A Beatlemania no Brasil
Histórias, Estórias & Lorotas - Parte 1


Se tem situação da qual não pode queixar-se o Brasil, é do envolvimento de seus filhos com os Beatles – direta ou indiretamente. Há incontáveis situações. São consideráveis e consistentes as histórias de quem conseguiu chegar perto, conversar, tirar uma foto.

John, Paul, George & Ringo como bem sabemos não são mortais comuns. Carismáticos, famosos e populares de verdade sim – eles são. Comuns somos nós que nos contentamos em “comprar” um autógrafo que eles não nos concederam. Chegar até eles e ter isso documentado de forma plausível, é muita coisa. Não há necessidade de invencionismos do tipo: “sou amigo, troco e-mails, etc.”

A fantasia, por sinal, acaba “desqualificando” essa ou aquela conquista. O que talvez explique porque no Brasil há uma tremenda falta de reconhecimento com quem conseguiu furar o teflon que envolve os superstars e chegar perto. Em relação aos Beatles, há casos e casos. Histórias e estórias. Fãs e não fãs que tiveram o privilégio de dividir um momento ou outro com um dos quatro Beatles. Ou simplesmente assumir-se papagaio de pirata.

Momentos ou não, uma foto ao lado deles fala por si. Então porque existe a má vontade com quem chegou lá? Porque existe a preocupação de desqualificar certos feitos? E porque algumas histórias são colocadas irônicamente no quesito de “estórias” ou de lorotas mesmo? E porque existem os exageros, e até mentiras escandalosas?

Nossa polêmica intenção é a de mapear a coisa – através dos principais acontecimentos - com a pretensa intenção de criar um norte, um guia - quem sabe - para que o tema Brasil x Beatles leve cada um às mais variadas conclusões. O que aliás será inevitável. Clamo por um único consenso: o fato de que o Brasil tem muito que se orgulhar dos contatos plausíveis de seus filhos com os Fabs. Embora se deixe levar pelo contrário...

Os Fatos e as Lorotas

CARLOS IMPERIAL
Esse cara, empresário de artistas nos anos 60 (Roberto Carlos entre os quais) espalhou em revistas e jornais em 1965 que os Beatles iriam gravar Asa Branca, o clássico nordestino de Luis Gonzaga & Humberto Teixeira. Num tempo pré-histórico para as comunicações, onde nem transmissão via satélite existia, não foram poucos os que deram crédito à estória.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Gonzagão e o próprio Imperial se encarregaram algum tempo depois de admitir aquela que classifico como a primeira lorota histórica produzida no país em torno dos Fabs. Luis Gonzaga nada teve a ver com o acontecido. Carlos Imperial foi contratado pela RCA Victor para dar um jeito na vendagem de discos do Rei do Baião, que declinavam por conta dos Beatles, do rock and roll e da Jovem Guarda. Imperial decidiu aliar-se à febre da beatlemania e inventou essa mentira. Muitos caíram. E – para Luis Gonzaga – deu resultado: as vendas de seus LPs foram recuperadas porque o episódio contribuiu para dar-lhe mais destaque na mídia e nas rádios em 1965.

PELÉ
Edson Arantes do Nascimento talvez tenha sido o primeiro brasileiro a relatar contato direto com os Beatles. Teria ocorrído em 1966 durante a Copa do Mundo. Na ocasião a Comissão Técnica da então CBD teria impedido os Beatles de chegar ao Rei do Futebol, numa visita à concentração da Seleção Brasileira...
LOROTA EM TORNO DO CASO: Quem tiver a paciência de pesquisar todos os temas relevantes da Copa de 66 – na qual o Brasil deu vexame – não encontra referências em torno da questão. Por quê nada saiu na imprensa? Por quê outros jogadores da comissão técnica nunca falaram do assunto? Será que só o Rei do Futebol viu ou soube que os Beatles foram barrados na concentração da seleção? Pelé ainda insiste de quando em vez no assunto.

TONY JORDAN
Em 1968, Tony Jordan e o grupo brasileiro de skiffle (!) The Jordans, formado por ele e os irmãos no bairro da Mooca em São Paulo, foi a Londres. Passearam pela cidade, visitaram pontos históricos, compraram instrumentos musicais iguais aos dos Beatles, e – claro – foram até os estúdios Abbey Road para aquela olhadinha básica no local onde os Beatles gravavam. Nem tentaram entrar, obviamente. Mas foram a um pequeno restaurante nas proximidades. O tempo todo, Tony Jordan empunhava uma “novíssima câmera super 8” com a qual registrava os momentos da viagem. De repente o susto. Uns caras que pareciam sósias dos Beatles entraram no local! Não eram sósias. Eram os Beatles! John, Paul e Ringo. A câmera de Tony Jordan foi acionada e as imagens existem até os dias atuais.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. As imagens foram exibidas em 1996 no Fantástico. São em preto e branco de boa qualidade. John e Ringo aparecem por mais tempo – e com aquele visual de recém chegados da Índia. Corriam as gravações do álbum branco. Eles posaram para a câmera e conversaram com os sorridentes Jordans. Foi um contato inusitado e histórico.

RAUL SEIXAS
Em 1975 o Maluco Beleza esteve em Nova York. Voltou dizendo ter-se encontrado com John Lennon. Em entrevistas de rádio chegou a afirmar que mostrara a Lennon sua idéia de Sociedade Alternativa e que o ex-beatle teria gostado do que ouviu.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Com todo o respeito que o Maluco Beleza merece – mais de dez anos depois de sua morte - a questão tem cheiro de lorota. Nunca jamais Raulzito exibiu uma só prova desse “contato”. Sequer a(s) fotografia(s) básica(s) – e obrigatórias - de um encontro dessa natureza. Não é só. Na época do pretenso encontro, John Lennon vivia a fase de reclusão.

FERNANDO DE OLIVEIRA
Ele é um balconista e vive no Andaray, Rio de Janeiro. É fã dos Beatles. Em 1979, era dos muitos que procurava informações sobre John Lennon mas ninguém tinha. O homem não aparecia. Vivia recluso. Não existia internet. Não se publicavam fotos recentes de Lennon nos jornais e revistas. Fernando fez a coisa mais prosaica que se podia imaginar. Escreveu para o ex-beatle! Foi em 1979. Pediu um contato, um sinal de vida. Uma comunicação qualquer. Três meses se passaram. Em novembro daquele ano Fernando recebeu um cartão postal desejando feliz ano novo. A letra e a assinatura eram (ou pareciam ser) de John Lennon. Desconfiado, Fernando escreveu mais duas vezes e pediu provas de que era John Lennon quem com ele se comunicava. Mais dois postais vieram – contendo metade do abecedário em cada um. E a assinatura do ex-beatle. Era Lennon!!!
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. Os postais são legítimos, selados e enviados de um posto de Correio próximo do Edificio Dakota. John Lennon no mínimo “pegou” naqueles postais. Por alguma razão decidiu responder a um fã! Um fã brasileiro... Fernando de Oliveira.

EMERSON FITTIPALDI
Emerson Fittipaldi: muito mais que um fã, um ídolo e amigo de George. Alguma dúvida da amizade deste brasileiro com George Harrison? Eles se conheceram no começo dos anos 70 quando Emerson era um campeão mundial e corria na lendária Lotus inglesa. Ficaram amigos. Emerson quando ia a Londres, hospedava-se em Friar Park. E retribuiu a gentileza ao hospedar Harrison em 1979 durante a visita deste ao Brasil para o GP daquele ano. Emerson teve direito até a uma canção, uma paródia de "Here Comes the Sun" que George cantou para ele durante transmissão do extinto programa "Gente Que Brilha", do SBT, em 1996. O brasileiro ostenta uma coleção de outros fatos que o ligam ao ex-beatle – situação que era de verdadeira amizade. Emerson foi dos poucos que esteve com George Harrison em seus dias finais, em 2001.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. As fotos e a paródia "Here Comes Emerson" falam por si.

MARCO ANTÔNIO MALAGOLLI
Marco Antonio Mallagolli, um brasileiro realmente sortudo... e esforçado! Um dos principais divulgadores dos Beatles no país, Malagolli esteve oficialmente com três dos Beatles. John Lennon inclusive. Em sua vasta coleção tem de tudo, até um baixo Hofner autografado por Paul McCartney. As fotografias que tirou com os Beatles estão no site da Revolution e falam por sí. No encontro com George Harrison, Malagolli conseguiu não somente ser clicado ao lado do ídolo, como entrevistá-lo – ocasião na qual George destilou bom humor e ironia, valendo-se talvez do compreensível nervosismo do brasileiro (possuo uma cópia do cassete original). Uma das fotografias foi publicada na sessão Gente, da revista Veja. O click com John Lennon foi em frente ao Dakota em Nova York. Circula também uma fantástica fotografia com Paul McCartney tirada no backstage do Maracanã. No site www.ringostarr.com o fã-clube Revolution é o único do país citado como referência para informações.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Malagolli é questionado por fatos envolvendo John Lennon. São diversos os que desqualificam as declarações publicadas na extinta Revista Som Três, onde Marco sustenta ter ouvido John Lennon dizer que viria para o carnaval de 1981 no Brasil. E que declarara não conhecer um disco que lhe pareceu estranho (era "Os Reis do Ié Ié Ié" brasileiro, aquele da capa vermelha). Há quem conteste outras declarações que o brasileiro teria travado com os Fabs, e por ele amplamente divulgadas. Quem duvida do Malagolli infelizmente não tem coragem de faze-lo num tête-a-tête. Marco queixou-se numa entrevista ao Beatles Brasil por conta desse tipo de atitude. E sustenta que tudo o que narrou é verdade absoluta.

LUIS ANTÔNIO DA SILVA
Luiz antonio - papagaio de pirata de luxo. Luís soma-se às dezenas de fãs que viram George Harrison no Brasil em 1979. Um dos mais antigos divulgadores dos Beatles no país, Luis Antônio notabilizou-se pelo bom número de fotografias que conseguiu fazer, enquanto o ex-beatle circulava em São Paulo.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. O material do Luís e também a narrativa dos fatos feita por ele mesmo, podem ser acessados no site www.cavernclub.hpg.com.br.

JOSÉ EMILIO RONDEAU
O jornalista da extinta Revista Pop foi encarregado de entrevistar George Harrison em 1979. O encontro foi em caráter oficial – negociado entre a gravadora Warner e a redação da Pop. Rondeau tinha 22 anos de idade e fez uma excelente entrevista.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. É dificil encontrar um exemplar da Revista Pop hoje em dia. O prefácio antes do início da entrevista, quando Rondeau fala do nervosismo que sentiu ao subir até o andar no qual George Harrison se encontrava – à espera dele - já paga a publicação.

JERRY ADRIANI
A passagem de George Harrison pelo Brasil também registrou alguns micos, como o encontro com o jovemguardista Jerry Adriani. Ele e Harrison se encontraram por mero acaso em São Paulo e conversaram pouco. O assunto: música. Óbvio que não se conheciam. Há registro oficial do encontro.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Nenhuma. Jerry e George foram clicados por fotógrafos da revista Contigo/Ilusão (hoje só Contigo). Uma foto colorida e de corpo inteiro mostrava Jerry com o LP George Harrison nas mãos, e Harrison com o LP do Jerry Adriani lançado naquela ocasião! A manchete da (revista) Ilusão era hilária. Dizia: "Ex-Beatle Vai Gravar com Jerry Adriani". Muitos anos depois, em Fortaleza, durante uma entrevista, toquei no assunto com Jerry. Ele confirmou o acaso do encontro, e informou que ainda guardava o exemplar autografado do LP George Harrison com dedicatória pessoal.

REGINALDO LEME
O comentarista de Fórmula 1 da Rede Globo só tornou públicos seus contatos com George Harrison por ocasião da morte deste. São histórias saborosas, e disponíveis para quem quizer conferir, nos arquivos do Beatles Brasil. Leme dispõe de uma dedicatória a ele concedida por George Harrison, dependurada na parede de um bar de sua propriedade no Rio de Janeiro.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. Reginaldo Leme entrevistou George Harrison algumas vezes nos bastidores da F-1, e as imagens foram ao ar na Globo, em noticiosos como o Jornal Nacional e o Esporte Espetacular. Em 1987 ele levou ao ar direto de Silverstone não somente Harrison, mas Ringo Starr – momentos antes do início da corrída.

MARCUS RAMPAZZO
Grande fã de Harrison, o músico Marcus Rampazzo notabilizou-se no país pela coleção de guitarras idênticas às que o ídolo utilizava. Entre as tais a slide Hofner autêntica utilizada por John Lennon no filme Let it Be. Certa vez conseguiu fazer chegar a Harrison uma gravação na qual desempenhava com perfeição, dezenas de riffs e solos clássicos do ex-beatle. Como recompensa, Rampazzo recebeu de volta a fita com o reconhecimento de Harrison.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. O áudio da fita (com a voz de George fazendo referência ao brasileiro) chegou a ser exibido ao país pela Rede Bandeirantes de Televisão. Amigos de Rampazzo, como o cearense Júlio Serra, possuem cópia da cobiçada fita.

ASTRID MIRANDA
Em 1979 quando George Harrison esteve no Brasil, esta cearense era das poucas jovens a falar bem inglês entre os fãs acotovelados à porta do Hilton Hotel para ver o ex-beatle. Esse fato levou Astrid a obter uma fotografia onde foi clicada ao lado do ídolo – e a precária obtenção do áudio da breve conversa com ele, registrada num micro-cassete.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Já ouvi a fita e vi a fotografia. Astrid também esteve com Paul McCartney no ano de 1983. Não houve fotos mas ele autografou-lhe um caderno – com dedicatória pessoal - deixado na portaria da MPL. Astrid sustenta ter entregue ao ex-beatle em plena Soho Square naquela ocasião, um pacote da legítima castanha do Ceará! Segundo ela McCartney foi gentil, distribuiu beijos e levou consigo o exótico (para ele) cereal nordestino.

ERNESTO PAGLIA
O jornalista da Globo fez a entrevista de pouco mais de 7 minutos de duração com George Harrison em 1979 para o Fantástico. O encontro deu-se nos estúdios da emissora, no Rio de Janeiro. Durante a fala, George faz uma breve e desajeitada versão de Something.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. Paglia não é fã dos Beatles. Considera o feito parte de seu trabalho profissional. Tão somente.

DULCIDIO WANDERLEY BOSCHILLA
Em 1987 o ex-juíz de futebol tirou férias e foi aos Estados Unidos. Numa livraria de Los Angeles topou com Ringo Starr! O ex-beatle estava com um enorme chapéu de abas e óculos escuros – o que escondia seu rosto. Mesmo assim Boschilla o reconheceu. Ringo pediu que não fizesse alarde. Foi gentil. E autografou com dedicatória pessoal um livro de esportes náuticos comprado pelo brasileiro. Em seguída deixou rápidamente a livraria sem ser notado pelos demais consumidores.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Boschilla tem o livro como prova – e já o exibiu certa vez no Esporte Espetacular da TV Globo.

TEREZINHA SODRÉ
Na metade da década de 70, a atriz vivia na badalação em Nova York por uma boa razão: era casada com o ex-capitão do tri, Carlos Alberto Torres. Ele jogava ao lado de Pelé e outras estrelas no milionário time do Cosmos. Frequentando as mais badaladas festas, Terezinha foi clicada com famosos, entre os quais alguns ex-beatles.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. Terezinha certa vez mostrou sua coleção de fotografias ao lado de gente famosa, num programa de TV, o extinto TV Mulher, da Globo. Há cliques com Ringo Starr, Paul McCartney e George Harrison.

EUGÊNIA MARIA
Eugênia: amiga do George ou apenas mais um papagaio-de-pirata? Esta cearense radicada em São Paulo surpreendeu a todos por conta de uma entrevista publicada no Beatles Brasil. Sustentou ter uma relação de amizade com George Harrison – iniciada segundo ela a partir da vinda do ex-beatle ao Brasil em 1979. Eugênia era uma das muitas fãs à porta do Hilton Hotel. Ela revelou informações como uma constante troca de e-mails e cartas(!) com George, e relatou que Harrison veio uma segunda vez ao Brasil, incógnito, no ano de 1997, para o grande prêmio do Brasil de Fórmula 1, ocorrído em março daquele ano. Ela teria estado com ele naquela oportunidade. Não é só. Segundo Eugênia, George teria aparecido no Jornal Nacional ao lado de Rubens Barichello.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Toda a situação é complexa. Na Lista BeatlesBrazil, Eugênia é questionada por nove entre dez. Ao contrário do que seria praxe nessas situações, ela não apresenta provas, por exemplo de um ou outro fac-simile de e-mail ou cartas trocados com George Harrison. O que por si encerraria a polêmica. E no caso do GP do Brasil em 1997, não há fonte que tenha consultado que sustente tal afirmação. Nos arquivos da Folha de São Paulo, Estadão, e O Globo ninguém dá uma linha sobre a questão. Como um ex-beatle circularia nos boxes da F-1 sem ser notado? Os compêndios tipo day-by-day da vida dos Beatles indicam que à época do Grande Prêmio do Brasil, George Harrison estava em férias do outro lado do mundo, ou seja, na Austrália. Há mais: na recente auto-biografia que acaba de lançar, Emerson Fittipaldi faz muitas referências ao ex-beatle, e à vinda deste em 1979. Porque omitiria 1997? Pessoalmente acredito que Eugênia fez uma pequena confusão. De fato George Harrison foi filmado circulando nos boxes de alguns GPs em 1997. Um dos quais o GP de Imola, na Itália. Que ocorreu após o GP do Brasil. Neste, George Harrison não somente compareceu como foi filmado ao lado do brasileiro Rubinho. A imagem foi parar no Jornal Nacional.

SANDRA PEREIRA
Mais uma história de fã cearense. Em 1977, Sandra era estudante. Louca por George Harrison. Quando saiu seu LP 33-1/3 ela foi das primeiras a comprar. Então tomou uma atitude: escreveu para o ídolo. A cartinha pedia um retorno qualquer. Para “facilitar” a vida do ex-beatle, Sandra incluiu na remessa um envelope selado para resposta, uma folha de papel de carta em branco, e um santinho com a imagem de Jesus Cristo comprado numa livraria das Edições Paulinas! Uns 60 dias depois, ao chegar da escola, Sandra encontrou um envelope grande, laranja com timbre da Dark Horse Records e não acreditou. Abriu. Lá estava uma pastinha de papelão com a capa do 33-1/3. Dentro vinha um release da gravadora e fotografias promocionais de George Harrison em preto e branco. Não era só. Estava de volta seu santinho com a imagem de Cristo – devidamente autografado na contra-face. E o papel de carta serviu para que George escrevesse: “Sandra cheers... George Harrison 1977...”.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há. O material é autêntico e Sandra ainda guarda no mesmo envelope – da forma como recebeu há 26 anos. A história dela é semelhante à do balconista Fernando de Oliveira. Note-se que os casos de contatos de brasileiros com George Harrison detém maioria.

MARCELO FRÓES
Marcelo Fróes e George Martin, em uma das inúmeras fotos. Um dos grandes feitos do jornalista foi entrevistar o quinto Beatle George Martin para o prefácio do livro "Os Anos da Beatlemania". Depois conseguiu autorização para traduzir para o português o "Making of Sgt. Peppers" (no Brasil "Paz, Amor & Sgt. Peppers"). Marcelo também conseguiu falar brevemente com Paul McCartney nos estúdios Abbey Road, e clicá-lo chegando ao local. O jornalista também conseguiu reunir em um único CD, composições de Lennon-McCartney cujos originais foram gravados por artistas diversos do Mersey Beat.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Marcelo sofreu situação semelhante à de Mallagoli e Eugênia Maria, tendo questionados – nunca publicamente – seus feitos em relação a contatos diretos e/ou indiretos com os Beatles. Ao contrário de Eugênia, Fróes desabafou, numa quilométrica entrevista ao Beatles Brasil. E tirou do baú provas e mais provas documentais daquilo que fez. Dezenas de fotos ilustram a reportagem. Os pontos altos se situam nas fotografias ao lado de George Martin – algumas clicadas em nosso país. E o flagrante que fêz de Paul às portas de Abbey Road. Em diversas ocasiões ao longo da entrevista ele destila mágoas contra quem dele duvidava. Algumas das imprecações de Fróes tem endereço certo, embora ele não cite nomes. Quem quiser conferir basta ler a entrevista (www.thebeatles.com.br/entrevista-marcelo-froes.htm). Para bom entendedor...

MARCELO COSTA SANTOS
Marcelo é aquele cantor da música "Abre Coração", uma baba gravada nos anos 80 de encomenda para FMs comerciais. Seu momento com George Harrison é quase sem igual. Ele é um brasileiro que simplesmente tocou com o ídolo! Foi no dia 16 de dezembro de 1995. Ele e outros dois brasileiros (músicos) se encontraram com Harrison em Friar Park e passaram uma tarde juntos conversando, tocando e improvisando.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não consta. Ninguém sabia disso. Nem a comunidade beatlemaníaca deste país. O momento de Marcelo foi ao ar no Jornal Nacional. Ele usou uma handy cam para mostrar George Harrison ao ukelele ao lado dele e outros músicos tentando “pegar” o arranjo de Aquarela do Brasil. O material foi exibido no dia 30 de novembro de 2001 na Globo. Não ficou clara a duração da fita, porém num dos trechos George Harrison está ao violão tocando e cantando uma faixa inédita. Não há informações sobre se a performance é completa.

SILIO BOCCANERA
O repórter da Rede Globo estava no SBT em 1996 quando foi encarregado de ir a Friar Park gravar a participação de George Harrison para o programa Gente que Brilha, em homenagem a Emerson Fittipaldi. O relato é tocante. Ele viu, ouviu, filmou e gravou a exclusiva interpretação da paródia "Here Comes Emerson"! Silio escreveu um review que consta dos arquivos do Beatles Brasil, onde passa toda a emoção, simplicidade e o inusitado desse evento...
LOROTA EM TORNO DO CASO: Nenhuma. O relato do Silio é para ler, guardar e jamais esquecer.

CLÁUDIA TAPETY
O tento marcado por essa pernambucana foi o de chamar a atenção da equipe de filmagem de Richard Lester para uma imensa e chamativa faixa com os dizeres "Paul I Love You", acompanhada do nome dela, exibida nos shows do Maracanã. A imagem com a faixa foi parar na mixagem de imagens do documentário Get Back, que registra a tour 89/90.
LOROTA EM TORNO DO CASO: Não há quem não tenha visto a faixa no documentário Get Back. Em 1993 Cláudia chegou bem perto de Paul juntamente com dezenas de fãs no Aeroporto de Guarulhos. E foi agraciada com acenos. Há quem questione relatos que ela fez posteriormente, onde sustentou contatos e amizade com Sir Paul.

Considerações Finais

Imagino que essa coletânea dará margem a contestações. O objetivo não foi ferir ou desqualificar ninguém. Mas recolher o que no meu entendimento representa os fatos em relação ao contato de brasileiros com os Beatles. Não há como negar o ecletismo. Vamos de um extremo ao outro. Dos contatos notáveis aos questionáveis. A banda encerrou atividades há mais de trinta anos. Fabs vivos só temos dois. Ambos sexagenários. Encontrá-los, ao acaso ou não, por pura sorte ou não, será sempre mais dificil daqui por diante, que todas as demais ocasiões que serviram de objeto para esse relato. Eu por exemplo me contentei de estar no Pacaembú em 1993 – no anonimato que me é próprio – mortal comum que sou. Alí descobrí que quem amava e idolatrava havia anos, existia verdadeiramente! E como existia! Foi o máximo momento para mim. Como seria bom ter um autógrafo com dedicatória pessoal, fotografias ao lado de um deles, privar de um backstage – ter estado em Abbey Road para olhar da janelinha do control room os caras gravando. É por isso que entendo que os efêmeros contatos com qualquer dos Fabs ou com todos eles seja efetivamente uma façanha. Parabéns a quem chegou lá. Mas não custa lembrar que numa multidão de fãs entoando o côro de Hey Jude somos o que somos - anônimos suarentos, irmanados e arrebatados de emoção. E por certo com histórias para contar. Histórias. Estórias e lorotas não valem. Até porque levam ao descrédito quem deveria contentar-se com aquilo que é muito: ter um dia chegado perto de um Ringo, John, Paul ou George...

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com


O micro-site POP GO THE BEATLES é parte integrante da REDE BEATLES BRASIL (www.thebeatles.com.br), em parceria com o jornalista CLAUDIO TERAN.
Design e Layout: José Carlos Almeida - Redação: Claudio Teran