O Lançamento de
Let It Be em DVD

E as Frustrações que Poderá Causar


Todos querem o lançamento do filme Let it Be em DVD. Virou obsessão. Se uma pesquisa fosse feita entre fãs do mundo inteiro, é provável que a edição da película num DVD duplo recheado de extras levasse a bater mais forte o coração que o CD Naked. Apple/EMI parecem não pensar assim. Nos anos 80 Let it Be chegou a sair em duas toscas versões – VHS e LD com áudio em mono e sem qualquer trabalho de restauração e remasterização. Não demorou no mercado. A Apple conseguiu cassar o licenciamento e o filme que documenta o fim dos Beatles permanece até hoje na clandestinidade.

Era motivo de orgulho e engajamento possuir uma cópia da cópia da cópia de Let it Be em VHS, no final dos anos oitenta e começo dos noventa. Algumas edições eram 'esverdeadas.' Outras com tonalidade roxa. Também circulou no Brasil uma versão dublada em português(!) – provavelmente contrabandeada dos arquivos das TVs Globo e Tupy. Ambas emissoras levaram o filme ao ar algumas vezes na primeira metade dos anos setenta – ocasião em que sequer o videocassete existia. Mais recentemente Let it Be começou a circular em DVDs piratas, e não são poucos os fãs que adquiriram um exemplar. A frustração porém continua. A imagem dessas cópias vem do LD e, de fato, tem a melhor qualidade disponível, ou seja: é aquele material precário que todos conhecem. O que esperar então do relançamento do filme no mais glamuroso formato doméstico já inventado? Tudo e nada. A expectativa para o lançamento tem tudo para diluir-se em frustração no dia em que Let it Be sair – isso se intervenções eficientes não forem feitas para pelo menos atenuar defeitos de origem que o projeto apresenta, e que iremos detalhar...



Get Back
Let it Be é um dos primeiros concert films da história. A concepção é perfeita e a estética, imitada até hoje. A idéia de mostrar uma banda ensaiando, compondo, gravando e depois mandando ver num grande concerto é genial e eterna. No caso dos Fabs havia um adicional, o desejo de voltar às raízes e por isso a produção ganhou o título "Get Back". Na tela, os quatro Beatles vendendo carisma, com seus instrumentos básicos – baixo, bateria, guitarras, um piano ou órgão hammond aqui ou alí. E só. Inicialmente o projeto seria um especial de televisão que mostraria a banda ensaiando e compondo. O programa iria ao ar para promover o futuro álbum que também se chamaria Get Back. Outra vertente da produção era levar a banda de volta aos palcos. Os Beatles fariam três shows no Roundhouse Theatre, e o material seria filmado integralmente para lançamento nos cinemas ou através da televisão. Com essas idéias na cabeça os Beatles chegaram para trabalhar nos estúdios Twickenham na manhã fria do dia 02 de janeiro de 1969. Chamaram Michael Lindsay-Hogg para dirigir o projeto. Michael era o mais 'moderninho' dos cineastas da época. Trabalhara com eles em promos como os de "Hey Jude" e "Revolution", e dirigira no final de 1968 o documentário Rock and Roll Circus com os Stones e convidados (entre eles John Lennon).

Box Set lançado em 1970


A Michael Lindsay-Hogg não foi dado o direito de ter muitas idéias. Tudo o que lhe coube fazer a partir daquele dois de janeiro em Twickenham foi ligar as câmeras e comandar a filmagem. Os 'produtores executivos' ou seja os Beatles – noves fora a idéia ter partido de Paul McCartney - desejavam que tudo o que se passasse ali fosse gravado. Idéia que depois repudiariam. Claro que o cineasta atuou, opinou, e coube a ele a edição final que todos conhecem - contribuindo inclusive para tornar os cacos e os pedaços do que foi inicialmente projetado para a TV, em produção precária para o cinema. Get Back foi sendo desvirtuado à medída que o roteiro da vida real de John, Paul, George & Ringo desandava. Resultou em "Let it Be", um retrato casual e caótico (de verdade) do fim da banda...



O Filme e Seus Defeitos de Origem
A primeira edição em VHS Explicações oficiais para a demora no relançamento de Let it Be existem várias. Nenhuma talvez, correspondendo à verdade dos fatos. O resultado final batizado Let it Be, chegou aos cinemas com clamorosos defeitos de sincronia entre o áudio e o video, e pós-produção precária. Por quê? O grupo devia um filme para a United Artists. Eles chegaram a pensar que o desenho Yellow Submarine serviria para completar o contrato. Estavam errados. O contrato era claro em ressalvar que 'os Beatles mesmo precisavam estrelar a produção'. Durante as filmagens, chegou-se a cogitar a possibilidade da banda fazer um mega-concerto num imenso anfiteatro vazio, ou quem sabe nas ruínas de Pompéia. Idéia que posteriormente seria 'chupada' pelo Pink Floyd. Michael Lindsay-Hogg levou quase um ano para completar a edição do material – até que finalmente ficasse definido que a produção viraria um filme para o cinema, cumprindo o contrato com a United Artists. Fracassava a grande idéia de levar os Beatles de volta aos palcos.

Quando a gente recorre à leitura de publicações da época do lançamento, encontra um amontoado de frases feitas em torno do filme. Exemplo: 'o documento do fim'. O que ninguém comenta é que Let it Be é uma das mais mal montadas produções da história – questão que efetivamente vem retardando ao longo do tempo, o seu retorno. Debruçados em tudo o que temos disponível sobre o filme e em torno dele (incluindo a paixão pelo projeto) enumeramos uma série de fatores e curiosidades sobre a película. Também avaliamos questões que no mínimo tem atrapalhado o reingresso de Let it Be no mercado. A saber...

Let it Be foi gravado com quatro câmeras tanto em Twickenham quanto na Apple. As câmeras A e B estavam conectadas a gravadores Nagra para a sincronia do som com a imagem.

Tanto a câmera A quanto a câmera B eram disparadas em intervalos distintos para garantir que todo o áudio produzido seria capturado por um ou outro gravador.

Os bips que se ouvem ao longo de todo o áudio (pirata) do projeto advém do momento em que uma ou outra câmera era ligada e acionava o gravador. Esse áudio jamais foi considerado pela EMI para lançamento oficial. O CD bonus Fly on the Wall do projeto Naked quebra essa escrita.

As câmeras C e D gravaram apenas imagens gerais (reverse anglês) sem preocupação com o áudio e para uso em 'enxertos e edição'.

Quando as filmagens terminaram havia algo em torno de 530 rolos de áudio das câmeras A e B, ou aproximadamente 141 horas de som gravado. Cada rolo de fita de áudio dos gravadores Nagra durava pouco mais de 16 minutos, por conta da alta velocidade utilizada.

Aproximadamente 500 rolos de filme foram utilizados para o registro das imagens.

A primeira edição em Laser Disc Essas fitas seriam roubadas no final de 1970 dos arquivos dos estúdios Twickenham e cairiam nas mãos da pirataria. Vem daí as séries de bootlegs "Day By Day" e "Camera B Rolls", capazes de fornecer didaticamente, a mais ampla visão dos bastidores do projeto Get Back/Let it Be. As fitas seriam recuperadas pela polícia no começo desse ano – ato seguido de estardalhaço por parte da imprensa britânica - alardeando que 'material inédito dos Beatles fôra descoberto'.

O áudio usado na trilha sonora foi retirado de duas fontes. Na sequência em Twickenham o som vem dos Nagras. Na parte filmada nos estúdios Apple o áudio foi profissionalmente gravado no que havia de mais moderno em 1969, o multi-track. Cêrca de dez horas de som nesse sistema profissional se encontra disponível, e permanece bem guardado em Abbey Road. De lá saiu o material aproveitado no Anthology 3. E o disco 1 do Naked também. A mixagem da trilha sonora para o filme foi feita integralmente em mono.

O preconceito com o áudio gravado nos Nagras está registrado num dos rolos do dia dois de janeiro, quando George Harrison deixa claro que aquilo não era sistema para ser utilizado por uma banda com pretensões de lançamento futuro. Paul McCartney discorda e defende essa forma de gravação

As gravações em Twickenham foram concebidas para um provável especial de televisão com não mais que 25 ou 55 minutos de duração. Com isso em mente a ordem foi filmar 'esparsamente' o que rolava nos estúdios. Raramente as imagens de uma performance inteira foram registradas. Isso explica porque no filme tudo é fragmentado, e mostrado de maneira abreviada. Pode parecer bizarro, mas o projeto tem muito mais áudio (clandestino ou profissional) produzido, que filmagens. Esse digamos 'modus operandi' se repetiu quando as locações mudaram para os estúdios Apple.

Outro problema com o filme (grave, por sinal) é de sincronia – como não tinha ações completas, Michael Lindsay-Hogg optou por mixar imagens e áudio não correspondentes. A coisa foi feita de maneira tão precária que é fácil perceber os furos. Um exemplo: John Lennon é o cantor principal em Suzy Parlour mas nunca aparece em close. Simplesmente porque não existe essa imagem! Ao longo de todo o filme esse tipo de problema acontece. Relançar Let it Be na era do DVD sem tentar corrigir essas distorções, é factível?

Para os lançamentos de áudio do projeto – cada um dos que aconteceram ao longo da história – a EMI sempre se valeu da produção registrada profissionalmente no multi-track. Twickenham foi parar na montagem do filme pelo desvirtuamento da proposta original, o abortamento do especial de TV e do concerto. Na era digital e do dolby 5.1 o que fazer com aquele trecho do filme? Como 'retrabalhar' o áudio monaural e originalmente monaural já que assim foi capturado nos Nagras? Sim, as velhas fitinhas que abasteciam a pirataria terão seu papel no dia que o projeto ganhar a luz? Ou, num passe de mágica serão descobertas gravações profissionais feitas em Twickenham?

A resposta para a última indagação existe. Glyn Johns chegou a gravar performances dos dias sete a dez, e do dia treze de janeiro num equipamento profissional mono comprado para a ocasião. Oficialmente nenhum desses tapes consta dos arquivos dos estúdios nem da EMI e é possível que não existam mais. Mas, digamos que esses tapes tenham sido encontrados!? Serviriam para a edição de áudio da primeira parte da película?

Em diversas passagens do filme, Michael Lindsay-Hogg tenta ludibriar a audiência, abusando do uso de múltiplas imagens. Quase todo o tempo a edição quer nos fazer crer que os Beatles estão 'tocando' o que se ouve na trilha sonora. Esse tipo de precariedade poderá frustrar as expectativas em torno do filme. De nada adiantará uma imagem 'limpa' com a manutenção de sincronia francamente amadorística em algumas sequências. Mexer nisso é 'macular' a história. O que preferirão os dois Beatles que restam? Afinal Spielberg 'enxertou' imagens e takes extras no clássico ET o Extraterrestre. Mas, honestamente, dá para comparar ET com os Beatles e o objeto do desejo no qual está transformado Let it Be? Proponho a discussão para a nossa Lista Beatles Brazil – em caráter permanente, até o dia em que o filme sair...



O Filme e as Sequências Mais Polêmicas
Twickenham

A dificuldade em sincronizar som e imagem aparece logo no inicio do filme – as imagens utilizadas para a performance de Adagio For Strings não tem qualquer correspondência. Em tempo: a faixa 'nunca, jamais' se chamou "Paul's Piano Theme" como está escrito em alguns discos piratas.

Na primeira performance de "Maxwell's Silver Hammer" o amadorismo da montagem fica evidente – Paul começa no baixo, corta abruptamente, e ele aparece ao piano e com outra roupa. O áudio não tem nada à ver com nenhuma das imagens, e provém de duas sequências distintas.

A sequência (mal montada) da versão de "Two of Us" acelerada foi, infelizmente, editada de maneira severa, e com um trecho de "I've Got a Feeling" totalmente fora do contexto. Apesar disso é um dos momentos clássicos do filme.

John Lennon é ouvido na segunda parte de "I've Got a Feeling", mas em momento algum aparece em close. É fácil perceber que áudio e imagens não são correspondentes.

Quem assiste o filme tem a impressão que Paul McCartney era o dono do projeto já que somente 'ele' fala ao longo de quase toda a ação. Ouvindo-se o que rolou nos Nagras percebe-se que os outros também falavam, e muito. Sobretudo John & George. Entretanto a edição de Lindsay-Hogg privilegia falas de Paul McCartney – questão que ainda necessita de explicação. Será que só existem imagens em close das falas de Sir Macca?

Outra edição e sincronia desastrosa, a performance de ensaio para "One After 909" onde cenas e trilha não correspondem.

Recortes estranhos: a ação muda de cenário sem cuidados cronológicos – teria ficado mais honesto editar o material com legendas indicando pelo menos o dia em que aquilo que é visto, aconteceu. Voltemos ao começo: não é assim porque a concepção de Get Back não previa a transformação do especial de TV num longa-metragem.

Uma das melhores cenas – a briga entre Paul & George é interrompida por um corte abrupto no qual o clima é outro (e o dia também), e John Lennon em estranho close canta "Across the Universe". Existem dezenas de passagens completas do take em áudio, mas Lindsay-Hogg optou por utilizar somente um pequeno trecho, mixado a outro de "Dig a Pony" fora do contexto. Motivo: inabilidade na edição, ou carência de imagens?

"Suzy Parlour", outra boa sequência do filme aparece editada em formato estranho – o áudio e as imagens não correspondem, e em momento algum John Lennon é enquadrado nos 'lead vocals' . Aparentemente essa imagem não existe. As cenas onde ele aparece de costas nada tem à ver com a trilha sonora.

"I Me Mine" é um dos casos mais clamorosos de edição equivocada. A ação começa com George Harrison mostrando a música em estágio embrionário para os outros, e usando a guitarra Epiphone de John Lennon. Na segunda parte do take a ação mostrada é outra (o dia também), com George numa guitarra Gibson Les Paul, e com Ringo e Macca no baixo e bateria. Enquanto se ouve um trecho da 'levada espanhola' da canção (idéia que não entraria no arranjo final) John Lennon & Yoko Ono dançam na penumbra cavernosa dos estúdios Twickenham. Sem dúvida uma cena clássica do filme apesar da edição truncada. É o fim da ação na primeira parte.



O Filme e as Sequências Mais Polêmicas
Apple

O festival de edições estranhas prossegue. "For You Blue" aparece bastante editada e com enxertos de ação que nem sempre correspondem à trilha sonora. O som vem de pelo menos duas fontes distintas.

"Besame Mucho" sofre do mesmo mal que permeia o filme – edição que abrevia o take, e enxerto de cenas que não correspondem ao soundtrack. Um dos momentos mais equivocados nos permite 'ouvir' backing vocals de John e George mas eles jamais são mostrados fazendo. Um close demorado dá a impressão que John Lennon toca baixo durante a ação, mas o instrumento e 'seu desempenho' não são enquadrados. Na realidade a cena não corresponde ao áudio.

O corte para "Octopus's Garden" com George & Ringo é abrupto e sem qualquer ligação com a sequência anterior, de Besame Mucho. Eles estão noutro cenário dentro do estúdio. A sequência é boa mas bastante abreviada pela edição. O áudio pirata na íntegra é muito interessante, mas quem pode garantir que exista imagem completa da performance?

"You Really Got a Hold on Me", outra clássica sequência do filme, sofre da falta de agilidade na edição. Cortes mais rápidos e precisos poderiam mostrar o duelo de backings entre John e George. Outro erro é a sequência onde o lead vocal de John Lennon é ignorado em favor de um close demorado do rosto de George Harrison. Existem imagens para, quem sabe, uma reedição?

O corte vai para a versão 'bossa nova' de "The Long and Winding Road", onde Paul McCartney lidera a banda. Os closes em Ringo, John e George indicam que a ação é dissociada da trilha sonora.

Em "Shake Rattle and Roll", John Lennon só aparece uma vez em close fazendo backing vocals. A canção teve o áudio severamente editado, e as cenas a partir das costas de John Lennon não correspondem à trilha.

"Miss Ann" faz parte de um medley com "Shake Rattle and Roll". John Lennon, no backings, só aparece de costas – um truque quase amadorístico que deixa claro que a ação não corresponde à trilha sonora.

O medley envereda para "Lawdy Miss Claudy". A voz de John Lennon é proeminente nos backing vocals, mas a edição mostra, em close, George Harrison quase estático.

A ação vai para "Dig It", outro dos clássicos momentos do filme. John Lennon canta em close e aparece à frente de imensas caixas de retorno Fender valvuladas. O ângulo de filmagem muda para as costas dele, e as caixas Fender desaparecem. Ele continua cantando mas a ação não corresponde mais ao áudio.

Corte para um diálogo entre John e Paul. De costas para a câmera, Paul McCartney fala sem parar, enquanto John Lennon é enquadrado num longo close, impassível e de cigarro na mão, sem nada dizer. Ouvindo-se esta sequência sem cortes no áudio dos Nagras, percebe-se que existem trechos onde Lennon interage com Paul. Volta-se à pergunta que não quer calar: para o caso de uma reedição existem imagens extras?

Finalmente uma sequência quase completa, com poucos enxertos mostra os Beatles interpretando "Two of Us". Um dos melhores momentos do filme.

O mesmo acontece com as maravilhosas performances para "Let it Be" e "The Long and Winding Road", onde entram cenas adicionais. No caso de Let it Be, um trecho do côro não corresponde à trilha. The Long and Winding Road apresenta pequena alteração no mix da voz de Paul. A ação da segunda parte se encerra.



O Filme e as Sequências Mais Polêmicas
The Rooftop

Nunca é demais lembrar: o rooftop foi o que restou da idéia original que previa a volta dos Beatles aos palcos para um mega-concerto que seria filmado na íntegra...

"Get Back" e praticamente todas as demais canções apresentam enquadramento estranho e que fatalmente terá de ser retrabalhado para o lançamento em DVD. Lindsay-Hogg necessitou de câmeras extras para filmar a ação, mas cometeu erros básicos na edição. Há uma cena filmada do alto de outro prédio que, claramente, não corresponde à trilha sonora que está rolando. Na hora do solo de John Lennon a edição enquadra George – um erro clássico.

"Don't Let me Down" tem enquadramento estranho. A edição que dispomos mostra John e Paul quase fora da cena, e com a câmera em close no vazio. Tal 'defeito' foi corrigido tanto nesta faixa quanto em Get Back em edições dessas canções exibidas em especiais recentes de TV, como o canal VH1. Quando nos deparamos com o 'defeito' no nosso DVD pirata do filme compreendemos que a edição que ainda circula não foi formatada para VHS ou outra mídia. Aquilo é transfer da versão para o cinema, tão somente.

Há outros pecados menores da ação no telhado, mas que igualmente merecem nota. "I've Got a Feeling" tem a intro desprezada em favor da edição de imagens feitas na rua com o público. Ouve-se a canção à distância, com efeito de eco e voice over dos entrevistados. Só a partir da segunda estrofe a ação volta para o alto.

George Harrison definitivamente teve seu trabalho prejudicado pela edição final do filme. Dois de seus melhores momentos foram limados e não se sabe se existem imagens preservadas. Ele 'dá um banho' nos solos para "One After 909" e "Dig a Pony", mas nada assistimos. O áudio é 'coberto' por cenas da rua em frente aos estúdios Apple.



Como Resolver os Problemas de Origem
e Fazer uma Edição Definitiva
de Let it Be em DVD

Será que alguém duvida que Let it Be – um dia – chegará ao mercado como um DVD duplo, e com a promessa de muitos extras? Claro que não. Entretanto é bom lembrar que a última aventura editada nesse formato, o filme "A Hard Days Night", tornou o segundo DVD um engodo. Nada do que os fãs gostariam, ou seja imagens extras, trechos que deixaram de ser editados. Na falta de material – já que os outtakes tanto de A Hard Days Night quanto de Help foram jogados na lata do lixo dos estúdios Twickenham cinco anos depois do lançamento dos respectivos filmes – optou-se por um festival de entrevistas – a maior parte delas desinteressante. E com o registro da ausência dos próprios Beatles entre os depoentes! Então, o que esperar dos 'extras' do futuro DVD do Let it Be? Não temos como saber o que virá. É possível até que sejamos surpreendidos por intervenções radicais nos erros de edição que apontamos ao longo deste extenso review. Quem sabe nos venham com um amontoado de imagens inéditas e performances completas que ficaram fora da montagem original. Já que o relançamento do filme foi preterido em favor do CD Naked, nos resta continuar sonhando com o que seria 'o paraíso' em matéria de Let it Be. A saber...

Primeira edição em DVD


DVD 01 - O Filme

Aqui teríamos a película tal e qual chegou aos cinemas. Imagem e som restaurados, dolby 5.1, legendas em português e outros idiomas, theatrical trailer produzido pela United Artists, e o principal: formatação dos originais para DVD wide screen, ou o que houvesse de mais avançado.

Restaria a polêmica: afinal, o filme passaria por processo de reedição e enxerto de cenas? Insisto que não restam dúvidas dos erros cometidos na montagem realizada originalmente por Michael Lindsay-Hogg e sua equipe. Pelo menos os erros grosseiros de edição seriam corrigidos?



DVD 02 - Os Extras

Este DVD poderia resolver (e resgatar) os problemas de origem que vem desde a pré-produção do filme. Se o caso for agradar em cheio aos fãs e ao próprio mercado consumidor, bem que poderíamos ter...

As inevitáveis entrevistas incluiriam Beatles, Michael Lindsay-Hogg, Glyn Johns, George Martin, Neil Aspinall, Ethan Russell, Phill Spector(?) e, quem sabe, os policiais que atenderam à ocorrência de encerrar o Rooftop Concert para garantir o sossego da vizinhança incomodada com o barulho!

O principal – para resumo de conversa – seria a sedução do comprador pelas imagens, e para isso haveria dois caminhos. O primeiro seria editar o que fosse possível de material completo (se existir) e não mixado para o filme original.

O segundo caminho se tornaria o 'highlight' da edição – o Rooftop Concert integral – sem cortes – e com todos os takes executados, incluindo-se as versões extras que foram repetidas ("I've Got a Feeling", "Don't Let me Down", etc.). Há uma esperança que esse material tenha sido preservado já que por iniciativa de Michael Lindsay-Hogg os Beatles repetiram as performances para dar opções aos técnicos quando da pós-produção. Enxertos de cenas seriam possíveis porque câmeras extras foram utilizadas para a ação no telhado e na rua. Esta reedição – quem sabe – permitiria a primeira exibição da sequência do solo feito por George Harrison para "Dig a Pony", por exemplo. Teria sido filmada? Diria que uma edição 'sem cortes' do Rooftop Concert em si já seria o maior presente para os fãs. Maior até que o relançamento do próprio filme – ao menos na minha modesta opinião. 'You may say I'm a dreamer...'

Prosseguindo a 'viagem' ainda haveria espaço para bonus! Pela primeira vez seriam lançados comercialmente os promo videos utilizados para a divulgação do filme/disco Let it Be – um deles o de Get Back, com imagens e áudio restaurados. Seria pedir muito?



Aguarde no próximo review:
"Let it Be Parte 2 - As Consequências Pós-Lançamento"

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com


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