OS BEATLES NA CAPSULA DO TEMPO
Boxes Mono & Estéreo Digital


Demorou, mas vivemos para ouvir e ver. 2009 ficará marcado como o ano do ingresso dos Beatles na era digital. Um ingresso em grande estilo, como tudo que envolve a história do grupo há mais de quarenta anos, sempre na vanguarda, ditando regras, modas, tendências e o que virá. A maçã em forma de pen drive abrigando toda a coleção em estéreo e o fantástico game Rock Band são provas cabais de tudo isso. Não se pode dizer, entretanto, que os Fab Four foram pioneiros em tudo, pelo contrário. Entraram consideravelmente atrasados no moderno processo de 'remasterização' digital, atraso que acabou sendo benéfico se levarmos em conta que a digitalização caprichada do catálogo chega ao público na hora e no tempo certo. Para deleite geral.

Uma nova era começa com os novos boxes. O presente momento sepulta o passado analógico de forma praticamente definitiva. Tudo o que reclamávamos e apontávamos como erros, equívocos, anomalias as duas caixas corrigiram - ou melhoraram. O esmero envolve primordialmente a sonoridade, o que já seria por si um acontecimento e tanto, mas o material dos Beatles relançado seduz também aos olhos pelas espetaculares embalagens absolutamente repaginadas dos discos no Box estéreo, e meticulosamente tratadas nas reproduções 'vintage' do Box mono. É chegada a hora de aposentar todas aquelas coleções alternativas (sempre piratas) tipo MFSL, Dr. Ebbett's e outras que tinham o propósito de tentar recuperar a partir do áudio de velhos vinis, uma sonoridade mais aproximada daquilo que gostaríamos de obter do som dos Beatles no formato digital. Também podemos esquecer o apressado pacote lançado em 1987 - um erro histórico na transição para a nova era quando a agulha foi substituída pelo feixe de laser.

Não é fácil falar do catálogo dos Beatles se formos nos deter nas minúcias dos lançamentos e relançamentos feitos nesses quarenta anos. Não são poucas as diferenças de mixagem entre países. São incontáveis os erros de edição das gravações ao redor do globo, inclusive em solo inglês. As limitações da mídia vinil em parte são responsáveis por isso. A precariedade técnica também. No Brasil os erros contidos na discografia analógica se tornaram famosos no mundo inteiro. Sem falar nas confusões clássicas dos engenheiros tupiniquins, empurrando ora mixes em falso mono ora em falso estéreo, e até inventando edições!

Quem ouve Beatles desde a era dos long plays (LPs) passou a conviver com os 'defeitos' contidos nos discos como se fossem 'efeitos', e para ficarmos em três casos basta lembrar a versão de Revolution 1 com rotação adulterada tipo pitch doido e oscilante do primeiro Álbum Branco brasileiro. Mesma coisa com o mix de Penny Lane do disco Beatles Forever com aquela incrível falha, um 'pulo' de agulha 'prensado' oficialmente. E a caída de áudio em I'm Looking Through You do nosso Rubber Soul? Em graus maiores ou menores, os fãs se acostumaram com essas peculiaridades. Erros, defeitos e anomalias contidas nos mixes dos compactos de vinil também chamaram atenção ao longo das últimas quatro décadas. E o que dizer da coleção norte-americana da Capitol Records e sua máxima criação, o Full Dimensional Stereo, nome pomposo para justificar a excrescência de se jogar graves para um lado, agudos para o outro, e muito eco no meio, uma inaceitável adulteração dos originais que a Capitol recebia prontos da EMI inglesa.

São fatos de um passado que não se apaga. Os dois boxes que ora se apresentam a curiosidade do mundo estão longe de serem encarados ou minimizados como 'mais do mesmo'. E não precisa ser 'audiófilo' para constatar que os relançamentos têm sim um claro objetivo, levar o mundo a (re) ouvir Beatles daqui para frente como nunca se ouviu antes, agradando os neófitos e os mais calejados. A Apple/EMI não assume isso publicamente, mas a idéia foi em linhas gerais essa mesma. Unificar a forma de ouvir Beatles em todo o planeta. “O que fazia parte da execução ficou. Tudo o que consideramos problema técnico como cliques sibilos, estalos, má edição, quedas no volume tentamos melhorar, ou se possível remover ou consertar”, revela Allan Rouse, o cara que comandou a força-tarefa de engenheiros e técnicos que trabalhou arduamente para restituir a glória de se ouvir Beatles.

A digitalização, segundo a EMI, aconteceu música a música, num processo que dedicou cuidados especiais como nunca antes se fez ao resultado final. Assim, um sujeito como eu com 47 anos de idade e ouvidos treinados - com experiência de ouvir Beatles em compactos simples, duplos, fitas cassete, fitas de rolo, LPs e CDs oficiais e piratas - pode dizer que os remasters são tudo e mais alguma coisa. Não temos mais aquele falso estéreo com um canal predominantemente abafado num dos lados. O volume geral das canções não distorce. Pelo contrário. Experimente sozinho com seu equipamento, aumentar o som prá valer e você perceberá a diferença. Outra questão que entra pelos ouvidos é a nitidez. Mesmo nos dois primeiros discos gravados em apenas dois canais de áudio, o resultado é excelente.

Nesse aspecto vale sempre repisar uma verdade. Os Beatles gravavam muito bem. George Martin sempre será lembrado como o quinto beatle verdadeiramente porque foi ele o cara que teve a sensibilidade exata para capturar em fitas aquilo que aconteceu ao longo de oito anos de história nos estúdios Abbey Road. Se John, Paul, George & Ringo tinham o poder de gerar uma química única na hora de produzir músicas, eles tinham em Martin o homem por trás do mito. Um bom (e polêmico) grau de comparação pode ser feito com os Rolling Stones. Quantas remasterizações do trabalho dos 'rivais' dos Beatles foram feitas? Experimente escutar com atenção a técnica de gravação de álbuns das duas bandas lançados em 1965 e ficará bem simples perceber que os Stones não conseguiram registrar bem o som da bateria, do baixo e das guitarras de um clássico como Let's Spend the Night Together. Compare com You're Going to Lose That Girl, onde Ringo Starr registrou uma bateria espetacular, bem definida e com direito a overdubs de bongôs. Em que pesem todas as dificuldades daquela época para a captura do áudio da percussão. Então essas sutis diferenças também têm um papel na cápsula do tempo. Bem gravados para a posteridade, os Beatles começam uma nova história na era digital. Podemos escutá-los sem medo agora, e sem precisar de comparativos com as versões em vinil, até porque se a origem é analógica, o resultado final a rodar em nosso player é o 'estado da arte' da solução digital.

Também temos à disposição, pela primeira vez na era digital, as mixagens em mono, um luxo de sabor especial porque finalmente saem oficialmente em CD as gravações da forma como realmente importava para os Beatles. Estereofonia na década de 60 era coisa para o futuro, um modernismo que não se sabia se um dia iria de fato 'pegar'. Emissoras de Rádio como a BBC, por exemplo, não as executavam. Também não havia disponível equipamento receptor daquele então novo modelo de irradiação de música. Dessa forma as atenções da indústria fonográfica continuavam voltadas para o sistema monoaural. O mono era o rei. E continuará reinando, porque agora nós fãs já podemos estabelecer comparativos digitais entre as mixagens mono e estéreo da coleção dos Fab Four de Liverpool, numa nova página da história. É por isso que me atrevo iniciar esse trabalho propondo a todos os fãs um ingresso definitivo e com os dois pés na nova era.

Aos mais velhos, um conselho: estamos envelhecendo com essas canções. Mas como elas, temos a missão de não ficar velhos. Nesse caso comece a compreender (e aceitar) o novo mundo que se descortina diante dos olhos e ouvidos. Quando essas gravações foram registradas, não se sabia quanto tempo os Beatles iriam durar. Quem poderia vislumbrar em 1963 (quando Please Please Me e With the Beatles saíram do forno) que um dia, quarenta e tantos anos depois, modernizar a forma de ouvir essas antigas produções sem adulterar sua essência, viraria acontecimento (e exigência) mundial? Não nos custa adotar e compreender o estilo passivo dos técnicos da EMI após a conclusão do hercúleo trabalho de transportar os Beatles para a era digital. Eles nem pensaram na perspectiva do CD. Imaginaram fãs que não tem discos físicos em casa. Trabalharam com o pensamento voltado para aqueles que simplesmente 'baixarão' Beatles para seus iPods e outros sistemas de download. Alguns desses mesmos técnicos brincavam dentro dos estúdios com as guitarrinhas de plástico criadas pela produtora Harmonix como joysticks especialíssimos para se jogar outro sopro de contemporaneidade, o The Beatles Rock Band.

Meu filho de 19 anos jamais utilizou um LP na vida e estranha que se ouvisse música daquele jeito tão precário no passado, empunhando seu mp4 que eu jamais soube ligar ou fazer funcionar. Contei a ele que quando eu tinha 19 anos o mundo perdia John Lennon, e eu fiquei a esperar por meses pelo lançamento do LP Double Fantasy para ouvir as novas canções que o ex-beatle legava ao mundo após cinco anos voluntários de reclusão. Estendi-me um pouco mais dizendo a ele que quando a minha geração tinha 19 anos a gente voltava para casa com o LP novo debaixo do braço, sentava na cama entre as caixas do 'três-em-um' estéreo e colocava o 'bolachão' para rodar enquanto devorava o encarte com as informações técnicas. E também cantarolava as letras das novas canções, quando disponíveis. Não existia download, nem internet. Só as rádios conseguiam por ação geralmente das gravadoras, antecipar algum iminente lançamento.

Esses mundos distintos se aproximam agora diante de uma caixa branca e outra preta, os mixes dos Beatles chegam ao século vinte e um de roupa nova, impecáveis, prontos para adentrar com uma qualidade de 'nunca antes' nos ouvidos de todos. Fãs de ontem e de hoje na mesma cápsula do tempo. Just like starting over...

MONO & ESTÉREO - O QUE É ISSO


Antes de avançar na análise dos 'remasters' a coluna julga necessário repassar informações técnicas básicas sobre os distintos sistemas de som que marcam a produção dos Beatles.

Mono
Monaural, Monoaural ou simplesmente Mono, é o sistema de gravação e reprodução do som em que não é possível perceber as diferentes posições das fontes sonoras, ou seja, todo o som é transmitido por meio de um único canal, também chamado de monofônico. O 'mono' é constituído de apenas um microfone, uma caixa acústica, ou, em casos onde existe mais de um fone ou caixa, eles compartilham o mesmo sinal. O sistema monoaural foi sucedido pelo estereofônico na maioria dos sistemas de entretenimento caseiros, mas a transição foi lenta. Nos livretos do Box estéreo é confirmado que a 'mixagem estéreo' atendia, na primeira metade dos anos 60, somente aos aficionados em áudio e entusiastas da modernidade. A Rede BBC, por exemplo, demorou a veicular música em estéreo na sua programação, seja por não saber se o novo sistema de reprodução vinha para ficar, seja pelo fato de que tanto o sinal emitido pelas emissoras quanto a recepção do áudio nos aparelhos de rádio permanecia em mono.

Num país como o Brasil essa questão praticamente não mudou. A transmissão radiofônica em estéreo só ocorre nas emissoras de Freqüência Modulada (FMs) porque essa modalidade nasceu assim. No sistema tradicional, em Amplitude Modulada (AMs) as transmissões permanecem desde o começo da história do rádio em mono. Mudar esse quadro é uma questão antiga, que pode se resolver com a definição do formato de rádio digital AM/FM. Ainda assim uma cultura terá de ser modificada no país inteiro. Nossas lojas não fabricam receptores de AM em estéreo, nem a maioria das rádios AM opera com transmissor em estéreo. No interior do Brasil e até em determinadas capitais as emissoras ainda utilizam transmissores fabricados na década de 50. O custo para a troca do equipamento é a maior barreira para a modernização do mais popular dos rádios (AM), que permanece em mono. O sistema monoaural também continua padrão em aplicações como radio-telefones, redes telefônicas e aparelhos auditivos.

Estéreo
A palavra 'estéreo' provém do termo grego 'stéreos', que significa "sólido". Em acústica, estereofonia ou simplesmente, estéreo, ou ainda 'stereo' do inglês, consiste num sistema de reprodução do áudio que utiliza dois canais de som 'monaurais' distintos (direito e esquerdo) sincronizados no tempo. É um padrão de reprodução mais moderno que o mono, e começou a operar como sistema alternativo de gravação e recepção de áudio desde 1958. Esse tipo de reprodução sonora foi baseado no fato de que temos dois ouvidos, portanto temos uma audição estereofônica, que nos permite saber se um som vem da esquerda ou da direita e de qual distância provém. Portanto um aparelho de som estereofônico procura reproduzir a posição em que os instrumentos musicais e os cantores estavam no momento da gravação de áudio, sendo muito mais prazerosa a audição que na reprodução monoaural, que provém de um único canal e não tem a 'espacialidade' do estéreo.

Quando um som que está posicionado ao centro dos microfones é gravado, terá o mesmo sinal em ambos os canais durante a reprodução e é escutado um som central (designado de "fantasma" em alguns países, inclusive no Brasil). Ou seja, o som parece vir de um ponto médio entre as caixas acústicas. Os Beatles praticamente inventaram a estereofonia na música popular, não exatamente por adotarem o sistema, já que preferiam o mono. O que passou a chamar a atenção neste caso foi o padrão de mixagem seguido pelo maestro George Martin. Com poucos canais para 'encaixar' a riqueza da produção sonora da banda, ele usava técnicas engenhosas para duplicar ou triplicar o espaço, fazendo cópias das produções iniciais de uma fita para outra. Posteriormente reunia tudo na mixagem final. Na montagem dos discos em estéreo a distinção do instrumental (ou parte dele) de um lado, e os vocais de outro se tornou mundo afora a maneira mais simples e mais direta de se compreender o mono e o estéreo.

Trocando em miúdos, O som mono você escuta de uma fonte sonora só. Mesmo que tenha varias fontes, estas são apenas repetições da primeira. O estéreo escuta-se de no mínimo duas fontes. O som de uma das fontes é ligeiramente diferente da outra. O resultado, grosso modo é uma sensação pequena, mas significativa, de que o som que se ouve é espacial.


NUNCA CONFUNDIR REMASTERIZAÇÃO COM REMIXAGEM


Os Beatles não precisavam de remixagem. Nem foram remixados nos dois boxes mono e estéreo. Experimentalismos sonoros como os contidos nos CDs Yellow Submarine Songtrack, Let it Be Naked e LOVE são parte de outro processo e atendem expectativas as mais variadas (e perigosas), como brincar de inventar em cima do que é perfeito e encarado mundialmente como marca registrada. Havia uma enorme expectativa para a sonoridade que os discos relançados apresentariam questão que foi debatida pelos fãs em todo mundo e super ampliada com o advento da internet. Na nossa afamada Lista Beatles Brasil o assunto rendeu por meses, e foi-se intensificando com a proximidade dos relançamentos.

Outro fato que para nós do Beatles Brasil precipitou o debate foi motivado por um de nossos camaradas. O português Luis Pinheiro de Almeida (LPA) foi convidado para uma audição exclusiva em Abbey Road de uma prévia do material que viria nos dois boxes. As 'impressões preliminares' que ele dividiria com a Lista logo depois, acenderam o fogo do debate, gerando um brilhante texto produzido pelo maestro Beto Ianicelli - o qual reproduzo como contribuição global para a compreensão daquilo que você recebeu ao adquirir seus CDs da nova coleção remasterizada.

"Esqueçam o Termo Remixagem"
Por Beto Ianicelli
Não se deve confundir "remasterização" com "mixagem". No caso dos Beatles, o que é indispensável (há pelo menos 15 anos) é a remasterização, que atua exclusivamente no Left - Right (canais de áudio à esquerda e à direita) e não nos multitracks. Mexer nos multitracks seria uma heresia absoluta. Isso é inadmissível até por quem detém acesso aos masters (vide Martin's Family).

A compressão que você ouve nos áudios dos Beatles é uma das maiores responsáveis pela chamada sonoridade beatle! É impossível imaginar "sonoridade beatle" sem compressão. E mais: esse recurso era indispensável na época para que se conseguisse maior 'punch' e normalização, fosse no 'ensamble' geral (LR) fosse em situações multitracks isoladas (principalmente a bateria a partir do LP Revolver). O que faz a sonoridade beatle ter a pressão sonora 'fodida' que tem é justamente a compressão. Sem ela, o som seria outro. Vale salientar que é a compressão que permite que a sonoridade tenha dinâmica. E essa sonoridade é referência até os dias de hoje. E deve permanecer intocável.

Tomemos por base o contrabaixo do Paul. Até o LP Help, não tinha a mesma inteligibilidade que adquiriu a partir do Rubber Soul. A falta de inteligibilidade do baixo não tinha relação alguma com compressão, até porque a compressão contundente mesmo só começou a ser aplicada depois do Rubber Soul (com o uso de aparelhagem Farchild 660 e 666). Essa deficiência se devia, dentre outros fatores, à maneira como o baixo era captado versus ausência de recursos que transferissem os graves de forma real e fiel, a partir do amplificador. Não vou entrar em méritos técnicos, mas era esse o problema.

O nível dos backings é uma questão de gosto e, no caso dos Beatles, muito mais do que isso, era uma questão de padrão estético definido e pretendido. Alterar a distribuição do panorâmico (PAN ou balanço) seria o mesmo que jogar no lixo um padrão que é um marco da sonoridade beatle a qual, volto a repetir, é referência até hoje, e que subverte os clichezinhos tradicionais de posicionamento panorâmico adotado a partir dos anos 80. Tente encontrar qualquer estilo, a partir dos 80, em que você tenha voz, ou batera, ou baixo, pendurados de um lado só. Não vai achar! Esse conceito era extraordinário! Principalmente pelo paradoxo que esse método apresentava: um equilíbrio perfeito que é conseguido no resultado LR final em termos de audição.

Existe uma diferença enorme entre algo se tornar audível (LOVE, Naked ou Yellow Submarine Songtrack) sem alterar a gênese sonora. Foi isso que aconteceu com os citados discos. Alguns aspectos ficaram mais audíveis? Claro! Conseguiram isso sem macular a gênese sonora? NÃO! Claro que isso pode ser uma questão de gosto, mas, para mim, o timbre de um 'baixo Macca' tem que ficar audível, ou com mais 'punch' sem que a freqüência sonora sofra uma vírgula de alteração. Ou seja, aplicação de filtros para que se traga essa sonoridade pra frente com qualidade, sim! Alterações no espectro sonoro original? NÃO!

Em síntese, a remixagem altera (ou PODE ALTERAR) modifica, subverte (não importa se pra pior, ou melhor) o original. A remasterização pretende dar mais visibilidade, transparência e qualidade ao original, sem subverter sua matriz. Finalizando, esqueçam o termo remixagem do catálogo! Isso NÃO PODE E NÃO DEVE ACONTECER NUNCA. Um bom trabalho de 'remasterização' é suficiente para que os ganhos sejam sensíveis, desde que garantindo a manutenção de um dos maiores tesouros da história da música, a sonoridade beatle.


BREVE FAIXA A FAIXA (Sampleado) DOS ÁLBUNS EM ESTÉREO


"Please Please Me"

Este foi o primeiro LP dos Beatles que eu comprei com o dinheiro da minha parca mesada em janeiro de 1979, nas inesquecíveis férias na Praia do Cassino, em Rio Grande (RS). Num passeio pela cidade eu comprei três discos: Please Please Me & Help dos Beatles e um compacto duplo do Eagles com Hotel California. Fiquei encantado naquela época com o 'calor' das vozes e do instrumental dos Beatles. Como aquilo soava límpido, único, arrebatador aos ouvidos de um garoto então com 16 anos de idade. Meu primeiro Please Please Me foi um exemplar em estéreo, contendo aquele envelope interno de papelão com as capas dos demais álbuns impressas dos dois lados, e o selo azul piscina, um dos muitos 'logos' da Odeon brasileira.

Só a passagem do tempo, a melhoria dos equipamentos sonoros e o avanço tecnológico exporiam com clareza a limitação do áudio daquele LP. E agora? Como minha referência sempre foi a versão em estéreo, nunca gostei da edição mono em CD de 1987. O pecado mais visível (audível) daquele período eram os fades que simplesmente 'cortavam' pedaços das músicas. A capa borrada, algo opaca também decepcionava. O que se comentava em 1987 era o tanto que a 'redução' para CD tirava das embalagens dos discos dos Beatles o brilho e a atenção causada pelas capas dos LPs. A nova coleção remasterizada restitui espetacularmente até esse detalhe. O Please Please Me do século 21 em estéreo tem uma capa dupla retrabalhada para o formato CD que se abre em três partes, inclui um livreto com fotos contextualizadas por datas e textos, num capricho que salta aos olhos. Isso é padrão em todos os demais discos da nova série.

O que dizer da sonoridade? Este 'senhor' de 46 anos nasceu num console de apenas dois canais, gravado em clima de 'ao vivo', numa sessão iniciada às dez da manhã e finalizada depois das onze da noite. Boys, por exemplo, só teve um take gravado e considerado perfeito por todos. Até a chegada dos remasters o melhor Please Please Me aos meus ouvidos era a versão 'estéreo' Dr. Ebbett's passada do vinil para o CD. A realidade agora dispensa aquele exemplar. O que se podia fazer para equilibrar o balanço foi feito. Mesma coisa se pode dizer da redução possível de ruídos. Não temos mais aquele som ligeiramente abafado de um lado, e mais claro do outro como nos antigos vinis. Nem o som sem brilho dos CDs de 1987. Ouvir esse 'remaster' com fones de ouvido também significa uma nova experiência.

Destaques

I Saw Her Standing There
A 'intro' (1,2,3,4) está mais alta e tem menos ruído de fundo. O som aos meus ouvidos soa 'quente' como nos LPs. Nas duas caixas acústicas do meu aparelho o áudio sai nítido como nunca.

Anna (Go to Him)
Esta faixa é um bom teste para aumentar o volume e curtir o efeito claro da voz de John de um lado e o instrumental do outro, com aquele 'calor' das velhas audições, só que com mais qualidade. Baixo e bateria chamam a atenção.

Chains
Um dos equívocos mais clamorosos dos mixes de 1987 está resolvido aqui. O fade out vai até o final como nos acostumamos a ouvir no LP estéreo, com a diferença de que o nível de ruído melhorou bastante.

Please Please Me
A versão estéreo soluciona quase à perfeição o atropelo da gaita sobre a voz de John, uma questão que tem a ver com erros da mixagem original de 1963. A EMI não explica porque a versão final deste mix estéreo vem de dois takes diferentes, um deles contendo erro de John ao cantar a frase: "... I know you never even try girl...” Ele parece dizer “I don't” em vez de “I know”. O balanço nunca me soou tão bom.

Love me Do
A gravação em mono original com edição panorâmica para simular estéreo já soava boa no LP estéreo. Está ainda mais nítida aqui.

Baby It's You
Destaque para o balanço entre os canais, perfeito a meu ver, preservando bem a sonoridade beatle. Ao final está solucionado o problema do fade out, permitindo ouvir até o fim a frase, 'don't leave me all alone/c'mon home/cause baby it's you'.


"With THE BEATLES"

A idéia básica deste segundo LP era seguir detalhadamente a fórmula do primeiro. Faixas como Money, por exemplo, foram escolhidas porque no entender da banda causavam o mesmo efeito de Twist and Shout. Minha primeira audição 'adulta' por assim dizer, desse disco se deu no final dos anos setenta. A experiência também foi com um LP estéreo nacional prensado pela Odeon. Sempre me pareceu com sonoridade inferior ao Please Please Me, embora poucos meses de gravação separem um do outro.

Na cabeça dos fãs com pouco conhecimento em 1979 havia uma confusão danada, porque os mais antigos chamavam esse disco de Beatlemania. Outros diziam que se tratava do Meet The Beatles americano. O fato é que o primeiro ponto arrebatador para mim foi a capa com aquelas quatro cabeças em preto e branco saindo da penumbra. A reprodução para CD nesta coletânea remaster é tão perfeita que devolve até o prazer de ficar observando a embalagem como a gente fazia 'nas antigas' com o LP na mão. O 'novo' álbum também tem capa dupla que se abre em três partes com livreto, liner notes e muitas fotos contextualizadas. Até a data e a locação dos cliques é informada ao comprador. Adentrando ao disquinho com selo original vintage da Parlophone inglesa temos a grata satisfação de encontrar solução para velhos problemas.

Destaques

It Won't Be Long
O 'calor' desta grande composição nos foi devolvido à perfeição possível neste remaster. Resolveu-se o problema do volume e principalmente da breve caída de áudio num dos canais. O balanço permite ouvir tudo com inédita nitidez.

Till There Was You
Destaque especial para a 'limpeza' sonora do violão solo de George Harrison e dos bongôs adicionados por Ringo. A voz de Paul também ganha em nitidez.

Please Mr. Postman
O acerto no balanço dos dois canais e a diminuição de ruídos beneficiou sobremaneira esta composição. A forte vocalização dos Beatles aqui se apresenta clara. Fade out ligeiramente melhorado em relação aos antigos LPs.

Roll Over Beethoven
A bateria e o contrabaixo ganharam um destaque extra neste cover definitivo do clássico de Chuck Berry.

I Wanna Be Your Man
Redução pesada dos ruídos no canal com os backing vocals e 'o acerto' no volume e no balanço melhoram a audição.

Money (That's What I Want)
Na minha avaliação, essa era uma das faixas mais difíceis de ouvir ao tempo do velho vinil. Na condição de 'gravação mais pesada' dos Beatles até então, sofria com ruídos e problemas no balanço dos canais na versão estéreo. Tudo devidamente melhorado.


"A Hard Days Night"

Esse álbum tinha um charme extra para os Beatles e para os técnicos de gravação, quando foi lançado. Afinal, era o primeiro gravado numa mesa de quatro canais, o que garantia uma sonoridade melhor em relação aos dois primeiros lançamentos. Nesse estágio a mixagem 'moderna' dos Beatles começou, incluindo as sessões de overdubs e a utilização do chamado 'bouncing down', recurso em que o material básico inicialmente gravado nos quatro canais era copiado para outra fita, abrindo espaço para a inclusão de novos overdubs. 'Peguei' este AHDN no final dos anos setenta. A capa brasileira era caso único no mundo. O disco aqui não se chamava A Hard Days Night, mas Os Reis do Ié Ié Ié, numa referência ao titulo 'brazuca' do primeiro filme dos Fabs.

Creio que para todos os colecionadores de LPs esse álbum marcou pelo incrível defeito de sua mixagem no nosso país. Um dos canais era absurdamente 'abafado' na versão em estéreo. Na edição dos anos sessenta (mono) não havia este problema. Nos anos setenta e oitenta era raro encontrar um exemplar importado do A Hard Days Night. Assim, a solução era ouvi-lo com sua péssima qualidade. Aquele e outros problemas de volume e ruídos estão definitivamente resolvidos na linda edição remaster do álbum repaginado com lindas fotos, liner notes, capa dupla e livreto que pode ser resumido como o disco que definiu o chamado 'som dos Beatles', marcado pelo timbre da guitarra Rickenbacker de 12 cordas, largamente utilizada por George Harrison a partir daqui.

Destaques

I Should Have Known Better
Ouvir essa canção em verdadeiro estéreo é prazeroso, notadamente pela redução dos ruídos no canal esquerdo.

If I Fell
Até o 'eco' deste grande duo vocal de John & Paul ganhou a solução possível agora.

I'm Happy Just to Dance With You
Talvez a canção que mais ganhou com a remasterização. A 'limpeza' e o equilíbrio do som adicionam ao mix original o mesmo 'fogo' da versão utilizada no filme AHDN.

And I Love Her
Está imbatível essa faixa na versão remaster e a meu ver é uma prova de que se em 1964 a estereofonia engatinhava, a mixagem de George Martin antevia que o futuro do som passaria pela utilização permanente de dois canais distintos de áudio.

Tell me Why
Essa canção apresentava problemas até de rotação em alguns mixes antigos de vinil. Está tudo resolvido satisfatoriamente aqui.

Things We Said Today
O momento em que a canção 'cresce' com a adição de um pandeiro nunca foi tão delicioso de escutar nesta versão estéreo.

I'll be Back
Os fãs dos anos setenta preferiam ouvir o mix dessa canção no álbum duplo Love Songs, porque soava melhor. Na presente remasterização destaque para a nitidez vocal e instrumental.


"Beatles For Sale"

Este álbum arrebatava qualquer um a partir da foto da capa, algo impressionante aos olhos no tempo do LP. A cuidadosa transferência para um formato menor de CD é de tal maneira perfeita neste digipack - cuja capa dupla que se abre em três partes -, que o Beatles For Sale recupera o brilho na versão remasterizada a partir da maravilhosa embalagem. Se eu fosse resumir esse álbum, diria que é o disco das guitarras Gretsh, com George Harrison usando e abusando dos timbres e levadas country de craques como Carl Perkins. É o quarto disco da 'caixa' a aparecer pela primeira vez em estéreo. O som da bateria de Ringo Starr é o destaque, assim como o baixo de Paul McCartney. Mas há mais. As vozes estão com maior presença, assim como a 'clareza' do som.

For Sale é de um tempo em que a banda enfrentava uma cruel maratona de shows, eventos, apresentações no rádio e na TV - e concorrência de outros grupos egressos da própria 'invasão britânica'. De certa forma, o álbum poderia ser encarado como um passo atrás, onde novamente o grupo voltava a mesclar material dos outros com suas próprias composições. Mas não é o que acontece quando se ouve o resultado final. Algumas cover versions entraram para a história como 'definitivas' e o material inédito criado pela dupla Lennon-McCartney avançava, evoluía, apesar do tempo cada vez mais escasso para lapidarem-se composições.

Destaques

No Reply
Logo de cara a experiência de ouvir a abertura do For Sale em estéreo desbanca para sempre a equivocada versão mono de 1987.

Baby's in Black
Uma fiel representante do som dos Beatles ganha em sonoridade com a nova versão remasterizada. Até o fade out parece soar ligeiramente mais longo.

I'll Follow the Sun
Outro belo exemplo do trabalho de remasterização com a melhoria espetacular do volume entre canais.

Rock'n'Roll Music
Ouvir de fone de ouvidos essa versão estéreo remasterizada permite, entre outras coisas, checar o fôlego especial de John Lennon para o 'cover' definitivo do clássico de Chuck Berry.

Eight Days a Week
O inventivo 'fade in' soa perfeito, e de fato agora é ouvido desde a partida da chave de volume da mesa de som.

What You're Doing
A remasterização só reforça o papel de Ringo Starr e Paul McCartney na 'cozinha' sonora de uma banda chamada The Beatles. A nitidez do baixo e da bateria encantam.

Everybody's Trying to be my Baby
Nem Carl Perkins tocava tão bem Carl Perkins quanto George Harrison. A versão estéreo desse clássico remasterizado expõe com clareza o som incendiário das guitarras Gretsh, num balanço perfeito com a pulsação do baixo e da bateria.


"Help"

Este álbum abriu uma nova era na produção dos Beatles, quando foi lançado. Embora o ritmo da banda continuasse repetitivo, levando-os quase em tempo integral à rotina de aviões, hotéis, palcos, aparições no rádio e na TV, sessões de fotos e correrias, havia uma preocupação clara com a qualidade musical. Se por um lado os Beatles estavam cada vez mais populares no mundo inteiro, seus concorrentes diretos procuravam diversificar. Os Rolling Stones, por exemplo, atraíam muito público para o rhythm and blues que produziam.

E a cena rockeira de Londres efervescia, com o surgimento crescente de novos nomes. Se a função de 'Help' era ser trilha sonora do segundo filme dos Beatles, por outro lado foi o primeiro LP onde a preocupação em 'lapidar' as canções no estúdio marcou as gravações. A roupagem sonora resultou, por exemplo, em Yesterday, uma ousadia que diferenciou os Beatles de tudo que vinha sendo produzido no rock'n'roll até então, quando as guitarras cederam lugar aos violinos. E há outros sons diferenciados a marcar os arranjos de faixas como I Need You e You've Got to Hide Your Love Away, para citarmos apenas duas. Outro destaque é a capa dupla repaginada com um lindo livreto que consegue entregar fotos raras e/ou inéditas do set de filmagem de Help.

Destaques

The Night Before
Há uma notável limpeza dos vocais e clareza nos canais de áudio.

You're Going to Lose That Girl
Destaque para o ganho de qualidade da percussão (batera, bongôs) e do som do baixo de Paul.

Act Naturally
As sutilezas do arranjo desta canção foram absolutamente realçadas pelo processo de remasterização.

It's Only Love
Quanto mais qualificada é a sonoridade do arranjo, maior é o benefício da versão remasterizada.

Dizzy Miss Lizzy
A confusão sonora desta gravação escalada para ser a 'Twist and Shout' do Help está definitivamente resolvida. Ficou mais 'limpa' a audição do vocal e do instrumental.


A Polêmica das Mixagens 1965 e 1987 dos Álbuns Help & Rubber Soul

A transição de Help para o formato digital pela primeira vez em 1987 acabou sendo alvo de muita polêmica, pela decisão tomada por George Martin de 'mexer' na mixagem original de 1965, criando outra, mais moderna, digamos assim. E porque ele fez isso? É uma história que vale a pena ser contada. O maestro sabia que uma nova era para a audição do som dos Beatles se iniciaria com o relançamento dos discos em CD. No entendimento dele seria interessante remixar as versões em estéreo para corrigir algumas imperfeições da era analógica, ao tempo em que daria um ar mais atual ao som no formato digital. Depois de (re) ouvir todas as mixagens da primeira fase do grupo ele observou que o material precisaria de uma cuidadosa remasterização para retornar ao mercado. Particularmente Martin achava que os quatro primeiros álbuns (Please Please Me, With The Beatles, A Hard Days Night e Beatles For Sale) mereceriam intervenções mais pesadas. Afinal, a concepção daquelas gravações originalmente foi para o mundo analógico em mono. O que fazer em 1987? Não se podia simplesmente transpor as fitas para a era digital do CD sem consertar algumas coisas, levando-se em conta o acesso em larga escala do áudio em alta resolução oferecido pelos compact discs.

Essa era a teoria. Na prática, a EMI queria promover logo o lançamento para pegar carona no 'boom' do consumo de CDs em todo globo. De cara a gravadora descartou logo um trabalho mais apurado de remasterização ou mesmo remixagem dos quatro primeiros discos, porque levaria muito tempo. George Martin insistiu, mas foi voto vencido inclusive junto à Apple. Neil Aspinall também era favorável à chegada imediata do catálogo dos Beatles em CD. Não se sabe o que pensavam Paul, George e Ringo.

Na condição de responsável maior pelas gravações, George Martin ponderou que seria uma temeridade expor ao mercado as mixagens em estéreo sem retrabalhá-las. Sugeriu então para o relançamento em CD que os quatro primeiros álbuns fossem publicados em mono digital, pelo fato de que ele estava satisfeito com a qualidade daqueles mixes. Corria velozmente nessa ocasião o ano de 1986. A demora em tomar as decisões gerou problemas para a EMI, que queria os Beatles em CD nas lojas no natal. Não foi possível. O catálogo relançado acabou saindo em fevereiro de 1987.

26 de Fevereiro de 1987
Naquela ocasião, a poderosa rede de lojas HMV de Londres expôs em suas vitrines boxes inéditos dos Beatles com o título "The First Four", com os primeiros quatro lançamentos em CD. Todos em mono. Enquanto o mundo debatia as razões do desprezo às versões em estéreo, a EMI alegava 'problemas técnicos'. George Martin dizia que os primeiros álbuns tinham concepção em mono e assim deveriam ser ouvidos na era digital. Ambas as visões foram naturalmente ensaiadas pelas partes, mas não convenciam os fãs. A maioria era favorável aos 'stereo mixes'. O impacto da primeira leva de CDs também foi planejado. Serviu para dar tempo a George Martin para 'mexer' do jeito que planejara em pelo menos dois álbuns, Help e Rubber Soul. Como eles só sairiam em CD em abril de 1987, daria tempo de remixar e remasterizar com mais calma. Sir George comunicou à Apple/EMI que não havia problemas com as versões em estéreo a partir de Revolver, e então 'atualizou' a mixagem dos dois citados discos. Eles chegariam ao mundo em estéreo digital pela primeira vez (juntamente com Revolver) no dia trinta de abril de 1987.

1965 ou 1987?
Os críticos da remixagem realizada por George Martin em Help e Rubber Soul acusaram que os discos estavam com uma sonoridade anos 80. Trata-se de um exagero e, a meu ver, uma injustiça. A maior diferença entre um mix e outro está na adição de uma espécie de eco e reverberação que não estavam presentes (de forma tão proeminente) nos mixes estéreo dos anos 60. Quando foram anunciados os remasters 2009, a primeira dúvida a gerar debates entre os fãs mundo afora foi acerca das mixagens de Help e Rubber Soul. Optariam pelas originais ou reutilizariam “remixes inferiores de 1987 para o catálogo principal”? - indagou num breve editorial a revista Rolling Stone de novembro de 2008.

Opino sem medo de errar que ninguém tem o direito de contestar uma decisão de George Martin. Particularmente eu aprecio as duas mixagens e não consigo observar relevantes diferenciações entre elas. Se for para escolher uma das duas fico com a de 1965 por considerada-la 'mais Beatles, mais sessentista', melhor integrada à seqüência clássica da coleção. Mas isso não deslustra a 'atualização' feita por Martin se levarmos em conta que ele não cometeu nenhum sacrilégio, não reposicionou instrumentos nem vocais, por exemplo. Intervenções dessa monta foram feitas nos mixes preparados para o relançamento do álbum 1962/1966 em CD em 1993 e na época ninguém chiou, vale registrar.

Polêmica dos Mixes na Era dos Remasters
As primeiras informações dando conta que os remasters 2009 manteriam os mixes de 1987 para Help e Rubber Soul contribuíram para reacender a polêmica do final da década de oitenta. Debates passaram a ocorrer em sites, blogs, twitter, jornais e emissoras de rádio, ao ponto de chamar atenção da dupla Jeff Deminski e Bill Doyle, famosos apresentadores de um talk show radiofônico da Detroit's Classic Rock Station (FM 94,7 WCLX) nos EUA. Eles entrevistaram Giles Martin, filho de George Martin, por telefone ao vivo direto de Londres por vinte minutos. O produtor começou esclarecendo que não fazia parte da equipe contratada pela Apple/EMI para preparar os remasters. Conversa vai, conversa vem e Giles finalmente jogou uma luz que se tornou a versão oficial para a reutilização dos remixes de 1987 nos remasters.

Giles Martin explicou que estava no estúdio remixando as músicas que seriam usadas no game The Beatles: Rock Band, enquanto em paralelo a equipe do engenheiro Allan Rouse tocava o projeto remasters. Com Deminsky & Doyle ouvindo em silêncio, Giles Martin afirmou: "Rubber Soul e Help foram remixados por meu pai em 87 para CD. E quando fizemos LOVE, pegamos Yesterday, e eu não podia entender porque havia tanto eco e reverberação na voz porque a meu ver isso não soava como Beatles. Foi quando tempos depois eu ouvi os remasters e perguntei aos técnicos: como isso aconteceu? Eles disseram: estamos remasterizando as versões de 1987 de Help e Rubber Soul. E eu perguntei por que não estavam remasterizando os originais de 1965? E eles: seu pai não ficaria muito feliz se não trabalhássemos nas versões que ele fez nos anos oitenta. Então eu fui ao meu pai e disse: você se importa se eles remasterizarem as versões dos anos 60? Ele respondeu: eu nem me lembro de mexê-las nos anos 80”!

Como não há razões para duvidar da palavra de Giles Martin o que se pode perceber é que de fato George Martin não ficaria satisfeito se o trabalho por ele produzido em 1987 fosse jogado no lixo com a produção dos remasters. Allan Rouse - que não é bobo - disse em uma entrevista à revista Record Collector o seguinte: "os remasters foram baseados nas fitas master, com exceção de dois álbuns: Help e Rubber Soul. As pessoas estão questionando o porquê da decisão. Eu lhes digo que George Martin é o quinto beatle. Ele escolheu assim. Vocês podem questioná-lo, mas eu não”.

Feliz solução encontrada para um projeto definitivo como o dos remasters. Não poderia ser mais acertada. Na caixa mono temos À disposição, e como faixas bônus, os 'mixes estéreo' originais de 1965, adicionados aos álbuns Help e Rubber Soul. Vale lembrar aos que por uma razão ou outra não pretendem adquirir a caixa mono, que esses bônus só estarão à venda naquele formato.

"Rubber Soul"

Quando você coloca este CD remasterizado para tocar e se senta no sofá em frente ao som - formando um triângulo entre seu corpo e as caixas de som - ouvirá um áudio espetacular. A separação e a clareza entre os instrumentos soam perfeitas. Não há como negar a gostosa sensação de ouvir em detalhes coisas como a curvatura da linha de baixo de Paul, a bateria de Ringo, percussões, violões e a vocalização. Talvez os mais frios até sustentem que isso tudo sempre esteve lá, o que não deixa de ser verdade, mas na versão remaster tudo é mais nítido e mais vivo. E aqui estamos falando da versão 'caixa preta', portanto, do mix de 1987. Rubber Soul é o verdadeiro divisor de águas da carreira dos Beatles. Nele a banda partia para uma redefinição (diria evolução) de seu som, sem que o mundo à época se apercebesse bem disso. O álbum avançava no refinamento da sonoridade, flertava com outras culturas musicais e se apresentava indiscutivelmente como o disco de maior personalidade feito pelos Beatles até então, uma produção concebida do jeito que desejaram.

Chegar a isso não foi fácil. Do lado de fora dos estúdios rugia a beatlemania e a indústria da música fumegava a todo vapor, cada vez mais disposta a vender discos acima de tudo. Os Fab Four pareciam cansados daquela roda viva e ao misturarem pop, rock, soul e folk no mesmo caldeirão, entregavam aquele que seria o álbum mais adulto de sua carreira até a data. Mais que isso, Rubber Soul definiria os rumos que seriam tomados pela banda que ali se despedia sem alarde dos primeiros tempos da beatlemania. Em termos de embalagem, a versão remaster mantém o padrão das demais, com sutis diferenças. As fotos utilizadas são em sua maioria do material promocional da época, e, portanto, conhecidas. Nos livretos dos álbuns anteriores têm mais fotos raras ou inéditas. Registro ainda a inclusão de um pequeno deslize, um clique registrado em 1964 durante a gravação do promo para I Feel Fine, está fora do lugar em Rubber Soul.

Destaques

Norwegian Wood
Destaque para o som da cítara em parceria com o arranjo que inclui violão e outras sutilizas realçadas como nunca.

You Won't See Me
A nitidez da percussão neste take é mais uma prova da relevância de Ringo Starr na 'pulsação' do som dos Beatles.

The Word
Difícil uma canção soar mais 'moderna' que essa, não pelo remix de 1987, mas pela inventividade de seu arranjo realçado agora.

What Goes On
O balanço do áudio num canal e noutro salta aos ouvidos.

In my Life
Com esta versão remaster não será mais preciso recorrer, por exemplo, aos mixes da coletânea 1962/1966 para ouvir o balanço perfeito desta canção e de outras, como Girl e Drive my Car.

I'm Looking Through You
Todos os históricos problemas de caída de áudio e sibilos estão definitivamente solucionados.


"Revolver"

Se havia uma despedida não declarada da beatlemania no disco anterior, com este os Beatles pularam definitivamente para fora dos palcos e se tornaram uma banda de estúdio disposta a priorizar a qualidade do material que passariam a produzir, sem preocupações com o interesse maior da indústria, que queria vender. A vantagem de deixar os Beatles fazer as coisas como quisessem vinha da constatação de que valia a pena arriscar. Eles eram Midas e em 1966 a impressão era que qualquer coisa que produzissem seria avidamente consumida mundo afora. 'Revolver' tinha os mesmos trinta e poucos minutos de duração dos discos anteriores e também apresentava catorze canções como os demais. De resto sua concepção era completamente diferente. Para produzi-lo foram necessárias 300 horas de estúdio - três vezes mais que Rubber Soul. Era tanto tempo que George Martin pediu aumento salarial à EMI, que se recusou a pagar. Sem problemas. O maestro deixaria a folha de pagamento da gravadora, abriria sua própria empresa e emprestaria seus serviços aos Beatles e à EMI pela via de um contrato de trabalho mais rentável para ele.

'Revolver' surgiu num tempo de descobertas. Os estúdios de gravação pareciam ser os ambientes mais modernos e tecnológicos do planeta e explorar suas possibilidades era uma missão. A utilização de instrumentos nunca antes incluídos em discos de rock'n'roll, além da adição de trucagens de áudio com fitas tocando ao contrário e sons os mais estranhos levavam os engenheiros de som a comentar que aquilo não poderia ser reproduzido em shows ao vivo. Os Beatles não excursionariam mais. Mandariam os promo vídeos - que praticamente inventaram - no lugar deles. Não precisariam mais dos palcos, se exibiriam ao mundo em imagens gravadas para a mídia do momento, a televisão. E quem quisesse ouvir os novos Beatles, que comprasse os discos.

Destaques

Eleanor Rigby
Um dos arranjos mais inventivos da história ganha fôlego novo na versão remasterizada.

Love You To
É possível que o tom lúgubre desta canção tenha atingido seu ponto exato de audição agora neste relançamento.

She Said, She Said
Marcante registro da bateria de Ringo num de seus melhores trabalhos. A definição e o balanço dos canais beneficiam a percussão. Particularmente adoro o som dos pratos.

For no One
Problemas como o antigo som abafado e a falta de nitidez das sutilezas do arranjo estão resolvidos.

Dr. Robert
Ouça alto as guitarras - aqui e em And Your Bird Can Sing.

I Want to Tell You
Você nota a diferença de qualidade sonora a partir do fade in e fade out, que 'alongam' o take levemente, fazendo-nos ouvir a música da forma como o arranjo foi pensado.

Got to Get You Into my Life
Recebi e-mails de fãs 'desapontados'. Achavam que a versão remaster nos levaria a ouvir uma estrepitosa 'virada' da bateria. Quantos ainda acham que aquilo é um defeito quando se trata de um efeito? O charme daquela bateria - agora muito mais nítida - está em fugir do óbvio que seria a mixagem na altura padrão para fazer sobressair a virada. Isso qualquer um faria.


"Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"

A reedição deste álbum é a mais luxuosa da caixa estéreo. A capa se abre em três partes no formato digipack como todas as demais, porém o livreto e as 'liner notes' são maiores e há um número superior de fotografias. É o único dos livretos a incluir um texto redigido em 2008 por Paul McCartney, comentando as origens do disco. Finalmente a famosa capa do LP Sgt. Peppers foi retrabalhada de forma a não perder o brilho e a qualidade na redução para CD. Se a embalagem está perfeita, é no conteúdo que o novo Peppers sobressai. A qualidade sonora do revolucionário álbum gravado em quatro canais de áudio atingiu o estado da arte. E faz jus à sua importância não somente no contexto da carreira dos Beatles, mas como peça fundamental da história do rock. Não duvido que a declaração de Paul McCartney sobre os remasters - "agora é possível ouvir do jeito que ouvíamos nos estúdios" - tenha sido dita após a audição deste Peppers. A transposição do analógico para o digital foi cuidadosamente preparada e o resultado a ouvido nu (ou de fones de ouvido) é o encontro com uma qualidade nunca ouvida antes.

A clareza da percussão e dos instrumentos tradicionais empresta ao ouvinte um prazer único ao (re) escutar essas antigas gravações. Antigas? Difícil algo mais contemporâneo que Sgt.Peppers Lonely Hearts Club Band com sua concepção (parto) de nove meses de duração e incontáveis horas de depuração no estúdio. O álbum que alçou definitivamente os Beatles ao topo do mundo é tão rico, tão inventivo que a cada audição dele agora remasterizado temos a impressão de sempre descobrir algo novo, sobretudo para quem é da geração dos sulcos dos vinis.

Destaques

Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band
With a Little Help From my Friends

Impossível não citar as duas logo de cara, porque a partir do fade in você mergulha numa nítida viagem sonora. A voz de Paul, os backings, a pulsação do baixo e da bateria. O caleidoscópio sonoro começa nessas duas canções.

Lucy in the Sky With Diamonds
A espacialidade do fade out parece que não vai acabar nunca mais, criando uma perfeita atmosfera de transposição para Getting Better.

She's Leaving Home
A idéia de misturar singeleza com um grandioso arranjo vocal e instrumental talvez tenha tornado esta a composição mais beneficiada pela remasterização digital. Com um detalhe: nas liner notes se admite que a versão 'estéreo' esteja com o andamento errado (falha da mixagem) em relação à mono.

Being For the Benefit of Mr. Kite
Atente para o som dos pratos de Ringo Starr na hora da valsa do 'Henry o Cavalo'. Maravilhosos.

Within You Without You
O tom grave da mais indiana das composições gravadas pelos Beatles até a data ganhou novos contornos com a 'limpeza' e o 'balanço' sonoro da remasterização.

Good Morning Good Morning
A mixagem do som dos bichos ao final da canção é o destaque. Ficou mais clara a audição. Não há mais atropelos, mas a possibilidade de diferenciar os ruídos de cada animal utilizado.

A Day in the Life
A remasterização desta faixa é prova de que a estereofonia, embora experimental nos anos 60, veio para ficar. A referência para este clássico é o mix estéreo. Não há mais distorções nem tropeços da transposição da orquestra (fade in, fade out mais bem resolvidos) que funciona como uma verdadeira 'ponte' a juntar os dois pedaços distintos da composição.


"Magical Mystery Tour"

Magical Mystery Tour nem era um álbum quando surgiu originalmente em 1967. Na Inglaterra (e no Brasil) chegou ao mercado como um raro disco duplo - na realidade dois compactos de vinil, cada qual com três músicas. Vinham encartados numa luxuosa embalagem com um encarte de fotos incríveis, capturadas durante as filmagens da produção concebida para a televisão. Nos EUA o álbum duplo em forma de single foi rejeitado pela Capitol Records. As músicas com a trilha sonora do terceiro filme dos Beatles acabaram distribuídas na América em compactos simples. Nos anos setenta a Capitol teve uma idéia luminosa. Adicionou mais músicas (faixas de 1967 não disponíveis em LPs) e transformou o álbum duplo compacto num long play. A capa multicolorida (e maior, mais nítida) adicionada do livreto de 24 páginas de fotos das sessões do filme encantou os fãs. A EMI gostou da idéia e incorporou o LP MMT ao catálogo oficial. Por isso ele virou CD em 1987 e 'remaster' no conteúdo da caixa preta.

A nova embalagem desta versão 'estéreo' resgata o brilho multicor da capa do antigo LP. No padrão das demais, se abre em três partes. O famoso livreto de fotos e textos do filme virou um item avulso anexo, não mais encartado junto à capa. E ganhou ampliação por conta de novas liner notes e a inclusão de mais fotografias. O selo Capitol emoldura o novo CD. E contém um erro incrível, apesar do padrão de qualidade dos remasters. No selo se anuncia como bônus: 'Let it Be Mini Documentary', falha impressa nos discos avulsos vendidos no Brasil e nos que integram o box estéreo. Vale o registro de que o erro é na grafia. O documentário contido no CD é sobre o Magical Mystery Tour. Em termos de conteúdo pode-se afirmar que é um produto seqüencial a Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, até porque suas gravações originais começaram a ser feitas uma ou duas semanas após o lançamento daquele disco.

Destaques

Magical Mystery Tour
O impacto desta faixa só aumentou com a versão remaster.

The Fool on the Hill
Este clássico de Paul McCartney foi beneficiado pela remasterização, que permite uma audição perfeita dos ricos detalhes contidos no arranjo.

Flying
Eu sempre fui cismado com o som deste instrumental nas versões em vinil e nos CDs antigos. Agora é possível saborear a concepção com sua hipnótica percussão e sons estranhos.

Your Mother Should Know
Esta gravação recheada de toques eruditos em seu arranjo também ganhou um novo brilho na versão remasterizada. Recomendo uma audição de fones de ouvido.

I'm the Walrus
A viagem sonora de John Lennon ganhou um 'peso' extra e teve solucionado em definitivo os problemas de balanço entre um canal e outro, sobretudo ao final, quando a faixa fica girando de um lado e outro do estéreo.


"White Album"

O novo Álbum Branco na versão remaster estéreo se diferencia dos demais porque é o único que vem dentro de um slip case. Como se trata de um disco duplo, a capa se abre em quatro partes e na face interna encontramos a reprodução de cada uma das famosas fotografias individuais em cores de cada beatle, item avulso da versão em LP. A nova capa tem quatro luvas, duas delas para abrigar os CDs e outras duas destinadas respectivamente ao livreto com um número expressivo de fotografias contextualizadas por data e locação (como nos discos anteriores), letras das canções e liner notes. Na quarta luva, uma reprodução do pôster psicodélico.

A nova edição alia, portanto, tradição e modernidade ao mesmo tempo, e nos entrega dois compact discs com som estupendo, 'vestidos' com o legendário selo Apple. No disco 1 a maçã em close e no disco 2, cortada ao meio. Algum inconveniente nesta linda embalagem? Bom, é um tanto trabalhoso tirar os discos de suas respectivas luvas. É necessário cuidado e paciência para evitar arranhões e até a possibilidade de 'rasgar' ou danificar a capa. Se você for cuidadoso não terá problemas, vale registrar.

De nada adiantaria uma linda embalagem se o som não fosse o melhor do pacote. O Álbum Branco remasterizado corrige problemas clássicos. Questões como irregularidades no volume e nos canais foram resolvidas ou melhoradas. Há agora no novo White Álbum um padrão de 'peso' que faltava na versão 1987. O disco dos Beatles com a mais diversificada sonoridade ganhou vida nova na versão 'estéreo' beneficiando os ouvidos mais sensíveis. É uma produção para escutar de forma meio ritualística, sem barulho por perto ou interferências externas. Recomendo uma audição solitária de fones de ouvido para você realmente sentir a coisa. E entender também que o fim dos Beatles começaria nas individualidades explicitadas no Álbum Branco.

Destaques

Back in the USSR/Dear Prudence
Duas faixas que sofriam na era do vinil com irregularidades de volume. Que foram resolvidas. A 'transição' de uma faixa para outra se dá com uma suavidade perfeita.

Glass Onion
O som desta gravação está mais 'encorpado' por assim dizer, com o baixo de Paul pulsando como nunca.

The Continuing Story of Bungallow Bill
A historinha contada por John teve o arranjo valorizado pela nitidez de audição propiciada pela remasterização do disco.

While my Guitar Gently Weeps
O balanço e a pulsação desta faixa ficaram tão bons que o desejo que dá é o de ouvir a fita master sem edição nem fade para saber até onde Eric Clapton foi com aquele antológico solo.

Happiness is a Warm Gun
A limpeza dos vocais e backing vocals durante a seqüência, "when I hold you..." chama por demais a atenção.

Martha my Dear
Esta é uma canção que se pode avaliar como resgatada pela versão remaster estéreo. Ouça para compreender.

Don't Pass me By
Essa foi uma das faixas mais difíceis de gravar nas sessões em 1968, e particularmente eu nunca gostei dos transfers estéreo. Neste remaster temos um perfeito balanço do mix. Também foi resolvido o problema da variação da rotação.

Long Long Long
Livre dos cliques e sibilos do vinil - e das limitações daquela mídia - a versão remaster digital desta faixa permite-nos ouvir exatamente o que George pretendia transmitir. A bateria com volume bem mais alto que o restante do arranjo está de arrepiar.


"Yellow Submarine"

A idéia com Yellow Submarine foi ocupar espaço no mercado fonográfico em 1969, enquanto os Beatles não apresentavam um novo álbum de inéditas. O disco prometia abrigar a trilha sonora do revolucionário desenho animado idealizado por Al Brodax, mas não cumpriu o prometido no todo. A maioria das canções utilizadas como soundtrack (faixas do Rubber Soul, Revolver e Sgt. Peppers) não aparece aqui.

Com a presença da faixa título e de All You Need is Love, anteriormente publicadas, o novo LP chegou ao público com uma capa psicodélica e apenas quatro faixas novas. Por outro lado, teve a ousadia de lançar sete gravações do 'original score' - músicas compostas e arranjadas por George Martin. Yellow Submarine foi o primeiro álbum dos Beatles mixado exclusivamente em estéreo. As versões mono existentes (a brasileira inclusive) nada mais são que a combinação dos dois canais 'estéreo' em apenas um, ou seja, falso mono.

A versão remasterizada apresenta o mesmo padrão de capa que se abre em três partes distintas - cuidadosamente planejada para o formato de embalagem de CD. Um livreto com 'liner notes' sobre o filme e as gravações acompanha a embalagem, com um detalhe curioso: é o único a não conter fotos dos Beatles, mas os desenhos dos quatro utilizados na animação.

Destaques

Yellow Submarine
Mix ligeiramente diferente da versão publicada em Revolver.

Only a Northern Song
Canção retrabalhada especialmente para a trilha sonora do desenho animado. A versão original (1967) ficou fora do álbum Sgt. Peppers. A sonoridade desta faixa salta aos ouvidos, revelando todas as múltiplas sutilezas criadas em estúdio.

Hey Bulldog
Este é o registro histórico de um dos últimos momentos de pura descontração da banda ao produzir uma canção. Perfeito equilíbrio de voz de um lado e instrumental pesado do outro agora. Se você ouvir este mesmo take em Yellow Submarine Songtrack entenderá bem o que significa remixagem.

It's All Too Much
A 'viagem' de George Harrison tinha mais de oito minutos de duração em sua versão sem cortes. Para publicá-la no LP Yellow Submarine foi 'limada' uma estrofe inteira. O resultado da versão remaster é impressionante, considerando que a atmosfera dessa música é a perfeita tradução sonora de uma 'acid trip'.

Original Score by George Martin
Perfeição absoluta. Uma das grandes performances dos anos 60 dividida em sete faixas distintas. Todas integram o 'original score' do filme. Inegavelmente os takes foram beneficiados pela remasterização, que revela a beleza dos arranjos dos mixes.


"Abbey Road"

Quem imaginava que não existissem mais cliques inéditos da chamada 'última série' de fotos dos Beatles se surpreendeu logo de cara com o livreto da edição remasterizada de Abbey Road. Ele nos oferece fotografias diferentes ou de ângulos nunca antes vistos, para aguçar nossa curiosidade em saber quantas imagens foram capturadas naquele último encontro do dia 22 de agosto de 1969.

Abbey Road foi o primeiro CD dos Beatles. Antes mesmo do lançamento da coleção remasterizada em 1987 a subsidiária Toshiba/EMI do Japão lançou um exemplar experimental (hoje raríssimo) no dia 21 de maio de 1983. A embalagem incluía um livreto de vinte páginas com as letras das canções em inglês e japonês. Problemas legais com a Apple tiraram o disco de catálogo. A EMI acusou que o som do álbum era péssimo. Fãs japoneses sustentam que não. Há quem diga que este mix de 83 superaria em muito o de 87. O fato é que na tentativa de restituir a glória de ouvir bem Abbey Road, a pirataria entrou em cena com seus Mobile Fidelity ou Dr. Ebbett's e os resultados de fato superaram a acanhada versão EMI/Apple - não exatamente com resultados satisfatórios - afinal os Ebbett's buscavam a perfeição reprocessando para os CDs o áudio analógico tirado diretamente de fontes de LPs.

Tudo isso virou passado, página virada da história da beatlemania com este remaster. Abbey Road agora é o que é. Um álbum de despedida em que todos deram seu máximo pelo conjunto final da obra. Uma produção onde esforços não foram medidos na busca pela perfeição, tornando este disco com justeza o preferido de George Martin e de muitos que percebem que justamente no ponto em que romperam os Beatles se achavam no auge como músicos no plano individual, e no cume da montanha do 'rock'n'roll' enquanto conjunto. O empenho deles em fazer uma despedida magistral torna Abbey Road cada vez mais épico com a passagem do tempo, 40 anos depois. Reouvi-lo remasterizado agora é um mergulho mágico na concepção real de um trabalho feito para permanecer contemporâneo, moderno, incólume ao envelhecimento. O canto do cisne do rock voltou com roupa de gala e pela primeira vez pode ser escutado com todo brilho, peso e presença. Abbey Road parece fadado a se metamorfosear sempre, adaptando-se ao hoje, ao amanhã e ao futuro.

Destaques

Come Together
Encarar essa faixa como apenas um rock básico de John Lennon impede a avaliação de suas sutilezas sonoras e o verdadeiro oceano de overdubs a que foi submetida. Baixo e bateria se destacam na faixa preferida de George Martin.

Maxwell's Silver Hammer
A gravação mais trabalhosa do disco, e com mais efeitos sonoros. Ganhou realce na nova versão.

Oh! Darling
Outra gravação beneficiada pelo 'peso' da correta transposição para o mundo digital, com problemas de volume corrigidos em definitivo. Nunca se ouviu com tanto prazer a rascante guitarra solo de um lado e o piano 'martelante' do outro lado do estéreo.

I Want You (She's So Heavy)
Talvez a faixa mais beneficiada pela remasterização. Os problemas de volume e de 'atropelos' da edição analógica não existem mais.

Here Comes the Sun
A remasterização permite compreender melhor porque George Harrison demorou tanto a finalizar seus dois clássicos contidos nesta derradeira produção dos Beatles.

Because
Ouvir a faixa eminentemente vocal transportada para o universo digital sem os ruídos de fundo tornou a audição desta uma experiência absolutamente nova.

Abbey Road Medley
A gente já não chama mais esse conjunto de faixas editadas de 'lado dois' de Abbey Road, como no tempo do vinil. Fico pensando em como George Martin recebeu este remaster e precisamente o que achou deste ponto perfeito do disco.


"Let it Be"

Ethan Russell, o famoso fotógrafo de celebridades, não teve o nome creditado no encarte do novo Let it Be, só na contracapa do CD. A razão é simples: a Apple é dona dos cliques e Russell foi muito bem pago pelo álbum de fotos que produziu com exclusividade para o livro Get Back em 1969, documentando o dia-a-dia dos ensaios e das gravações do último filme dos Beatles. O registro que fez dos flagrantes históricos contribuiu para agregar prestigio e fama à sua carreira. O material dele é uma viagem estática à última tentativa de levar os Fab Four a trabalhar com a mesma unidade e disposição dos primeiros tempos.

O Let it Be remasterizado também tem uma capa que se abre em três partes, com um belo livreto de fotos e liner notes. Quanto ao conteúdo, apesar de todos os problemas das sessões, passa incólume pelo padrão de qualidade dos Beatles. Contém alguns dos maiores clássicos da banda e é produto da modernidade, tendo sido gravado na mesa de oito canais e mixado exclusivamente em estéreo. As versões monoaurais existentes se resumem à junção dos dois canais 'estéreo' num único, criando mais um falso mono. A remasterização corrigiu problemas de edição e de balanço nos canais, e melhorou o volume geral. Talvez seja o remaster mais bem resolvido do pacote.

Destaques

Two of Us
Temos um som limpo e bem equilibrado nos dois canais a partir da frase inicial gritada por John Lennon.

Dig a Pony
É engraçado ouvir aquilo que conhecemos tão bem com qualidade superior de áudio. Destaque para o som dos solos de George.

Across the Universe
Finalmente o mix oficial ganha uma qualidade sonora inédita. A melhor versão desta faixa era, até então, a incluída no álbum coletânea dupla, 1967/1970.

I've Got a Feeling
Melhor que ouvir a versão remasterizada deste clássico, só o prazer de imaginá-la com este som nas imagens do rooftop concert. O mesmo vale para One After 909. Continuamos esperando pelo lançamento do Let it Be em DVD.

For You Blue
Destaque para a nitidez do som de violões e guitarras.


"Past Masters 01 & 02"

Aqui temos na realidade uma mistura de estéreo e mono na caixa preta. Ou nem tanto assim. Apenas quatro faixas mono originais (Love me Do, She Loves You, I'll Get You e You Know my Name) aparecem dessa forma nesta coletânea, já que não existe mix em estéreo das mesmas. A concepção deste volume é herança de 1987. Naquela época o relançamento digital da coleção dos Beatles foi uma boa oportunidade para contextualizar os singles, que até então estavam espalhados em dezenas de coletâneas ao redor do globo - nenhuma incluindo toda a produção originalmente lançada nos compactos de vinil entre 1962 e 1970.

A versão em LP do Past Masters era dupla. A versão em CD foi dividida em duas partes, Volumes 1 & 2. A presente edição remasterizada recuperou a boa idéia da década de oitenta, agrupando num álbum duplo todos singles dos Beatles. O item mantém o padrão da nova coleção, ostentando uma capa que se abre em três partes e a inclusão de um livreto com fotos de toda carreira da banda e liner notes.

Coube ao lendário produtor da Rádio BBC, Kevin Howlett, assinar os textos. Ele procurou analisar a inserção histórica de cada faixa, posição em termos de sucesso e o papel que teve na ocupação de espaço entre um LP e outro.

Destaques

Love me Do (Original Single Version)
A gravação mais antiga unindo John, Paul, George & Ringo abre a coletânea com uma qualidade surpreendente para sua idade.

From me to You
Versão 'estéreo' com equilíbrio correto entre os canais, o que não ocorria na maioria das versões publicadas nos LPs.

Thank You Girl
Essa é a bossa da coletânea, porque a versão aqui apresentada é a, digamos assim, 'americana'. Ou seja, o mix estéreo que inclui trechos extras de harmônica inexistentes na versão mono.

She Loves You
O que pôde ser feito para 'ajeitar' os problemas de edição desta versão oficial foi realizado pela equipe de Allan Rouse. Com resultados absolutamente satisfatórios.

I Call Your Name
O problema de variação do áudio entre um canal e outro que se notava em alguns antigos vinis da coleção brasileira e de outros países foram corrigidos aqui.

She's a Woman
A simplicidade e o balanço desta gravação nunca soaram tão bem aos ouvidos nos dois canais 'estéreo' quanto agora.

Yes It Is
Um dos grandes prazeres da audição dos remasters, fiel representante do padrão de qualidade dos Beatles. Só eles para relegar uma faixa desta qualidade a um 'B' side.

We Can Work It Out
Todo o peso da harmonia vocal e instrumental soa claro nos dois canais de áudio.

Rain
Destaque desta versão remasterizada para um dos clássicos trabalhos de bateria de Ringo Starr. Ouça alto.

Across the Universe
Até os backing vocals de Lizie Bravo e Gayleen Pease soam mais claros neste take.

Old Brown Shoe
Essa gravação ganhou peso extra neste novo contexto.


Entrevista Allan Rouse

Ao Jornal The Examiner (UK)
Por Steve Marinucci
Trad. Cláudio Teran


Allan Rouse trabalha na EMI desde 1971, onde começou como engenheiro assistente em um 'demo studio' instalado no escritório de Manchester. Trabalhou ao lado de uma figura lendária, Norman (Hurricane) Smith, o primeiro engenheiro de som dos Beatles, e foi ganhando espaço na companhia por seu apego a detalhes de gravações e ouvido privilegiado. Em 1991 foi-lhe confiada a missão de copiar todos os master tapes dos Beatles (mono, estéreo, 2, 4 e 8 canais) para gravação digital com o objetivo de garantir um backup seguro. Logo depois passou quatro anos trabalhando como assistente de Sir George Martin e coordenou o documentário The Making of Sgt. Peppers. Na seqüência, atuou em projetos como os CDs Live at BBC e Anthology.

Foi Rouse, juntamente com o principal produtor musical de Abbey Road na atualidade, Guy Massey, que preparou a versão 5.1 surround e estéreo do CD Yellow Submarine Songtrack, em 1999. Yoko Ono também recorreu aos préstimos dele e Allan Rouse liderou a equipe que trabalhou na remasterização de diversos álbuns do catálogo de John Lennon que foram relançados. E o homem fez muito mais. Foi ele o engenheiro por trás do áudio dos documentários Gimme Some Truth e Lennon Legend editados em DVD. Se alguém acha pouco, saiba: o currículo de Allan Rouse também inclui atuação nas reedições de áudio das seguintes produções: The Beatles First US Visit, Help e The Concert For Bangladesh em DVD; e ainda os CDs Let It Be...Naked e LOVE. Precisa mais? Coube a ele comandar a equipe com Guy Massey, Simon Gibson, Sean Magee, Sam Okell, Steve Rooke e Paul Hicks, que remasterizou digitalmente toda a coleção dos Beatles em mono e estéreo. Uma semana antes do 09.09.09 Allan Rouse concedeu a seguinte entrevista ao Examiner.

QUANDO FOI QUE O PROJETO DOS REMASTERS COMEÇOU A SER DISCUTIDO? E QUANDO VOCÊS INICIARAM E FINALIZARAM O TRABALHO?
A idéia foi debatida longe de Abbey Road inicialmente. O projeto em si começou em 2005 e terminou com a aprovação final da Apple e da EMI no comecinho deste ano (2009).

ONDE O TRABALHO FOI FEITO?
Todo o trabalho foi feito nos estúdios Abbey Road.

PORQUE AS PESSOAS CONVIDADAS PARA OUVIR AS PRÉVIAS DO MATERIAL REMASTERIZADO CHEGARAM A ABBEY ROAD COM A EXPECTATIVA DE OUVIR UM NOVO YELLOW SUBMARINE SONGTRACK?
Por conta de uma percepção errada. O projeto Yellow Submarine Songtrack foi um remix que exigiu a volta aos originais multi-track tapes para que pudéssemos recriar um novo estéreo e 5.1 surround para a trilha sonora do filme. Foi o mesmo caminho que utilizamos para criar os DVDs do Help e da série Anthology e dos CDs Naked e LOVE. Os remasters provêm dos master tapes originais dos anos sessenta e por causa disso não poderíamos remixar. Então nosso trabalho se resumiu a um aprimoramento e aperfeiçoamento do que já existia, ou seja, estamos falando da mixagem original.

ENTÃO O QUE VOCÊS FIZERAM?
Tanto quanto possível, nós melhoramos, aperfeiçoamos o material na tecnologia digital desde o primeiro lançamento em CD nos anos oitenta. A nova tecnologia nos permitiu remover ou reparar falhas técnicas das gravações e eu lhe dou alguns exemplos: coisas como edição errada, sibilos, estalos, ruídos de fundo e outras anomalias nós corrigimos. Ruídos que são parte da 'performance' dos Beatles como os provenientes da respiração ou dos lábios dos rapazes, ficaram lá. E eventuais 'derrapadas' instrumentais também. Finalmente equalizamos o material onde foi necessário para aumentar o volume do som.

QUAIS FORAM AS INSTRUÇÕES BÁSICAS QUE VOCÊS RECEBERAM PARA INICIAR O PROJETO REMASTER?
Nenhuma. O grupo de trabalho contratado é que se reuniu para traçar uma metodologia de atuação. Isso feito, consultamos a EMI e a Apple Corps para que aprovassem. E eles aprovaram.

O QUE O SENHOR CONSIDEROU O MAIS DURO DOS DESAFIOS TECNOLÓGICOS NA HORA DE REMASTERIZAR AS GRAVAÇÕES DOS BEATLES?
Reconhecer que era impossível executar mais mudanças que a tecnologia de hoje permite. Tivemos de assimilar com tranqüilidade que nosso papel não era remixar nem inventar nada, mas dar uma contribuição para melhorar o que já existe e só.

QUAL FOI A REAÇÃO DE PAUL, RINGO, YOKO & OLIVIA DIANTE DO TRABALHO QUE VOCÊS FIZERAM?
Nós não tivemos contatos diretos com eles. Quando nossa equipe concluiu que tínhamos atingido os resultados esperados com a remasterização, preparamos CDs que foram enviados a eles para avaliação. Para nossa satisfação recebemos como resposta que estava tudo ok e que deveríamos continuar.

QUAIS GRAVAÇÕES DERAM MAIS TRABALHO, AS INICIAIS PELA IDADE DOS PROJETOS E A PRECARIEDADE DOS REGISTROS OU AS GRAVAÇÕES FINAIS POR SUA COMPLEXIDADE?
Nenhum álbum ou take foi mais desafiador que outro, mas o tratamento dispensado a eles mudava de acordo com as mudanças da música dos Beatles e o caminho que levou a gravação e lançamento deste ou daquele disco ou canção. Por isso optamos por trabalhar de forma cronológica, levando a equipe de trabalho a avançar de acordo com a progressão do som dos Beatles.

QUAIS GRAVAÇÕES, EM MONO OU ESTÉREO, PROPORCIONARAM MELHORES RESULTADOS NA REMASTERIZAÇÃO?
Em virtude de as gravações em mono receberem originalmente maior atenção na mixagem, tivemos de avaliar meticulosamente questões como equalizá-las, por exemplo. Até porque os problemas técnicos dessas gravações eram menores. Nos estéreos foi diferente porque não foram poucos os takes com sérios problemas de volume entre um canal e outro, e pior que isso, registramos casos sérios de interferência instrumental sobre a vocalização na separação Left Right. O grande espaço entre instrumental e vocal também foi um problema na hora de equalizar tudo. Então em outras palavras posso lhe dizer que foi bem mais simples 'remasterizar' os monos. O trabalho com os mixes estéreo ocupou duas vezes mais tempo da equipe.

OS ORIGINAIS MULTI-TRACK MASTERS DOS BEATLES FORAM TRANSFERIDOS PARA COMPUTADOR COM O OBJETIVO DE LIMPAR O CHAMADO 'TAPE HISS'?
Não. Raramente tentamos remover o tape hiss nas versões mono e estéreo dos remasters, e quando isso foi feito usamos de muita sutileza, eu diria astúcia mesmo, e apenas para reduzir o nível de ruído, não para remover. Diria a você que uma quantidade inferior a um por cento do catálogo recebeu esse tratamento.

VOCÊS DE ALGUMA FORMA CONSERTARAM PROBLEMAS NO 'PANORÂMICO' (PAN) DOS ESTÉREO MIXES?
Isso só teria sido feito se tivéssemos trabalhado com os multi-tracks, o que não foi o caso.

COMO VOCÊS TRABALHARAM COM A COMPRESSÃO/LIMITAÇÃO DOS MIXES?
Nós fizemos intervenções no material estéreo, mas com cautela. Especialmente o nível médio dos mixes foi elevado em 3-4 dB para fazer uma melhor utilização da janela dinâmica do CD. A idéia foi garantir um som mais alto e mais nítido, então tivemos que trabalhar focados no padrão de audição atual, e ao mesmo tempo atentos para não comprometer a dinâmica. Nos remasters mono não foi necessário elevar os níveis.

COMO O FÃ COMUM PODE DIFERENCIAR COM CLAREZA, O TRABALHO DOS REMASTERS DE PRODUÇÕES COMO O 'LOVE' E THE BEATLES ROCK BAND?
'LOVE' e The Beatles Rock Band foram criados usando-se master tapes gravados em 2, 4, e 8 canais. No caso do Rock Band, trabalhamos para recriar os mixes originais estéreo, deixando a separação por canal no formato exigido por um game musical. 'LOVE' não foi só um remix surround e estéreo, foi também uma criação que combinou 'instrumental e vocais' de um título dentro de outro, resultando num material de característica única. Os remasters por sua vez são os mixes originais dos anos 60 em mono e estéreo, criados por George Martin, Norman Smith, Geoff Emerick, Ken Scott, Phil McDonald, Glyn Johns e é claro os Beatles. Nosso trabalho, repito, se resumiu em melhorar a recepção digital, garantindo a melhor audição possível.

COMO VOCÊS FIZERAM PARA EQUALIZAR TODO ESSE MATERIAL, FOI DE FORMA INDIVIDUAL OU POR ÁLBUM?
Cada take gravado pelos Beatles foi individualmente tratado, e não poderia ser diferente. Seguimos o mesmo padrão. As diferenças do baixo entre uma canção e outra, por exemplo, foi levada em conta. Tivemos que trabalhar em alguns casos aumentando e em outro reduzindo freqüências. Uma porção mínima de faixas deixou de ser equalizada porque no momento da transferência digital avaliamos que o resultado estava satisfatório. Noutros tantos casos, não. Respondendo diretamente à sua pergunta, digo que o trabalho para atingir os objetivos traçados exigiu tempo, paciência e individualidade, por isso atuamos sem pressa, uma música após a outra, em ordem cronológica, até completar a remasterização.



"THE BEATLES MONO BOX"
A Cereja do Bolo


"Por que mono?", pergunta Kevin Howlett na abertura do texto do livreto que acompanha a caixa 'The Beatles in Mono', edição limitada que completa o pacote da coleção relançada. Sim, por quê? Se de um lado os stereo remasters dos Beatles representam a contemporaneidade de sua música, garantindo a renovação permanente dos fãs, os mixes em mono são a história viva, a tradição, herança indelével dos anos 60. A caixa mono singelamente branca é menor e chama menos atenção que a caixa estéreo cor preta. Só que ao abri-la nos deparamos, a partir do visual, com uma detalhada viagem no tempo. A embalagem enche os olhos porque devolve o prazer de manusear os velhos LPs, até por acondicioná-los na vertical. A concepção buscou meticulosamente copiar as capas, contracapas, encartes, posters, tudo dos long plays tal como saíram originalmente. A única coisa que não vem são justamente discos de vinil nos mini LPs, porque o acesso às gravações se dá pela moderna tecnologia digital. Pela primeira vez no pós-analógico, todos os mixes em mono são agrupados num pacote único e entregues magistralmente remasterizados para nossos ouvidos.

Quando digo, 'nossos', estou me referindo aos fãs mais calejados, aqueles que começaram a ouvir Beatles nos LPs. A idéia com a caixa mono busca essas pessoas. Não é uma coleção para neófitos, também não é para a meninada que jamais comprou ou botou para tocar um bolachão na vida. É um compêndio musical para os fãs adultos, ou muito iniciados na coisa. Só estes compreenderão o valor e o prazer nostálgico de encontrar os álbuns acondicionados em plásticos transparentes que protegem as capas de papel duro e poroso. Somente nós entendemos o que significa um disco acondicionado num envelope de papel acompanhado de um saquinho de plástico feito sob medida e concebido para guardar adequadamente um tesouro. Só os fãs de sempre tem a exata noção de saborear digitalmente o som dos Beatles enquanto observam aquelas capas, contracapas, encartes, liner notes, fotografias, enfim, um monte de histórias de vida e de passagem do tempo fielmente reproduzidas nas edições mono. A produção cuidadosa não esqueceu sequer de um dos símbolos da audição analógica dos vinis, e incluiu nos CDs aqueles segundos de silêncio que antecediam uma faixa e outra, detalhe que gerava instantes de ansiedade e expectativa pela próxima música. Por tudo isso é que a caixa mono é a cereja do bolo. Por isso saiu em edição limitada, e por isso custa mais caro.

Nem a EMI nem a Apple confirmam por quanto tempo a caixa permanecerá em catálogo. O que se sabe é que quando os remasters estéreo forem editados em versões 'normais', este pacote não será relançado. O item sem dúvida é especial. Não há livretos individuais nos CDs em mono, só um livreto assinado por Kevin Howlett com saborosos detalhes técnicos de fácil assimilação e notas explicando as diferenças entre as mixagens estéreo e mono. Também não há mini-documentários individuais nos CDs nem o pacote vem acompanhado de um DVD bônus como ocorre na caixa preta estéreo. Tudo muito tradicional, portanto.

Mais uma vez cabe a pergunta: mono por quê? O Rádio nos anos sessenta era predominantemente AM mono. A gurizada da época não possuía acesso portátil à música como nessa era dos downloads, mp4 e iPods. Som em casa, aliás, era coisa dos adultos, ou seja, dos pais. Os jovens ganhavam LPs e ouviam nos toca-discos mono (geralmente as velhas electrolas ou radiolas) com uma única fonte de som. E na sala de estar das residências. Não havia sequer fones de ouvido e a música, até a invenção do estéreo, era um produto para ouvir 'no ar'. Então, se emissoras de rádio em mono eram a principal fonte de acesso à música e se os aparelhos de som caseiros também eram em mono, a mixagem de discos tinha de ser monoaural. Por isso os Beatles priorizavam esse sistema. Quando as gravações eram finalizadas, George Martin e equipe - juntamente com os próprios Beatles em muitas ocasiões - montavam imediatamente o mix em mono. O estéreo vinha depois e nem sempre com o mesmo capricho dos monos. Isso explica porque na história dos Beatles existem sutis e significativas diferenças entre um padrão sonoro e outro.

Há todo tipo de situação entre uma e outra mixagem. Faixas que foram editadas de maneira diferente, casos em que são mais curtas (Helter Skelter mono, um minuto menor) ou mais longas (Helter Skelter estéreo), e situações incríveis como o histórico erro em She's Leaving Home, quando um acidente teria ocasionado uma queda na rotação deste take na versão estéreo do Sgt. Peppers. Por anos a fio pensava-se o contrário, que a rotação alterada para cima, seria a do mix mono. O significado - e o valor - dessas diferenças vai depender do nível de conhecimento do fã. Não entro no mérito de qual dos dois sistemas seria o melhor porque sempre desejei ter as duas mixagens à disposição. Meu referencial também sempre foi os discos em estéreo, já que foi neles que conheci o som dos Beatles. Só que, ao mesmo tempo, é ótimo sentar hoje e escutar o 'Revolver' em mono e se aperceber da quantidade de diferenças. Mesma coisa em discos como o Álbum Branco ou particularmente Sgt. Peppers.

No padrão atual de audição sonora aponto que é bem menos interessante ouvir Beatles em mono de fones de ouvido. Numa situação assim os estéreo são imbatíveis pelo efeito de escutar coisas de um lado e de outro da cabeça. Já nos mixes em mono não ocorrem alguns erros históricos de edição contidos nos estéreo - e incontornáveis em certos casos. Tem ocasiões em que os mixes estéreo são mais 'quentes' do que o mono e vice-versa. Partindo do princípio de que o leitor comprará a caixa mono e fará sua avaliação pessoal, optei por escolher dois discos de fases distintas para uma breve análise.

"Please Please Me - mono"

O primeiro álbum dos Beatles em mono estabelece um padrão seguido por todos os demais nesse sistema: os sons vêm do meio, considerando que temos uma única fonte sonora. A mixagem se apresenta bem resolvida, disfarçando as limitações da época. O modelo de gravação aqui apresentado (dois canais) seria abandonado logo após o registro do segundo álbum.

Destaques

I Saw Her Standing There
A energia adolescente incendeia esse mix, marcado pelo peso do baixo Hofner, mas com um detalhe: o som do baixo é mais furioso por assim dizer, na versão em estéreo, porque é mais fácil escutá-lo e acompanhá-lo nos canais em separado.

Anna (Go to Him)
A voz do John parece mais cristalina em mono, embora o baixo e a bateria estejam mais contidos pela mixagem em fonte única.

Chains
Situação semelhante à descrita acima. A versão mono beneficia a voz de George Harrison nesta gravação. O fade out está perfeito.

Please Please Me
Essa incendiária gravação é uma das minhas favoritas de toda a discografia dos Beatles. A versão em mono supera a estéreo a partir da própria introdução. Não há atropelo da harmônica sobre a voz de John. O mix final em mono é de um take único, diferente do estéreo que vem de dois takes distintos. No livreto do Box Mono, Kevin Howlett aponta os erros contidos no stereo mix.

Love me Do
O som encorpado desta gravação apresenta como diferença o fato de que no Please Please Me mono não existe o 'panorâmico' para simular estéreo como no PPM da caixa preta.


"Revolver - mono"

Este é o disco preferido de muitos fãs pelo ciclo que encerra e abre na carreira do grupo. Ele se situa justamente no auge do estágio criativo dos Beatles. Foi registrado no equipamento de quatro canais, como a maioria dos álbuns da banda. As diferenças entre os mixes mono e estéreo presentes em todos os álbuns são mais perceptíveis a partir deste.

Destaques

Taxman
O som do baixo e da percussão soam diferentes em mono, mais secos, pesados. E mais altos. O volume da guitarra também está significativamente mais alto, tanto que o 'ponteio' que George vai fazendo ao longo dos trechos cantados se mistura com a voz dele.

I'm Only Sleeping
O solo de guitarra invertida entra bem antes na versão mono. O som do solo também é ligeiramente mais alto.

Love You To
Temos na versão mono um fade out melhor que na estéreo.

Yellow Submarine
A diferença óbvia é a voz vinda do meio no mix mono. Atenção para detalhes como a 'intro' e o som dos efeitos marítimos mais altos, que formam uma verdadeira 'cama' para a voz de Ringo na primeira parte. O backing de John Lennon berrando frases como 'life at ease' também recebeu tratamento significativamente distinto do estéreo.

She Said She Said
Outro de meus takes favoritos em toda discografia. A bateria aqui é significativamente mais contida que na versão estéreo, onde o trabalho com os 'pratos' é coisa que só Ringo faz. O fade out é ligeiramente mais longo em mono.

For no One
Há uma clareza maior na voz de Paul aqui. O mix do piano é mais proeminente e o fade out ligeiramente mais longo.

I Want to Tell You
O fade in na introdução é mais audível em mono porque o volume é ligeiramente mais alto. A bateria esbanja peso aqui. E o fade out é mais longo que o da versão estéreo.

Got to Get You Into my Life
Metais e vocais tem uma mixagem mais resolvida (e diferente) em mono. O fade out também se diferencia em relação ao estéreo.

Tomorrow Never Knows
O mix mono tem diferenças claras da versão 'estéreo' em detalhes como os efeitos sonoros, a voz de John, o 'fade out' e as guitarras.




The Beatles - The Mini Documentaries - DVD


Todo disco da caixa preta estéreo é um 'enhanced CD' e inclui como bônus mini documentários para serem assistidos no computador com histórias relativas às gravações de cada álbum. Dirigidas por Bob Smeaton (o mesmo da série Anthology) as produções duram entre um minuto e meio a dois minutos, sendo narradas pelos próprios Beatles e George Martin em imagens e depoimentos de arquivo. A função dos vídeos é repassar fatos curiosos e 'beneficiar' o comprador do pacote dos remasters com um resumo ora técnico ora histórico dos bastidores das gravações. São 13 mini documentários no total. A 'bossa' desse material está na inclusão de um DVD bônus na caixa preta que agrupa os documentários um a um, dando-lhe a opção de assistir o material no seu aparelho de TV. Com um bem bolado menu de acesso, basta clicar na capa de cada disco para assistir ao documentário correspondente. O produto oferece ainda sete opções de legendas eletrônicas, entre elas o português brasileiro.



“The Beatles 09.09.09 - Sampler”

Um item que não está a venda no pacote dos remasters, entra para a história como parte integrante do projeto na condição de candidato a raridade. Trata-se de um CD duplo que foi produzido em tiragem limitadíssima como peça promocional. Sendo assim sua distribuição foi gratuita, restringindo-se basicamente ao setor de mídia em geral, como emissoras de rádio e críticos musicais. O álbum tem o mesmo padrão de embalagem dos remasters, com a diferença que seu formato digipack é um capa dupla normal, enquanto os constantes da caixa preta se abrem em três partes. Contém trinta e duas canções 'sampleadas' dos treze CDs da coleção estéreo seguindo o critério de duas por álbum.

Quem teria feito a seleção musical? É uma informação que não consta na capa do Sampler, que de resto não possui livreto em sua embalagem. Foi distribuído na Europa e EUA dentro de um envelope da EMI com um folder anunciando os novos lançamentos. O item chegou aos felizardos que o receberam, duas semanas antes do lançamento oficial das caixas mono e estéreo. Embora não esteja à venda, alguns exemplares foram parar em sites de leilões da internet, fechando 2009 custando em média 100 dólares pelo sistema buy at now (compra imediata). O fato é que este produto invendável tornou-se a primeira coletânea dos Beatles da era remaster. E com um detalhe: o repertório foge ao lugar comum por adicionar canções geralmente esquecidas quando as gravadoras montam compilações. O CD 01 tem selo Parlophone vintage. O CD 02 ostenta o tradicional selo Apple.

Setlist CD 01
I Saw Her Standing There
I Wanna Be Your Man
This Boy
Things We Said Today
Eight Days a Week
You've Got to Hide Your Love Away
If I Needed Someone
Rain
Here There and Everywhere
Being For the Benefit of Mr.Kite
The Fool on the Hill
Glass Onion
Mother Nature's Son
Hey Bulldog
Something
Two of Us

Setlist CD 02
Please Please Me
All my Loving
If I Fell
Honey Don't
I'm Down
I Need You
Day Tripper
Drive my Car
And Your Bird Can Sing
She's Leaving Home
I Am the Walrus
Back in the USSR
Long Long Long
All Together Now
Come Together
I've Got a Feeling

Nota final: Do final do mês de setembro até a presente data (fechamento 27.12.09 - 23hs.56min) foram três meses de estudos para finalizar este review. A demora envolveu dois fatores básicos: minha falta de tempo para uma dedicação exclusiva foi um deles. O outro foi o tempo que precisei dispensar à audição disco a disco, faixa a faixa. Sem falar na necessidade de comparar gravações, checar datas e apurar informações. O objetivo final foi o de sempre: informar corretamente os fãs com dedicação e amor a causa.

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@yahoo.com.br





Dedico este trabalho ao grande Chiquinho Hollanda, primeiro dono de sebo de discos de rock de Fortaleza e 'pai' da iniciação de muitos rockeiros. Ele lutou bravamente na vida e pela vida até o fechamento desta edição. Era um cara que amava os Beatles, Dylan e Rolling Stones...








O micro-site POP GO THE BEATLES é parte integrante da REDE BEATLES BRASIL (www.thebeatles.com.br), em parceria com o jornalista CLAUDIO TERAN.
Design e Layout: José Carlos Almeida - Redação: Claudio Teran