Paul McCartney
Paul anônimo na Beatlemania?
Sim, foi possível!


Os Beatles, assim como era de se esperar de qualquer grupo musical, sempre pensaram desejar a fama. Porém, não haviam refletido previamente sobre os "brindes" que poderiam vir junto a ela - isso significa falta de privacidade, pressões comerciais e outros problemas de celebridades. John, Paul, Ringo e George, no auge da beatlemania, levavam a vida escondendo-se das fãs histéricas que os seguiam onde quer que fossem. Por isso, adeus passeios anônimos, adeus férias, adeus liberdade...Tanta restrição quando se está com apenas vinte e poucos anos, como era o caso dos quatro rapazes, chega a sufocar.

Paul não demorou muito a tentar sentir o gosto do anonimato, relembrando os tempos em que era apenas uma pessoa comum e livre. Em 1966, voltando para casa depois de sua última e tensa turnê com os Beatles, Paul programou uma viagem à França com o roadie Mal Evans, amigo seu desde o início da banda. Detalhe: decidiu viajar incógnito, com um disfarce perfeito que ganhara da equipe de maquiagem do filme Hard Day's Night.

A viagem foi importante para relembrar Paul dos motivos que levaram os Beatles a aspirarem à fama. Em Bordeaux, um engraçado episódio mostrou-lhe quantas vantagens poderia ter sendo o famoso Paul McCartney dos Fab Four. Naquele dia, Paul resolveu ir a uma danceteria. Chegando à sua porta, uma surpresa: Paul parecia um homem tão desarrumado e simples, tamanho o capricho do disfarce, que não o deixaram entrar.

McCartney, relembrando o episódio: "Eu parecia um traste! Eles diziam: 'Non, monsieur, non!' (...) Aí pensei, 'Dane-se isto, posso muito bem voltar para o hotel e vir como Paul McCartney!'. Assim, voltei como Beatle normal e fui recebido de braços abertos. (...) Já estava um pouco cansado daquilo [do disfarce] - o que foi bom."

Tal fato foi definitivo em sua vida. Evitou um colapso emocional em meio a tantas cobranças e restrições e serviu para dar uma energia especial em relação à carreira - agora que tinha certeza de que a fama valia mesmo a pena, mesmo com seus "brindes" anexos, Paul começou a compor as músicas para o então novo disco, "Sgt. Pepper".

Paul havia se lembrado do propósito daquilo tudo. Depois de sentir novamente o gosto do anonimato, ele seguiu tranqüilamente com a certeza de que estava fazendo a coisa certa em sua vida no caminho da música e da fama. Paul: "Lembrei-me de como era quando eu não era famoso, e descobri que não era necessariamente melhor que ser famoso. Eu precisei checar se queria voltar atrás, para antes de tudo, e acabei concluindo que não, que estava muito feliz com tudo aquilo que estava nos acontecendo naquele momento. Àquela altura, larguei o disfarce de vez: estava cheio de ser anônimo em plena beatlemania!"

Vivian Novaretti

* Fonte histórica e declarações de Paul McCartney: "Many years from now - A biografia autorizada de Paul McCartney", Barry Miles