A SAGA DO LP GET BACK

Apenas 11 semanas haviam se passado entre o lançamento do Álbum Branco e o começo dos trabalhos de produção de um novo álbum dos Beatles. O disco que somente em abril de 1970 ganharia o título definitivo, Let it Be, começou a ser gravado bem antes, no primeiro mês de 1969. Se White Album foi uma produção conturbada, a seguinte apenas contribuiu para aumentar as tensões, tornando por vezes insuportável o ambiente do grupo. É impossível contar a história de "Let it Be" sem falar de "Get Back" já que este era o título original do ambicioso projeto de filme e disco que os Beatles pretendiam jogar no mercado. Ninguém havia feito nada igual até então. A idéia original pretendia uma espécie de "nova invasão dos britânicos" valendo-se da modernidade.

O grupo ganharia o mundo num documentário televisivo cujo título provisório (por idéia do executivo Denis O"Dell) seria "Beatles At Work TV Documentary", produção gravada em 16 mm dividida em duas partes. Na primeira meia hora a banda apareceria ensaiando as novas canções. Na segunda meia hora, com o trabalho finalizado promoveria um mini-concerto tocando ao vivo parte do material do futuro álbum Get Back.

Parecia perfeito. Afinal, dar ao público a oportunidade de ver e ouvir os Beatles "work in progress" sem dúvida era instigante. E inédito! O filme também atenderia uma saudade" que movia o grupo: voltar de alguma forma a tocar ao vivo. Não havia planos para a volta das turnês, mas se a TV se encarregava de levar os promos dos Beatles a "excursionar" mundo afora desde a segunda metade de 1966, porque não um projeto visual onde o grupo poderia se divertir novamente tocando ao vivo sem o pandemônio a precariedade e a pressão dos estádios e ginásios? Obvio que a idéia multimídia se completava com um álbum de canções inéditas com a trilha sonora. "Get Back" foi finalizado duas vezes. E rejeitado pelos Beatles. A foto histórica definida para a capa e o lay out foram adulterados em três ocasiões. "Get Back" estava fadado a se tornar o disco que não foi. Não virou nome do próximo álbum e do filme porque os Beatles não estavam voltando. Estavam se despedindo...



1969
Terça-feira 02 de Janeiro a Quarta-feira, 15 de Janeiro
Twickenham Film Studios, Londres

Os Beatles não chegaram a passar duas semanas completas ensaiando em Twickenham para o projeto Get Back. Nos dias 4, 5, 11 e 12 de janeiro eles não trabalharam lá. Para os fãs esse pedaço da história do grupo sempre foi objeto de muita curiosidade, mas para a banda só representou tempo perdido. O primeiro entrave foi de ambientação. O expediente inicial, das oito da manhã às cinco da tarde num espaço enorme, muito frio e sem as facilidades que a banda tinha em Abbey Road, não foi seguido. Os Beatles chegavam às 11 da manhã e só iam embora a 1 da madrugada. O segundo problema era a presença de estranhos. Michael Lindsay-Hogg estava lá com sua equipe, registrando tudo - o diretor de fotografia Tony Richmond; quatro operadores de câmera; técnicos de iluminação e o engenheiro Glyn Johns, contratado para cuidar do áudio. Embora necessária para a idéia do documentário de TV, essa movimentação tirava a privacidade. O primeiro a reclamar foi George Harrison. Numa pausa dos ensaios ele ponderou que nada do que viesse a ser feito ali poderia ganhar a luz do dia porque não estava sendo profissionalmente gravado. Era verdade. Lindsay-Hogg fazia muitas imagens, mas o áudio-guia era registrado em gravadores Nagra. Para George não era razoável lançar material captado daquela maneira.

E de fato isso não aconteceu. Então por que perder tanto tempo naqueles ensaios? A justificativa é que ninguém sabia realmente o que o projeto seria de verdade. Talvez o único com uma concepção em mente fosse Paul McCartney, e ele não conseguia contagiar muito os outros. Imagens exibidas no Anthology (não aproveitadas no filme Let it Be) mostram um caminhão da Apple desembarcando um equipamento mono levado aos ensaios por Glyn Johns. Ele fez gravações profissionais ao longo de quatro dias alternados, mas nada foi utilizado. Pelo que se sabe as fitas não foram preservadas. Como a idéia em Twickenham não era gravar, mas ensaiar e fazer algumas imagens disso, o que foi produzido em termos de áudio acabou solenemente desprezado. E isso não deixa de ser absurdo.

Nas seqüências da primeira parte do filme Let it Be o áudio está em mono como capturado pelos Nagra Tapes. Na segunda parte também. A diferença é que nas cenas do "rooftop" o som foi gravado profissionalmente e mixado em estéreo. No CD bônus Fly on the Wall encartado no álbum Let it Be...Naked, de 2003, o primeiro lançamento oficial de trechos dos ensaios dos Beatles também está em mono. Isso leva a crer que a "fonte" da trilha do filme vêm dos gravadores Nagra acoplados às câmeras "1" e "2" de Lindsay-Hogg. A justificativa plausível para o desprezo com o áudio da primeira parte do filme tem a ver com a época de sua concepção. O documentário iria ao ar em aparelhos mono de Televisão. O futuro casamento do áudio e do vídeo como nos tempos digitais de hoje, ainda levaria décadas para vir.

Se formos observar com visão critica o que se passou em Twickenham a primeira questão curiosa para uma banda cuja razão de existir era sua música é que não havia qualquer direção musical sendo seguida. As novas composições que o grupo ensaiou naquelas duas semanas eram em sua maioria esboços. Eles também não tinham material em condições de lançar porque descarregaram o que havia de melhor no repertório do Álbum Branco, que estava "fresco" no mercado. Ao contrário dos velhos tempos, John & Paul pareciam não conhecer as composições um do outro até iniciarem os ensaios. A colaboração entre os dois parceiros, afinal, sempre foi um dos marcos de seu sucesso.

Havia outros problemas. George Harrison não suportava mais o desprezo às suas músicas e parecia determinado a seguir caminho próprio. O resultado do estado de ânimo geral está refletido nas gravações. E ficaria visível no filme. Os ensaios para "Get Back" são marcados por improvisos nem sempre inspirados. Mais de uma centena de canções foram tocadas, entre material próprio e covers de dezenas de outros artistas. Algumas duravam apenas uma frase ou duas, e olhe lá. É visível, ou melhor, audível a maior parte do tempo a falta de convicção do grupo. Para realmente fazer uma avaliação crítica pessoal eu recomendo ao leitor a mastodôntica coletânea pirata Day by Day, com seus 130 CDs onde é possível ouvir quase tudo que rolou naqueles ensaios.

O lado positivo está no material embrionário apresentado. Quase todas as "geniais" canções do LP Abbey Road foram ensaiadas no todo ou em parte em Twickenham. "Something" e "Oh Darling", são apenas dois exemplos. A própria carreira-solo dos Beatles começaria nos ensaios de "Get Back", porque os primeiros registros conhecidos de faixas como "All Things Must Pass", "Jealous Guy" e "The Back Seat of my Car" surgiriam naquelas sessões. Ao mesmo tempo aquele foi também o mais frustrante período de toda a carreira dos Beatles e decisivo para o fim. Depois das duas semanas de "nada" em Twickenham e com o registro da saída temporária de George Harrison, a direção do projeto mudou.



MAGIC ALEX

Ninguém sabia exatamente o que seria feito com as imagens que Michael Lindsay-Hogg produzira até o dia quinze de janeiro de 1969 nos estúdios Twickenham. Nem o especial de TV era uma certeza, considerando que até aquele estágio não havia negociação formal com nenhuma emissora. Teoricamente o projeto estrearia na BBC. Independente disso o direcionamento da proposta mudara e a ordem era gravar profissionalmente. Sendo assim toda a estrutura mudou de endereço. Não havia mais clima para ensaios. Os Beatles realizariam o sonho de gravar em seu estúdio próprio. Isso, aliás, era uma tendência da época. Nomes consagrados do rock construíam estúdios particulares para se livrarem, ao menos no processo de produção, da tirania das gravadoras. Jimmy Hendrix, vale registrar, foi um dos pioneiros.

A idéia com a Apple Records era gravar quando e da forma que os Beatles bem entendessem. O estúdio também serviria para que o selo Apple apostasse noutros artistas e tendências musicais. Outro objetivo era a montagem de uma estrutura mais moderna que a dos estúdios da EMI em Abbey Road, com a garantia integral dos registros em oito canais de áudio. Só que ao invés de trabalhar com profissionais experientes no ramo os Beatles, ou melhor, John Lennon preferiu confiar a estruturação da Apple Records a um amigo que conheceu na Grécia. Os Beatles deram dinheiro a um verdadeiro "charlatão", Alex Mardas, mais conhecido como Magic Alex, para que construísse o que ele mesmo descreveu em sua exposição de motivos como "o melhor estúdio possível". John se convenceu de que Alex era um sujeito moderno, a frente do tempo e capaz de revolucionar a técnica de gravação em estúdios.

Quando George Martin e seus auxiliares foram fazer uma inspeção na Apple, desmascararam Magic Alex. O estúdio que ele montou foi "o maior desastre de todos os tempos", lembra Martin. A mesa de mixagem era de madeira velha e o principal equipamento um osciloscópio antigo. Um dos argumentos de Alex Mardas que levou os Beatles a contratá-lo foi que montaria um estúdio de 72 canais! Nem nos ambientes de tecnologia mais avançada isso existia em janeiro de 1969. O resultado foi que dos prometidos 72 canais, só 16 foram possíveis, e assim mesmo combinando-se o óbvio, dois gravadores de 8 canais montados para funcionar de forma simultânea, o que nem no final dos anos 60 era novidade.

Num relatório que foi produzido e entregue ao comando da Apple, George Martin e seus técnicos constataram que "o local não tinha paredes isoladoras de som e era possível ouvir o barulho dos canos, das tubulações e o ronco do ar condicionado vazando para o ambiente onde se pretendia gravar música". Consta que os Beatles ainda tentaram gravar alguma coisa só para ver se funcionava, mas naturalmente não deu certo. Magic Alex acabou demitido. O prejuízo ficou. A primeira conseqüência foi o atraso no início formal das gravações do LP Get Back em uma semana. E a questão só se resolveu porque George Martin agiu. Contratou técnicos que trabalharam noite e dia para desmontar a tralha de Magic Alex, ao tempo em que montaram às pressas a estrutura que seria usada em breves dias. George Martin também pediu socorro à EMI, conseguindo por empréstimo duas máquinas de 4 canais para conectar com o console de 8 canais da Apple e somente dessa forma viabilizar gravações na gravadora dos Beatles.



Terça-feira, 21 de Janeiro de 1969 - BBC Radio 1, London
Programa scene and Heard"

Começa a série de entrevistas radiofônicas individuais feitas pelo jornalista David Wigg com John, Paul, George & Ringo. O primeiro beatle a falar para o programa é Ringo Starr. Na abertura Wigg explica que gravara a entrevista no banco traseiro do Mercedes Benz de Ringo no trajeto entre Surrey (onde o baterista morava) e Londres. Naquele ano Wigg gravaria entrevistas com os demais Beatles e utilizaria no programa e também no jornal Daily Express. Em 1976 o jornalista publicou o LP duplo "The Beatles Tapes From David Wigg Interview". John, Paul, George & Ringo tentaram impedir o lançamento. Em vão. No começo dos anos noventa o LP foi lançado em CD na Inglaterra.



Quarta-feira, 22 de Janeiro de 1969
Apple Studios, Londres
"Billy Preston"

Primeiro dia de gravação formal do LP Get Back. Estava mantida a idéia de gravar um disco no clima de "ao vivo no estúdio", como foi feito com "Please Please Me", cinco anos antes. Tanto quanto possível as faixas não teriam pesada pós-produção como vinha ocorrendo desde "Revolver". Pelo contrário. A idéia era fazer do novo álbum uma produção humana, capturada ao vivo. Até eventuais erros na execução seriam admitidos na mixagem final. Glyn Johns ganhou, nesses dias, um status jamais creditado. Virou informalmente produtor, e não um engenheiro de som. Isso ocorreu porque os Beatles estavam acostumados com George Martin por perto. A presença do maestro, vale lembrar, foi rejeitada inicialmente, mas nesse estágio ele freqüentava os estúdios Apple, embora nunca tenha ficado claro o que realmente fazia.

Nas fitas gravadas ao longo desse período não é raro ouvir George Martin dando instruções no estúdio e respondendo perguntas dos Beatles. Também é possível ouvi-lo dando ordens a Glyn Johns. Há quem diga que George Martin atuou como um consultor. Glyn Johns estava com a carreira em ascensão. Vinha de trabalhos importantes, um deles o projeto de filme e disco dos Rolling Stones, rock'n'roll Circus. Outra cara nova na histórica sessão deste dia 22 foi Billy Preston, convidado a se juntar ao grupo por George Harrison. Como se sabe a presença de Preston contribuiu para aliviar a tensão no grupo.

A participação dele tinha um objetivo claro. Desde o começo do projeto, John Lennon se queixava que era inviável pensar num disco sem a inclusão de teclados, só que nenhum beatle tinha como fazer isso dentro da concepção de gravação ao vivo sem overdubs, o fio condutor do novo álbum. Com Preston o problema se resolvia. Os Beatles conheciam o músico desde 1962, quando Billy era um adolescente da banda de Little Richard. John, Paul e George fizeram amizade com ele no "backstage" das apresentações em Hamburgo, na fase - por assim dizer - pré Beatles.

Billy Preston recebeu 500 libras de cachê pelos dez dias de trabalho nos estúdios Apple. Aproveitou o ensejo para fechar um negócio. Assinou contrato para gravar seu primeiro álbum solo, que teria produção de George Harrison e mixagem de Glyn Johns. As gravações foram acertadas para maio. A amizade dos dois só se fortaleceria a partir de então. Preston participaria no futuro de vários álbuns solo de Harrison sem falar na importante presença dele no Concert For Bangladesh (1971) e na North American Tour (1974). Billy Preston também ajudou a garantir paz no estúdio enquanto as gravações profissionais do LP Get Back rolaram. Com seu talento e bom humor o tecladista se "enturmou" com facilidade ao universo fechado dos quatro Beatles. Billy também conseguiu o feito de ter o nome creditado como músico na contracapa do single Get Back/Don't Let me Down. Está escrito lá: "The Beatles with Billy Preston". É uma façanha. Eric Clapton não teve o nome creditado por sua participação no Álbum Branco.

Outro registro a se fazer é que faltava às sessões de Get Back o clima dos bons tempos. Quem dera o entusiasmo e a cooperação da época do "LP Please Please Me" estivesse presente. Não estava. Os Beatles trabalharam sem planejamento até o final, e a improvisação não era só uma idéia na cabeça, era a única forma possível de tentar algo. "Eles jamais fariam Sgt. Peppers num ambiente como aquele", diria o engenheiro de som Richard Lush. "Foi a mais miserável sessão de gravação da terra", estabeleceu John Lennon numa declaração famosa. Não devemos esquecer a presença da equipe de filmagem de Michael Lindsay-Hogg, que também tumultuava o processo.

Até hoje é impossível saber com precisão quantos takes desta ou daquela canção foram feitos por que os Beatles promoviam Jam sessions quase o tempo todo - paravam conversavam, e tocavam pensando nas câmeras. Existem horas e horas de filme não editado sem que se saiba que fim levou o áudio correspondente. Na Apple não havia a organização da EMI e, portanto as sessões para Get Back/Let it Be são as mais mal documentadas de toda a história do grupo. Há uma tremenda imprecisão entre o número de takes anotados pela equipe de filmagem e pelo estúdio. Paul McCartney percebeu a bagunça e tentou fazer alguma coisa, escrevendo na contracapa das caixas das fitas o contexto em que o material havia sido gravado. Não são anotações precisas. Quem também tentou catalogar foi o engenheiro John Barrett, mas ele morreu de câncer, em 1982, antes de concluir o trabalho. Não há informações atuais sobre o destino desse material hoje em 2010.

Voltando à sessão, foram tentados nesse dia os seguintes takes: ""All I Want Is You" (título de trabalho de "Dig A Pony"), "I've Got a Feeling", "Don't Let Me Down", uma breve faixa instrumental intitulada "Rocker" (na caixa da fita), e "Bathroom Window" (o título de trabalho do que viria a ser no futuro she Came In Through The Bathroom Window"). Também tocaram, de improviso, trechos de canções do The Drifters" (Save The Last Dance For Me). E Goin" Up the Country, do Canned Heat. Billy Preston participou ativamente com seu piano elétrico. As sessões ocorriam em dois horários: entre 10 e 11 da manhã, e entre 5 da tarde e 10 da noite.






Quinta-feira, 23 de Janeiro
Apple Studios, Londres
"Get Back" session

Dia dedicado à gravação de uma faixa exaustivamente ensaiada nos estúdios Twickenham, "Get Back". Havia um consenso no grupo de que esta composição que dava nome ao projeto tinha de "puxar" o primeiro single. Nessa data estreou como engenheiro de som numa sessão dos Beatles, Allan Parsons, aquele da banda Allan Parsons Project, que faria sucesso na segunda metade dos anos 70 e começo dos 80. Billy Preston liderou os primeiros sons do dia. Registrou no piano elétrico uma faixa instrumental intitulada "Blues", não aproveitada no filme nem no futuro LP.



Sexta-feira, 24 de Janeiro
Apple Studios, Londres

Quando os gravadores foram ligados o primeiro trabalho musical do dia foi, "On Our Way Home" (título de trabalho de "Two Of Us"). Outra canção de Paul registrada foi "Teddy Boy". E, numa brincadeira, os Beatles tocaram "Maggie Mae", lembrando a história de uma famosa prostituta de Liverpool. A gravação de apenas 38 segundos entraria no futuro LP Let it Be com o crédito de canção tradicional com arranjo de "Lennon-McCartney-Harrison-Starkey". O dia também serviu para mais uma tentativa de gravar "Dig It", "Dig a Pony" e "I've Got a Feeling". Um take de Teddy Boy foi selecionado para o LP Get Back e mixado duas vezes.

Numa das versões de "Dig It", John Lennon recitou - usando um tom infantil a frase: "That was can you dig it by Georgie Wood, now we"d like to do Hark The Angels Come". O trecho foi mixado tanto para o LP Get Back quando para Let it Be. Ao final dos trabalhos o engenheiro Glyn Johns foi para o Olympic Studios, carregando várias fitas de rolo. Aproveitando a estrutura e o sossego do local trabalhou durante 90 minutos na seleção de um pacote de gravações dos Beatles feitas nos últimos dias.



Sábado, 25 de Janeiro
Apple Studios, Londres

O dia começou com uma "Jam session" instrumental sem título. Dela os Beatles passaram para um breve improviso de "Bye Bye Love", o clássico de 1957 dos Everly Brothers. O restante do dia foi dedicado a uma canção de Paul, "Let it Be". George Harrison registrou, "Georges Blues", titulo de trabalho para "For You Blue".



Domingo, 26 de Janeiro
Apple Studios, Londres

"Dig It" foi retrabalhada e ficou mais longa: 12 min. e 25seg. E foi pré-selecionada para o LP Get Back. Só que Glyn Johns a reduziu para 8min. e 27seg. A razão está no final, quando a enteada de Paul, Heather Eastman, então com seis anos de idade, começou a berrar num microfone, tornando insuportável a audição a partir dos 8 minutos. George Martin participou tocando pandeiro. Logo depois uma sessão de improvisos aconteceu, num clima onde todos estavam felizes. Gravaram um longo medley de rock'n'roll com shake Rattle and Roll" (de Joe Turner, 1954), "Kansas City" (seguindo a versão original de Wilbur Harrison, de 1959, não a versão de Little Richard para a qual os rapazes se basearam no Beatles For Sale), "Miss Ann" (de Little Richard, 1956), "Lawdy Miss Clawdy" (de Lloyd Price, 1952), Blue Suede Shoes" (de Carl Perkins, 1956) e "You Really Gota Hold on Me" (dos The Miracles com Smokey Robinson, 1962). Logo depois George Harrison liderou os Beatles em mais uma versão instrumental dos The Miracles para "Tracks of My Tears" (gravada em 1965). Parte da Jam com pesada edição de imagem entraria no filme Let it Be. Outra parte foi lançada em 1996 no CD 03 do Anthology.

Duas outras canções foram gravadas neste domingo. "The Long and Winding Road", de Paul, ocupou o maior tempo da sessão. George gravou uma "demo" sem titulo e sem a letra completada. Os trechos de guitarra que registrou ficaram marcados pela desafinação. Era o embrião de "Isn"t It a Pity", jamais gravada formalmente pelos Beatles. Glyn Johns atravessou a madrugada no Olympic Studios mixando gravações, desta vez para estéreo.



Segunda-feira, 27 de janeiro
Apple Studios, Londres

O dia começou com uma pouco inspirada Jam instrumental que se estendeu por mais de dez minutos, envolvendo os quatro Beatles e Billy Preston. O objetivo foi "aquecer" a banda. Em seguida, "Get Back", "Oh Darling", "I've Got a Feeling" e "The Walk" foram tentadas. O trabalho mais demorado se deu em "Get Back", mas nenhum dos takes desse dia seria aproveitado. Num determinado momento entre um take e outro John Lennon fez uma paródia que, no futuro, entraria como vinheta introdutória da versão de Get Back escolhida para o LP Let it Be. Ele disse: "sweet Loretta Fart she thought she was a cleaner but she was a frying pan". "Oh Darling" ainda estava em estágio embrionário, e o objetivo de Paul foi apenas ensaiá-la com a banda, gravar e usar o registro como guia para aprimorá-la mais tarde. Quanto a "The Walk", foi tocada de improviso após comentários do grupo acerca do grande sucesso de Jimmy McCracklin com essa canção, em março de 1958.



Terça-feira, 28 de Janeiro
Apple Studios, Londres
Single: "Get Back/Don't Let me Down"
Billys Song 01
Billys Song 02

Dia histórico. As duas faixas que comporiam o primeiro single do projeto, "Get Back" e "Don't Let me Down", são gravadas e finalizadas. Na mixagem, Get Back recebeu fade out para eliminar os insistentes "ho ho hos" feitos por Paul. O objetivo era evitar problemas de duração do take para a prensagem no compacto simples de vinil. Na primeira mixagem para o LP Get Back o "fade" em "Get Back" não foi feito. Num momento de descontração os Beatles ressuscitaram duas antigas composições: Love me Do e One After 909. Infelizmente não foi uma séria tentativa de modernizar seu primeiro single. Com levada blues, "Love me Do" foi tocada sem muito empenho e com notas erradas. Paul liderou os vocais com John nos backings. O take durou 2min20seg. e foi registrado pelas câmeras, mas não foi considerado para o filme. "Dig a Pony; I've Got a Feeling e Teddy Boy", também tentadas, tiveram diversos takes registrados.

Merece destaque a longa "Jam session" que se seguiu com "One After 909". Todos se divertiram lembrando a velha composição da fase pré-Beatles. Registrada nas sessões da EMI de 5 de março de 1963, acabou não lançada em Please Please Me. A novidade da sessão de improvisos foi que Billy Preston introduziu um piano com levada blues, enriquecendo o arranjo. Talvez "One After 909" seja -entre todos - o take que melhor encarne a idéia original do projeto "Get Back" de se fazer um disco ao vivo no estúdio.

Mas a produtiva sessão de 28 de Janeiro de 1969 ainda reservaria mais surpresas. Billy Preston aproveitou o clima favorável e gravou duas canções de autoria própria, Billys Song 1 e Billys Song 2 (são esses os títulos que constam nas caixas das fitas). O detalhe curioso é que o tecladista é acompanhado pelos quatro Beatles, fato inédito e porque não dizer, inusitado. As duas composições ainda estavam sendo lapidadas e a levada mistura soul e blues. O material não circula na pirataria e não há registro de que tenha sido gravado pela equipe de Michael Lindsay-Hogg. Billy Preston jamais lançou ou finalizou os takes. Logo depois dessa seqüência, a filmagem registrou uma longa conversa na qual John, Paul, George e Ringo demonstravam insatisfação com os rumos do projeto Get Back. Todos contribuíram com opiniões e idéias sobre a iniciativa que os ocupava desde o começo do mês.



Quarta-feira, 29 de Janeiro
Apple Studios, Londres


"Teddy Boy" e "One After 909" foram gravadas logo no início da sessão, mas a insatisfação de Paul com os takes continuava. Em seguida trabalharam numa nova composição de John Lennon, "I Want You". O take ainda não tinha um final definido. Nem a letra completada. "Jam sessions" de velhos clássicos do rock'n'roll também ocuparam espaço durante os trabalhos. "Not Fade Away" e "Mailman Bring me No More Blues" foram gravadas. Esta última viraria entre as décadas de 70 e 80 uma das maiores gemas da pirataria. Só foi lançada oficialmente no CD "Anthology 03", 27 anos depois. Outra versão tocada de improviso nesta sessão foi "Besame Mucho", numa levada blues, muito lenta e que denota o pouco empenho da banda em fazer uma séria releitura.



Quinta-feira, 30 de Janeiro
Apple Corps (Roof), Londres
"Os Beatles Sobem no Telhado"


Qual transeunte que estivesse passando pela rua em frente ao prédio de quatro andares da Apple poderia supor que naquele cinzento dia os Beatles dariam um improvisado concerto ao vivo no telhado? Uma apresentação que ninguém conseguiria enxergar, somente ouvir. Tudo foi decidido no clima que marcaria para sempre o projeto Get Back. Apenas quatro dias antes a idéia foi sugerida por Paul McCartney e acatada pelos demais, com uma ressalva. Inicialmente Ringo Starr disse que não participaria, mas foi logo convencido por John e Paul, já que os dois estavam realmente afinados desta vez. George Harrison dava de ombros. Concordou em subir no telhado para tocar com a condição de não apresentar nenhuma de suas canções. Sem esconder a amargura, deixou claro que queria ficar livre o mais rápido possível daquele compromisso. E a idéia era essa mesmo. Filmar o concerto no teto da Apple para finalizar o documentário Get Back.

A escolha de tocar ao vivo por volta do meio-dia tinha por objetivo divertir os passantes e os empregados de empresas e escritórios das proximidades - pessoas comuns que nesse horário deixavam as repartições para almoçar. Fazia muito frio na ocasião e o vento aumentava a sensação térmica negativa. Dos 42 minutos do evento, metade foi aproveitada no filme Let it Be. O disco com a trilha sonora teria três takes do telhado: I've Got a Feeling, Dig a Pony e One After 909. A Apple usou um equipamento multitrack de oito canais cedido pela EMI para a gravação. Michael Lindsay-Hogg usou câmeras extras para capturar imagens e também repórteres que entrevistaram o público que se aglomerava na calçada e no entorno do prédio. Lá embaixo o som chegava com muito eco, mas era perfeitamente audível se considerarmos alguns fatores como o trânsito que não era tão intenso ao meio-dia daquela quinta-feira de janeiro de 1969. E a altura do prédio.

Os tempos também eram outros e Londres, num dia gelado, parecia calma e introspectiva. Ao menos naquele trecho da Saville Row. Os Beatles tocaram com a amplificação Fender que à época utilizavam nos ensaios no estúdio. Não era, portanto, um som potente. O charme da coisa toda está nesse improviso que marcaria a realização do último concerto ao vivo dos Beatles.



Setlist Rooftop Concert
SETTING UP (sons de afinação e ajustes)
GET BACK (rehearsal 1)
GET BACK (rehearsal 2)
I WANT YOU (Shes So Heavy) - apenas alguns acordes
GET BACK (take 01)
Don't LET ME DOWN (take 01)
I've GOT A FEELING (take 01)
ONE AFTER 909 (snippet) - apenas alguns acordes
ONE AFTER 909 (take 01)
DIG A PONY (rehearsal) - apenas alguns acordes
DIG A PONY (take 01)
GOD SAVE THE QUEEN - apenas alguns acordes
I've GOT A FEELING (take 2)
Don't LET ME DOWN (take 2)
GET BACK (take 02)
Mais detalhes:
http://thebeatles.com.br/pop/beatles-rooftop.htm
Havia uma curiosidade natural dos Beatles em ouvir o concerto e por essa razão Glyn Johns trabalhou na mixagem das gravações naquela mesma noite, entre 19 e 22 horas. No dia seguinte distribuiu cópias a John, Paul, George e Ringo.



Sexta-feira, 31 de Janeiro
Apple Studios, Londres

No último dia de sessões de gravação e filmagem para "Get Back" os Beatles produziram três clássicos. Dois deles com arranjo básico ao piano: "The Long and Winding Road" e "Let it Be". Também ficou pronta "Two of Us". Três canções de Paul McCartney. Nas caixas com os rolos de filme, Michael Lindsay-Hogg definiu essa seqüência como "Apple Studio Performance". Os Beatles ainda gravaram Lady Madonna, numa Jam session. O take chegou a ser mixado para possível inclusão no LP Get Back, mas não entrou. "The Long and Winding Road" teve mais de 30 takes gravados até a finalização. "Let it Be" ficou pronta após nove tentativas. Nesse dia, com a conclusão das gravações o projeto de filme e disco só tinha gerado alto investimento e nenhum retorno. Daqui em diante começa uma verdadeira saga para o "LP Get Back", o disco que nunca saiu.



Quarta-feira, 05 de Fevereiro Apple Studios, Londres
Sem a presença dos Beatles, Glyn Johns trabalha na mixagem estéreo de algumas faixas tocadas no rooftop concert: "I've Got A Feeling" (as duas versões), "Don't Let Me Down", "Get Back" (duas versões), "One After 909" e "Dig A Pony".



Terça-feira, 4 de Março
Apple Studios, Londres

Cinco semanas após o fim das sessões do projeto Get Back, uma reunião acontece. Ringo e George não participam. Paul e John estavam decididos a "lavar as mãos" em relação ao material produzido, enquanto os executivos pressionavam pelo lançamento de um novo álbum. A principal decisão tomada era que o material gravado nos estúdios Twickenham não seria aproveitado. Glyn Johns foi chamado - e recebeu carta branca - para ouvir os dez dias de sessões na Apple e apresentar algo para avaliação. O engenheiro pediu para trabalhar no Olympic Studios. A gravadora insistia que algum material teria de ser lançado.

George Harrison concede uma entrevista ao jornalista David Wigg para o programa scene and Heard", da Rádio BBC 1.



Terça-feira, 10 de Março
Olympic Sound Studios, London
seleção de Takes Para o LP Get Back"

Nesta data Glyn Johns seleciona as músicas para o LP Get Back. Muitos confundem essa escolha como sendo a primeira mixagem do album. Não é. Os takes selecionados foram: Get Back; Teddy Boy; Two of Us; Dig a Pony; I've Got a Feeling; The Long and Winding Road; Let it Be; I'm Ready; Save the Last Dance For Me; Don't Let me Down; For You Blue; Get Back e The Walk. Os principais erros para finalização do projeto começam aqui. O material estava distante do padrão de qualidade que destacava a banda das demais até então. Aparentemente Glyn Johns confundiu as coisas. Talvez tenha compreendido de forma errada a concepção do projeto, que previa um disco simples, em clima de "ao vivo" no estúdio e se possível sem overdubs. A idéia naturalmente não rimava com coisa mal feita.

A crítica a Glyn Johns é porque ele fez escolhas estranhas, para dizer o mínimo. O take de I've Got a Feeling (23.01) estava abortado no meio. A primeira versão gravada de Teddy Boy (24.01) também estava longe da conclusão. Basta ouvir o take sem edição para entender o equivoco. Começa com Paul ensinando a canção para John e George, acorde por acorde, e lhes repassando a letra, que também não estava completa. Os outros acompanham sem o menor interesse. Era óbvio que aquilo precisaria ser retrabalhado. Em 1996, todavia, as duas inconclusivas versões de "Teddy Boy" e "I've Got a Feeling" foram lançadas no Anthology 3.

Os takes de "Two of Us", "Let it Be" e "Don't Let me Down", gravados entre os dias 22 e 24 de janeiro, também selecionados, ainda passariam por muitos aprimoramentos até o resultado final. Com a seleção pronta, Glyn Johns não conseguiu mostrar de imediato seu trabalho aos Beatles porque os rapazes estavam desmobilizados. Paul casara com Linda Eastman e se encontrava em lua-de-mel na América. Ringo Starr aceitara convite para estrelar o filme "Candy", com Marlon Brando, Richard Burton, James Coburn, Ewa Aulin, John Huston e Walter Matthau. John e Yoko estavam viajando de carro pela Europa e George Harrison fora preso pelo polêmico Sargento Pilcher, pilhado com pequena quantidade de maconha.

Em dúvida, Glyn Johns decidiu então selecionar mais alguns takes para dar opções de escolha aos Beatles, e assim separou gravações de "Two of Us", "The Long and Winding Road", "Lady Madonna", "Let it Be" (todas gravadas no dia 31.01), "I've Got a Feeling" (27.01), "Dig It" (uma edição das gravações dos dias 24 e 26.01), "Maggie Mae" (24.01), "Rip It Up", shake Rattle and Roll/Miss Ann/Lawdy Miss Clawdy", "Blue Suede Shoes" e "You Really Got a Hold on Me" (todas gravadas no dia 26.01). Noves fora esses takes, também estava à mão a gravação do teto da Apple. Quando o material foi ouvido, Glyn Johns recebeu autorização para mexer nas fitas e montar uma mixagem.

Nota: esta foi a última vez que as fitas brutas do projeto Get Back foram usadas para a escolha de takes. Depois, tudo o que saiu nos LPs "Get Back" e "Let it Be", projeto Anthology e o CD "Let it Be...Naked" seriam extraídos do material selecionado por Glyn Johns no dia dez de março de 1969. O próprio Phill Spector finalizou seu trabalho a partir dessas gravações.



Quarta-feira, 26 de Março
EMI, Abbey Road Studios, Londres

Quatro mono mixes de "Get Back" foram montados por George Martin com apoio do engenheiro Jeff Jarratt. A intenção era escolher o "melhor", para compor o lado A do próximo single. Acetatos foram cortados para o grupo ouvir e avaliar.



Sexta-feira, 04 de Abril
Olympic Sound Studios, Londres

Novos mixes mono para Get Back são preparados, além de um mix mono para Don't Let me Down. Nesse dia finalmente foi definido o take de Get Back que seria lançado. A maior parte da gravação foi feita no dia 27 de janeiro, mas Glyn Johns também editou pedaços de um take gravado no dia seguinte. A versão de Don't Let me Down escolhida para o lado B do single foi gravada no dia 28 de janeiro. Este foi o último single dos Beatles em mono. O dia também serviu para montar mixes estéreo das duas canções.



Segunda-feira, 07 de Abril
Olympic Sound Studios, London

Os disc jockeys da Rádio BBC 1, Alan Freman e John Peel, tocam com exclusividade o take de Get Back anunciando que aquela faixa puxaria o próximo single dos Beatles. Paul McCartney ouve no rádio do carro e não gosta do resultado. Consta que ele se dirigiu ao Olympic Studios, convocou Glyn Johns e deu uma última mexida em "Get Back" para só então aprová-la para lançamento.



Sexta-feira, 11 de Abril
Lançamento do single "Get Back/Don't Let me Down"

O primeiro single dos Beatles desde "Hey Jude/Revolution" chega às lojas do Reino Unido sem informar o nome do produtor. A novidade foi o crédito na contracapa: "The Beatles With Billy Preston".



Quinta-feira, 24 de Abril, BBC TV
"Get Back/Don't Let me Down Promo Films"

Visando divulgar o novo single dos Beatles, a Apple distribuiu para os canais de TV, filmes promocionais gravados em 16mm. O material veio das imagens de Michael Lindsay-Hogg, mas não se sabe se foi ele o responsável pela edição dos promos. "Get Back" apresenta cenas do "rooftop concert" sincronizadas (dentro do possível) com o som da versão do single. O trabalho não ficou bom, já que no telhado os Beatles tocaram ao vivo. Para "Don't Let me Down" foram selecionadas imagens dos ensaios em Twickenham combinadas com trechos do rooftop. Os dois vídeos também incluem cenas não aproveitadas no filme Let it Be. A BBC exibiu "Get Back" no programa Top of the Pops. Nos EUA os "clipes" estrearam na rede CBS, numa quarta-feira, dia 30, no programa The Glenn Campbell Goodtime Hour.



Sexta-feira, 25 de Abril
EMI Abbey Road Studios, Estúdio 2, Londres

Um mono mix de Two os Us foi preparado nesta ocasião. Até esse estágio a faixa ainda se chamava "On Our Way Home". A montagem coube a Peter Mew, um produtor que jamais trabalhara com os Beatles. Ele cortou acetatos e entregou a Paul. Paul McCartney planejara doar "Two of Us" para um trio vocal chamado "Mortimer". E com eles pretendia assinar um contrato de gravação pela Apple. Consta que o "Mortimer" gravou Two of Us, mas a versão deles jamais foi lançada. Esse ato é revelador da falta de planejamento que imperava nesta fase final dos Beatles.



Quarta-feira, 30 de Abril
EMI Abbey Road Studios, Estúdio 3, Londres
Primeiro overdub de guitarra em Let it Be

Não se tinha decisão sobre como seria feito o álbum Get Back, entretanto havia um consenso de que Let it Be seria um de seus hits, desde que passasse por uma obrigatória sessão de overdubs. Outra decisão foi de mudança de take. A versão de Let it Be gravada em 26 de janeiro - escolhida por Glyn Johns - seria eliminada em favor de uma melhor, extraída das sessões do dia 31. Foi nela que George regravou o solo de guitarra que se ouve na versão do single "Let it Be/You Know my Name".

O curioso neste dia foi o trabalho que John Lennon e Paul McCartney fizeram em You Know my Name, gravada em 1967 e esquecida nos arquivos da EMI. Eles acrescentaram novos vocais e efeitos sonoros, com apoio de Mal Evans. A gravação original foi transferida de quatro para oito canais, e com a inclusão de novos sons terminou com 6 min.8 seg. Ficou decidido que eles voltariam a trabalhar no take no futuro.



Terça-feira, 13 de Maio
Casa da Gravadora EMI, Londres

Se a idéia geral do projeto Get Back foi de Paul McCartney, a capa foi de John Lennon. Ele insistiu para que se copiasse a idéia de 1963 que resultou na clássica foto do LP Please Please Me e sugeriu a contratação do mesmo fotógrafo escocês Angus McBean para o trabalho. E assim foi feito. Angus fez uma série de fotos dos Beatles nessa ocasião, com o detalhe de que em vários cliques Yoko Ono se mistura aos rapazes, também por insistência de John Lennon. Na mesma sacada do prédio da EMI os Beatles posaram sorridentes para as lentes de McBean, mas também foram fotografados em salas e corredores do prédio. E numa das janelas laterais. Uma dessas fotos (com Yoko Ono) viraria capa do single The Ballad of John & Yoko. O trabalho de Angus McBean foi montado em três modelos distintos de capas - duas para o LP Get Back e outra para quando já estava decidido que o álbum se chamaria Let it Be. O material acabou rejeitado. As fotos seriam aproveitadas, entretanto, na capa das coletâneas 1962/1966 e 1967/1970, lançadas em 1973, agradando crítica e público. Angus McBean morreu em 1990. Seu trabalho fotográfico com os Beatles e outros artistas da música é regularmente exibido mundo afora.



Quarta-feira, 28 de Maio
Olympic Sound Studios, Londres
LP Get Back - Primeira Mixagem Oficial

Nesta ocasião o engenheiro Glyn Johns finaliza o que entendeu ser o setlist perfeito para "Get Back". A Apple anunciou que o LP seria lançado em junho. Nos bastidores os Beatles já trabalhavam no que viria a ser o álbum Abbey Road. Com as datas de gravação entre parênteses, o LP ficou assim:

Lado A
"The One After 909" (30 de Janeiro - rooftop), "Rocker" (22 de Janeiro), "save The Last Dance For Me" (22 de Janeiro), "Don't Let Me Down" (22 de Janeiro), "Dig a Pony" (24 de Janeiro), "I've Got a Feeling "(24 de Janeiro)", "Get Back" (28 de janeiro - single version).

Lado B
"For You Blue" (25 de Janeiro), "Teddy Boy" (24 de Janeiro), "Two of Us" (24 de Janeiro), "Maggie Mae" (24 de Janeiro), "Dig It" (26 de Janeiro), "Let It Be" (31 de janeiro, com overdub de guitarra-solo do dia 30 de abril), "The Long and Winding Road" (31 de Janeiro), "Get Back" (reprise - fragmento da gravação de 28 de janeiro).



Sábado, 07 de Junho
Jornal "The New Musical Express"

A edição circula com uma entrevista de John Lennon que revela que o próximo LP dos Beatles se chamará: "Get Back: With Don't Let me Down and 12 Other Songs". Ele anuncia que o disco sairia em julho. Nos estúdios a banda continuava trabalhando nas gravações do que viria a ser o LP Abbey Road.



Terça-feira, 01 de Julho
Apple - Comunicado Oficial à Imprensa (3)

A gravadora dos Beatles não se desculpa por anunciar duas vezes o lançamento do LP Get Back e o fato não se concretizar. Pelo contrário, distribui uma terceira nota à imprensa onde comunica que o álbum sairia em setembro de forma simultânea com a estréia do especial, "The Beatles at Work TV Documentary". Pela primeira vez é mencionado que um filme para o cinema também seria distribuído em setembro. O comunicado também incluía passagens confusas quando informava que Get Back seria um LP de velhos clássicos do rock interpretados pelos Beatles. Na verdade apenas quatro "oldies" tinham sido escolhidos por Glyn Johns e não estavam na mixagem oficial entregue à Apple no dia 28 de maio passado.



Sexta-feira, 08 de Setembro
Apple - Comunicado Oficial à imprensa (4)

Com o LP Abbey Road em vias de ser lançado, a Apple insistia em divulgar balões de ensaio sobre o LP Get Back. Um texto curto se limitava a informar que o álbum sairia em dezembro. A justificativa para mais um adiamento era o atraso na mixagem do filme e do documentário de TV. NR: observe que a nota mais confusa divulgada pela gravadora dos Beatles era incompreensível. Como acreditar que num espaço de três meses do mesmo ano a banda soltaria dois LPs com faixas inéditas? Nunca ocorrera isso antes, então porque haveria de acontecer na reta final do ano de 1969? Esse comunicado serve para que avaliemos hoje o grau de bagunça administrativa reinante.



Domingo, 10 de Setembro
Rolling Stone - "Vaza" LP "Get Back"

O novo comunicado da Apple à imprensa, divulgado dois dias antes repercutiu na imprensa britânica e norte-americana. A revista Rolling Stone (que à época era um jornal) chega às bancas com uma extensa reportagem com especulações acerca do que estaria gerando os sucessivos adiamentos do projeto Get Back. E surpreende os leitores ao publicar uma análise faixa a faixa "do disco que os Beatles não conseguiam lançar". Ficou claro que os jornalistas da Rolling Stone tinham ouvido o novo álbum, mas como? Na Apple ninguém assumiu ter repassado cópia à mídia.



Segunda semana de setembro de 1969
Começa "Não Oficialmente" o Fim dos Beatles

A mixagem rejeitada do LP Get Back só contribuiu para aprofundar o impasse. O cineasta Michael Lindsay-Hogg tinha um filme produzido para ser documentário de TV, mas os planos haviam mudado. A nova ordem era editar o material para as telas de cinema. Ele então transferiu o que filmara em 16mm para 35mm. Ordens, aliás, era difícil saber quem dava. Entre os muitos problemas o fato de que não se podia lançar o filme sem um álbum com a respectiva trilha sonora. Glyn Johns entrou em atrito com a Apple porque queria o crédito como produtor do novo disco. Como resposta ouviu que ganhara para fazer o trabalho e já tinha sido regiamente pago. Allen Klein gerenciava a Apple sem o apoio de Paul McCartney. Outra crise fora gerada com a venda da editora musical Northern Songs. O projeto Get Back só contribuía para elevar a temperatura dos atritos entre os caras.

O raro consenso que vigorava é que aquelas gravações não poderiam ser lançadas da forma que estavam. Para John, Paul, George e Ringo havia a convicção de que faltava pós-produção, só que isso ninguém queria fazer. Esse inclusive é o grande nó górdio que marca para sempre a história do disco Let it Be. É um álbum cujos defeitos reclamados pelos Beatles seriam facilmente sanados se os Fab Four ainda tivessem aquela unidade perfeita do LP Please Please Me. No ambiente dos bons tempos seria natural que retornassem ao estúdio para sessões de overdubs. Na reta final de 1969 os Fabs caminhavam para um incerto desenlace. E o que se seguiu após o lançamento do LP Abbey Road é prova disso.

Abbey Road foi escalado para recuperar o que a Apple perdera com o projeto Get Back. A questão financeira, queira ou não, foi determinante para unir a banda num último esforço, apesar das graves fraturas expostas na relação interpessoal. Deu certo porque o álbum foi um sucesso de público, critica e vendagem. Mas e depois? O que se segue, de setembro de 1969 a maio de 1970, quando Let it Be (disco e filme) finalmente saiu é o registro do fim da maior banda da história. Confirmado pelos fatos que seguem.



Sábado 13 de Setembro
Varsity Stadium, Universidade de Toronto,
Toronto, Ontario, Canada
"The concert debut da Plastic Ono Band"

Formalmente os Beatles ainda existiam. Mas John Lennon montara uma banda paralela e com ela fez a primeira aparição pública num concerto. A idéia da organização do Live Peace in Toronto era juntar no mesmo palco o antigo (Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Fats Domino, Bo Diddley e Gene Vincent) com o moderno (The Doors, Chicago e Alice Cooper). John Lennon não estava nos planos originais. Apesar das atrações, o programado "Concerto da Paz em Toronto" não estava vendendo tickets suficientes. Foi então que o produtor John Brower teve a idéia de chamar seu amigo John Lennon, não exatamente para se apresentar, mas para subir ao palco de alguma forma, na figura de convidado especial, e usar a palavra em defesa da paz. Isso na mente de Brower contribuiria para ajudar a vender ingressos. Como os Beatles não tocavam ao vivo desde 1966, nenhum agente imaginava que seria possível contratar o grupo.

John Lennon gostou do convite de Brower, mas só concordaria em subir ao palco se fosse para tocar. E não com os Beatles, mas com outra banda. E foi basicamente assim que se formou a primeira Plastic Ono Band com o próprio John na guitarra base e, como se sabe, Yoko (vocal), Eric Clapton (guitarra solo), Klaus Voormann (baixo) e Alan White (Bateria). Eles partiram para Toronto um dia antes do show. A única chance de escolher o que tocar e ensaiar foi no avião a caminho do Canadá, com as guitarras desplugadas. A apresentação foi uma aventura de sucesso.

Quando a Plastic Ono Band subiu ao palco a tarde caía, e algo em torno de 27 mil espectadores estava no Varsity Stadium. Só não foi mais gente porque, apesar da divulgação prévia da presença de John Lennon divulgada em spots de rádio, jornais, panfletos e cartazes, muita gente duvidava que um dos Beatles pudesse se apresentar num evento de John Brower, conhecido pela promoção de fracassos retumbantes. Quando a Plastic Ono Band começou a tocar, surpreendeu o público com um repertório dividido em duas sessões. Na primeira parte, John e seus oldies: Blue Suede Shoes, Money e Dizzy Miss Lizzy. Na segunda parte as canções novas, a primeira delas "Yer Blues". As outras duas, "Cold Turkey" e "Give Piece a Chance", que ninguém conhecia. Seriam novas composições dos Beatles" Foram 40 minutos de improvisada e empolgante apresentação, até o concerto virar para o anticlímax.

John Lennon e Eric Clapton recuaram para o fundo do palco e Yoko Ono - que passou um tempo da primeira parte do show enfiada num saco branco (de onde não devia ter saído) - assumiu os microfones para mandar, "Don't Worry Kyoko" e "John John" (com 13 minutos de duração). Não eram canções, nem Yoko Ono jamais foi ou será cantora. O público foi submetido a quase vinte minutos de gritos, guinchos, ganidos e outros sons guturais emitidos pela mulher de John. A apresentação terminou com um ensurdecedor feedback das guitarras coladas aos amplificadores. O filme com a apresentação só viria à luz em 1989, no auge dos lançamentos em VHS. E saiu em mono hi fi. O LP Live Peace in Toronto foi lançado na Inglaterra no dia 12 de dezembro de 1969.



Sábado, 20 de Setembro
Radio WKBW - Buffalo, EUA
LP Get Back "Vaza" no Rádio

Não se sabe como foi que escapou da Apple uma cópia do acetato preparado por Glyn Johns com aqueles takes toscos selecionados no dia dez de março para possível montagem do LP Get Back. Nem como isso foi parar nos States. A gravação, sem mixagem e pós-produção, toca pela primeira vez no rádio. Certamente foi a partir deste acetato que os jornalistas da Rolling Stone publicaram a resenha sobre o álbum. Os disc jockeys da Rádio WKBW de Buffalo (EUA) fizeram um tremendo alarde, anunciando que tocariam com exclusividade o LP Get Back. Na realidade não estavam tocando o primeiro mix, finalizado no dia 28 de maio, mas a pedra bruta extraída das sessões do projeto. O setlist incluía onze canções.

Meses mais tarde, por volta de janeiro de 1970, surgiram dois bootlegs com as gravações - exatamente o mesmo material usado na transmissão da WKBW. O primeiro lançamento, intitulado "O.P.D", vinha em mono e o som era proveniente da gravação do áudio de uma rádio AM. A segunda versão, "The Album of Silver The Worlds Greatest" (Jarris Records), apresentou várias músicas, mas não o acetato completo. O som aqui era um pouco melhor, parecia estéreo, mas só saía num canal. Esses dois LPs seriam a base para todo material pirata posterior que ganharia o planeta logo após o fim dos Beatles. O Projeto Get Back foi, seguramente, uma das primeiras gemas da pirataria.



Segunda-feira, 22 de Setembro
"WBCN Get Back Reference Acetate, Boston (USA)"

Os DJs da radio WBCN, de Boston, fizeram alarde muito maior com o mesmo acetato utilizado dois dias antes pela Rádio WKBW, de Buffalo. Informaram ao mundo que tinham em mãos o acetato especialmente preparado pela Apple Records para o LP Get Back (o que não era verdade). O programa começa com os DJs deitando falação sobre o ineditismo do material. A primeira faixa tocada foi um take tosco de Let it Be. A gravação do programa da Rádio WBCN ficou famosa, e viraria "bootlegs" de nomes variados, sendo o mais charmoso deles o CD da "Yellow Dog" com as onze canções entremeadas por parte dos diálogos do programa. Eis o setlist. Com as datas de gravação destacadas entre parênteses.
DJ Announcement Side B
Let it Be (26.01)
Don't Let me Down (22.01)
For You Blue (25.01)
Get Back (23.01)
The Walk (27.01)
DJ Announcement
DJ Announcement Side A
Get Back (27.01)
Teddy Boy (24.01)
Two of Us (24.01)
Dig a Pony (23.01) + Intermezzo
I've Got a Feeling (23.01)
The Long and Winding Road (31.01)
BONUS: Let it Be Dialogue (com 33 min.58 seg. de duração) - esse material não tem nada a ver com o programa tocado na WBCN.



Terça-feira, 25 de Setembro
EMI Abbey Road Studios, Estúdio 3, Londres
Primeira Sessão de Gravação da "Plastic Ono Band"

John Lennon (guitarra/vocal), Eric Clapton (guitarra), Klaus Voormann (baixo), Ringo Starr (bateria) e Yoko (participação não especificada) - registram numa longa sessão noturna a primeira versão de estúdio de "Cold Turkey", gravando 26 "basic tracks", além dos vocais. Tudo com produção de John.



Sexta-feira, 03 de Outubro
Lansdowne Studios, Lansdowne Rd, Londres

A mesma banda com Yoko (vocal), John (guitarra base), Ringo (bateria), Eric Clapton (guitarra solo) e Klaus Voormann (baixo) grava neste dia a versão de estúdio de "Don't Worry Kyoko (Mummys Only Looking For Her Hand In The Snow)", para lançar como lado B de "Cold Turkey". Começava aqui a parceria na qual John freqüentemente dividiria discos com Yoko.



Quarta-feira, 08 de Outubro
Radio BBC 01 - Programa Scene and Heard

Um entusiasmado George Harrison fala ao jornalista David Wigg, do sucesso de sua nova produção, o single "Hare Krishna Mantra", do grupo de religiosos Radha Krishna Temple. Apesar de não ter nenhum apelo comercial, a canção chegou ao vigésimo lugar nas paradas radiofônicas daquela época. Instado por David Wigg, George também falou do novo álbum Abbey Road.



Terça-feira, 21 de Outubro
Radio BBC 01 - Programa Scene and Heard

É a vez de John Lennon falar ao jornalista David Wigg. A conversa gira em torno do Concerto de Toronto e os futuros lançamentos da Plastic Ono Band. A entrevista foi pré-gravada. Quando terminou, Wigg ironizou, afirmando: "parece que os Beatles não existem mais, apesar do disco novo que acabou de ser lançado".



Sexta-feira, 24 de Outubro
Rádio BBC 04 - Fim da Lorota do "Paul is Dead"

No auge da boataria disseminada nos Estados Unidos de que Paul McCartney estaria morto desde 1966 - e o festival de "evidências" de seu falecimento, o departamento de jornalismo da BBC decidiu levar a história a sério e deslocou uma equipe à fazenda escocesa do beatle num lugar remoto chamado Mull of Kintyre. Foram recebidos por um Paul McCartney vendendo saúde e muito bem humorado. No começo da entrevista ele foi logo dizendo: "alô fãs britânicos e americanos, eu estou aqui, estou vivo, aliás, muito vivo". Uma equipe da revista Life também estava presente e fez muitas fotos de Paul e família para garantir ao mundo que o baixista dos Beatles permanecia vivo. A Rádio BBC 4 repetiu a entrevista várias vezes. E destacou trechos em seus noticiários.



Segunda-feira, 27 de Outubro
Estúdio 03, EMI Abbey Road Studios, Londres
Primeiro LP Solo de Ringo Starr - Sentimental Journey

Ringo Starr se torna o primeiro beatle a gravar um álbum formal de estúdio. "Formal" porque as produções anteriores de George Harrison e John Lennon eram experimentais. Há tempos Ringo tinha desejo de gravar um disco com clássicos da música americana que sua mãe ouvia quando ele era criança. Os outros Beatles não levavam a idéia a sério. Apesar disso Ringo sempre falava a respeito com George Martin. Na reta final de 1969 - e considerando o clima de cada um por si que reinava - ele achou que a hora de fazer um álbum solo chegara. E Sentimental Journey nasceu assim, para satisfazer o gosto pessoal do baterista dos Beatles. A primeira providência que Ringo tomou foi convidar George Martin para comandar o projeto. Martin disse que ele devia escolher o repertório livremente e sugeriu que não se apegasse a um único produtor. "Você poderia obter uma sonoridade incrível se chamasse um nome diferente para produzir cada faixa", opinou. Ringo gostou da idéia e a acatou. Mesmo assim a supervisão geral do trabalho nos estúdios coube a George Martin.

O resultado foi um disco bastante curioso, muito bem gravado e mixado. Nem parece que foi concebido por uma dezena de produtores, considerando a indiscutível unidade do trabalho. Até Paul McCartney atuou como arranjador. Outro destaque ficou por conta das gemas resgatadas por Ringo como "stardust", "Dream", "Bye Bye Blackbird", "Night and Day", "Love is a Many Splendoured Thing", "Whispering Grass", entre outras. As gravações começaram nesta ocasião e se estenderam até o dia seis de março de 1970, registrando aqui e ali interrupções por conta de outros compromissos de Ringo. E da dificuldade de agenda para produtores de renome como Quincy Jones, Chico O"Farrill e Elmer Bernstein participarem das sessões. Do material gravado somente "stormy Wheater" ficou de fora, embora circule com estupenda qualidade sonora na pirataria. Como todos os arranjos foram orquestrais, Ringo não teve atuação como músico em seu primeiro disco solo. Durante o período de gravações o baterista começou a trabalhar na filmagem de outra produção para o cinema, The Magic Chrtistian (no Brasil, Um Beatle no Paraíso) ao lado do renomado ator Peter Sellers.



Terça-feira, 02 de dezembro
John Lennon - O Homem da Década
"George Harrison em Turnê com Outra Banda"

Neste dia, duas atividades distintas e históricas. John Lennon recebeu em sua casa uma equipe da Associated Television (ATV) que gravou uma entrevista e fez muitas imagens dele para o especial "O Homem da Década". John foi escolhido no voto, por um grupo de notáveis que o canal de TV mobilizou para tal. O antropólogo e sociólogo Desmond Morris foi o voto decisivo que apontou Lennon como personalidade daquele ano. A trajetória do beatle e o peso de sua influência na juventude mundial deram o tom do especial de vinte minutos que foi ao ar no final do mês.

Quanto a George Harrison, saiu em turnê com outra banda, Delaney Bonnie and Friends, atendendo convite de seu amigo Eric Clapton. George gostava muito de Delaney Bramlett e entendeu que rodar com eles durante seis noites consecutivas, com duas apresentações diárias em casas noturnas diferentes seria uma boa diversão. E pode até ter sido, mas a presença de George nesses concertos foi pouco notada. Ele ficava no fundo do palco com sua enorme cabeleira, não se aventurava em solos e há quem diga que sua guitarra não era ouvida porque não estaria ligada. Alguns concertos foram gravados e um deles virou um LP ao vivo no qual George Harrison não é creditado com seu verdadeiro nome. Pelo menos uma das apresentações foi filmada. Consta que durante essa turnê George presenteou Delaney Bramlett com sua guitarra Fender Telecaster (Rosewood) usada nas sessões do Projeto Get Back e no Rooftop Concert.



Terça-feira, 02 de Dezembro
EMI Abbey Road Studios, Londres
LP Hey Jude
Octopus's Garden (new mix)

Finalmente no mesmo dia dois de dezembro um acontecimento ligado aos Beatles como grupo. Ainda que indiretamente. Engenheiros trabalharam na escolha e mixagem de dez faixas produzidas entre 1964 e 1969 que comporiam o futuro LP Hey Jude, uma coletânea basicamente de singles que seria publicada no ano seguinte. Como algumas canções selecionadas não possuíam edições em estéreo o trabalho foi feito neste dia e em cinco de dezembro. "Lady Madonna" e "Rain" ganharam novos mixes.

"Octopus's Garden" também foi novamente mixada em estéreo, mas para propósito diferente. Ringo fora convidado a participar de um especial televisivo com George Martin. A produção que focava a carreira do maestro se chamou "With a Little Help From my Friends". Para evitar problemas com a União dos Músicos - que obteve da justiça britânica a proibição de promo vídeos ou números cuja música não fosse tocada ao vivo - Ringo apareceu fazendo mímica no programa para uma versão "nova" de Octopus Garden. Na realidade o baixo, piano e a guitarra solo da versão incluída no álbum Abbey Road foram eliminados. No dia 08 de dezembro Ringo gravou um novo vocal. Músicos de estúdio regravaram parte do instrumental. Assim quem assistiu ao especial pensou tratar-se de uma versão inédita da canção. O take "mexido" circula com estupenda qualidade na pirataria.



Quinta-feira, 04 de dezembro
EMI Abbey Road Studios - Estúdio 2, Londres
Sessão de Gravação - Plastic Ono Band

John Lennon reuniu a Plastic Ono Band para uma inusitada (e longa) sessão de gravação. Os trabalhos se estenderam das sete da noite à uma e quarenta da manhã. Todas as pessoas que estavam trabalhando no estúdio na ocasião, Mal Evans, Anthony Fawcett, Geoff Emerick, Phil McDonald, Malcom Davies, Eddie Klein e vários outros se juntaram. A gravação resultou em duas faixas que receberam os títulos Item 1 e Item 2. "Uma sessão de gravação movida a pó", comentaria um técnico dos estúdios.

Item 01: foi uma longa seção de risos, com os envolvidos sentados ou de pé em círculo, vestindo narizes vermelhos, gargalhando e gritando a plenos pulmões ruidosamente. Também valia berrar pensamentos aleatórios e expressa-los. Tudo foi sobreposto em seguida com percussão e cânticos.

Item 02: a peça consiste num longo sussurro. Cada pessoa na fila tem sua chance de sussurrar algo no microfone. O engenheiro Geoff Emerick causou um "frouxo de riso extra" ao sussurrar a única frase que lhe veio a mente: "cabeça de Bill Livy". Ele se referia a Tito Livy, que foi da equipe técnica da EMI e era careca. Completado o trabalho de mixagem estéreo, as fitas foram levadas de Abbey Road por Mal Evans para o estúdio particular de John Lennon. A intenção era usar os dois takes num planejado quarto LP avant garde como os três anteriores, Two Virgins, Life With the Lions e Wedding Album. Como o tal "quarto LP" jamais saiu, o Item 01 e Item 02 também permanecem inéditos. Uma equipe da TV BBC estava no estúdio e filmou toda a gravação.



Sexta-feira, 05 de dezembro
"The World of John & Yoko TV Documentary"

Para competir com sua arqui-rival ATV, a BBC obteve permissão dos Lennon para gravar este especial cujo fio condutor era acompanhar vinte e quatro horas da vida de John e Yoko, a fim de mostrar o mundo deles. Na realidade a BBC queria produzir um especial melhor e mais longo que "The Man of Decade", da rival ITV. Durante cinco dias (desde 02.12) o casal foi filmado no estúdio de gravação, em casa, no escritório, no carro (rolls-royce branco) em quartos de hotéis, na cama e até mesmo no banheiro. O documentário também incluiu trechos dos chamados "filmes de arte" de John & Yoko, com direito a uma generosa porção de Self Portrait, no qual a câmera mostra em close o pênis de Lennon em vários estágios de ereção. Apesar do dinheiro envolvido na produção, o filme jamais seria exibido publicamente. Meia dúzia de pessoas escolhidas pelo casal assistiu Self Portrait. Antes de o filme rodar, Yoko Ono agraciava os convidados com uma longa palestra para justificar a iniciativa. Nenhum dos tais "filmes de arte" existe disponível em DVD, nem nunca houve planos de lançá-los.

Por essas e outras, o documentário "The World of John & Yoko" jamais seria levado ao ar pela BBC, embora tenha sido montado. Dezenove anos mais tarde Yoko usou parte da produção no filme Imagine - John Lennon (1988). Um fato curioso ocorreu por ocasião do contrato de produção deste documentário. Lennon e Ono exigiram direito pleno sobre tudo o que fosse filmado e gravado (áudio e vídeo). Também fincaram pé pelo direito total de utilização futura do material editado e exibido, e ainda a posse da produção bruta, usada ou não. A BBC topou e o contrato foi assinado.



Sexta-feira, 05 de dezembro
EMI Abbey Road Estúdios, Londres
"Hey Jude" e "Revolution" ganham mix estéreo para o LP Hey Jude.
Sábado, 06 de Dezembro
Empire Theatre, Liverpool

Ironia das ironias. Nas apresentações em andamento com Delaney Bonnie e a banda Friends - montada por Eric Clapton - George Harrison estava se divertindo como planejara, mas as locações noite após noite eram as mesmas pelas quais já passara entre 1963/1966 com os Beatles. Nessa ocasião ele sobe ao palco do Teatro Empire, em sua cidade natal. Seguramente foi a última vez que George Harrison se apresentou em Liverpool. Na carreira solo que viria posteriormente ele jamais fez turnê em seu país.

O álbum ao vivo Delaney & Bonnie On Tour With Eric Clapton seria gravado no dia seguinte, no palco do Fairfield Hall, em Croydon. A turnê ainda faria uma temporada no Falkoner Theatre, em Copenhagen (Dinamarca) entre dez e doze de dezembro. George tocou lá em 1964 com Paul, John e Jimmy Nicol.



Sexta-feira, 12 de dezembro
LP No Ones Gonna Change Our World

Esse foi provavelmente um dos primeiros discos de caridade publicados. A idéia foi do músico Spike Milligan, durante evento no Palácio de Buckingham, em 1966. Ele conclamou artistas, intelectuais, a mídia e as gravadoras a fazer alguma coisa em favor do World Wildlife Fund, que vinha alertando o mundo contra a extinção de animais como os ursos panda e koala, e se queixava de falta de apoio para protegê-los. Foram quase três anos de articulação para viabilizar este LP. A produção foi de George Martin e nenhum dos envolvidos recebeu dinheiro para participar. O fio condutor seguido pelo maestro foi que cada artista participante doasse uma canção especialmente para o álbum, o que significa que as faixas eram inéditas no catálogo de cada um.

Os Beatles contribuíram com o take de "Across the Universe" gravado em fevereiro de 1968 com a participação das fãs Lizzie Bravo e Gayleen Pease no backing vocal, e que não tinha sido usado até então. No Ones Gonna Change Our World só foi lançado na Inglaterra, e até a data não saiu em CD. O disco trás um encarte com notas assinadas pelo Príncipe Phillip, em nome da realeza britânica, e por Spyke Milligan. Foi a primeira vez que uma canção dos Beatles saiu em caráter oficial num álbum com outros artistas. Outro registro curioso é que até o começo dos anos 1980 a versão de "Across the Universe" deste LP tinha virado raridade, até sair na edição inglesa da coletânea Beatles Rarities. O dinheiro com as vendas de No Ones Gonna Change Our World foi integralmente repassado ao World Wildlife Fund.



Domingo, 14 de dezembro
ITV Television - Estúdio 04
"With a Little Help From my Friends" - TV Special

Vai ao ar nesta noite o especial de TV focando a carreira e o trabalho de George Martin com muitos convidados especiais. Um dos principais é Ringo Starr, fazendo mímica para a versão reeditada de "Octopus's Garden". O programa foi inteiramente filmado em cores, mas suspeita-se que a gravação original tenha se extraviado. O áudio de "Octopus's Garden" que circula na pirataria não vêm do programa, mas dos arquivos da EMI.



Segunda-feira, 15 de Dezembro
Livro "Get Back" é Anunciado Pela Apple

Mais um comunicado é divulgado pela gravadora dos Beatles - finalmente se desculpando pelos sucessivos adiamentos do LP Get Back. Também comentou o sucesso de vendagem do LP Abbey Road. A nota informava que um livro de fotos produzido pelo renomado fotógrafo de celebridades Ethan Russell viria encartado numa edição especial e promocional de Get Back que seria publicada "no novo ano" (dessa vez não se anunciava data) e chegaria ao mercado junto com o filme. Nessa mesma ocasião o engenheiro Glyn Johns foi chamado para trabalhar novamente no projeto. Recebeu ordem de preparar um segundo mix melhor que o primeiro (28.05). Glyn Johns mexeu nas gravações nesta e em mais três datas: 21 de dezembro e nos dias 3 e 4 de janeiro de 1970 (quando ocorreu a única sessão de gravação para finalizar o projeto) e concluiu seu trabalho no dia oito de janeiro.



"Plastic Ono Band Live at Lyceum Ballroom" - Londres
O Lyceum Ballroom era um clube de dança de salão nos arredores de Londres. E foi neste lugar que a Plastic Ono Band, com John Lennon a frente, tocou. Organizado pelo UNICEF o concerto se chamou Peace For Christmas e os artistas concordaram em se apresentar sem cachê, já que o evento era beneficente. O grupo Hot Chocolate Band, abriu os trabalhos. Logo em seguida tocaram The Pioneers, The Rascals e o jamaicano Jimmy Cliff (aquele mesmo). O disc jockey Emperor Roskos foi o mestre de cerimônias. Falou na abertura e sempre voltava entre um e outro grupo para anunciar o próximo. Coube à Plastic Ono Band fechar o evento e para isso John Lennon se empenhou. Em apenas 48 horas chamou vários amigos e reforçou a banda, a qual anunciou como "Plastic Ono Band Supergroup". Subiram ao palco John Lennon, George Harrison, Eric Clapton, Klaus Voormann, Bobby Keys, Billy Preston, Keith Moon, Alan White, Jim Gordon, Delaney & Bonnie... e Yoko Ono. Sem ensaio prévio o grupo mandou ver uma versão incendiária de Cold Turrkey que durou sete minutos. Logo depois Yoko veio para frente do palco e liderou o grupo numa desesperadora versão de "Don't Worry Kyoko" por quilométricos dezesseis minutos! Foi a primeira vez, desde maio de 1966, que dois integrantes dos Beatles tocavam em público no mesmo palco, no Reino Unido. Uma parte do evento foi filmada por uma equipe de um então famoso noticiário de TV de Londres, o Movietones. As imagens não circulam. Nem se sabe se foram preservadas.

A EMI gravou integralmente o show, usando um gravador profissional de quatro pistas para o concerto e outro de dois canais para captar a reação da platéia. O engenheiro Geoff Emerick foi escalado para comandar o processo e trabalhou com os auxiliares Peter Bown e John Kurlander. Passado o evento, John Lennon ficou curioso para ouvir o resultado. No dia 17 de dezembro, George Emerick trabalhou na mixagem do áudio numa longa sessão entre oito da manhã e dez da noite. Mixes estéreo foram preparados com o material da Plastic Ono Band, mas o resultado não seria utilizado até 1972. Naquele ano, quando as gravações foram publicadas no álbum duplo Some Time in New York City, um overdub foi aplicado. Nicky Hopkins adicionou piano elétrico, sendo eliminado o órgão tocado originalmente por Billy Preston.



Sábado, 20 de dezembro
John & Yoko Voltam a Toronto, Canadá

John Lennon & Yoko Ono passaram três dias no Canadá divulgando seu manifesto em favor da paz mundial e explicando a campanha "War is Over If You Want It". Concederam várias entrevistas aos canais de televisão locais e se encontraram com o primeiro ministro Pierre Trudeau. Nenhuma atividade musical foi realizada. O ponto alto foi a gravação de um programa de 45 minutos pela CBS canadense no qual John Lennon e o cientista Marshall McLuhan conversaram diante das câmeras. McLuhan acabara de lançar o livro O Meio é a Mensagem. Quem presenciou a troca de idéias afirma que foi um verdadeiro "papo cabeça". A gravação jamais foi exibida. Não se sabe se sobreviveu.

O ano de 1969 então chega ao fim sem se saber o que seria dos Beatles. Get Back, o LP, não saiu. Na Apple figuras como Allan Klein defendiam a mudança do nome do projeto para diminuir o desgaste gerado com os sucessivos adiamentos. Ganhava força a idéia de chamar o disco de "Let it Be", considerando o potencial da canção para virar um hit em escala mundial. Essas discussões, entretanto, se davam entre executivos, sem nenhuma conclusão. A saga do LP Get Back ainda não se encerrara.





1970 - LET IT BE
O novo ano começou sem que o mundo pudesse mensurar a extensão dos problemas internos dos Beatles. Os quatro já sabiam que a banda não produziria mais nada em conjunto. E tocavam a vida. John Lennon manifestara desejo de sair muito tempo antes e se considerava fora. Estava em "carreira-solo", só não a assumia em declarações públicas em respeito ao pacto de não se falar em ruptura enquanto o projeto Get Back não fosse definitivamente resolvido. Havia outras pendências. Allen Klein alertou que o contrato com a United Artists precisava ser cumprido. O filme e o LP com a trilha sonora seriam lançados no primeiro semestre.

Nessa fase, e de forma interna, o que restava dos Beatles dividiu-se. De um lado Paul McCartney isolado dos outros três, magoado com o rumo que o projeto por ele idealizado tomara. Ele não queria acordo com Allen Klein e dialogava mal com os outros, sobretudo John Lennon. John, George e Ringo, do outro lado, ainda tomavam algumas decisões em consenso. Nessa fase também havia um indisfarçável desejo pessoal dos quatro em fazer as coisas a seu modo, como gravar discos-solo. John e George pareciam determinados nessa direção. Só que nada disso chegava ao mundo externo. Em janeiro de 1970 a crítica ainda incensava os Beatles pelo lançamento de Abbey Road. As finanças da Apple estavam melhores, mas bem longe do ideal. Era um tempo em que a maior banda de rock da história tinha uma organização interna das mais bagunçadas, correndo até o risco de falir.



Sábado, 03 de Janeiro
EMI Abbey Road Studios, Estúdio Dois, Londres
Sessão de Gravação de "I Me Mine"

O primeiro evento do ano entraria para a história como a última vez na qual os Beatles se reuniram para gravar uma canção. Paul, George e Ringo adentraram Abbey Road em clima de camaradagem. Estavam determinados a completar o LP Get Back. John Lennon não compareceu. Estava de férias na Dinamarca, onde ficaria por um mês. A decisão de gravar "I Me Mine" atendia expectativas da produção do filme. Como a canção apareceria na tela sendo ensaiada, se concluiu que deveria entrar na trilha sonora. George liderou o grupo e dezesseis takes de baixo, violão e bateria foram produzidos. Logo após teve início uma longa sessão de overdubs. Piano elétrico, guitarra solo e backing vocals foram acrescentados. E ainda um órgão e mais um violão na base. A sessão começou às duas e meia da madrugada e terminou quando passavam das doze horas e quinze minutos do dia seguinte. Todo esse tempo resultou numa "I Me Mine" curtinha, com apenas 1 minuto e 34 segundos na mixagem realizada no mesmo dia.



Domingo, 04 de Janeiro
EMI Abbey Road Studios, Londres
Sessão de Overdub para "Let it Be"

Numa sessão que foi das duas e meia até as quatro e meia da madrugada, "Let it Be" recebeu um novo solo de guitarra. Exatamente no mesmo take selecionado para overdub em 30 de abril de 1969, quando George acrescentou o solo ouvido na versão do single. Nesta ocasião o primeiro trabalho do dia foi uma harmonização vocal feita por Paul, George... e Linda (!). Também foram gravados dois trompetes, dois trombones e um sax tenor. Tudo arranjado e produzido por George Martin. O trabalho seguinte na mesma sessão foi a famoso solo de guitarra da versão que entraria no álbum Let it Be. George Harrison tocou do jeito que quis, estendendo o solo para a segunda parte da música. Ringo gravou trechos de bateria e maracas. Também foi adicionado som de cello. Com a sessão completada, Glyn Johns atuou com George Martin na mixagem estéreo. Johns avisou então que nas próximas horas entregaria para análise o segundo e definitivo mix de Get Back. Esta acabou sendo formalmente a última sessão dos Beatles no estúdio, ainda que desfalcados de John Lennon.

Os vários overdubs registrados no take de "Let it Be" são reveladores da prioridade que a composição recebeu antes do lançamento. Seguramente foi a faixa mais pós-produzida de todo o projeto, noves fora o fato de que até esse momento o produtor Phill Spector ainda não entrara em cena.



Segunda-feira, 05 de Janeiro
Olympic Sound Studios
LP Get Back - Segundo Mix (final compilation)

Fiel ao que acreditava ser o álbum que levaria os Beatles de volta aos primórdios da simplicidade, tocando e gravando ao vivo no estúdio, Glyn Johns finaliza neste dia a segunda e última edição para o LP Get Back. Agora eram 44 minutos de música com algumas mudanças. Teddy Boy fora excluída, já que Paul achou melhor lançá-la em seu primeiro álbum solo, McCartney (1970), que se encontrava em produção. Foi acrescentada "I Me Mine", gravada dois dias antes. "Across The Universe" também entrou, sem ser regravada. A justificativa: um trecho da música apareceria no filme. Na ausência de John Lennon a opção foi remixar o take de 1968, para se assemelhasse à sonoridade de Get Back. Glyn Johns também reduziu o tempo das faixas que faziam a função de vinhetas: "Rocker" e "Save the Last Dance For Me". A inclusão delas, e de falas dos Beatles entre uma e outra canção tinha por objetivo passar ao ouvinte o clima de "ao vivo no estúdio". O novo setlist ficou assim (datas das gravações entre parênteses):

Lado A
"The One After 909" (30 de Janeiro); "Rocker" (22 de Janeiro); "Save The Last Dance For Me" (22 de Janeiro), "Don't Let Me Down" (22 de Janeiro), "Dig a Pony" (24 de Janeiro), "I've Got A Feeling" (24 de Janeiro), "Get Back" (28 de janeiro - single version) e "Let It Be" (31 de Janeiro - com o overdub do solo de guitarra gravado em 30 de Abril. Glyn ignorou o take com o segundo overdub de guitarra solo gravado no dia 04 de janeiro).

Lado B
"For You Blue" (25 de Janeiro), "Two Of Us" (24 de Janeiro), "Maggie Mae" (24 de Janeiro), "Dig It" (26 Janeiro), "The Long and Winding Road" (31 de Janeiro), "I Me Mine" (03 de janeiro de 1970), "Across The Universe" (4-8 de Fevereiro de 1968) e "Get Back" (reprise - 28 de Janeiro).



PHILL SPECTOR

Terça-feira, 08 de Janeiro
Olympic Sound Studios, London

Glyn Johns remixa as faixas "Let it Be" (single version) e "For You Blue". Esse fato comprova que houve reação negativa à segunda mixagem do LP Get Back. George Harrison, insatisfeito com os vocais, comparece ao estúdio e regrava alguns trechos.



Quarta-feira, 27 de Janeiro
EMI Abbey Road Estudios, Estudio Dois, Londres
Sessão de gravação de "Instant Karma"
Estréia o filme The Magic Christian

O dia começou com Geoff Emerick produzindo o primeiro mix estéreo para "The Inner Light". A faixa só seria lançada nesta condição em 1981. De volta das férias, John Lennon chegou aos estúdios às sete da noite e de lá só saiu às quatro da madrugada. Com a Plastic Ono Band, começou e finalizou uma nova composição, "Instant Karma". Por sugestão de George Harrison, o produtor Phill Spector foi chamado para comandar o trabalho. Esse é o marco de uma relação de amizade que seria decisiva para a contratação de Spector para dar um jeito em definitivo nos tapes do projeto Get Back. "Instant Karma" ficou pronta em dez takes, com John no violão, Allan White na bateria, Klaus Voorman no baixo, George Harrison na guitarra solo e Billy Preston ao piano. Os três melhores receberam um demorado overdub de vocais e backing vocals, além de palmas e outros efeitos.

Quatro mixes estéreo foram produzidos de madrugada, sendo o último usado no single que seria lançado em fevereiro com uma faixa de Yoko Ono do lado B. Para o lançamento no mercado americano a faixa ainda receberia, dois dias mais tarde, nova sessão de mixagem estéreo feita por John e Phill Spector. No mesmo dia estréia nos cinemas de Londres o filme The Magic Christian (Um Beatle no Paraíso, no Brasil), estrelado por Ringo Starr e Peter Sellers. Ringo foi a um programa de televisão à noite com Sellers divulgar a produção.



Terça-feira, 10 de Fevereiro
EMI Abbey Road Studios, Estudio Dois, Londres
"Instant Karma Remix"

Geoff Emerick produz três mixes mono de Instant Karma, eliminando da gravação original um dos dois lead vocals que John Lennon gravara. O objetivo foi deixar espaço para um novo vocal que Lennon faria para apresentar a canção no Top of the Pops (TV BBC) do dia seguinte. A gravação do programa foi realizada num cenário típico do começo dos anos 70. John Lennon de cabelo quase raspado se apresenta ao piano enquanto a improvisada Plastic Ono Band tinha Klaus Voorman (baixo), Allan White (bateria), Yoko Ono (com uma venda nos olhos) e um sujeito desconhecido que aparece com um segundo baixo (que não existe na música) e um pandeiro. Ocasionalmente as câmeras enquadram Mal Evans também tocando pandeiro. O grupo se apresentou diante de uma platéia, mas não tocou ao vivo. No dia seguinte a gravação foi exibida no Top of the Pops.

A produção da BBC aproveitou a presença de John Lennon no estúdio para gravar uma segunda versão de "Instant Karma". O cenário foi mudado, os músicos vestiram outras roupas e mandaram ver. Nas duas exibições, um novo vocal de John Lennon foi acrescentado para dar a impressão de que a Plastic Ono Band tocara de verdade. O segundo promo video foi exibido no dia 19 de fevereiro de 1970 no Top of the Pops.



Quarta-feira, 18 de Fevereiro
EMI Abbey Road Studios, Estúdio Dois, Londres
Sessão de gravação de "You Gotta Pay Your Dues"

Depois de mais uma sessão de gravação para o LP Sentimental Journey, Ringo Starr registra os primeiros takes de uma nova composição, "You Gotta Pay Your Dues". A faixa, que no futuro seria batizada como "It Don't Come Easy", contou com George Martin na produção, mas quem dirigiu os músicos, sentado ao chão do estúdio, foi George Harrison. Vinte takes foram gravados entre sete da noite e meia-noite e meia com George ao violão, Klaus Voorman no baixo, Ringo na bateria e Stephen Stills ao piano. George trabalhou em seguida, até às quatro da manhã, em dois overdubs de guitarra elétrica, incluindo o solo. Ringo gravou os vocais. O dia já estava amanhecendo em Londres quando George Martin finalizou a mixagem estéreo. No dia seguinte "You Gotta Pay Your Dues" ainda receberia novos overdubs: Ringo regravaria os vocais e dois novos takes de contrabaixo seriam produzidos. Nada foi mixado.



Sábado, 21 de Fevereiro
EMI Abbey Road Studios, Estudio 2, Londres
Sessão de gravação do LP McCartney 1970

Era até então quase um segredo. Poucos sabiam que Paul McCartney estava gravando seu primeiro álbum solo. O trabalho começou na casa dele, vizinha a Abbey Road. Quando foi de fato necessário utilizar um estúdio para fazer registros profissionais, Paul adotou o pseudônimo de Billy Martin para ocupar espaço discretamente no Morgan Studios. Para as gravações caseiras, arranjou um gravador Studer de quatro canais, idêntico aos existentes em Abbey Road. E apenas um microfone. O LP McCartney 1970 teve os primeiros registros capturados assim. Não havia mesa de mixagem. Ele começou a trabalhar no natal de 1969 e a primeira gravação foi "The Lovely Linda", registrada de brincadeira para testar o Studer. Também como testes foram registradas as instrumentais "Valentine Day" e "Momma Miss America" (que então se chamava "Rock and Roll Springtime"). "Glasses" foi inspirada nos tin-tins de quatro taças de vinho. "Oo You", "Teddy Boy", "Junk" e "Singalong Junk" também foram tentadas, mas não existe documentação disponível com datas e detalhes dessas gravações, nem sobre o progresso dos takes.

Também não existe qualquer documentação de registro das sessões secretas que Paul teria feito como Billy Martin no Morgan Studios. Aparentemente as fitas com gravações chegaram a Abbey Road no dia 12 de fevereiro para serem transferidas aos gravadores de oito pistas. No multitrack de Abbey Road existem takes de "Kreen-Akrore", "Hot as Sun", overdubs para "Junk", "Singalong Junk" e "Teddy Boy", além de mixagens estéreo de algumas faixas. Boa parte desse material produzido no Morgan Studios foi gravado por um engenheiro chamado Robin Black, que escreveu o nome na caixa da fita de quatro pistas levada por Paul para Abbey Road. A maior parte do material produzido e editado não entraria no álbum da forma tosca como foi feita até essa ocasião. No dia 24, Paul trabalharia sozinho em Abbey Road na mixagem de "Maybe I'm Amazed", também registrada inicialmente no Morgan Studios. "Man We Was Lonely" seria a primeira faixa do futuro álbum gravada por Paul e Linda em Abbey Road, no dia 25 de fevereiro.



Quinta-feira, 26 de Fevereiro
Lançamento do LP Hey Jude

O LP Abbey Road ainda vendia bem, quando essa coletânea foi lançada com a missão de "fazer dinheiro" para diminuir o prejuízo do projeto Get Back. O atrativo era oferecer em estéreo pela primeira vez algumas gemas disponíveis somente em singles, como "Hey Jude" e "Revolution". Precedido por massiva campanha de divulgação em rádio e TV, o LP Hey Jude foi um sucesso. Dois milhões de cópias estavam vendidas antecipadamente quando chegou as lojas. Durante quatro semanas ficou em segundo lugar em vendagem e execução, apesar de tratar-se de uma coletânea. Em alguns países o álbum foi batizado como Beatles Again.



Domingo, 08 de Março
Trident Studios - Londres
Nova sessão de gravação: "It Don't Come Easy"

Com o título definitivo, a composição de Ringo Starr teve novos registros feitos em pleno domingo, contando novamente com a participação de George Harrison. A Apple confirmou que a gravação estava sendo feita, mas deixou claro que não havia planos nem data de lançamento. De fato "It Don't Come Easy" só chegaria ao mercado em 1971, muitas sessões de overdubs depois.



Quarta-feira, 11 de Março
Programa Beatles Especial - Rádio BBC 1

A Rádio BBC 1 programou para o feriado nacional de páscoa, domingo 30 de março, a veiculação de um programa especial sobre os Beatles, o que há tempos não acontecia. George Harrison aceitou participar e a gravação foi feita nesta ocasião, durante uma hora. O apresentador Johnny Moran entrevistou George e tocou faixas dos Beatles de todas as fases. George revela que o projeto de filme e disco (Get Back) estava para ser lançado, e em momento algum menciona qualquer problema no grupo. O trecho mais longo da conversa foi acerca dos lançamentos do catálogo da Apple. Harrison dizia confiar que artistas como Jackie Lomax, Billy Preston, Doris Troy e Radha Krishna Temple teriam grande futuro. Ao final o apresentador anuncia "uma faixa inédita" do LP Get Back e toca "Dig It" (a versão com 3 min. 13 seg).



Domingo, 15 de Março
Gravação do promo video de "Sentimental Journey"

Talk of the Town era o mais popular cabaré do centro de Londres. Foi neste local que Ringo Starr gravou o vídeo promocional de seu primeiro LP solo. Como o disco não tinha grandes pretensões comerciais, a Apple decidira que não haveria single, mas era necessário divulgar o álbum. E para isso nada melhor que a TV. Neil Aspinall atuou como diretor, com John Gilbert na produção. Usando um paletó azul berrante, Ringo entrou em cena dançando e cantando para uma platéia de convidados num imenso salão iluminado por velas nas mesas. George Martin contratou a Orquestra Municipal para tocar e o grupo incluía bailarinos e cantoras negras Doris Troy, Marsha Hunt e Madeline Bell. As três atuaram no alto de uma passarela. Movimentos feitos por técnicos mudavam mecanicamente o cenário por trás de Ringo. O áudio incluía um novo vocal adicionado ao único mix mono da canção, feito no dia anterior especialmente para o promo.

Como "Sentimental Journey" não era uma música "moderna", programas como Top of the Pops se recusaram a exibi-la. Outros programas musicais da BBC também desprezaram o vídeo. A canção estreou no programa Frost on Sunday, do apresentador David Frost, por ocasião de uma entrevista na qual Ringo Starr explicava as razões de ter gravado um álbum tão inusitado quanto Sentimental Journey. Frost perguntou: "o que seus companheiros dos Beatles acharam dessa gravação?". "Eles não param de rir", respondeu Ringo. O clipe seria exibido na mesma época nos EUA, no programa de Ed Sullivan. Detalhe curioso: como o "promo" saiu antes do lançamento do álbum, a capa do LP foi revelada num dos cenários por trás de Ringo.



Segunda-feira, 23 de março
EMI Abbey Road Studios, Estúdio Três, Londres
Phill Spector Produz os Beatles


Paul McCartney trabalhou a portas fechadas no estúdio 3 e praticamente finalizou seu primeiro álbum solo. Sem que ele soubesse, uma longa reunião rolava na Sala 4. Nenhum beatle estava presente, mas Phill Spector nessa ocasião foi formalmente contratado para resolver em definitivo o impasse do projeto Get Back. Recebeu carta branca para trabalhar. Daqui em diante a proposta seria finalizada e lançada. Quem o contratou? É mais certo refletir que quem o convidou foi John Lennon, George Harrison e Allan Klein com apoio de Ringo Starr. Paul McCartney ficou alheio ao processo todo.

Famoso e enigmático, Phill Spector era tido como o mais moderno dos produtores. Fora responsável por alguns clássicos, como "River Deep Mountain High" (Ike and Tina), "You"ve Lost That Lovin' Feelin" (Righteous Brothers), "Da Doo Ron Ron" (The Crystals) e "Be My Baby" (The Ronettes). O homem gostava de experimentar e sua especialidade de produção era o chamado "Wall of Sound", uma parede sonora instrumental que dava peso e criatividade ao arranjo básico das composições. Spector também não podia ser encarado como um produtor comum, daqueles que ouvia as gravações sentado diante da mesa de áudio. "Ele até fazia isso, mas se comportava como um astro da edição, não queria ser um de nós", relembraria Geoff Emerick décadas mais tarde. "Phill também era um sujeito teatral, que gesticulava muito, andava pela sala parecia reger o que ouvia", comentou outro engenheiro, Richard Lush.

A primeira providência de Spector nesse mesmo dia foi escutar em silêncio tudo o que Glyn Johns já mixara até então. O engenheiro da EMI Peter Bown o acompanhou. Por incrível que pareça não existe documentação dos horários em que Phill Spector começava e encerrava seus trabalhos no estúdio. Neste primeiro dia de atividades ele deixou logo sua marca. Mixou dois takes diferentes de "I've Got a Feeling" e não gostou de nenhum. Eliminou a versão de estúdio de Dig a Pony em favor da tocada ao vivo no rooftop. E retirou o coro vocal ("all I want is you") da introdução. Também mexeu em "One After 909". A intervenção mais brutal do dia foi em "I Me Mine" (gravada no dia 3 de janeiro), que Spector considerou "muito curta", decidindo então "estendê-la" na mixagem. Outro mix que Phill desconstruiu foi "Across the Universe".

NOTA: aqui mais uma prova de que o fim dos Beatles estava consumado, faltando apenas o anúncio oficial. Se havia um produtor trabalhando para "ajeitar" gravações da banda, teria sido natural que pudesse convocar o grupo para novas sessões. O problema é que não havia mais grupo.



Quarta-feira, 25 de março
Sala 04 - EMI Studios, Londres

Phill Spector escolheu a Sala 04 de Abbey Road, usada somente para audições e mixagens para trabalhar. E lá ficou isolado. Na EMI poucos sabiam o que ele estava fazendo. Neste dia dedicou-se a retrabalhar "Two of Us", faixa que considerou perfeita para abrir o LP Let it Be. Com um detalhe: foi dele a idéia de incluir a frase de John Lennon ("I Dig A Pygmy by Charles Hawtrey and the Deaf Aids. Phase one, in which Doris gets her oats") para ser o primeiro som a ser ouvido no novo álbum. Ele também acrescentou o novo vocal feito por George no dia oito de janeiro em "For You Blue"... e ainda trabalhou em "Teddy Boy", ouvindo várias vezes o take e fazendo anotações. Até que lhe avisaram que a faixa estava fora dos planos porque sairia no primeiro álbum solo de Paul McCartney.



Quinta-feira, 26 de março
Sala 04 - EMI Studios, Londres

Phill Spector entendeu que a percussão de Ringo Starr, sobretudo partes metálicas da bateria de "Let it Be", precisariam de um brilho maior. Então mexeu nos volumes de mixagem e acrescentou eco. O produtor trabalhou na versão com o rascante solo de guitarra produzido no dia quatro de janeiro e o selecionou para o LP. As mudanças dariam a impressão ao público no futuro de que as versões de "Let it Be" (álbum e single) não eram do mesmo take.

Nesta mesma sessão, Spector também decidiu mudar a faixa "Get Back", já publicada em single. A idéia, ante a impossibilidade de produzir regravações verdadeiras, era iludir. Assim, reeditou sons de estúdio e conversas na introdução, e acrescentou ruídos do final da exibição no rooftop. É, no fim das contas, a mesma Get Back, mas quem ouve a canção no single e no LP Let it Be acaba pensando tratar-se de duas versões distintas.



Sexta-feira, 27 de março
Sala 04 - EMI Studios, Londres

Phill Spector radicaliza. A versão original de "Dig It" tinha mais de 12 minutos de duração. Nas mixagens feitas por Glyn Johns, ganhou severas reduções. Com Spector, todavia, virou uma vinheta de apenas 49 segundos. Na visão do produtor, a frase solta de John Lennon ("That was 'Can You Dig It' by Georgie Wood, now we'd like to do 'Hark The Angels Come'"), adicionava um charme de gravação ao vivo ao LP e funcionaria perfeitamente como introdução para "Let it Be". O dia terminou com uma remixagem de "Maggie Mae" e Phill Spector ouviu atentamente um overdub feito em abril de 1969 para "The Long and Winding Road".

Quem acompanhou esses momentos dizia que Phill Spector não ouvia opiniões. E decidia com rapidez. Nenhum dos Beatles se envolvera com nenhuma das fases da pós-produção. Allan Klein era presença constante em Abbey Road, pressionando para que o trabalho fosse finalizado no prazo combinado com a United Artists. O LP com a trilha sonora sairia em caráter simultâneo ao filme.



Segunda-feira, 30 de março
Sala 04 - EMI Studios, Londres

Phill Spector trabalhou demoradamente numa idéia que depois ele mesmo rejeitou. Produziu uma fita de 16 segundos somente com sons estranhos e uma colagem de diálogos do filme. A intenção era editar o material na introdução de "For You Blue". Depois de várias tentativas, somente uma pequena frase de John (mais uma: "Queen says no to pot-smoking FBI movement") entraria na mixagem do LP. É também a única coisa aproveitada dos ensaios de Twickenham.

Outra decisão importante tomada neste dia: Phill Spector "rifa" os takes de estúdio de "I've Got a Feeling" em favor da primeira versão da faixa tocada ao vivo no rooftop concert. E acerta em cheio.



Quarta-feira, primeiro de abril
EMI Abbey Road Studios, Estúdio 01, Londres

Aqui é o ponto alto da intervenção de Phill Spector no projeto de disco e filme idealizado mais de um ano antes pelos Beatles. Ele deixa a Sala 04 e vai para o Estúdio 01. Uma orquestra de 50 músicos e um coral fora contratada para gravar overdubs em "Across the Universe", "The Long and Winding Road" e "I Me Mine". Para Spector, as composições funcionariam melhor com uma colossal parede sonora a ser mixada atrás da trilha básica. Na visão do produtor, "havia um vazio" nas três canções que precisava ser preenchido, e assim foi feito. Ringo Starr foi o único beatle convocado a participar. Foram usados dezoito violinos, quatro violas, quatro violoncelos, harpa, três trompetes, três trombones, um conjunto de tambores (tocados por Ringo) dois guitarristas e catorze cantores. Era o "Wall of Sound" na música dos Beatles.

Consta que nesse dia Phill Spector estava endiabrado, dando ordens severas e até mesmo gritando com os técnicos. Acostumado com o cavalheirismo de George Martin, o engenheiro Peter Bown - que até então vinha registrando todas as gravações e mixagens - irritou-se e foi embora. Ringo interveio, pedindo que Spector se acalmasse. A sessão chegou a ser interrompida. Peter Bown retornou após uma ligação de Phill Spector pedindo desculpas. Como o produtor não sabia escrever partituras, coube ao maestro Richard Hewson "decifrar" o que ele queria e montar a peça. As harmonias vocais foram conduzidas por outro maestro, John Barham. Em dinheiro de hoje a EMI pagou pouco mais de três mil reais, que foram divididos pelos músicos da orquestra e coral.



Terça-feira, 02 de Abril
Sala 04, EMI Studios, Londres


Último dia de trabalho de Phill Spector. De posse do material gravado no dia anterior ele montou as versões finais de "The Long and Winding Road", "Across the Universe" e "I Me Mine". Em sete dias de expediente em Abbey Road o produtor que inventara a Parede Sonora concluía um projeto que se arrastava há 16 meses. Podem acusá-lo de tudo, mas no estágio em que as coisas se encontravam no universo interno dos Beatles é muito difícil e talvez até injusto afirmar que outra pessoa teria feito melhor. Fica mais claro compreender porque Paul McCartney passaria as décadas seguintes reclamando. Só que mesmo ele, pelos sucessivos desentendimentos com os demais, se afastara de tudo. Os quatro rapazes mais famosos do planeta tinham deixado os Beatles, mas o grupo era uma instituição que não se acabaria.

As decisões finais, que resultaram no lançamento do derradeiro álbum, foram tomadas pelos que cuidavam dos negócios do grupo, para o bem e para o mal. Nem sempre os quatro Beatles foram ouvidos, o que explica a controvérsia acerca do conteúdo de Let it Be que se estenderia pelas próximas décadas. Quarenta anos mais tarde, Let it Be (álbum e filme) é a mais perfeita tradução do fim da maior banda de rock'n'roll de todos os tempos.



Finalização do Filme Let it Be
Michael Lindsay-Hogg trabalhou sozinho na edição do filme até o ponto em que foi possível. Montou inicialmente um copião de 210 minutos, escolhendo o material das incontáveis horas de filmagem produzidas em janeiro de 1969. Essa etapa da produção foi assistida pelos quatro Beatles em 20 julho daquele ano e serviu para que opinassem acerca do que deveria entrar ou sair do filme. Mais tarde Lindsay-Hogg montou a primeira versão de 88 minutos. Um dos trechos era bem longo e exibia parte da sessão em que Yoko Ono se esgoelava nos ensaios em Twickenham. Paul, George e Ringo pediram que aquilo fosse retirado. John Lennon estava fora de Londres e não foi ouvido.

Em outubro de 1969, Michael Lindsay-Hogg montou a versão final com 88 minutos e novamente a exibiu para Paul, George e Ringo. Até o encerramento da edição de som do LP, o projeto de disco e filme se chamava Get Back. A mudança para Let it Be se deu depois que Phill Spector entregou o trabalho pronto. Outro detalhe curioso é que quando o filme saiu os quatro Beatles reclamaram que não tinham assistido nada antes do lançamento. Não era verdade. O filme estreou nos EUA, dia 13 de maio. Uma semana mais tarde (20.05) estreou em Londres e Liverpool. As primeiras exibições no Brasil datam da segunda metade de 1970.



Sexta-feira, 08 de Maio
Lançamento do LP Let it Be


Era sexta-feira. Quando as lojas de discos do Reino Unido abriram as portas estava exposto à venda o novo álbum dos Beatles. Em spots de rádio e cartazes se anunciava para dali a cinco dias a estréia do filme Let it Be. A gravadora distribuiu o novo LP durante a madrugada. Na manhã daquele oito de maio quem se deteve a olhar as vitrines das lojas se deparou com um luxuoso pacote. Era na realidade uma caixa de papelão que reproduzia a capa preta do disco. Dentro um belo livro de fotos assinado pelo fotógrafo Ethan Russell intitulado "Get Back". Também havia textos que reproduziam diálogos das sessões. Nem todos usados no filme. A edição do LP também era diferente - capa dupla com fotos coloridas na face interna. Claro que essa edição luxuosa chegou às lojas por preço quase duas vezes maior que o de um álbum normal. Os Ingleses só teriam acesso à edição "normal" de Let it be (capa simples sem caixa nem livro de fotos) no dia seis de novembro de 1970. O livro de Ethan Russell é uma preciosidade, considerando que nunca foi vendido separadamente em caráter oficial. A caixa completa, em bom estado de conservação também virou raridade. No mercado de leilões de memorabilia é um dos itens mais caros.

O álbum entrou nas paradas de sucessos do Reino Unido na vigésima terceira posição. Cinco dias depois era o terceiro colocado. No dia 3 de junho, com o filme Let it Be levando multidões aos cinemas britânicos, o LP chegou ao primeiro lugar, permanecendo nesta posição por seis semanas. Nas vinte e quatro semanas seguintes Let it Be ficaria entre os dez discos mais vendidos em toda a Europa. Nos Estados Unidos a carreira comercial e de execução em rádio também foi um sucesso. "Let it Be" foi o primeiro álbum da história da indústria fonográfica americana a vender três milhões e setecentas mil cópias antes do lançamento oficial, no dia 18 de maio de 1970, rendendo 26 milhões de dólares de faturamento antecipado. O disco levou três semanas para chegar ao primeiro lugar nas paradas norte-americanas. No mesmo período vendeu mais três milhões de unidades. Vale ressaltar que desde o dia seis de março o single com "Let it Be/You Know my Name" fazia sucesso. Vendeu um milhão de cópias e levou a faixa principal a desbancar "Hey Jude", que até então estava imbatível como a que ficara mais tempo no número um.

Uma curiosidade de mercado: a caixa luxuosa do Let it Be não saiu nos Estados Unidos e em nenhum outro país. Aqui no Brasil, Let it Be foi lançado com dois meses de atraso - na segunda semana de julho de 1970. Vinha na tradicional "capa sanduíche" e em mono. Falso mono, na realidade. Este LP virou raridade no mercado mundial de memorabilia beatle.



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    CLÁUDIO TERAN
    ccsteran@yahoo.com.br





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