The Beatles
Helter Skelter
Em sua incansável procura por esclarecimento dos maiores mistérios envolvendo gravações raras dos Beatles, Vitor Suman traduziu um excelente texto sobre as gravações daquela que é considerada a mais pesada música gravada pelos Beatles.



Introdução

"Os Beatles eram uma banda de Rock 'n' Roll. E não uma "pop-band" que tocava rock. Particularmente, "Helter Skelter" é, segundo o próprio Paul, "a mais barulhenta, mórbida e pesada" música que eles seriam capazes de criar. Embora na Inglaterra "Helter Skelter" signifique algo como uma viajem deslumbrante, nos EUA significa "caos total".

E, realmente, na primeira vez que os Beatles gravaram a música em Abbey Road, eles estavam tão tomados por este espírito pesado e penetrante que ficaram tocando a música por mais de dez minutos na primeira tentativa, mais de 15 minutos numa segunda, e como num épico, mas ainda penetrante e dedicado, vinte e sete minutos numa terceira versão. No dia 9 de Setembro de 1968, à noite eles gravaram a versão que você ouve no disco, e mantiveram a duração em quatro minutos e meio, sem perder a "selvageria". O grito desesperado de Ringo "I've got blisters on my fingers" foi gravado em fita, mas os Beatles também estavam gravando um vídeo naquela noite, isso mostrava George atirando fogo num cinzeiro e correndo em volta do estúdio, equilibrando-o em sua cabeça como uma coroa flamejante."
- Mark Hertsgaard, A Day In The Life

E essa é a versão de "Helter Skelter" com mais de 27 minutos. Que permanece sendo uma das mais procuradas gravações dos Beatles. Mas por que ninguém nunca a ouviu?

A Criação

"Pete Townshend disse à Melody Maker que o The Who tinha gravado uma música que era a mais barulhenta, mais rude que alguém já havia feito. Isso me fez pensar 'Certo. Tenho que fazer isso'. E nós decidimos fazer a mais barulhenta, mórbida e pesada que podíamos. E isso foi 'Helter Skelter'"
- Paul McCartney, 1985

O Assassino

O assassino Charles Manson achou que o título da música era um tipo de sinal, que dizia que a guerra e o apocalipse que ele acreditava começaria quando os Black Panthers (grupo radical formado por negros americanos - Manson viu uma ligação com "Blackbird"!) iriam se levantar e acabar com os porcos brancos ("white piggies"). Ele então mandou sua ceita assassinar Tate e LaBianca para mostrar para os negros a maneira de se levantarem (levantar em inglês é "arise"). Na Inglaterra o termo "Helter Skelter" se aplica a uma montanha russa. John supostamente defendeu a teoria da montanha russa mais tarde no tribunal.

"Eu não sei o que pensei quando aconteceu. Eu só pensei, e vi que muitas coisas que ele diz são verdade, que ele é um filho do sistema, feito por nós, e que apenas acolheu seus filhos quando ninguém mais o faria. É o que ele fez. É claro que ele é um maluco!" - John Lennon, Dezembro de 1970.

John achou a interpretação de Manson um absurdo. A leitura de Manson, procurando algo nas entrelinhas é típico de um fã dos Beatles, mas (como também é típico dos fãs dos Beatles) ele viu uma mensagem que realmente não existia.

Anthology

Mark Lewisohn, autor dos livros "The Beatles Recording Sessions" e "The Complete Beatles Chronicle", tem o seguinte a dizer sobre a "Helter Skelter" de 27 minutos:

"Helter Skelter é, talvez, o mais lendário out-take dos Beatles. Na época que o álbum branco foi lançado, eu acho que foi Neil Aspinnal que escreveu na 'Beatles Monthly Book' que eles haviam gravado uma versão de Helter Skelter com mais de 27 minutos, que obviamente, não seria lançada, mas eles foram gravando mesmo assim. Daquele dia em diante, isso se tornou um tipo de 'santo graal' dos fãs dos Beatles, eles tinham que ouvir esta música. Hoje eu sei de muitas pessoas que querem apenas ouvir esta versão antes de morrer.

Eu deixei claro para George Martin, quando estávamos trabalhando no Anthology 3, que os fãs estavam desesperados para ouvir isso e tentei persuadí-lo a ouvir a música, mas não achei que ele o faria. Nós ouvimos, e ele disse: 'Bem, o que tem de tão importante nisso?'. Eu disse para esquecer a qualidade de som, ou esquecer o fato de não estarem bem afinados, ou em harmonia, ou qualquer coisa que um produtor pode estar procurando, e apenas para respeitar o fato de que era o out-take mais importante de todos, e o fãs ficariam loucos se não fosse incluído no projeto Anthology. Então ele pôs tudo aquilo na mesa, como sempre fazia, e, como era bom nisso, ouviu. Mas, na próxima vez que eu o encontrei ele dise: 'Aqui está' e tinha mais ou menos 5 minutos. E, como se não bastasse, eles nem usaram a de 27 minutos, usaram o segundo take, que tinha cerca de 12 minutos. Foi esse que eles transformaram em uma música com 5 minutos. Ele alegou que 'isso é o máximo que as pessoas vão agüentar, não conseguirão ouvir a coisa toda...'. E eu disse: 'bem, eu acho que a maioria realmente vai...'"

Muitas pessoas pensam que a versão de "Helter Skelter" de 27 minutos é tão pesada e rápida como a versão encontrada no álbum. Mas não. A versão do álbum foi gravada cerca de dois meses depois. A versão longa é tocada num tempo mais lento, um tipo de uma marcha, parecido com a que está no Anthology 3.

Recording Sessions

"Eu voltei das minhas féria e achei um bilhete de George na minha mesa. Dizia: 'Chris, espero que tenha tido férias maravilhosas. Eu estou indo pras minhas agora, então, esteja disponível para os Beatles. Neil e Mal sabem que você está indo.' Levou um tempo pros Beatles me aceitarem. O primeiro a falar comigo foi Paul. E foi mais ou menos assim:

PAUL: 'O que você está fazendo aqui?'
CHRIS: 'George não te falou?'
P: 'Não!'
C: 'Bem, ele disse para mim vir até aqui e ajudar vocês.'
P: 'Bom...se você quiser produzir nosso disco, você pode. Se você não quiser, então eu posso te dizer pra se f...'
Isso era motivação? Eu quase não conseguia falar depois disso..."
- Chris Thomas, produtor da versão final de "Helter Skelter"

Quinta-feira, 18 de Julho de 1968
Estúdio 2, 22h30 às 3h30
Helter Skelter - Takes 1-3
Produtor: George Martin
Engenheiros: Ken Scott, Richard Lush

A noite do dia 18 de Julho foi gasta gravando três versões longas de "Helter Skelter", a nova canção de Paul, que invocava o nome de uma montanha-russa num parque londrino. Porém, a versão que aparece no LP The Beatles é totalmente diferente dessa. A versão do LP é um re-make, iniciado em 9 de Setembro. As versões gravadas nesse dia são ensaios primários.

O Take 1 dura 10:40, o take 2 tem 12:35 e o take 3 é um épico com 27:11, a gravação mais longa da história dos Beatles. As três versões são parecidas: guitarras, baixo, bateria e vocais gravado ao vivo, sem "overdubs". Bateria pesada, guitarras extremamente altas e uma performance vocal memorável, providenciada por Paul, que nada tem a ver com a versão final, a não ser a letra. Cada take se transforma numa Jam consciente e dedicada, com longas passagens instrumentais.

Brian Gibson estava providenciando detalhes técnicos: "Eles gravaram as versões longas de 'Helter Skelter' com o eco ao vivo. O eco é normalmente adicionado nas mixagens para que possa ser removido caso o resultado não seja bom, mas dessa vez eles queriam ao vivo. Uma dessas versões se transformou numa Jam que entrava e saia numa versão bizarra de 'Blue Moon'. O problema era que, embora estivéssemos gravando em 15 ips - o que significa, cruamente, que tínhamos 1h30 de fita - o gravador que trabalhava o eco só aceitava 30 ips, em outras palavras, 15 minutos. Nós estávamos sentados na sala de controle - Ken, Richard e eu - olhando para a fita do eco, que estava no fim. Os Beatles estavam tocando, sem dar a mínima para o tempo de fita, e nós não sabíamos o que fazer, pois eles estavam obtendo o retorno em seu fones de ouvido para poder ouvir o eco. A gente sabia que se parássemos a fita eles notariam, e não iam gostar. Então a gente decidiu parar a fita e retornar. Então, em um certo ponto, o eco para súbitamente, e você ouve um bllllrrrriiiipppp enquanto isso era retornado. Isso fez Paul improvisar um tipo inteligente de vocais baseados nos barulhos dos bastidores!"

Segunda-feira, 9 de Setembro de 1968
Estúdio 2 - 19h00 às 2h30
Helter Skelter (remake) - Takes 4-21
Produtor: Chris Thomas
Engenheiros: Ken Scott, John Smith

A gravação do dia 18 de Julho tinha parcialmente realizado o desejo de Paul de criar uma "cacofonia" musical. O problema era que, com o melhor take daquelas sessões durando mais de 27 minutos, a música preencheria um lado inteiro do LP. Então eles decidiram gravar um remake, com a mesma energia, peso e "morbidez" de antes, mas mantendo a duração em 3 ou 4 minutos. Na verdade, a duração é a única coisa especificada neste remake, nesta, assim denominada, "sessão louca".

Brian Gibson estava presente de novo: "A versão do disco está fora de controle. Eles estavam completamente loucos naquela noite. Mas, como sempre, a desatenção se transformou em o que os Beatles faziam em estúdio. Todos sabiam o que eles estavam tomando, mas a única autoridade pra eles no estúdio eram eles mesmos. Enquanto eles não fizessem nada muito ultrajante, a gente tolerava"

Todos os tipos de instrumentos estavam sendo testados. O resultado final - o take 21, que recebeu "overdubs" no dia seguinte - é uma faixa onde John toca contrabaixo e, amadoramente, saxofone, Mal Evans toca o trumpete, no mesmo estilo de John. Duas guitarras solo, providenciadas por Paul e George, a bateria hipnotisante de Ringo, um piano, distorções e "feedbacks", backing vocais de John e George, vários barulhos, e um vocal principal surpreendente e cru de Paul. Se "Revolution 9" era o experimento vanguardista de John, "Helter Skelter" era o de Paul. Mas foi Ringo quem deu o toque final perfeito. Depois de tocar bateria como se sua vida estivesse dependendo disto, seu grito "I've got blisters on my fingers!" foi preservado no disco, e dá uma demosntração do que foi gravá-la.

Terça-feira, 10 de Setembro de 1968
Estúdio 2 - 19h00 às 3h00
Helter Skelter - "overdubs" no take 21
Produtor: Chris Thomas
Engenheiros: Ken Scott, John Smith

"Overdubs" finais em "Helter Skelter". Chris Thomas lembra: "Enquanto Paul gravava seu vocal, George pôs fogo num cinzeiro e começou a correr em volta do estúdio com ele na cabeça, fazendo um número de Arthur Brown! (comediante inglês) Foi uma sessão bem indisciplinada, como pode ver..."

Quinta-feira, 17 de Setembro de 1968
Estúdio 2 - 19h00 às 5h00
Helter Skelter - Mono Remix 1, do Take 21
Produtor: Chris Thomas
Engenheiros: Ken Scott, Mike Sheady

Sábado, 12 de Outubro de 1968
Estúdio 2 - 19h00 às 5h45
Helter Skelter - Estéreo Remixes 1-5, do take 21
Produtor: George Martin
Engenheiros: Ken Scott, John Smith

A remixagem de "Helter Skelter" foi vital para a música. Há várias diferenças entre a versão mono e a estéreo. A Mono acaba com 3:36, a estéreo tem mais um minuto extra, acabando com 4:29. No estéreo tem o "fade out-in" e o grito de Ringo ao final, o Mono não. Existem ainda várias diferenças menos significantes.

Quarta-feira, 9 de Outubro de 1968
Estúdio 2 - 19h00 às 5h30
Produtor: George Martin
Engenheiros: Ken Scott, John Smith

Durante esta sessão, Paul tirou a fita do dia 18 de Julho da gaveta e fez uma cópia do take mais longo, com 27:11, para guardar em sua coleção.

Out-Takes
Depois de tanta falação sobre as gravações, você deve estar se perguntando o que está disponível por aí, não é? Então lá vai...

11 de Junho de 1968
Um mês antes de gravarem o primeiro Take de "Helter Skelter", uma versão acústica foi gravada em fita e filmada no meio dos ensaios de "Blackbird". Foi filmado em cores por Tony Bramwell, e seria usada em uma propaganda da Apple Corps. Esta versão acústica foi ao ar na TV holandesa no programa "Vara's Puntje" no dia 27 de Setembro de 1968. Este out-take está disponível, em sua melhor versão, no bootleg "Gone Tomorrow, Here Today" (Midnight Beat 113)

18 de Julho de 1968
Um out-take da primeira sessão de "Helter Skelter" está disponível, graças ao projeto Anthology. Oficialmente lançado está o Take 2, que originalmente dura 12:35, mas no Anthology 3 foi reduzida pra menos de 5.

9 de Setembro de 1968
Dessa sessão só está disponível uma versão do acetato original do álbum, com umas passagens extra de guitarra. Estão nos piratas "Lord Of Madnness" (Masterfraction MFCD001) e "Primal Colours" (Masterdisc MDC009) em estágios diferentes de mixagem.

Bibliografia
"The Beatles", Hunter Davies
"Beatlesongs", William J. Dowlding
"The Beatles: A Day In The Life", Mark Hertsgaard
"The Complete Beatles Chronicle", Mark Lewisohn
"The Beatles Recording Sessions", Mark Lewisohn
"A Hard Day's Write", Steve Turner
"Lennon Remembers", Jann Wenner
"The Ultimate Recording Guide", Allen J. Wiener