PORQUE QUE GENTE É ASSIM!
Os Desentendimentos e as Vaidades
dos Beatle-fãs no Brasil

Fãs dos Beatles são vaidosos. Não há nada de mau nisso. Ou há? Entre os colecionadores e/ou entendidos, sobretudo. Quando e por que exatamente, isso começou? Trata-se de um sub-produto gerado pelos próprios Fabs! Nenhuma outra banda no planeta foi capaz de gerar tanto em tão pouco tempo. Não somente através de seus discos, shows e atitudes. Os Beatles são associados ao prazer, às vitórias, à competência, ao perfeccionismo.
Isso noves fora o carisma dos quatro, a capacidade impressionante de magnetizar multidões e de certamente estarem, no panteão do Rock and Roll, como o único caso de amor eterno. Natural então que mundo afora surgissem os “entendidos”, os hard collectors, os aficcionados. Pessoas comuns que se tornaram referências pelo tanto que se dedicam ao assunto. Qual é o expert em Beatles que desconhece por exemplo, Mark Lewisohn? Quem destes não possui em suas coleções publicações obrigatórias como The Beatles Recording Sessions? E aqui cito Mark Lewisohn como um caso comum de fã que envolveu-se tanto com a coisa que avançou para as entranhas da produção de John, Paul, George e Ringo com autorização dos próprios. O trabalho aclamado desse fã o levou a assinar lançamentos oficiais como as notas do vintage single de Love me Do, e a contar toda a história das sessões de Band on the Run no encarte publicado no álbum duplo comemorativo dos 25 anos desta gravação. Mark Lewisohn teve destacada participação na equipe que concebeu o Projeto Anthology.
Antes dele, outro fã chegou lá: Klaus Voorman! Sim, o velho Klaus foi um dos primeiros fãs dos Beatles! Antes que a brasileira Lizzie Bravo e a inglesa Gayleeen Pease cometessem a façanha de fazer backing vocal numa canção da banda, Klaus Voorman estava lá – nos bastidores, e viu o fenômeno nascer. Foi figurante no filme A Hard Days Night, fez a capa do LP Revolver, e foi um dos primeiros a usar o “penteado beatle” criado nos tempos de Hamburgo por outra fã dos caras, Astrid Kirscherr. Esses são fãs especiais dos Beatles. Porque chegaram a instâncias que nós aquí dos trópicos dificilmente chegaremos. Outros, como Lizzie e Gayleen, chegaram lá por – digamos – um acidente de percurso. Klaus e Astrid viraram amigos dos caras.
No Brasil nós temos um tremendo aparte neste aspecto. Porque nos digladiamos tanto? A Lista Beatles Brazil da última semana foi arrasadora neste quesito. Uma lavagem de roupa suja envolveu Luiz Antônio da Silva, JC, Marcelo Fróes, Vitor Suman, Beto Ianicelli, e até gente que teve o nome citado – como eu e Marco Antônio Malagolli. A briga pública provocada por comentários de Luiz Antônio da Silva teve dois aspectos: um óbvio, negativo. O outro salutar porque através da democracia da Lista, muitos tiveram acesso. Também foi boa por expor de forma pública uma questão que lamentavelmente rola nos bastidores da complexa Beatlemania nacional – a inveja, a falsidade, a rivalidade, e às vezes a mentira, o mau-caratismo e a picaretagem.
Não deveria ser assim. Mas infelizmente é. Buscar uma explicação é algo complicado. Efetivamente existe muita megalomania. Aquela coisa do, “eu sei mais de Beatles que você”. Quantas vezes ouvimos isso, ou insinuações semelhantes? Em quantas ocasiões os neófitos se sentiram escorraçados por fãs veteranos (e impacientes) a lhes lembrar que “os Beatles são muito mais que Twist and Shout”? Ora. Um dos principais ingredientes do culto aos Fabs vem justamente da constante renovação do fenômeno! Não ocorre esse tipo de coisa – na mesma proporção – com outros ídolos, como Elvis Presley. Quando assistimos eventos ligados ao Rei do Rock nos deparamos com um público (em sua maioria) envelhecido. Vintage fãs que acompanham Elvis há décadas.
Com os Beatles se dá o contrário. A gurizada que acaba de descobrir a banda, não tem discos piratas, nem está inteirada ou quem sabe interessada no tanto que sabemos de tudo o que aconteceu durante as sessões de gravação para Think for Yourself – merece respeito! Eles serão os continuadores da difusão do fenômeno. Se eles descobriram agora os Beatles porque os riffs das Gretsches e Rickenbackers tocadas por John e George lhes atravessou a alma – isto é maravilhoso! Não foi assim conosco? Eu comemoro quando me deparo com um garoto de doze, treze anos babando com a levada de “I´m a Loser”, ou “She Said She Said”. É quando compreendo (como fã bem mais velho) que estas canções continuam atuais porque ainda tem a capacidade de produzir fogo nos corações e mentes de gente contemporânea, exposta à internet, aos modismos, à influência pesada da mídia, a MTV e por aí vai.
E os vintage fãs como ficam? Tudo o que sabem e amealharam ao longo do tempo não serve para nada? Nada disso. Estes são (e sempre serão) as referências que ajudarão os que continuarem chegando! Os experts e seus grandes acervos estão a serviço da preservação e perpetuação dos fab four. E pelo deleite próprio, claro. Então ninguém devia se envergonhar por saber menos, ou vangloriar-se por saber mais de Beatles. Até porque isso pode ser simplesmente um fato! Conviver e aceitar pode levar ao confronto com a vaidade pessoal – o que convenhamos não é nada fácil. Precisamos de simbiose mas insistimos no predatismo.
A vertente não é só essa. Marco Antônio Malagolli é crucificado e atacado neste país porque são muitos os que acham que ele mente ou no mínimo exagera ao comentar sobre o que teria ocorrido durante seus brevíssimos contatos com John Lennon, George Harrison e Paul McCartney. Pessoalmente acho que ele não precisava exagerar nada. As fotografias falam por si – e dão a dimensão que eu e tantos aqui bem gostariam de ter alcançado. E por 'brevíssimo tempo' sim, porque não somos amigos dos caras e nem seremos. O fato do Malagolli ter chegado lá é o que mais deveria importar para a beatlemania nacional. Acaba sendo o contrário, e Marco é atacado em boa parte das ocasiões por uma inveja bestial e indisfarçável.
O Marcelo Fróes também passou por isso. Ainda que em menor escala. Quando saiu publicada a entrevista com George Martin no livro, “Os Anos da Beatlemania”, foram muitos os que afirmaram (nas sombras, nunca em público) que “aquilo era invenção”. Cadê as fotografias para comprovar? Fróes desabafou (e já toquei no tema) na entrevista que concedeu ao site Beatles Brasil e mostrou uma penca de fotografias com o maestro dos Beatles. A desunião tem razões que a própria razão desconhece no âmbito da beatlemania nacional. Sobretudo porque cada fã, colecionador ou expert tem caracteristicas próprias. E essa diversidade deveria ser encarada como ponto a favor e não contra. Dentro da Lista por exemplo, quantas vezes os músicos Carlos Assale, Rafael Godói, e Maestro Beto atuam tirando dúvidas e esclarecendo inclusive neófitos (ou leigos) que nada entendem de acordes, riffs, levadas e viradas?
Falta transparência na beatlemania nacional? Sim. Mas o duelo de vaidades entre os fãs mais antígos é talvez o câncer do sistema. Aqui mesmo no Ceará - onde vivo - o problema é grave. Contribuí durante quase dez anos para um programa radiofônico. Fui sacado por questões que em absoluto tinham a ver com a produção desta atração – a qual eu me dedicava gastando tempo, meu vasto material, e até minha condição de profissional de imprensa. Hoje temos dois grupos apartados. E o programa de rádio, transmitido por uma emissora pública e paga com dinheiro do contribuinte, permanece mergulhado nas profundezas do amadorismo e da improvisação. Perdeu, no tempo e no espaço, a função - rara - de divulgar a música dos Fab Four. Rádio é um veículo caro. Sei porque atuo no setor há vinte anos. Nenhuma emissora privada “doaria” espaço para tocar Beatles ou qualquer outro estilo musical. A Universitária FM do Ceará faz isso porque o veículo é público. Então o programa (?) sobre Beatles deveria ser aberto a todos os interessados ao invés de se manter paroquial e segregador – uma questão que não devia ser ignorada (como é) pela direção da rádio.
Portanto a lavagem de roupa suja explicitada na Lista – embora positiva para demonstrar com clareza a desunião dos que de uma forma ou outra, distorcida ou não – contribuem para a difusão do trabalho dos Beatles neste país, mas é um equívoco. Dada a nossa mentalidade (as diferenças, as vaidades, etc. e etc.) não imagino um futuro onde Malagolli, Fróes, Beto, Luiz Antônio, JC, Suman, Lizzie e tantos outros possam – um dia – sentar-se à uma mesa para uma rodada de cervejas num botequim qualquer. Será que Mark Lewisohn, Klaus Voorman, e Astrid Kirscherr o fariam?
Temos de lembrar que somos fãs do mesmo grupo. E isso nos une. As conquistas individuais que obtivemos – tanto em ítens de coleção, quanto em organização, conhecimentos, acervo e pesquisa – fazem parte da nossa personalidade e empenho pela causa. E deviam somar, nunca dividir os fãs. Ninguém é bom em tudo ao ponto de monopolizar o saber, o conhecimento e a informação!
O que é mais fácil de fazer: detonar o Malagolli porque ele afirma em seu site que “Paul McCartney vem aí” - contra todas as evidências – ou ligar para ele e perguntar: “ei, Malla de onde você tirou essas informações? Quero falar sobre isso no meu programa! Quero divulgar isso no meu jornal! No meu site”! Até porque se Paul vier mesmo – ganharão todos. E se não vier, Malagolli que se explique. A desunião que temos não nos leva a lugar algum. Mas persiste bestial e incompreensível.
O Portal Beatles Brasil talvez esteja acima de tudo isso. Justamente porque representa o único esforço real (ainda que virtual) no sentido de congregar tanta vaidade, megalomania e individualismo. Boa parcela dos que contam na Beatlemania nacional foi entrevistada – alguns por mais de uma vez. Do site é possível passar para micro-sites como o do Luiz Antônio da Silva – um dos fãs mais antigos em atividade no Brasil. Ali já se tratou de todo tipo de questão envolvendo os Beatles em nosso país. É pois o lugar de todos. 'O woodstock da beatlemania nacional e até de além-mar'. Conviver com a adversidade, a camaradagem, a picaretagem, a cara-de-pau, e toda sorte de diferenças é consequência. Quando é que os beatle fãs no Brasil enxergarão além dos muros de suas estantes de CDs, DVDs, livros, discos, fitas, revistas, souvenirs, viagens para Londres e Liverpool, programas de rádio, conhecimento, contatos? Tem mais: curtir sozinho, sem ter com quem conversar e debater sobre o que apreciamos é provávelmente a constatação de como é incompreensível a desunião dos fãs.
Isso talvez explique a Lista Beatles Brazil. Na Lista tem figuras ocultas em e-mails ou apenas 'lendo' o que ali se escreve todos os dias, porque virou dependente da coisa. Quem sabe um dia a maioria compreenda que unir, ou ao menos conviver com as diferenças, daria a nós aquilo que brigamos, brigamos e ainda não conseguimos: ter o Brasil verdadeiramente destacado no cenário internacional da beatlemania. Em tempo: lá fora somente o Marco Antônio Malagolli conseguiu ser citado como referência para divulgação dos Beatles, num site oficial deles. O fã-clube Revolution foi incluído como link do sítio www.ringostarr.com !!! Não é para invejar, é para refletir...
CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com