A Beatlemania no Brasil
Histórias, Estórias & Lorotas - Parte 2


Quando tomamos a iniciativa de reunir as histórias e estórias acerca dos contatos de brasileiros com os Beatles, mapeando cada situação, nosso objetivo foi não somente reverenciar essas ocorrências, mas organizá-las de forma compreensiva para, quem sabe, servir como um guia de curiosidades. As reações foram diversas.

Os citados não se manifestaram - exceto Fernando de Oliveira, que nos encaminhou e-mail para corrigir uma informação. Ele não é balconista, mas jornalista. No caso dele fomos induzidos ao erro por conta de matéria divulgada pela TV Globo à época do lançamento da série Anthology em 1995. Outro questionamento partiu do fotógrafo Maurício C. Souza. Ele sustenta ser o autor das fotografias de George Harrison feitas em 1979, nos boxes de Interlagos. As mesmas que Luís Antônio da Silva exibe em seu site como de autoria própria.

Também fomos lembrados que o juiz de futebol Dulcídio Wanderley Boschilla (citado na primeira edição) morreu há alguns anos. Outras manifestações (às dezenas) cobraram a ausência de Lizzie Bravo, a brasileira que conseguiu a proeza de gravar com os Beatles. E também merece nota a grande quantidade de e-mails lembrando outros casos (ou lorotas) de contatos com John, Paul, George ou Ringo. O caso de Lizzie Bravo ficou para esta segunda edição - propositalmente.

A história dela, a meu ver, é a principal ocorrência de contato direto de um fã no mundo com seu ídolo! São raríssimos os casos de admiradores que chegaram ao nível de interagir com os idolatrados naquilo que gerou a notoriedade deles. Então vamos contar a história da brasileira Lizzie Bravo - acrescentando outras ocorrências que ficaram de fora da primeira edição. Também gostaria de agradecer a colaboração do jornalista Marco Valois.

Boa leitura...

Os Fatos e as Lorotas

LIZZIE BRAVO ATRAVÉS DO UNIVERSO
Na segunda metade dos anos 60 - e com 16 anos - Lizzie Bravo era uma entre milhões de garotas apaixonadas pelos Fab Four. Colecionava cada fotografia, recorte de jornal, revistas, discos, posters ou o que se imaginar relacionado a John, Paul, George & Ringo. Seu sonho era conhecer Londres porque imaginava que dessa maneira as chances de pelo menos "ver" um beatle seriam consideráveis. Era a cidade dos caras, afinal. Foi atendida em seu desejo durante as férias, em Janeiro de 1968. Desembarcou na swinging London à noite. E no dia seguinte viu o primeiro Fab! Com rapidez Lizzie Bravo misturou-se às dezenas, centenas de garotas que marcavam presença o dia inteiro às portas de Abbey Road. Nessa condição, ela e todas as demais viam os Beatles diáriamente! Ou quase.

Nem todas suportavam varar a madrugada para vê-los sair ou entrar das sessões no estúdio dois. Desse tipo de encontro, Lizzie Bravo coleciona souvenirs os mais diversos. Ela tem quilos e quilos de autógrafos dos Beatles - sobretudo de John Lennon, seu ídolo maior. Também costumava guardar papéis de bombom, maços (e guimbas) de cigarro jogados fora pelos quatro, e por aí vai. Tem fotografias que ela própria tirou. Aparece em flagrantes onde é clicada com John Lennon...

Entre os grandes feitos - dois que suscitaram polêmica inclusive no Beatles Brasil: Lizzie Bravo era a feliz proprietária de exemplares dos LPs Sgt. Peppers e Abbey Road originais da época, autografados para ela pelos quatro! Apenas. Esses discos não pertencem mais ao acervo da brasileira. Ela decidiu vende-los num leilão do Ebay! Dois colecionadores norte-americanos compraram os exemplares na condição de hospedarem Lizzie Bravo por um longo período em suas residências.

Segundo Lizzie, foram momentos de amizade, nostalgia, carinho e sobretudo aquilo que mais apreciou - o tanto que no exterior as pessoas consideram importante o contato muito particular e único que ela teve com os Beatles. A justificativa por ela apresentada para desfazer-se de tão preciosos souvernirs é singela. Lizzie sustenta não ter mais condições de ficar guardando tanta coisa. De quando em vez, costuma presentear a juventude que está começando a gostar dos Beatles, com fotografias, recortes e parte de seus muitos scrap books. Quanto aos LPs autografados, insiste que estão nas mãos de pessoas que sabem exatamente o valor estimativo dos ítens...

A SESSÃO DE ACROSS THE UNIVERSE
Foi em fevereiro de 1968. Segundo Lizzie Bravo, caía uma chuva fina em Londres - e o movimento nas ruas e em frente a Abbey Road era pequeno. Somente as mais fanáticas espremiam-se do frio cortante, num cantinho da entrada do prédio. Foi quando o inusitado aconteceu. Aquela história que todos já ouviram falar, leram e releram. De fato Paul McCartney foi até a porta em busca de alguém capaz de emitir uma nota aguda. Lizzie Bravo candidatou-se e foi levada para o interior dos estúdios. Lugar absolutamente proibido para fãs.

Ela lembra de descer escadas, caminhar por um corredor e - repentinamente - adentrar ao estúdio e simplesmente deparar-se com os quatro Beatles naquela sala imensa, técnicos, cabos e fios por toda a parte. Dezenas de instrumentos musicais espalhados pelo chão, e gente como Mal Evans, Neil Aspinall, e o maestro George Martin. Estavam todos lá. E ela, aos 16 anos, também. Lizzie perguntou se podia chamar uma amiga. Autorizaram. E foi a oportunidade para Gayleen Pease. A outra fã que entraria para a história. As duas tremiam feito varas verdes. Receberam instruções de John Lennon e Paul McCartney. Eles disseram, entre outras coisas, que elas tinham de cantar bem próximas do microfone porque o aparelho era do tipo direcional.

Enquanto as coisas não aconteciam (ou, enquanto não paravam de acontecer) era possível observar a descontração do ambiente. Os Beatles brincavam, faziam jams o tempo todo a partir de uma frase ou de um acorde qualquer de guitarra. E então ocorreu! As vozes das duas fãs de 16 anos foram capturadas pelos gravadores de George Martin para a história. Elas então foram dispensadas. Lá fora, nem sabiam o que dizer às demais. Um certo ar de inveja pairava no ar, lembra Lizzie. Para ela e Gayleen sobrava desorientação. Aquilo havia mesmo acontecido?! A certeza viria algum tempo mais tarde, quando finalmente a gravação saiu e o breve backing vocal das garotas entrou num disco dos Beatles. É história pura. Sem direito a lorotas...

LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. Ou alguém tem dúvida que ocorreu? Lizzie Bravo nunca mais esteve pessoalmente com seu ídolo John, depois daqueles dias defronte à Abbey Road. Nos anos 90, durante uma cerimônia de entrega do Oscar, foi levada até Ringo Starr. Na brevíssima conversa ele declarou não lembrar-se dela. Em 1992 no backstage do show de George no Albert Hall, teve mais sorte. A conversa também foi breve, mas Harrison lembrava dos acontecimentos em fevereiro de 68 na sessão de Across the Universe. Com Paul McCartney foi diferente. Macca não só lembrava de Lizzie como foi capaz de rememorar detalhes daquele momento. Nas muitas conversas que tive com Lizzie para compor esse review, ela gosta de recordar que as garotas maltrapilhas (scruffs) diante da Apple inspiraram George Harrison a dedicar uma canção aos fãs, justamente "Apple Scruffs" do álbum All Things Must Pass...

CAETANO VELOSO/GILBERTO GIL/MILTON NASCIMENTO
Eles estavam na platéia do histórico show de George Harrison em 1992 no Royal Albert Hall, em Londres. O único concerto-solo do ex-beatle em sua terra...
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. Eles foram filmados na platéia pelas câmeras da Globo, durante o Jornal da Globo e em reportagem de Beth Lima sobre a performance de George no Albert Hall. Lizzie Bravo também estava lá - acompanhando a equipe que foi remixar e remasterizar em Abbey Road os discos de Milton Nascimento, e assistiu o concerto.

CARLINHOS LYRA
O cantor e violonista declarou em reportagens publicadas em revistas no começo dos anos 70, ter encontrado John Lennon e Yoko Ono na sala de espera do doutor Arthur Janov para sessões da terapia do grito primal. Num recorte antigo da revista Contigo diz ter "tocado e cantado" com o ex-beatle enquanto esperava atendimento.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há uma só foto, gravação ou qualquer testemunha que sustente o ocorrído.

DANIELA MERCURY
A cantora baiana teve seu momento com Paul McCartney. Foi em Oslo, Noruega no final de 2.001 quando aconteceu o show em homenagem ao centenário do Prêmio Nobel. Artistas do mundo inteiro se apresentaram. No backstage Daniela foi clicada ao lado de Paul McCartney e pôde conversar com ele e Heather Mills.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. O evento foi inteiramente gravado e filmado. E exibido no canal Multishow. As fotos de Daniela com Paul foram publicadas na Revista Caras. Uma curiosidade: esta foi a primeira apresentação musical de Paul McCartney após o falecimento de George Harrison.

IVAN LINS
Este grande cantor e compositor brasileiro teve seu momento com um Fab. Durante uma apresentação em New Orleans, Paul McCartney chegou quando as luzes estavam apagadas. Sentou-se e pôde apreciar o concerto sem ser incomodado. Ao final no backstage, Macca foi flagrado na fila para cumprimentar o brasileiro.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. Aconteceu durante a primeira fase da Driving Tour. E foi amplamente noticiado pela imprensa. No Programa do Jô, a história foi contada pelo próprio Ivan Lins. Ele deu detalhes inclusive da conversa que teve com Paul McCartney, e dos elogios que recebeu do ex-beatle.

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com


O micro-site POP GO THE BEATLES é parte integrante da REDE BEATLES BRASIL (www.thebeatles.com.br), em parceria com o jornalista CLAUDIO TERAN.
Design e Layout: José Carlos Almeida - Redação: Claudio Teran