Let It Be Again
Histórias sobre o pré e o pós-lançamento

Depois de longo hiato retomamos este espaço para cumprir uma promessa firmada desde a última atualização. Como sequência ao longo review em torno do filme Let it Be coletamos uma série de fatos que marcaram o pré e pós lançamento. Algumas histórias certamente estavam esquecidas - ou não são do conhecimento da maioria. Mas foram publicadas nos jornais da época, pelo mundo. Nossa pretensão foi juntá-las numa sequência que permita compreender certas questões que marcaram a trajetória do derradeiro trabalho dos Beatles para o cinema - e a perfeita tradução do final da banda. Ao longo da coletânea nos permitimos comentar alguns fatos no sentido do esclarecimento.


FIM DOS BEATLES & LET IT BE NO CINEMA
No dia seis de abril de 1970 Allen Klein volta dos Estados Unidos após fechar negociações com a United Artists para a exibição do filme Let it Be em escala mundial.

Ironia. No dia 9 de abril de 1970, a Apple divulga comunicado (mentiroso) onde nega boatos dando conta que Paul McCartney estaria deixando os Beatles. A secretária de Derek Taylor, Mavis Smith falou à imprensa. O ponto principal do comunicado dizia: "Esse fato(a saída de Paul)não é verdadeiro. A única verdade é que não há planos para novas gravações dos Beatles no momento, o que é normal. No próximo mês será lançado o novo LP. Nossa esperança é que os Beatles se juntem para novas gravações depois do verão. Quanto a Paul, está ocupado com seu novo disco. Não aparece na Apple desde o natal - isso porque tem um estúdio em casa e no momento trabalha por lá. Negamos possibilidade de rompimento do grupo".

No mesmo dia 9 de abril de 1970 - enquanto a Apple desmentia um possível fim dos Beatles que vazava para a imprensa, John Lennon se encontrava em tratamento na clínica do doutor Arthur Janov, o da terapia do grito primal. Consta que Paul lhe teria telefonado para dizer que, 'estava deixando os Beatles e fazendo o que John ameaçara fazer após o Álbum Branco. John Lennon faria essa revelação algum tempo após o fim da banda. Consta que teria dito a Paul: 'tudo isso é uma merda - boa sorte prá você...'

Dez de abril de 1970. O Daily Mirror vem com manchete de capa, 'Paul Está Deixando os Beatles.' Fãs correm para a porta da Apple. A imprensa também. Outros jornais, como o Evening Standard, confundem as pessoas ao publicar o comunicado do dia 9 de abril com a informação de que a banda estava firme. Derek Taylor e Peter Brown divulgam o comunicado de Paul McCartney dizendo que estava saindo por, 'diferenças musicais e no mundo dos negócios - e pela necessidade de dedicar maior tempo para a familia. Também afirma não saber se a saída era temporária ou permanente.'

A imprensa faz muitas perguntas, e Derek Taylor acaba admitindo que Paul tinha problemas com Allen Klein, já que não aceitava a forma como o empresário tocava os negócios dos Beatles. Não é anunciado formalmente o fim da banda.

O primeiro beatle a tocar no assunto da separação foi Ringo Starr - e ele disse: 'o que sei é o que vocês da imprensa estão divulgando.'

A imprensa divulga que Ringo Starr levara um sôco de Paul McCartney após uma feia discussão onde Ringo - atuando como porta-voz dos outros Beatles - teria procurado Macca com o pedído de que não lançasse o LP McCartney antes do filme e disco Let it Be. A briga nunca foi oficialmente confirmada.

No dia 17 de abril de 1970 Paul McCartney lança seu primeiro álbum-solo, McCartney. George Harrison comentou: 'Maybe I´m Amazed e That Would Be Something são ótimas. O resto soa pobre para mim. Teddy Boy e Junk mereciam arranjos melhores.'

A Apple divulga - no dia 23 de abril de 1970 - comunicado oficial dando conta que o filme Let it Be seria lançado no dia 20 de maio em Londres e Liverpool. A estréia mundial se daria em 13 de maio de 1970 em Nova York e mais 100 cidades no mundo inteiro.

No dia 24 de maio de 1970 sai nos EUA o álbum de estréia de Ringo, Sentimental Journey. Na Inglaterra o lançamento ocorrera no dia 27 de março. Ao mesmo tempo em que a United Artists gastava dinheiro nos anúncios de lançamento do filme Let it Be em larga escala.



O álbum Let it Be é lançado em uma caixa de papelão (somente na Inglaterrra) reproduzindo a capa do disco, e incluindo o LP (com capa dupla), e o livro de fotografias intitulado Get Back (todo clicado por Ethan Russell). Foi no dia 8 de maio de 1970. No dia 6 de novembro o disco seria relançado em formato normal, sem capa dupla, a caixa e o livro. Hoje em dia a Caixa com o LP e o livro (em bom estado de conservação) vale um bom dinheiro e representa um belo objeto de coleção.

No dia 9 de maio de 70, a imprensa americana publica reviews do filme Let it Be - assistido por jornalistas em sessão privada. Richard Williams, do Melody Maker escreveu: 'Os Beatles Estão Mortos - Longa Vida aos Beatles.'

No dia 18 de maio acontece a premiere do filme em Londres - para jornalistas, amigos e colaboradores dos Beatles. Nenhum dos 4 comparece. Dias depois, George Harrison dá uma entrevista por telefone a uma emissora de rádio e comenta: 'as cenas do rooftop ficaram boas, mas não quero olhar isso porque as recordações que me trazem são ruins. O tempo que passamos gravando, filmando - nada é bom de ser lembrado. Definitivamente não gosto desse filme.'

Nota: A sinceridade de George merece reflexão. Afinal, do ponto de vista de divulgação para o filme, pode ser observada como um desastre total. Certamente nunca seria proferida nos tempos atuais.

20 de Maio de 1970. Let it Be estréia na Inglaterra. A sessão de gala no London Pavillion foi concorrída. Nas primeiras filas era possível visualizar, Spike Milligan, Mary Hopkin, Sir Joseph Lockwood (chefão da EMI), Richard Lester, Lulu, e também os Rolling Stones, a banda Fleetwood Mac, dançarinos de um grupo de Hare Krishna, Jane Asher, Cynthia Lennon e... nenhum dos Beatles. A banda estava definitivamente separada. A imprensa britânica deu ampla cobertura através das rádios, jornais e canais de TV do Reino Unido. E comentou abertamente a separação dos Beatles. Não houve a contrapartida de desmentidos.

Let it Be em números. O filme foi distribuído simultâneamente para 1.004 cinemas na Inglaterra. A temporada de estréia teve 41 exibições. Em Liverpool eram três sessões diárias. Nesse período (de 41 exibições) o faturamento chegou a quase 7 mil libras. No London Pavillion o filme Let it Be permaneceu por sete semanas, até ser substituído por Ned Kelly, película onde Mick Jagger dá uma de ator.



A REPERCUSSÃO DO FILME

No período de lançamento, Paul McCartney concedeu entrevistas elogiando Let it Be - afirmava que era uma experiência positiva, dando chance às pessoas de ver a banda gravando e finalizando um álbum.

No dia 23 de maio a imprensa americana divulga o sucesso de Let it Be na América, sendo assistido por três milhões e setecentas mil pessoas na primeira semana de exibição, e faturando 25.900,00 dólares. Enquanto a imprensa britânica elogia a película, os jornais americanos se dividem. A maioria critica a produção. O New York Times afirma: 'a figura mais intrigante do filme é a japonesa Yoko Ono por seu silêncio e os olhos fixos no marido John Lennon.'

A rádio BBC 1 leva ao ar no dia 23 de maio de 1970 o programa, Let it Be The Show, apresentado por Johnny Moran. Foi o primeiro trabalho oficial de divulgação do projeto de disco e filme que chegava ao mercado mundial. O programa - com 44 minutos de duração - leva ao ar gravações de entrevistas individuais feitas por Moran, com os quatro Beatles, sobre o filme, entremeadas por músicas do novo álbum.

Paul McCartney: o filme é um documentário ou algo parecido. A impressão que eu tenho é que ele revela o trabalho de pintores finalizando um quadro, uma gravura. Penso que é um bom e interessante filme.

George Harrison: o filme dos Beatles é um documentário puro ensaiando e trabalhando na produção de um álbum. Nós pensávamos em transformar essas filmagens num especial para a TV, mas acabou sendo mais fácil levar isto para o cinema. É bastante informativo mas não soa belo para mim. Eu não tenho ânimo de parar para assisti-lo mas para as outras pessoas - quem não sabe realmente quem nós éramos nos bastidores, e tiver curiosidade em observar nossas verrugas, vai apreciar. Você nos verá conversando, tocando, tossindo, e por aí vai. Nunca será como ouvir um dos nossos discos, com tudo bem mixado, o silêncio entre as faixas e uma produção finalizada. Ao final creio que as pessoas acharão que a balada do Paul, The Long and Winding Road, virará um hit. Esse tipo de coisa.

Ringo Starr: Limita-se a dizer que o filme é bom, mas que seu momento é de trabalhar o primeiro álbum-solo, Sentimental Journey, e cuidar de sua esposa Maureen. Encerra o papo dizendo que, John Lennon é seu irmão de alma.

John Lennon: eu não tenho idéia se os Beatles vão trabalhar juntos novamente. Eu realmente não sei. Essa possibilidade estará sempre aberta. Dependerá de todos sentirem vontade. É isto. O filme pode ser avaliado como um renascimento ou à morte. É provávelmente um renascimento.

Nota: George Harrison modificou o pensamento em relação à opinião divulgada no dia 18 de maio de 1970. Embora mantenha um tom crítico. John Lennon opinou sem assistir ao filme, como você observará pelo relato do próximo segmento. O programa de rádio, Let it Be The Show foi a primeira ocasião na qual os quatro comentaram o filme, contribuindo para a divulgação do mesmo. A BBC nunca reprisou esse programa.



PANTOMIMA

No mês de maio de 1970 é divulgado o roubo de centenas de fitas de áudio do projeto Get Back/Let it Be, dos arquivos dos estúdios Twickenham. O material cairia nas mãos da pirataria. As fitas são aquelas - das câmeras A e B, e conectadas a gravadores Nagra - que registraram virtualmente todo o áudio produzido para o filme, com fins de sincronia. Por ocasião do lançamento do CD Naked, a imprensa britânica divulgou com estardalhaço que as fitas haviam sido recuperadas pela polícia. Mais de 3 décadas depois.

No dia 8 de junho de 1970, o doutor Arthur Janov - preocupado com o comportamento de John Lennon - e como parte do tratamento da Terapia do Grito Primal - o aconselha a assistir o filme Let it Be para relaxar. John aceita no ato e assiste o filme num cinema vazio em São Francisco. Com ele estavam, Yoko Ono, o editor da revista Rolling Stone, Jann Wenner e a esposa dele, Jane.

Surgem as primeiras gravações piratas do projeto Get Back/Let it Be. No dia 27 de junho aparece em algumas lojas de discos inglesas, o LP, Get Back to Toronto com qualidade de som estéreo e contendo as faixas até então inéditas, Teddy Boy, The Walk, e parte das mensagens natalinas gravadas para o fã-clube oficial. A gravadora, uma tal IFP Records. Esse raro disco é um dos primeiros (senão o primeiro) piratas dos incontáveis que surgiriam envolvendo as gravações de Let it Be.

No dia sete de julho de 1970, morre Louise Harrison, mãe de George. Vítima de câncer. Ele comporia especialmente para homenagea-la a canção Deep Blue, lado B do single Bangladesh.

O LP Let it Be sai no Brasil nos formatos mono e estéreo. A versão em mono é uma raridade disputada no mundo inteiro por colecionadores.

No dia 4 de agosto de 1970 ainda se discutia se os Beatles estavam mesmo separados. O que aconteceria após o anúncio da saída de Paul McCartney? A Apple administrava os interesses do grupo como se a banda ainda existisse. Numa coletiva à imprensa, o porta-voz, Peter Brown declarou que não havia qualquer plano para shows, turnês, gravações ou lançamentos de discos. Quando um jornalista indagou: os Beatles acabaram? Brown replicou: 'isso eu não posso responder.'

No dia 27 de novembro, sai o álbum triplo All Things Must Pass, de George Harrison, nos Estados Unidos. O lançamento inglês ocorreria após 3 dias.

Em 11 de dezembro de 1970, John Lennon lança o disco Plastic Ono Band em caráter simultâneo - Estados Unidos e Inglaterra.

A chegada do filme Let it Be aos cinemas do Brasil mobilizou os fãs. As fotos em cores contendo cenas da película, eram um objeto do desejo. Muitos foram os casos de fãs que tentaram roubar das vitrines do cinema as fotografias. Para atrair o público alguns cinemas sortearam fotos e cartazes de Let it Be, beneficiando quem comprava ingressos.

No dia 31 de dezembro de 1970, Let it Be continuava sua trajetória pelos cinemas mundiais quando foi anunciado que Paul McCartney abrira um processo contra os outros três Beatles e a Apple Records. A ação começou a tramitar na Suprema Côrte de Londres e pedia a dissolução da empresa Beatles Limitada, o imediato afastamento do senhor Allen Klein dos negócios ligados à banda, e a nomeação de um interventor para dirigir a Apple até que a questão se resolvesse. Os jornais publicaram um comunicado onde Paul McCartney esclarecia seu ponto de vista: 'quero sair do contrato. Penso que o grupo acabou. Nós estamos separados, e tudo o que nós ganhamos eu gostaria que fosse desmembrado agora. O processo é para que todos sentem, assinem uns papéis e deixem claro que estão fora. É isso o que eu quero.' Essa notícia correu o mundo. E para muitos é considerada a data oficial - e formal - da separação dos Beatles.

No dia 18 de fevereiro de 1971 os jornais tem acesso a documentos privados apresentados à Suprema Côrte de Londres pelos advogados de Paul McCartney. Um dos documentos enumera três razões capazes de justificar a decisão de Paul em deixar os Beatles...

1. O senhor Allen Klein tinha tentado atrasar o lançamento de seu álbum, McCartney.

2. A empresa ABKCO (pertencente a Klein) autorizou a adulteração de The Long and Winding Road sem consultá-lo primeiro.

3. A ABKCO transferiu os direitos do filme Let it Be da Apple para a United Artists sem qualquer consulta a Paul.

Nota: o documento oficial revela a extensão da influência de Allen Klein na separação dos Beatles.

No dia 16 de março de 1971, o disco Let it Be recebe um Grammy como Melhor Trilha Sonora Escrita para um Filme ou Especial de TV em 1970. Paul & Linda se encontravam em Los Angeles e compareceram à solenidade. Receberam o Grammy em nome dos Beatles, e das mãos de ninguém menos que a lenda do cinema americano, John Wayne.

Um mês depois, no dia 15 de abril de 1971, Let it Be ganha um Oscar! A Academia de Artes e Ciências dos EUA, premiou a trilha trilha sonora do derradeiro filme dos Beatles como a melhor do cinema em 1970. Nenhum Beatle compareceu para receber a estatueta.

Nos anos 70 a TV Globo leva para a sessão da tarde os filmes dos Beatles, Os Reis do Ié Ié Ié (A Hard Days Night), Socorro (Help!) e Deixe Estar (Let it Be). Foram reprisados diversas vezes, sobretudo no período de férias escolares. As falas eram dubladas em português.

Em agosto de 1981 a Magnetic Video Corporation lança em VHS na América o filme Let it Be. Pouco depois sairia em LD. A Apple reage e consegue retirar o filme de catálogo alguns meses mais tarde. Até hoje aguardamos pelo relançamento - com extras, imagem e áudio restaurados.

No dia 8 de maio de 1982 o filme Let it Be é levado ao ar na TV Britânica pela última vez até o momento. Foram 4 exibições no total.

O jornal Folha de São Paulo divulga em 1987 a informação de que as distribuidoras de filmes do Brasil estavam destruindo toneladas de rolos de celuloide de seus arquivos. Boa parcela estava em estado precário e não havia intenção de recupera-los. Entre as cópias incineradas figurava o Let it Be legendado em português...

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com


O micro-site POP GO THE BEATLES é parte integrante da REDE BEATLES BRASIL (www.thebeatles.com.br), em parceria com o jornalista CLAUDIO TERAN.
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