The Beatles live at Shea Stadium
Apoteose, ineditismo, histórias e estórias

Nossa capa: o Beatle Paul acena para o público enquanto John e George combinam instantaneamente (e quase telepaticamente - o próximo arranjo de guitarras. Responda rápido: antes dos Beatles qual foi o artista ou grupo popular que lotou um estádio para apreciação de música? Desde a Roma antiga, a mitologia grega, os mais remotos períodos da história, os estádios ou arenas eram usados(e foram criados) para a contemplação e a realização de espetáculos. Das lutas dos gladiadores às touradas. No século vinte, virariam templos para um esporte mundialmente praticado como o futebol. Mas, até aquele 15 de agosto de 1965, estádios ou estruturas semelhantes jamais haviam sediado um show musical, e pelas mais diversas razões. Os problemas com a sonorização soam básicos e óbvios. Mas havia outros tantos, o principal talvez era que o grupo, orquestra ou artista haveria de ser muito famoso para justificar a aparente megalomania de uma performance em espaço tão grande quanto incomum. Os Beatles seriam esse grupo? Em 1965 é provável que não existisse ninguém mais famoso na face da terra. Longe do torrão natal os Fabs toparam o maior dos desafios até então, aceitando uma produção tocada em parceria pela NEMS Enterprises, de Brian Epstein, e a Sullivan Productions, do apresentador Ed Sullivan. O evento claro, contou com todos os requintes de mídia disponíveis à época. A disposição de todos era fazer um evento grandioso, profissionalmente filmado, e que seria transformado posteriormente em especial de TV nos Estados Unidos e na Inglaterra.



William A. Shea Municipal Stadium
Queens - NYC


A entrada para o concerto: hoje é item disputadíssimo entre colecionadores!

O famoso Shea Stadium de Nova York era - como ainda é - uma espécie de santuário do basebol. Naquele gramado em forma de leque os americanos se deliciavam não somente com seu truculento esporte popular, mas em eventos como competições esportivas. A produção para o mega-evento incluía requintes os mais diversos. Foi planejado que os Beatles desembarcariam de maneira apoteótica de um helicóptero, no centro do gramado, e dali correriam para o palco. A idéia foi para o brejo porque a prefeitura de Nova York julgou perigoso demais que uma aeronave sobrevoasse um estádio lotado, e negou autorização para o pouso. Enquanto se discutia de que maneira os Beatles chegariam ao estádio, a produção literalmente arrancava os cabelos. Como filmar com qualidade num imenso estádio? Como promover uma iluminação adequada à noite? Como dispor câmeras imensas (não existiam as camcorders de hoje em dia) de maneira que o filme pudesse documentar em panorâmicas, o que de fato podia acontecer?

O equipamento era um problema, a começar pelo peso. Uma câmera fixa em 1965, e que se movimentava sobre trilhos, requeria além do operador afixado em sua cadeirinha, nada menos que outros 5 homens para movê-la. Não seria fácil. Mas foi feito. Quem já assistiu ao filme do Shea Stadium fica impressionado pela aula de filmagem que temos ali. Doze câmeras foram estrategicamente instaladas, obtendo uma espacialidade que enche os olhos. O complicadíssimo sistema de iluminação da época funcionou de tal maneira que a nitidez impressiona. A filmagem do Shea Stadium serve de comparativo em relação aos equívocos cometidos quando dos registros de imagens para o Concerto de Bangladesh, e do One to One Concert, num local muito mais simples para iluminação e filmagem, o Madison Square Garden.

Com os acertos feitos em relação às imagens, faltava o áudio. Caminhões da produtora de Ed Sullivan foram estacionados dentro e fora do estádio com toda a sorte de equipamentos. O som dos retornos dos Beatles no palco foram fornecidos especialmente para a ocasião. Os amplificadores foram batizados pela fábrica como Vox Super-Beatle. A linha de frente para o baixo, e as duas guitarras tinha 60 watts. Um outro amplificador menor, de 40 watts, foi usado para a conexão de um microfone que captaria o som do bumbo de Ringo Starr. O teclado que John Lennon usou para fazer I'm Down fora ligado em paralelo com a caixa de retorno de sua Rickenbacker Capri 325. Tudo muito simples – e ineficaz até para a época. Afinal, a banda tocaria num estádio que poderia receber quase 70 mil pessoas. Quem ouviria alguma coisa? Pior que o som do palco era o retorno para o público. Não havia sonorização profissional pensada para a reprodução de música do Shea Stadium. O que existia era o tradicional PA, com seu som anasalado e sem definição de graves, médios e agudos. Aquilo que no Brasil a gente chama de "som de lata". O equipamento era utilizado para que a administração do estádio anunciasse renda, público, ou serviços de utilidade pública como achados e perdídos. Foi por esses prosaicos retornos que o público que pagou 5 dólares e 65 centavos ouviu o histórico concerto dos Beatles no Shea Stadium no dia 15 de agosto de 1965.



Showtime



"Honoured by their country. Condecorated by their Queen. And loved here in America. Here are The Beatles!!!"

Quando o apresentador Ed Sullivan subiu ao palco e usou os microfones para proferir essa frase histórica, a platéia teve certeza que os Fabs de fato iriam se apresentar ali. Antes, a produção americana obrigou a platéia a agüentar por quase uma hora, um festival impressionante de artistas sem expressividade alguma como o grupo Sounds Incorporated e outras maioneses.

Os Beatles, enquanto isso, entraram no estádio em um furgão blindado da lendária empresa Wells Fargo, de transportes de valores. Aquela mesma do tempo das diligências. Foram filmados quase o tempo todo no trajeto, quando sobrevoaram (de longe) o estádio, e depois quando se preparavam nos camarins. Filmagens em paralelo também foram feitas com o estádio vazio, durante a montagem da estrutura de palco, som e iluminação, e do acesso da platéia aos acentos.

Quem entregava o ingresso na bilheteria ganhava o programa da turnê norte-americana de 1965 intitulado, Beatles Ltd. Era um livreto com formato de LP, a mesma foto utilizada no Beatles For Sale como capa, e na face interna uma série de fotografias promocionais feitas para o disco Help! As bilheterias funcionavam freneticamente, registrando ao final que 55 mil e 600 pessoas haviam passado pelos portões. Somente com a vendagem de ingressos o concerto rendeu 304 mil dólares. O cachê dos Beatles ficou em 110 mil. Todas essas somas eram impressionantes – quebraram todos os recordes à época, registre-se. Quando os Beatles correram para o palco – John, Paul e George cada qual com seu instrumento – o mundo presenciou um momento mágico de arte popular inédito até então.

Brian Epstein estava intratável àquela ocasião. Temia que desse tudo errado, o que exporia de maneira comprometedora a imagem dos Beatles. George Martin opinara que não esperava nada da gravação do áudio. Cerca de um ano antes eles utilizaram a concha acústica do Hollywood Bowl em Los Angeles para a gravação profissional de um concerto e ficaram desapontados com os resultados. No palco todavia – armados com aquelas vintage guitars e esbanjando carisma – os Beatles literalmente arrasaram. Quem estava na platéia ouvia muito mal o som da banda. O que vinha dos retornos dos próprios Beatles também não era escutado. Ringo Starr, como sempre, tocava por mímica, acostumado que era com aquelas canções. O som do concerto, em geral, era "de lata." O ruído da platéia, lembra Neil Aspinall, era assustador. "Ali nós nos convencemos do tamanho exato dos Beatles", diria ele tempos depois.

O evento transformou-se num êxito acabado, completo. Sem exageros pode ser apontado como um precursor. Sempre que um garoto for a um estádio de futebol, ou basebol para assistir ao show de uma grande banda de Rock and Roll, precisará saber que aquilo um dia começou com a ousadia dos Beatles em encarar um desafio que modificaria para sempre até o padrão técnico de sonorização de grandes ambientes pelo mundo afora.



Shea Stadium faixa a faixa
um guia para desmascarar a pirataria em vÍdeo, CD e LP em torno do concerto

O tracklist do Shea Stadium seguia o sistema de trabalho de divulgação estratégica dos Beatles. Lá estava 'Twist and Shout' como garantia de angariar a cumplicidade do público. E singles campeões de vendagem como 'I Feel Fine' e 'Can't Buy me Love'. Mas também havia espaço para a divulgação do repertório novo e que trazia a trilha sonora do filme Help! A única variação ficava por conta da faixa destinada a Ringo Starr. Ele revezava entre 'Act Naturally' e 'I Wanna Be Your Man'. Foi assim ao longo de toda a turnê norte-americana de 1965. Com o material gravado e filmado profissionalmente, a curiosidade dos Beatles ficou incontrolável.

Animados com o sucesso do evento – e as críticas favoráveis da imprensa americana – eles não viam a hora de encerrar logo a turnê e voltar para a casa com o objetivo de ver e ouvir todo aquele material. Em Londres, e juntamente com o produtor George Martin e o empresário Brian Epstein, a audição de Shea Stadium tornou-se decepcionante. Não propriamente pelas falhas humanas, mas por problemas técnicos que impediam a audição do que realmente havia ocorrido no palco. Microfones falharam, e seqüências instrumentais do baixo e guitarras simplesmente não eram ouvidas. Backing vocals "vistos" não eram porém escutados. Como usar isso num futuro especial de TV, conforme estava programado em contrato? A solução – e é incrível que isso tenha sido possível na metade dos anos 60 – foi mexer no resultado original e promover uma pesada sessão de overdubs. O que isso significa? Que o Shea Stadium que temos em LP, CD ou VHS é quase todo falsificado. Infelizmente. No dia 5 de janeiro de 1966 os Beatles foram para os estúdios CTS em Londres – especializado em sonorização para filmagens. Lá, com supervisão técnica de George Martin, eles plugaram as guitarras e refizeram boa parte do tracklist. Olhavam para a tela, e dublavam o áudio que eles próprios produziram. Tudo foi mixado em Abbey Road e virou a trilha sonora desse especial que iria ao ar pela TV BBC no dia 01.06.66, e do qual todos temos uma cópiazinha em casa. Você compreenderá melhor o que aconteceu, lendo à seguir faixa a faixa, a história do evento...

TWIST AND SHOUT: a versão original do filme teve problemas com os backing vocals de Paul & George. Que não se ouve. A solução encontrada para o especial foi usar o áudio da versão tocada no Hollywood Bowl em 30 de agosto de 65. Quando falha a sincronia do áudio, usou-se o velho truque de cobrir-se a falha com imagens da platéia.

SHE'S A WOMAN: esse take é uma raridade. Foi tocado, porém não aparece no filme de 48 minutos exibido na televisão e jamais foi ouvido oficialmente. Nem na pirataria. Nenhum overdub foi feito na gravação, de acordo com as fichas técnicas de Abbey Road e do CTS Studios.

I FEEL FINE: o áudio original foi condenado por George Martin. Não se ouve o baixo, a bateria e os backing vocals. A versão do filme é uma regravação completa. Quando imagem e áudio saem de sincronia, usou-se outra vez o recurso de cobrir a falha com imagens da platéia.

DIZZY MISS LIZZY: Paul McCartney regravou o baixo. Todo o resto é do concerto original.

TICKET TO RIDE: caso raro onde não há presença de overdubs de áudio. É o take original tal como foi tocado.

EVERYBODY'S TRYING TO BE MY BABY: outro mistério. A faixa de George no concerto foi tocada mas não selecionada para o filme. Não foi mexida na sessão de overdubs e – ao tempo do LP pirata – discutia-se entre beatlemaníacos se havia ou não sido tocada. Acabaria lançada oficialmente em 1995. Está incluída no set list do CD duplo Anthology 2. E com soberba qualidade de áudio.

CAN'T BUY ME LOVE: Situação semelhante à de Dizzy Miss Lizzy. Só o baixo foi regravado.

BABY'S IN BLACK: Situação idêntica às de Dizzy Miss Lizzy e Can't Buy me Love.

ACT NATURALLY: mais um grande mistério. Nem nas fichas técnicas dos estúdios informa-se porque optou-se pelo uso do áudio original dessa faixa – retirado do disco – ao invés de se produzir uma regravação. O resultado no filme é desastroso já que é fácil notar falhas na sincronia. Sem falar que o áudio do disco não tem o ambiente do "ao vivo". Há dúvidas se o take como foi tocado existe preservado. No filme o único trecho original aproveitado é o "thank you" que Ringo diz ao final. O uso do áudio do disco é a maior bola fora da produção.

A HARD DAYS NIGHT: não consta que tenham sido feitos overdubs de áudio, porém a gravação desse take ficou totalmente comprometida no filme pelo uso de voice over de George, John, e Brian Epstein. Passa-se boa parte do tempo de execução sem que se possa ouvir com clareza a execução por conta da mixagem das vozes dos Beatles comentando o evento. Nunca se ouviu esse take de outra forma até então.

HELP!: Talvez a maior decepção em Shea Stadium. Isso porque a versão "ao vivo" desse take é uma das melhores que a banda fez. Mas não é real. O áudio original não foi usado. Aquilo que ouvimos no filme é uma regravação total – dos vocais e instrumental.

I'M DOWN: ninguém imaginou que o som de um órgão tocado com os cotovelos por John Lennon seria captado na precariedade técnica do concerto no Shea Stadium. O baixo e o teclado foram regravados para o filme.



Como será o amanhã - Shea Stadium em DVD

Cogita-se muito do lançamento do concerto dos Beatles no Shea Stadium em DVD. Anúncios nesse sentido são freqüentemente divulgados. Mas como será feito? No Projeto Anthology a própria banda deu uma pista negativa. As imagens restauradas do evento são as mesmas utilizadas no especial da TV BBC de 66. O mesmo que é a nossa fonte como colecionadores – tanto em áudio quanto em vídeo.

Ora. É justamente o que não queremos. Minha opinião é de que Shea Stadium precisa chegar até nós à partir dos originais. No disco 1 do CD duplo Anthology 2 tivemos um gostinho do som real do concerto com o lançamento sem máscaras de 'Everybody's Trying to Be My Baby'. Será que houve variação no áudio, ou todas as canções tem aquele som? Prefiro acreditar na segunda hipótese. Há mais. Temos tecnologia suficiente hoje em dia para restaurar e resgatar áudio de gravações antigas. O que significa que aquilo que não se escutava em 1965, pode quem sabe, ser ouvido quase à perfeição nos dias que correm.

Quero ver lançado em DVD duplo se possível, uma produção com a magnitude do Shea Stadium. E para isso não se pode aceitar que a Apple/EMI recorra à falsificação do espetáculo perpetrada há mais de 30 anos. Queremos ainda o resgate de 'She's a Woman', e ouvir como foi o áudio real de 'Act Naturally'. Não é pedir muito. Estamos falando de um evento dos mais representativos da história da música popular. Também não é demais lembrar que todo esse material pirata que nós possuímos, foi retirado desse anacrônico filme levado ao ar em 66 pela TV BBC e repetido à exaustão em vários países – inclusive no Brasil. Ou seja: niguém possui gravação pirata com o áudio original do Shea Stadium. Existe – claro – material produzido à partir da platéia, nos então recém surgidos gravadores cassete portáteis. A qualidade todavia, é tão ruim que jamais chegou em discos. E não há notícia de que tais gravações tenham sobrevivido até os dias atuais. Nem se conteriam o show na íntegra. Hoje, com o domínio que temos da era digital, do dolby 5.1 e das magias possíveis nos estúdios, merecemos que esse concerto um dia seja resgatado exatamente como foi realizado...

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com













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