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Ainda 1960
O batismo nas "noites selvagens"
Como vimos no capítulo anterior, os Silver Beatles estavam completamente desiludidos com o show business depois da malfadada turnê escocesa. Mas ficou acertada uma segunda turnê pela Escócia, que deveria acontecer em Julho, para acompanharem Dickie Pride, mais um contratado de Larry Parnes, com sobrenome "pomposo". Alan Williams deixou o contrato acertado com Parnes.
Com o retorno dos "meninos", Williams arrumou compromissos "profissionais" para o grupo em dois locais "razoáveis: O Neston Institute e o Grosvenor Ballroom, famosos pelas violentas brigas na platéia, verdadeiros "linchamentos". E eles conseguiram comprar amplificadores decentes para suas guitarras: John e George dividiram um Selmer Truvoice Stadium de 15 watts; Paul usou um Elpico AC-55 de 10 watts; já Stu ficou com um Watkins Westminster de potência desconhecida.

Contrato assinado entre a firma de Alan Williams e a direção do Grosvenor Ballroom
Como havia algumas brechas nas noites de segunda-feira no The Jac, quando a Steel Band folgava, os Silver Beatles podiam tocar lá. Sendo assim, o grupo parecia estar bem atarefado para os próximos meses.
Agenda de apresentações:
The Jac
30/5
13/6 2
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The Institute
2/6
9/6
16/6
23/6
30/6
7/7
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Grosvenor Ballroom
30/5
13/6
4/6
6/6
11/6 1
18/6
25/6
2/7 3
9/7
16/7 4
23/7 4
30/7 4
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1 – Noite com Ronnie na bateria
2 – última apresentação com Tommy Moore
3 – apresentação com Johnny Gentle
4 – apresentações com Norman Chapman
Anúncios de jornal com as apresentações do Neston Institute e Grosvenor Ballroom
No Grosvenor Ballroom eles passaram a se apresentar nas noites de sábado, as "Noites Selvagens", chamadas oficialmente de Big Beat Nights. Paul lembra que enquanto tocavam a música (Baby) Hully Gully, dos Olympics, coisas muito "estranhas" aconteciam. No trecho hully hully gully a pancadaria comia solta. Era um lado do salão contra o outro. Mulheres contra homens, teddy boys contra todo mundo. Copos e garrafas voavam. Até o amplificador Elpico de Paul foi usado como arma por um dos arruaceiros.
Já no Institute eles tocavam nas noites de quinta-feira. Ainda usavam os "nomes de palco" Paul Ramon, Carl Harrison e Stuart Da Stael. Só John e Tommy usavam os nomes reais.

Instrumentos da quarta fase: guitarra Hofner Club 40 de John (59-60), violão Zenith de Paul (56-60), guitarra Futurama Resonet (59-61), de George e baixo Hofner 333 (59-61), de Stu.

Amplificador Truevoice de John e George, amplificador Elpico de Paul e amplificador Watkins de Stu
A ciranda de bateristas adia o sucesso
Como já vinha prometendo a sua namorada e ao grupo, Tommy Moore deixa os Silver Beatles no dia 11 de Junho. Ele não atendeu aos apelos desesperados para entrar na van e seguir para o Grosvenor Ballroom. Com uma bateria vazia e uma "horda" jovem enfurecida, querendo rock and roll, John faz um apelo patético ao microfone: "tem algum baterista na platéia?" Foi uma tentativa de salvar a noite. Pois bem, um arruaceiro (dentre a centenas que havia), líder de uma gangue de teddy boys, subiu ao palco. Seu nome era Ronnie e o que se viu foi a destruição da preciosa bateria de Tommy. Durante o intervalo John ligou para Alan Williams pedindo ajuda para saírem do Ballroom com a bateria, já que o tal Ronnie estava decidido a ficar com ela e ser um Silver Beatle! Com sua "educação" bem peculiar, Alan resolveu a parada.
No dia 13 o pobre Tommy foi ao The Jac pegar sua bateria e se apresentar pela última vez com o grupo. Deste dia em diante, para evitar novos Ronnies, a vaga de baterista foi ocupada por Paul, bastante relutante, mas decido a fazer o sacrifício para evitar mais confusões com as gangues. Mas ele só concordou em tocar nas apresentações já agendadas.
Com isso, nenhum outro agente de shows contratou o "grupo sem baterista". O dinheiro que começava a entrar não aumentaria e, com certeza, ia acabar após o contrato com as duas casas onde tocavam. Mas o "faro para dinheiro" de Alan manteria o grupo, vamos dizer, em "suspeita" atividade. Em parceria com um indiano que se intitulava Lord Woodbine, ele abriu um clube de strip-tease totalmente ilegal, o New Cabaret Artistes. Os quatro Silver Beatles passaram a acompanhar a "performance" da stripper Janice. O repertório consistia de pérolas como Third Man Theme, Summertime, September Song, Begin the Beguine, entre outras.
No dia 2 de Julho ouve um fato pitoresco no Grosvenor Ballroom: Johnny Gentle apareceu de surpresa e cantou junto com o grupo, num presente para os fãs.
Numa das noites que ficavam no Jac, os rapazes escutaram um baterista tocando do outro lado da rua. Encontraram Norman Chapman, que trabalhava com reforma de móveis durante o dia, e praticava bateria de noite, apenas por curtição. Ele era um cara bem alto (1 metro e 90), e foi imediatamente convidado a se juntar ao grupo.

Norman Chapman nos anos 60
O exército vai acabar com os Beatles?
Mas o acaso novamente pegou o grupo na hora de retomar o fôlego e pensar grande. Quando tinham tudo para ficar com um bom baterista, Chapman foi convocado para o serviço militar, indo servir por 2 anos no Quênia e Kuwait. E este era um presságio para o fim do grupo, pois a idade se aproximava para John, depois Paul e em seguida George. Seria o fim de seus sonhos?
Em Novembro de 1960 o serviço militar obrigatório foi extinto na Inglaterra. Isto salvou os Beatles. Paul disse que o exército matou Elvis e teria matado o grupo. Mas antes de curtirem a alegria do fim do serviço militar, uma Steel Band Caribenha irá mudar suas vidas para sempre.
Mas isto só veremos no próximo episódio de nossa saga.
Repertório apresentado pelo grupo em 1960 incluía, entre outras, as seguintes músicas:
(Baby) Hully Gully – vocal: Paul
Ain't She Sweet – vocal: John
Long Tall Sally – vocal: Paul
Youngblood – vocal: George
Love Me Tender – vocal: Stu
Jailhouse Rock – vocal: John
Love of the Loved (Lennon-McCartney) – vocal: Paul
Glad All Over – vocal: George
Johnny B. Goode – vocal: John
Third Man Theme – instrumental
Peggy Sue – vocal: John
The One After 909 (Lennon-McCartney) – vocal: John, com Paul
Dizzy Miss Lizzy – vocal: John
Midnight Special – vocal: John e Paul
Hello Little Girl (Lennon-McCartney) – vocal: John, com Paul
C'Mon Everybody – vocal: George
Lend Me Your Comb – vocal: Paul, com John
Bad Boy – vocal: John
Summertime – instrumental
Maybe Baby – vocal: John
Ooh! My Soul – vocal: Paul
Blue Suede Shoes – vocal: John
All Shook Up – vocal: Paul
Carol: vocal: John
Be-Bop-A-Lula – vocal: John
Catswalk (McCartney) - instrumental
Blue Moon of Kentucky – vocal: Paul
Hound Dog – vocal: John
Lawdy Miss Clawdy – vocal: Paul
Lucille – vocal: Paul
Apache - instrumental
Begin the Beguine - instrumental
That'll Be The Day – vocal: John
Roll Over Beethoven – vocal: John
Twenty Flight Rock – vocal: Paul
Sweet Little Sixteen – vocal: John
That's All Right (Mama) – vocal: Paul
Too Much Monkey Business – vocal: John
Sure To Fall – vocal: Paul
Words of Love – vocal: John e George
Whole Lotta Shakin' Goin' On – vocal: John
September Song – instrumental
Your True Love – vocal: George
Tutti Frutti – vocal: Paul
Bibliografia:
BABIUK, A., 2001. Beatles Gear – all the fab four's instruments, from stage to studio. Backbeat Books, San Francisco. 256 p.
BEST, P. & DONCASTER, P., 2001. Beatle! The Pete Best Story. Plexus Publishing Ltd., London. 192 p.
DAVIES, H., 1968. A Vida dos Beatles – única biografia autorizada. Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro. 417 p.
GOTTFRIDSSON, H.O., 2001. The Beatles With Tony Sheridan: Beatles Bop – Hamburg days. Bear Family Records, Hambergen. 120 p.
LEWISOHN, M., 1986. The Beatles Live! The ultimate reference book. Pavilion Books Ltd., London. 208 p.
MILES, B., 2000. Paul McCartney: Many years from now. A biografia autorizada de Paul McCartney. Dórea Books and Art, São Paulo.778 p.
PAWLOWSKI, G.L., 1989. How They Became The Beatles – a definitive history of the early years: 1960-1964. McDonald & Co. Ltd., London. 208 p.
PUGIALLI, R. & FROES, M., 1992. Os Anos da Beatlemania. Editora Jornal do Brasil, Rio de Janeiro. 256 p.
THE BEATLES, 2000. The Beatles Anthology. Chronicle Books LLC, San Francisco. 368 p.
WILLIAMS, A. & MARSHALL, W., 1975. The Man Who Gave The Beatles Away. Elm Tree Books Ltd., London. 236 p.
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