenbacker de 12 cordas é um pouco prejudicado pelo volume baixo da guitarra. É possível que a idéia da 'voice over' durante o filme tenha ocorrido justamente para disfarçar as falhas. Mais uma vez é o caso de se perguntar por que não seguiram a tal política da gravação de overdubs. Nos 48 segundos após a música, Paul parece comentar o que pode ter sido mais uma tentativa de invasão do gramado do Shea. Logo em seguida há um breve silêncio na gravação e a retomada do áudio. Troca do rolo de fita? Nesse espaço de tempo George volta a usar a guitarra Gretsch de seis cordas, e enquanto confere a afinação - tudo rolando ao vivo como aconteceu - Paul anuncia a próxima. Desnecessário lembrar uma obviedade: as imagens desses 48 segundos pós-A Hard Days Night foram integralmente cortadas do filme. HELP!: Esta faixa foi integralmente regravada para o filme. Por quê? Agora temos as respostas. Erros logo no começo. Eles fazem a contagem para a introdução mas entram errado nos vocais. As guitarras de John e George, com volume excessivo, abafam as vozes. Provavelmente por deficiência de retorno, John parece 'esgoelar-se' em algumas passagens. A fita desta gravação original apresenta um defeito a partir dos 58 segundos da canção. O áudio quase some durante 13 segundos, mas está lá. Só ouvimos a base instrumental. A voz de John reaparece no final da segunda estrofe, com 1 minuto e 11 segundos de música rolando. Backing vocals praticamente sumidos. Fica a impressão de que os técnicos notaram o problema com o microfone de John e tentaram corrigi-lo. Para aproveitar as imagens de Help no filme, não havia alternativa senão a regravação. O áudio original como ouvimos agora revela certo caos no palco, muitos desencontros no volume dos instrumentos, e mistura indevida de vocais com guitarras. Quando Paul agradece ao público, ao final da faixa, sua voz soa metálica. E há um breve corte na fita nesse ponto. O áudio retorna com McCartney anunciando a 'última canção da noite'. I'M DOWN: ninguém imaginou que o som de um órgão tocado com os cotovelos por John Lennon seria captado na precariedade técnica do concerto no Shea Stadium. Foi. E agora podemos ouvi-lo, mas o som, como era de se esperar, ficou pouco audível. A solução foi regravar para o filme. Tanto o 'baixo' quanto o teclado foram refeitos no CTS, especializado em trilhas para o cinema, mas é mais gostoso ouvir a gravação agora, na forma original. ![]()
Um perfeito complemento para o CD duplo da Yellow Dog com as duas opções de áudio para o concerto do Shea Stadium está em outro lançamento pirata - selo Darthdisc. Trata-se de um DVD que contém o que podemos classificar como a melhor imagem do evento completo em circulação até agora. É possível assistir o filme de ponta a ponta, tal como foi exibido na televisão incluindo-se os 'opening acts' com aqueles artistas americanos, bastidores, ingresso do público, preparação do estádio e finalmente a apresentação dos Beatles com os famosos 'overdubs' de áudio.
Trata-se na realidade, do velho filme do Shea Stadium que conhecemos, com a diferença da qualidade bem superior tanto da imagem quanto do som. Algumas especulações quanto à origem desta cópia estão circulando. A baixa qualidade de imagem e som das versões em vídeo do Shea Stadium seria fruto da 'transcodificação' do padrão PAL-N inglês para NTSC. O que significa que todas as cópias que assistimos até agora viriam das exibições do filme em território britânico através da TV BBC. A versão Darthdisc tem como fonte o master americano do filme, em NTSC, licenciado para exibição na ABC TV, fato acontecido dois anos após a realização do concerto, no dia 10 de janeiro de 1967. Embora os americanos tenham esperado muito tempo para ver o filme dos Beatles tocando no estádio de baseball de Nova York, foram beneficiados pela tecnologia. Nos EUA a produção foi exibida em cores, enquanto na Inglaterra um ano antes, os britânicos assistiram em preto e branco. Apontada como 'melhor cópia do Shea Stadium em circulação', esta versão já enseja o surgimento de uma edição ainda melhor. A turma do MMR Recording - que pode ser encarada como o Dr. Ebbett's das imagens dos Beatles - promete um (re)relançamento desse mesmo material. A diferença será a inclusão do áudio original do concerto, permitindo que finalmente possamos ver e ouvir o Shea Stadium, tal como aconteceu, incluindo-se as falhas técnicas, humanas e dignas. Já é possível ter uma mostra desse trabalho no You Tube. Recomendo assistir a performance de Act Naturally montada com o áudio original e imagens retiradas do dvd Darthdisc (Clique AQUI e veja). Então você terá uma pequena mostra da 'coisa real'... Conclusões/Indagações · Provavelmente esta gravação que nos cai em mãos é originada do material usado para a série Anthology. · Este áudio foi transferido da mesa de som montada no Shea Stadium, e daí para o PA System. No meio do caminho para as caixas de som do estádio voltadas para a platéia, um gravador de rolo foi conectado e registrou tudo o que rolou. Tal como realmente aconteceu. O mérito do surgimento dessa histórica gravação após 42 aos da realização do concerto não esconde a precariedade do equipamento naquela época. · Por que não utilizaram a mesma tecnologia profissional para captura do áudio empregada nos concertos do Hollywood Bowl em 1964 e 1965? Nesse caso, talvez porque não houve envolvimento da Capitol na produção? · Não havia a pretensão de lançar o concerto do Shea Stadium em disco. E equipamentos de televisão naquele tempo pareciam com armários. Não se imaginava a evolução tecnológica que daria aos receptores de TV do futuro, preocupação com a qualidade do áudio. Nem se cogitava que um dia teríamos a alta definição e o som digital de hoje. Isso explicaria a falta de preocupação em gravar profissionalmente o áudio? · A indagação acima merece uma reflexão. Existe um master profissional de áudio do concerto em poder da Apple/EMI. Ou do contrário não teria sido possível fazer os overdubs citados nesta e na revistinha virtual número 2. · O take de Everybody's Trying to be my Baby aproveitado no Anthology 2 viria do master desta gravação (PA System) do Concert at Shea? É possível que não. Ed Sullivan entregou a Brian Epstein uma cópia profissional do áudio completo do concerto em 1965. Talvez esse master apresente maior nitidez na captura do áudio, mas os problemas técnicos e defeitos que agora podemos ouvir no lançamento Yellow Dog são os mesmos. · Os defeitos insanáveis apresentados em Help e Act Naturally - para citarmos apenas duas faixas - inviabilizam qualquer pretensão de um futuro lançamento do concerto do Shea Stadium em DVD com o áudio original. Podemos esquecer. · Se um dia o show do Shea Stadium for lançado oficialmente será da forma como conhecemos. Para os Beatles a versão definitiva é o especial de televisão exibido pela BBC e pela ABC. · Um mistério permanece. O filme original do Shea Stadium sem nenhuma edição ou corte estaria preservado? Somente a resposta a essa pergunta daria esperanças de um dia vermos a filmagem ao vivo para She's a Woman e Everybody's Trying to be my Baby. Ambas poderiam aparecer como bônus num possível futuro dvd baseado no tópico acima... The Man Who Brought America to The Beatles
O homem que 'fez' os Beatles na América se apresenta ao mundo assim, sem modéstia e ainda apoiado nos incríveis feitos que realizou como empresário nos anos sessenta e em décadas anteriores. Ele de fato foi e ainda é um promoter um divulgador e lançador de muita gente famosa que faz questão de apresentar como "vidas tocadas por Sid": The Rolling Stones, Ray Charles, Frank Sinatra, Joan Baez, Miles Davis, Elvis Presley, Tony Benett, Jimmy Hendrix, Dave Brubeck Quartet,The Dave Clark Five, Judy Garland, Janis Joplin, James Brown, Dick Clark, Sly & The Family Stone, Lenny Kravitz, Shirley Bassey, Aretha Franklin, Herman's Hermits, The Rascals, The Kinks, entre outros. Há algum tempo lançou o livro, Not Just The Beatles, onde procura deixar claro que fez muito mais pela indústria do show business que promover concertos históricos com os Fab Four. Como se fosse pouco. Vivo e ativo, Sid Bernstein empenha-se no momento em obter os votos necessários para entrar para o Rock and Roll Hall of Fame. A presente entrevista foi concedida ao jornal NYROCK para promover seu livro. Nesta tradução especial para o Beatles Brasil editamos o texto para a abordagem apenas dos fatos que nos interessam - Beatles e Rock and Roll. Afinal este homem foi o realizador por trás do Great Concert at Shea, com um detalhe: levou os Beatles a tocar por dois anos seguidos no estádio municipal de baseball de Nova York, fazendo história. Boa leitura...
COMO VOCÊ 'DESCOBRIU' OS BEATLES? Em 1962 eu estava fazendo um curso sobre o negócio da música, na New School for Social Research, onde hoje dou aulas sobre o show biz. Um dos professores recomendou um punhado de livros e jornais americanos e ingleses que deveríamos ler para compreender na prática o que estávamos estudando. Eu já naquela época não tinha tempo para ler livros, então peguei o mais simples que achei a edição de um jornal inglês que chegava pelo correio. Era uma publicação resumida, extremamente 'magra', ou seja, com poucas páginas. E foi assim. Eu comecei a ler historinhas sobre um grupo de Liverpool que estaria causando muita histeria. A cada leitura do mesmo jornal, mais histórias de pandemônio e idolatria ligadas ao mesmo grupo. Ao final do curso eu estava empolgado com aquilo. Interessado em ver de perto o tal grupo, embora nunca os estivesse ouvido. Foi quando eu disse a mim mesmo: "pegue-os". Eu estava promovendo concertos no Brooklyn Paramount, trabalhando para Alan Freed, que enfrentava acusações de suborno. Murray The K era meu DJ e realizava as performances mais quentes de então. COMO O SENHOR ENTÃO 'PEGOU' OS BEATLES? Eu convidei Brian Epstein a me visitar em minha casa. Ele ainda vivia em Liverpool e nós conversamos por telefone. Ele foi direto ao ponto. Reclamou que a América não tocava as gravações dos Beatles e que ele não arriscaria colocar os rapazes para tocar numa casa vazia. Afirmou que eu era o primeiro americano a telefonar-lhe, o que de fato eu fiz antes de Ed Sullivan. Ele mudou o tom defensivo da conversa quando eu disse: "vou trazer seus meninos para uma apresentação no Carneggie Hall". QUANDO O SENHOR OUVIU UMA MÚSICA DOS BEATLES? Só aconteceu em setembro de 1963, quando então eles começaram a ser executados nas rádios americanas. QUAL FOI A PRIMEIRA IMPRESSÃO QUE TEVE DELES? Notei grandeza de imediato. O primeiro encontro com foi no Plaza Hotel de Nova York. Eram rapazes agradáveis, simples, que pareciam não acreditar no fenômeno que haviam se tornado na América. Ficavam impressionados ao olhar pela janela e encontrar aquela multidão de garotos e garotas cantando duas canções e acenando para eles. Disseram: "nem no nosso país temos uma reação tão forte do público quanto aqui". O SENHOR CONTRIBUIU PARA O ACESSO DELES AO ED SULLIVAN SHOW? O Ed Sullivan contou com o carisma e o sucesso dos Beatles numa noite de domingo (09.02.64) em seu tradicional programa. Três dias depois, no dia 12 de fevereiro de 1964 eles tocaram no Carneggie, e eu fui apontado como gênio por alguns, já que promovia um evento com os caras na data do aniversário do (ex-presidente Abraham) Lincoln, capitalizando no momento certo a idolatria em torno deles. Comigo assinaram o primeiro contrato para promover apresentações públicas na América. ESTE FOI O PRIMEIRO CONCERTO DE ROCK DO CARNEGGIE HALL? Sim. Os administradores do Carneggie não ficaram muito felizes com os Beatles já que até então a casa era afeita à música clássica. Eles então pediram que, por favor, não tentasse um concerto dos Rolling Stones no mesmo local. Os Stones já por essa época estavam também nos meus contatos. ALGUM DOS SHOWS DO CARNEGGIE HALL COM OS BEATLES FOI GRAVADO? Não. QUAL DIFERENÇA O SENHOR OBSERVAVA ENTRE AS PLATÉIAS DOS BEATLES E DOS ROLLING STONES? As reações físicas da multidão. A platéia dos Beatles era formada por meninas e meninos, a grande maioria, adolescentes e pré-adolescentes com pulmões impressionantes (risos). A dos Stones era formada de jovens também, porém maiores que aqueles que curtiam os Beatles, gente que berrava subindo nas cadeiras. COMO SURGIU A IDÉIA DE PROMOVER UMA APRESENTAÇÃO DOS BEATLES NO SHEA STADIUM? O atendente de uma daquelas janelinhas das bilheterias do Carneggie me disse: "você devia promover apresentações dos Beatles por trinta dias seguidos ao invés de apenas dois dias aqui para dar conta da demanda." Pronto! Veio daí a idéia de leva-los a um ambiente maior. Porque não o Shea Stadium? Eu já tinha discutido com Brian Epstein a possibilidade dos Beatles tocarem no velho Madison Square Garden após os concertos do Carneggie Hall. Ele disse não. Quando me veio a idéia do Shea eu já promovera toda a invasão britânica na América com Beatles, Stones, Dave Clark Five e The Kinks. DE FATO FOI O SENHOR QUE TROUXE TAMBÉM OS ROLLING STONES PARA A AMÉRICA? Sim. Os primeiros cinco concertos que eles fizeram nos Estados Unidos fui eu quem promoveu. Mas ninguém se importa ou lembra disso. DE QUEM FOI A IDÉIA DE LEVAR OS BEATLES PARA DENTRO DO SHEA STADIUM NUM CARRO BLINDADO DE TRANSPORTE DE VALORES? Não sei ao certo, mas penso que aquilo foi idéia da polícia por razões de segurança. PORQUE NÃO ESTÃO MAIS OCORRENDO CONCERTOS DE ROCK NO SHEA OU NO YANKEES STADIUM? Por causa dos altos custos. Primeiro com o aluguel desses lugares, depois com o altíssimo valor do seguro. Sem falar no pagamento de taxas extorsivas aos sindicatos de trabalhadores. AQUELE PALCO MONTADO PARA A APRESENTAÇÃO DOS BEATLES NO SHEA? O QUE FOI FEITO COM ELE?
Ainda deve estar desmontado num dos imensos galpões de armazenamento do Shea. Certamente foi utilizado para outras produções que aconteceriam depois.
O SENHOR ACREDITA NO LANÇAMENTO FUTURO DA APRESENTAÇÃO DOS BEATLES NO SHEA STADIUM EM DVD? A CBS e a ABC como todos sabem exibiram o filme na televisão. Quando há dinheiro envolvido, uma produção de importância histórica como essa sempre acaba ressurgindo. Eu pessoalmente dei o filme a (Ed) Sullivan. E ele me pediu que cuidasse daquela gravação. Minha impressão é que o filme será lançado comercialmente sim, algum dia. O SENHOR GOSTOU MAIS DA APRESENTAÇÃO DOS BEATLES NO SHEA 65 OU NO SHEA 66? Eu gostei das duas. Mas digo-lhe que eu era digamos, 'vacinado' contra a excitação. O que contou mais para mim na época além do sucesso dos dois eventos foi que ninguém se feriu. O SENHOR CONSEGUE LEMBRAR DA MÚSICA TOCADA? No primeiro concerto eu não ouvi nada. Em que pese o fato de estar sentado do lado direito do palco ao lado de Brian Epstein. No segundo (em 1966) era possível ouvir a música. PORQUE OS CONCERTOS NAQUELE PERÍODO DURAVAM 30, 35 MINUTOS? O SENHOR NÃO PODERIA TER FEITO DURAR MAIS AS APRESENTAÇÕES NO SHEA? Ninguém pensava nisso. Não éramos loucos. Não havia nenhum contrato estipulando o tempo de duração de um concerto de rock, mas naquele tempo não havia como ser maior, ou certamente terminaria em tumulto. Sem falar que tudo com Brian era acertado verbalmente, num aperto de mãos ou conversando pelo telefone. Ele era um homem que acreditava na coisa da 'palavra empenhada'. O que acertava cumpria. QUAIS FORAM AS REAÇÕES INDIVIDUAIS DOS BEATLES ÀS SUAS CÉLEBRES PROPOSTAS MILIONÁRIAS POR UMA REUNIÃO DOS 4 EM 1976 E 1979? John chamou-me para conversar em 1979. Pediu mais detalhes da proposta. Eu repassei a papelada através da minha secretária para o escritório dele no Dakota. A reação de Paul foi publicada numa reportagem do Herald Tribune da época. "Sid quer jogar nos nossos ombros um peso maior do que podemos carregar" disse ele. Na sua entrevista à Playboy em 1980, instado a comentar minhas propostas para uma reunião dos Beatles John declarou: "Sid seria capaz de propor uma apresentação de Al Jolson ajoelhado gordo e cantando em iídiche". O SARCAMO DA DECLARAÇÃO MAGOOU O SENHOR? Magoou. Fiquei doente quando li aquilo. Mas então pouco depois encontrei John Lennon na Columbus Avenue e conversamos e rimos muito. Compreendi então que aquelas declarações à Playboy não passavam de mais uma demonstração do conhecido cinismo seco que ele exibia. O SENHOR COSTUMA CONVERSAR OU ENCONTRAR OS BEATLES SOBREVIVENTES? Não. Em 2003 fui assistir Ringo ao vivo no Radio City Music Hall com a All-Starr Band. DESSA PERGUNTA O SENHOR NÃO PODE FUGIR. PENSA EM REUNIR PAUL E RINGO EM ALGUM TIPO DE PROJETO LIGADO AOS BEATLES? Não. De modo algum. O SENHOR TEM UMA CANÇÃO FAVORITA DOS BEATLES COMO GRUPO OU NA CONDIÇÃO DE ARTISTAS SOLO? 'Imagine'. Diz tudo o que eu sinto sobre o mundo. Minha segunda canção favorita também é do John, Beautiful Boy. O SENHOR TEM UM, DIGAMOS, MOMENTO BEATLE FAVORITO, ALGO QUE TENHA DIVIDIDO COM ELES QUE GOSTA SEMPRE DE RECORDAR?
Eu e John Lennon assistimos juntos um concerto de reggae de Jimmy Cliff no Carneggie Hall nos anos 70. Lá pelas tantas ele disse: "Sid, naquele concerto do Shea em 1965 eu me senti no topo da montanha". Eu disse: "eu também, John".
EM SEU LIVRO 'NOT JUST THE BEATLES' O SENHOR FALA DO CONCERTO DA PAZ, NO MADISON SQUARE GARDEN COM JIMMY HENDRIX E O ATACA, APONTANDO-O COMO 'UM DROGADO INCORRIGIVEL'. QUAL ERA SUA VISÃO DA CONTRACULTURA HIPPIE DAQUELE TEMPO? Olha, eu odiava aquilo e ainda odeio. COMO REAGIU QUANDO VIU OS BEATLES SE ENVOLVENDO COM A CULTURA HIPPIE? Fiquei desapontado. MAS TEVE ALGUNS FATOS POSITIVOS COMO O ATIVISMO POLITICO DE LENNON NO COMEÇO DOS ANOS 70... No caso do Vietnã foi positiva a luta de John porque era à favor da vida. Eu gostaria de ter me juntado a ele. Eu fiz duas coisas em favor da causa da paz que menciono no livro, o Winter Festival For Peace que ia de encontro à guerra em Vietnã, e o Summer Festival For Peace no Shea Stadium. COMO O SENHOR AVALIA A PERMANENTE POPULARIDADE DOS BEATLES? Eles são parte das nossas almas. Práticamente estão encaixados em nossos genes. Creio que jamais os deixaremos esquecer que continuamos a ama-los... | ||
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