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Claudio Teran
Jornalista e colunista do Portal Beatles Brasil Fortaleza/CE
Tenho a impressão de que a melhor maneira para 'estrear' ouvindo Beatles é de maneira progressiva, tomando contato com os primeiros discos - Please Please Me, With The Beatles, A Hard Days Night... e à partir daí sentir a magia devagar, familiarizando-se com as canções, os arranjos, os vocais e o 'calor' da beatlemania. Comigo foi assim. Estou com 44 anos, hoje. Recordo de chegar ao Sgt. Peppers quando já conhecia todos os álbuns anteriores. Foi na primeira metade dos anos 70, entre 1975/76, quando ainda era um pré-adolescente. Fui à casa de um colega de escola para fazer um daqueles trabalhos em grupo que os professores adoravam (certamente ainda adoram) distribuir entre os alunos. Marcamos a reunião do grupo de cinco garotos na casa do colega mais velho. Israel era o nome dele.
Eu tinha uns 13, 14 anos. Ele 16. A diferença de idade era mínima, mas ele não abria mão do direito de liderar os demais. Chegando lá, Israel estava jogado no sofá da sala de estar, com a capa do Sgt. Peppers nas mãos. Achei fantástico o colorido - esquisita a fotografia com todas aquelas pessoas. O álbum era um legítimo Peppers da coleção brasileira dos anos 60, envolto no famoso 'sanduíche' de plástico e contendo a sigla 'estereofônico' no alto lateral esquerdo do lay out. Enquanto eu pegava a capa para avaliar com calma, aguçando a curiosidade para saber quem eram as pessoas que eu conhecia e que apareciam lá, o disco tocava. Israel foi logo informando que eram os Beatles. Bom, isso eu sabia. Mas que disco estranho era aquele? Lucy in the Sky With Diamonds soava nas modestas caixas acústicas do 'dois em um' Phillips - meio ultrapassado até para a época. Eu conhecera aquela música através da coletânea 1967/1970, que no Rio Grande do Sul a gente chamava de álbum azul. Mas foi na casa do colega de escola, Israel, que fiquei sabendo que A Day in the Life também era do Peppers, assim como With a Little Help From my Friends, e a faixa-título, todas incluídas no 'álbum azul'. Nada aconteceu além de ficarmos ouvindo o disco baixinho, enquanto discutimos quem faria o quê no trabalho de ciências. Quando estava de saída pedi o LP emprestado. Em casa, com o disco à minha disposição eu me postei diante da 'electrola' e ouvi com atenção de menino pela primeira vez o tal Sgt.Peppers Lonely Hearts Club Band. Um fato que me preocupava à época era pronunciar bem esse nome quilométrico em inglês. Não queria pagar mico na frente dos mais entendidos que eu, embora naquela época nossas idades fossem todas muito próximas das outras. Locutores de rádio de Bagé - minha cidade natal no Rio Grande do Sul - quando pronunciavam o nome da faixa-título, diziam coisas incompreensíveis, mais ou menos assim: 'Serjan Pipers Lonél Árts Cubend' !!! Eu com a contracapa do disco no colo, ficava decorando a pronúncia limpa, clara dos Beatles e então aprendi fácil a articular corretamente, ajudado pelo meu conhecimento de inglês escolar. Na segunda, terceira, quarta audição - fiquei um mês com o disco alheio na minha casa - aquelas canções que em principio eu achava muito esquisitas em relação ao material dos Beatles que gostava mais, da primeira fase, foram se aboletando na minha mente e me conquistando. Enquanto retornava da escola para casa, vinha com aqueles sons na cabeça. Exemplo: o incrível solo de Being For the Benefit of Mr. Kite. Certamente foi a coisa mais fantástica que ouvira até então. Outra lembrança é de minha mãe, protestando contra Within' You Without You, que ela achava 'fúnebre'. E dizia: "Desliga isso, menino. Isso parece um velório. Esse John Lennon e esses Beatles são doidos." Eu, professoral aos 16 anos replicava: "é George Harrison, mãe." "São todos loucos, maconheiros" treplicava ela. Penso que compreendi sozinho o 'encadeamento' perfeito da seqüência, e como aquilo soava moderno, único, a frente do tempo. Paulo César, um vizinho 4 anos mais velho que eu, tinha um cabedal de informações sobre Beatles que me fascinava. Eu era só um garoto que estava começando a curtir. Ele, que não era assim tão mais velho, parecia saber tudo sobre os caras. Então foi a primeira vez que ouvi que existiam duas fases - até 1966 com o disco Rubber Soul, e as turnês. E a segunda fase a partir do Revolver. "Olha, esse disco (Peppers) foi feito porque eles passaram muitas horas no estúdio experimentando, criando, tendo idéias, sem a preocupação de fazer turnês até porque seria impossível tocar as músicas desse disco num palco", dizia o Paulo, para um atento expectador: eu, aos 14 anos de idade. Através dele conheci as faixas, Penny Lane/Strawberry Fields Forever, num compacto mono com selo branco da Odeon. Paulo foi a primeira pessoa a me dizer que aquelas duas músicas eram do Sgt.Peppers mas ficaram de fora para "antecipar a revolução que viria", afirmava em tom sério. E foi assim. Quando os padres do colégio salesiano Auxliadora, onde fiz meu ginasial, jogavam o Peppers no sistema de som durante os inesquecíveis recreios, eu cantarolava aquelas músicas todas: "I'm Fixing a Hole where the rain gets in...", "Lovely Rita Metter Maid..." Outro fato que considero curioso desse meu primeiro contato com Sgt. Peppers é que aquele exemplar que me foi emprestado pelo colega Israel tinha um defeito em Getting Better. O disco simplesmente 'pulava' à partír do trecho, "The teachers that taught me weren't cool", para, "I've got to admit it's getting better." Era um 'pulo' tão perfeito que eu achava que a gravação era daquele jeito mesmo. Fui, digamos, conhecer o 'verso inédito' quando o Paulo comprou um Peppers novinho em 1979 e a gente escutou na casa dele, diante de um então moderníssimo 3 em 1 Sharp com o sensacional sistema APSS, onde era possível localizar os começos das faixas gravadas numa fita cassete, pressionando o 'fast forward' com o 'play' acionado. Era o máximo em tecnologia!!! Guardo comigo até hoje o primeiro Sgt. Peppers, aquele exemplar pertencente ao Israel. Gostei tanto do disco que fiz uma troca com ele em 1978. Fiquei com o Peppers velho e surrado dele, em troca de um LP novinho, uma compilação chamada Discoteca Papagaio, editado pela gravadora Som Livre, da TV Globo, e contendo pérolas do movimento 'discoteque' como Fly Robin Fly; Let's All Chant e outras. Era indisfarçável a cara de satisfação do Israel com a troca. Dava para perceber a certeza que tinha de estar levando vantagem e me fazendo de otário. Eu, que também não era santo, pensava justamente o contrário. Só fui ter um exemplar 'integral' do Sgt. Peppers quando comprei minha coleção completa dos Beatles direto da EMI brasileira, recebendo os LP's embalados numa caixa da gravadora, no ano de 1981 - fato que por si renderia uma boa história, mas não é o caso agora. Chamo de 'exemplar integral' porque foi quando fiquei sabendo que um brinde acompanhava o disco, aquela cartela com bigodes, divisas, e 'logo' para recortar. Óbvio que para preservar a originalidade do item, jamais recortei. A cartela permanece lá, dentro da capa do meu Sgt. Peppers, juntamente com toda a minha respeitável coleção de vinis dos Beatles... Lilian Knapp Cantora da dupla Leno & Lilian São Paulo/SP
Na época eu tava trabalhando pra caramba! Lembro que algum amigo tinha o disco importado e me mostrou como um tesouro - como era tratado e sentido pela gente qualquer coisa que viesse deles. Foi uma viagem ouvir a música-título. Nunca pensei que eles pudessem fazer alguma coisa mais ainda linda do que já tinham feito. Mas eles sempre se superavam e nos surpreendiam com coisas espetaculares assim. Sou completamente feliz por ter vivido esse momento histórico da música do nosso universo e de ter, além de ter me influenciado totalmente por ele, ter tido o prazer de fazer algumas versões de suas músicas geniais.
Carlos Shintomi Músico Itabuna/BA
Os Beatles revolucionaram minha vida algumas vezes. A primeira foi na primeira vez que os ouvi: "I Wanna Hold Your Hand". Naquela época eu ainda nem falava inglês e nem sabia o que dizia a letra, que na verdade é até bobinha. Mas aqueles timbres de guitarra diferentes do que se ouvia na época, as pegadas nas cordas mais graves, foram marcantes na minha história musical. A cada novo disco dos caras, eu me surpreendia com a variedade de sons apresentados.
Mas a partir de Revolver e culminando com Sgt. Pepper, aquela surpresa foi muito além de tudo isso. Os arranjos das canções, misturando sons exóticos e experimentais com orquestra sinfônica me levaram a um novo mundo musical. Na verdade, a vários mundos, porque cada faixa era uma descoberta totalmente imprevisível que misturava reunia passado, presente e futuro numa coisa completamente atemporal e fascinante. Uma coisa jamais ouvida antes. Acho até que foi por causa daquele disco que comecei a me interessar por música erudita, concreta, futurista e sei lá mais o quê. Sgt. Pepper é único, insuperável! Netinho Baterista dos Incríveis São Paulo/SP
Tomei conhecimento dos Beatles na Argentina. Morei 9 meses em Buenos Aires, entre 63 e 64, trabalhando com a banda Los Increíbles (Os Incríveis) e um belo dia acordei e a cidade toda estava forrada de cartazes com 4 caras de preto, saltando no ar de braços e pernas abertas e em letras grandes The Beatles, embaixo entre parênteses Los Bitles. Eu ouvia muito Soul na época e passei a gostar deles. O Sgt. Pepers foi numa transformação de décadas, de novos costumes e crenças, e a meu ver foi muito lindo. Eles cresceram. Uma nova magia na nova diretriz de energia de comportamento, que enriqueceu mais ainda a obra da maior banda da história do Rock do nosso planeta.
Carlos Assale Designer e especialista em CAD/CAM São Paulo/SP
A primeira vez eu não lembro exatamente quando foi, mas foi no rádio. Uma sensação de estranheza se instalou. O que era aquilo? Obviamente muito do que o disco realmente era me escapou naquela primeira audição mas era algo muito estranho, novo, inusitado. Os comentários dos amigos do cursinho denotavam perplexidade.
Me lembro bem do dia em que comprei o LP e fui ouvir. Meu pai tivera uma fábrica de camisas que quebrara naqueles duros tempos. Morávamos num apartamento térreo de um prédio de três andares e meus avós moravam numa casa vizinha - as duas residências tinham comunicação através de um quintal. Quando meus avós mudaram, a casa ficou vazia e meu pai, para sustentar a família, montou uma pequena camisaria ("independente"... hehehe...) numa das salas dessa casa, onde cortava as camisas que depois levava para costureiras terminarem o serviço. Daí, as colocava no carro e saía a vender por aí, nas lojas. De industrial a mascate. Nada muito difícil para um sírio... Mas a casa tinha mais. Num outro cômodo era onde minha banda (a Muss Petal) ensaiava - embora muito raramente nesse ano de cursinho. Era lá também onde eu tinha a minha vitrolinha (uma Telefunken, estéreo!) e ouvia música. Ouvi o disco inteiro, uma, duas, três vezes, talvez mais. Todas as certezas foram por terra. O que esses caras estão tocando? Como eu vou conseguir tocar isso? Mas eu tinha gostado e confiava cegamente nos Beatles, aquilo só podia ser algo sensacional. A sensação de estar participando de algo revolucionário era muito forte. Ao sair da minha salinha de música tinha que cruzar a sala onde meu pai cortava as camisas. O estado de espírito que transparecia na minha face pode ser traduzido pela pergunta que ele fez: "Carlinhos, você está se sentindo mal?" E o disco cresceu a cada audição. Tornou-se um vício. Eu o ouvia com a cabeça entre as duas caixas acústicas e lembro de voar ao som de "Mr. Kite" e ser jogado de volta à Terra por um tonitroante Mi maior no piano. Por muito tempo, todos os dias. Era como eu repunha as energias naquele puxadíssimo ano de estudos. E ainda faço isso hoje, 40 anos depois... Luís Pinheiro de Almeida Jornalista e Colecionador Lisboa/Portugal
Quando surgiu a 01 de Junho de 1967 - em Portugal um pouco mais tarde -, “Sgt. Pepper” apanhou-me em contra-ciclo. Em vésperas de concluir 20 anos - o álbum foi, aliás, a prenda de anos da Mãe dos meus Filhos -, os meus interesses da época já não residiam prioritariamente na música, vg, Beatles.
Sem, obviamente, estar desatento às novidades que constantemente emergiam da Grã-Bretanha, as minhas energias canalizavam-se para a luta estudantil contra a ditadura de direita que então reinava no meu País. De outro modo, os Beatles evoluíam para uma fase mais complexa de composição e de gravação que, do meu ponto de vista, os afastava da pureza que fizera a delícia da minha juventude. É neste contexto generalista que vivo em directo o aparecimento de “Sgt. Pepper” há 40 anos: por um lado, um maior desprendimento pessoal pelos Beatles, por via da militância na luta estudantil, por outro a nova e experimental fase musical do quarteto de Liverpool. Não, não renego “Sgt. Pepper”, de que possuo o álbum original em LP, intacto, com o cartão de figurinhas ainda por recortar, a inédita capa interior num degradé do branco ao vermelho e a etiqueta amarela da Parlophone. Apesar de genuíno e de bem conservado, não tem grande valor no mercado de colecção. O que lhe falta em valor monetário, sobra-lhe todavia em encómios por esse Mundo fora: “o melhor álbum de sempre”, “o mais influente”, “o mais original”, “o mais rico”, “o mais não sei o quê”, etc, etc. Para mim não é e nem sequer é o melhor álbum dos Beatles - , mas respeito a opinião alheia. Havia (há) necessidade de encontrar um ícone, um símbolo para os gloriosos anos 60 e - admito - “Sgt. Pepper's” presta-se magnificamente a esse papel. É indubitavelmente o melhor argumento. Em 1989, em Oslo, tive o privilégio de assistir à primeira representação de sempre ao vivo de “Sgt. Pepper's” no regresso aos palcos de Paul McCartney, após uma pausa de 13 anos. Ficou então no ar a incógnita de como seria uma encenação a quatro, fora do disco, incógnita que será para sempre irresolúvel. A minha paixão assolapada pelos Beatles começou aos 16 anos, em 1963, com “Do You Want To Know A Secret?” e seguiu num terrível crescendo até “Revolver” (1966), altura em que ingressei na Faculdade de Direito, onde a música era outra, a da consciencialização política face à ditadura reinante e à repressão exercida contra os estudantes. Os Beatles foram relegados para segundo plano, mas não esquecidos - “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” (1967) e “The Beatles” (1968) - e só voltaram a espairecer no meu espírito no final da carreira com “Abbey Road” (1969), um magnífico álbum de retorno às origens. O resto é história que, bem me parece, está prestes a chegar a um fim injusto: a saída de Neil Aspinal da Apple e a contínua degradação de Paul McCartney fazem temer o pior. Resta a boa disposição de Ringo Starr que, no meio da desgraça, rema contra a maré, levando a sua numa boa, divertida, sem grandes preconceitos, mas erguendo bem alto a chama genuína dos Beatles. A bem dizer, Ringo é o herdeiro dos Beatles. Luís Pinheiro de Almeida (membro nº 130.222 de The Official Beatles Fan Club) Alexandre Amorim Doutorando em Letras pela UERJ Rio de Janeiro/RJ
Para escrever sobre o Sgt. Pepper's, resolvi colocar um CD que ganhei de um amigo com toda a obra oficial dos Beatles em mp3. Escolhi a pasta onde estão as músicas do álbum de 1967. Resolvi ir mais além e baixar alguns outtakes no e-Mule. Fiz a pesquisa, que me trouxe de quebra fotos do ensaio para a capa. Era tanta informação me cercando, que resolvi desligar o micro e colocar meu LP com o selo azul na vitrola. Hoje, qualquer disco já vem cercado de um aparato enorme que praticamente não deixa você interpretá-lo como quer.
Em 1979, não era bem assim. Eu tinha treze anos, computador era uma máquina que se via em filmes de ficção científica e internet era um termo que não existia. Conheci os Beatles através de uma fita k7 da coletânea vermelha (1962-1966), logo depois comprei o Help!, e aí veio o Let it Be, o Abbey Road e então resolvi comprar aquele disco todo colorido, cheio de gente na capa, que se abria e mostrava os quatro bigodudos em roupas brilhantes contra um fundo amarelo. E, para minha surpresa, a contracapa trazia as letras (que eu tentava entender com meu inglês de terceiro livro do C.C.A.A.). Quando Sgt. Pepper's começa a tocar pela primeira vez no seu ouvido, é difícil não notar aquele som quase concretista de instrumentos sendo afinados e de uma platéia imaginária. Mas logo você se esquece de qualquer teoria conceitual, porque as guitarras teimam em mostrar que os Beatles podem ser o que quiserem, inclusive puramente roqueiros. Até que entra a voz de Paul, e aí é covardia: quem canta melhor do que Paul McCartney? Ringo canta, pelo menos em With a Little Help from my Friends. A segunda música do disco não poderia estar na voz de nenhum dos outros três. Ringo é o camarada, o sujeito que segue com a ajuda dos amigos, o cara por quem todo mundo torce para que as coisas dêem certo. Eu só entendi que Sgt. Pepper's era um disco conceitual algum tempo depois. Para mim, aquela música não era cantada por Billy Shears, mas pelo baterista narigudo, de voz meio feia. Era um carinho que os amigos Lennon e McCartney lhe faziam. E quanta gente deve ter achado que precisava de amigos assim... Eu conhecia muito pouco de rock, mas aquela terceira música eu já tinha ouvido com o Elton John. Quando você já conhece uma música, é difícil se acostumar com uma versão nova, mas Lucy in the Sky with Diamonds com os Beatles era imbatível. Até porque, depois da abertura do LP com o medley e a contraposição das vozes de Paul e Ringo, era o momento exato de entrar aquela voz anasalada de John, cantando versos que me lembravam a infância, pelas imagens fantásticas, e que me faziam sentir a adolescência, pela busca de uma paixão inalcançável (Lucy, para mim, é até hoje o símbolo do amor platônico). Não vou falar de cada música, até porque numa primeira audição, aos treze anos, não se absorve cada música do disco. Lembro de achar estranho a voz de George tão baixa em Within You Without You, até que descobri um defeito no canal da voz. E aí a sala da minha casa foi invadida por aquele cara cantando com uma voz curta, mas exigindo atenção pela estranheza dos elementos que não pertenciam ao meu universo pop. Imagino hoje a revolução dessa canção em 1967, porque em 1979 ela também modificou meu senso estético. Também me lembro de pedir à minha mãe que me ajudasse a traduzir She's Leaving Home e de notar seu olhar marejado de emoção ao ouvir a canção. Seu comentário após ouvir algumas vezes a música e terminar a tradução foi pequeno, certeiro, inesquecível: “eles fazem músicas tão bonitas quanto um Beethoven”. Lovely Rita era uma das minhas prediletas, nas primeiras audições. Gostava daquela historinha romântica e boba, que com o tempo aprendi ser um dos estilos de composição de McCartney. O genial e simples McCartney. Rio quando lembro da implicância de minhas irmãs mais novas, que riam quando ouviam o cacarejar e os relinchos em Good Morning, Good Morning. Eu achava um puta rockão, forte, cheio de pulso, e elas, para me chatear, diziam: “olha os cavalos dos Beatles”. Como eu desejava ter um aparelho de som bom no meu quarto... A reprise de Sgt. Pepper's é um dos melhores rocks que conheço. Passei muito tempo tentando descobrir o que John dizia enquanto Paul fazia a contagem inicial. Sentia a ironia na voz sacana de Lennon, intuía ali a eterna competição entre aqueles dois monstros sagrados. E mais uma vez a bateria de Ringo entrava e me fazia esquecer de qualquer coisa: baixo, guitarras e os três cantando em uníssono, se despedindo, agradecendo, como se eles é que tivessem que nos agradecer por alguma coisa. E então, meus amigos, chega a hora em que o mundo pára. Até hoje não tem como alguém me convencer de que a música mais perfeita que já existiu foi composta por Lennon e McCartney e produzida por George Martin para ser eternizada no final desse álbum. Não há erros, não há falhas, não o que adicionar ou subtrair: A faixa que traz A Day in the Life é uma das maiores obras de arte que a humanidade já criou. Eu não ia contar uma confidência de início de adolescência, mas aos 40 anos nossas vergonhas se perdem. Eu confesso: colocava o Sgt.Pepper's na minha vitrolinha azul da Philco (a caixa de som era a tampa da vitrola), me trancava no quarto, pegava uma raquete de frescobol e passava a tarde fingindo que tinha uma banda, que estava fazendo um concerto para milhares de pessoas. Eu era um beatle, fazia um show com o Sgt. Pepper's inteiro, e foi uma das melhores épocas da minha vida. José Carlos Almeida Beatlemaníaco Itabuna/BA
Impossível lembrar daquele dia, lá pros idos dos anos 80. Eu passava sempre pela mesma loja de discos, pra ver se tinha algum novo. Na época, eu estava empenhado em completar minha coleção dos Beatles. Só não conseguia de jeito nenhum dois deles: o Álbum Branco e o Sgt. Pepper. Mas naquele dia ele estava lá, coloridaço, plastificado, com um adesivo redondo evermelho indicando que era uma edição remasterizada. Tratei de escondê-lo na prateleira, como se alguém fosse comprar antes de mim.
Fui em casa correndo e voltei com a grana. Investi tudo que tinha naquele disco e só depois descobri que a capa era dupla, tinha uma linda foto com fundo amarelo e ainda um encarte com vários badulaques que eu, obviamente, nunca recortei - imagina se eu ia querer enfiar aquelas duas hastes no meu nariz, para ter um bigodinho à lá pepper! Mas descoberta mesmo foi quando coloquei aquele disco pra rodar no meu Gradiente S-126, com o volume lá pra metade (isso é muito!!!). Ali eu descobri o que o Mallagolli queria dizer com "o Pepper te transporta para um outro mundo". Como pode um disco começar com os instrumentos sendo afinados? Como pode terminar com uma orquestra que parecia nunca parar de tocar? E o que era aquilo no meio??? Um desfile de músicas maravilhosas, difíceis de entender. Não pude "percebê-lo" inteiramente na primeira audição, assim como até hoje descubro passagens novas, acordes novos, palavras e sussurros novos a cada audição. Não posso nem quero fazer uma análise realmente musical e técnica sobre esse disco. Faltam-me tempo e conhecimento. Mas com certeza, aquele disco me tornou o cara mais especial do mundo. Só eu tinha paciência para analisar aquela capa durante uma audição inteira! E na contracapa, só os meus olhos se deliciavam com a ilusão de ótica causada pela sobreposição da letra de "Within You Without You" à foto colorida dos Beatles. Há muito o que se dizer sobre o Pepper, mas nada explica tanto quanto mais uma audição. Então, prefiro fazer como naquele dia. Eu sabia que tinha algum compromisso para aquela tarde. mas tinha que ouvir aquele disco mais algumas vezes, meu espírito pedia. Deixei tudo pra lá e me entreguei à magia do Pepper. Como estou fazendo agorinha mesmo. Certas coisas nunca mudam... Beto Iannicelli Músico São Paulo/SP
Havia uma loja de discos perto da minha casa, chamada “Cordão de Ouro”. Ficava em Santana, na Rua Voluntários da Pátria, aqui em Sampa. Regularmente, a nossa turma ia à essa loja de discos e perguntava ao dono: “Já chegou disco novo dos Beatles?”, e ele nos respondia cordialmente: “Ainda não.” Na nossa enésima visita à loja o dono já não respondia com tanta cordialidade.
Acontece que essa era a única maneira que tínhamos de saber. Não havia canais de informação, ou se havia nós não os conhecíamos. Éramos apenas um bando de pré-adolescentes alucinados pelos Beatles. Me lembro claramente de uma tarde em que estávamos jogando bola na rua onde eu morava (era uma ladeira enorme) e num determinado momento vimos um amiguinho comum descendo a ladeira que nem um louco e gritando: “Saiu, saiu! Saiu disco novo dos Beatles!!”. Esse amigo trazia o Sgt. Pepper's na mão. Não me lembro exatamente da data, mas deve ter sido em Junho de 1967. Fomos pra casa de um amigo que tinha a melhor vitrola da vizinhança (aquela tipo móvel, que conjugava televisão, toca discos hi-fi e rádio), sentamos todos no chão da sala, naquele estilo “índio americano” e ouvimos o tesouro. Ninguém abriu a boca durante toda a audição, meio como se não estivéssemos acreditando no que acontecia. Essa é a lembrança mais nítida que tenho do lançamento do Pepper's. Ainda hoje, sinto a sensação daquela emoção. Beto Iannicelli GOD BLESS THE BEATLES! SHANTI Marco Antonio Mallagolli Presidente do Fã-Clube Revolution São Paulo/SP
O dia exato, não me lembro. Mas foi ainda em Junho de 1967, quando o disco havia sido lançado. Me lembro que foi em um programa do BIG BOY, em uma rádio do Rio de Janeiro - acho que Excelsior, se não me engano - a primeira vez e logo depois as rádios de São Paulo como Excelsior e Difusora tocaram o disco inteiro - foi uma glória. Ele demorou a sair nas lojas e o acesso naquela época não era tão facil como é hoje. Me lembro como se fosse agora... não dava pra acreditar que era um novo disco dos BEATLES.
A mídia vivia massacrando eles, dizendo que eles haviam acabado, etc. Como explicar o que a gente sente quando ouve uma nova música dos BEATLES? Até hoje não sei explicar. É tipo - morri, estou no paraiso e ninguem me avisou. Na verdade os BEATLES ja haviam mudado tudo na minha vida, eu diria que eles completaram mais uma lacuna com esse disco revolucionário... uma maravilhosa lacuna. Com esse disco, mais uma vez mudaram a "cara do rock and roll". Adriano Mussolin Editor Poços de Caldas/MG
Meu primeiro contato com o Sgt. Pepper's se deu através dos meus irmãos mais velhos. Quando foi lançado, eles compraram imediatamente, eu tinha apenas 4 anos e já ouvia indiretamente o som dos Beatles desde que nasci. Conforme crescia, fui me envolvendo mais ainda nesse mundo. Lembro-me das fotos e do pôster do Álbum Branco pregados na parede e de dezenas de revistas jogadas pelo quarto, enquanto começava a tentar entender como podia uma música soar tão bem. Lembro-me de ter sido levado ao cinema para ver Submarino Amarelo junto com minha irmã e de ter tido minha primeira viagem lisérgica sem combustível extra....
O Sgt. Pepper's não foi meu preferido logo de cara. Eu era um pirralho e gostava mais de ouvir “Being for the Benefit of Mr. Kite” e “Sgt. Pepper's” mudando para “With a Little Help From My Friends”. Com o passar do tempo fui gostando mais de “Lovely Rita”, “A Day in the Life” e “When I'm Sixty-Four”. E mais adiante, finalmente entendi o conceito do disco quando ouvia sem parar “Getting Better” e “Within You Without You”. Ainda molecão, me pus a traduzir todas as letras e ouvir o disco de cabo a rabo milhares de vezes, sentindo cada acorde, viajando nas letras e formando meu caráter. Entendo o disco como uma obra fechada, perfeita. Não falta nada, não sobra nada. Aliás, como todos os outros discos dos Beatles. Mas, tem algo de especial nele, pela parte gráfica, pela maturidade musical, pela unidade e coesão entre composições e arranjos. E também, por toda aura misteriosa que o cerca até hoje! Luiz Antonio da Silva Presidente do Fã-clube Revolution São Paulo/SP
O disco sgto. Peppers foi uma porrada na minha vida, pois os Beatles vinham esperimentando sons e na época a gente não tinha nada de informação e vivia perdido. Eu tomei conhecimento do disco através de uma amigo de escola que comprou primeiro e me emprestou em uma fim de semana, lembro-me que fiquei mais de um mês juntando grana para comprar o disco.
Quando o pegava nas mãos era uma festa: os encartes coloridos, lindas fotos... eu ficava babando. As músicas eu demorei para assimilar. No começo eu estranhei, mas aos poucos passei a curtir. Hoje é fácil falar sobre aqueles tempos, mas ser adolescente, e duro, nos anos sessenta era foda. Eu como aquariano e vindo de uma família humilde, me trancava no meu quarto e os meus sonhos navegavam junto com o submarino amarelo e com a banda dos corações solitários. O Meu desejo era ter amigos, mas como era muito tímido, acabei criando o meu mundo regado a músicas dos Beatles. Na sala de aula, todos tinham nome de músicos: um era o Ringo, outro Jimmy Hendrix, Mick Jagger, Brenda lee, etc. Para mim, escolhi o nome do meu ídolo maior: eu era o John Lennon, daí o meu e-mail de hoje: luizlennon@ig.com.br. Eu ia pra escola com gravador e com discos em baixo do braço para mostrar para a turma. A gente colocava na vitrola no horário de recreio e, logicamente, eu era o disc-joquei. Depois disso comecei a fazer bailes com a vitrola e com um monte de discos. Sempre tinha aniversário de alguém, então eu tacava discos dos beatles pra todos ouvirem. Quando a galera cansava eu colocava o Sgt. Peppers. Sempre achei que o disco era para ser ouvido. Quando eu estava na fossa ou perdia uma namorada, era WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS a minha válvula de escape para levantar o astral de novo. Desta forma, os Beatles e a Beatlemania foram e continuam sendo o meu maior psicólogo. Graças a eles eu evolui, tive e tenho milhares de amigos e amigas e ainda espero realizar muitas coisas boas, pois a escola da Beatlemania é para sempre. Lembre-se que quando você estiver triste ouça os Beatles, levante a cabeça e seja Feliz. Gustavo Montenegro Fã e Colecionador Recife/PE
Meu primeiro contato com "Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band" não foi sonoro, e sim visual. Tenho lembranças de infância, de mexer na estante de discos na casa de um tio e parar naquela capa multicolorida, cheia de imagens, formas e informações. Eu nem ouvia Beatles ainda, mas aquela imagem foi o bastante pra mexer comigo. Anos depois, em 1990, tive a chance de curtir o show de Paul McCartney no Maracanã, mas fui lá motivado pelo single "My Brave Face", que fez muito sucesso e contagiou todo mundo. Só aí virei fã do cara e, por consequência, dos outros três Beatles.
Confesso que meu primeiro exemplar de "Sgt. Pepper" foi adquirido de maneira ilícita. Roubei o disco da mesma estante na casa meu tio, e até hoje tenho ele. Lógico que com o tempo e com a mania de colecionador eu acabei comprando várias outras edições, mas tenho um carinho especial por aquela reedição dos anos 70, pois foi ela que me apresentou ao show maravilhoso daquele sargento e sua banda solitária. Ali conheci Billy Shears, a louca Lucy que viajava no céu com diamantes, a pobre menina rica que fugiu de casa, e o cavalo Henry que dança valsa. Também aprendi a tapar o buraco por onde a chuva entra, aprendi a admirar o som da música indiana, vi que é importante estar sempre com o otimismo em alta e achar que as coisas melhoram a cada momento. É interessante ainda hoje ter uma música na cabeça que toca sempre quando eu ouço um galo cantar, ou conheço alguma mulher chamada Rita. Entendi como um fato banal como acordar, sair da cama e pentear os cabelos pode ser retratado de forma magistral numa canção, uma obra-prima que se chama "A Day In The Life". "Sgt. Pepper" nunca vai ser igualado, muito menos superado. Existem discos até melhores que ele (nem é meu preferido dos Beatles), mas seu pioneirismo e sua ousadia fazem dele o marco inicial do que hoje entendemos como música pop. Com esse disco, os Beatles transformaram o rock em arte, abriram um conceito totalmente novo em termos de explorações, experimentos e possibilidades. Mexeram com a música, com a moda, com o design dos discos, com o mercado fonográfico. Até quem não gostava deles parou pra prestar atenção. O mundo nunca mais foi o mesmo e todos se renderam aos Beatles e seu "Sgt Pepper´s". Por que eu não me renderia? Aletheia Vieira Jornalista Belém/PA
Ouvi Sgt. Pepper inteiro, pela primeira vez, em meados de 1998. Como sou fã dos Beatles desde 95, já tinha escutado “Lovely Rita” e “Lucy in the Sky with Diamonds” nas fitas cassete que conseguia com os pais das minhas colegas. Demorou um pouco para eu adquirir o álbum. Apesar de não ser o meu trabalho preferido dos Beatles (confesso, é o “Revolver”), Pepper é, na minha opinião, o melhor disco de rock in roll dos anos 60. Marcou uma fase de experimentalismo da banda que deve ter deixado o George Martin doido. Já tentaram ouvi-lo com fone de ouvido numa noite silenciosa? O cérebro muda de lugar. São tantos barulhinhos, tantos detalhes que tenho certeza que ainda não escutei tudo. Vou repetir uma frase dita pelo Samuel Rosa uma vez: “queria ser um taco do chão do estúdio só para ter testemunhado isso”. Ele se referia ao “Álbum Branco”. Eu me refiro ao Sgt. Pepper, o filho mais bonito dos Beatles, agora quarentão.
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