O dia que meu fusca virou Beatle



Edmundo Macalé

Em agosto de 1969 eu estava em Londres. Como o Brasil atravessava um período muito difícil, resolvi me exilar nestas terras por onde às vezes o tempo parece não passar, mas passa. Na época tinha 22 anos e até então nunca havia sido, nem me sentido como um Beatlemaníaco. Mas naquela doce manhã de agosto, mais precisamente no dia 8, aconteceria um fato que mudaria bastante a minha vida e a forma de ver as coisas. Vivia hospedado na casa de um casal de amigos, Desmond e Molly Jones, numa rua chamada Abbey Road. Nesta rua, ao lado da casa dos meus amigos, havia o famoso estúdio onde os Beatles gravavam todos os seus sucessos. Desde que cheguei, me acostumei a ver todos os dias um monte de fãs que viviam aglomerados ao lado do muro na árdua tentativa de ver um dos quatro Beatles, ou os quatro. Mas nunca tinha prestado maiores atenções. Pois bem, naquela época eu tinha (e ainda tenho!) um fusquinha branco, ano 1966, placa 28 IF. Levantei cedo, pois havia marcado uma entrevista para um possível emprego.

Quando saí de casa, tomei um susto. Lá fora havia muito mais fãs do que de costume. E também, um batalhão de fotógrafos. Indaguei com um vizinho - um certo Mr. Mustard - sobre o que estava acontecendo. Ele me disse que os Beatles iriam fazer uma sessão de fotos para a capa do seu novo álbum. E disse também que a polícia havia fechado o trânsito na rua pela próxima meia hora. Meia hora? Não era possível. Iria perder minha entrevista! Precisava do fusca para chegar no local a tempo. Mas não houve jeito. Tive que me conformar. Meio chateado e meio descontente, decidi deixar-me fazer parte daquilo tudo e juntei-me curioso ao bando de fãs para ver o que aconteceria.

Qual não foi minha surpresa ao ver os quatro Beatles sairem do estúdio e formar uma fila indiana bem na beira da calçada, quase do meu lado! A tal foto seria tirada quando eles estivessem bem no meio da faixa de pedestres. Pelo local onde o fotógrafo deles se posicionou, percebi que naquela foto haveria um coadjuvante muito especial: Meu fusquinha branco estacionado na porta de casa. A sessão não demorou tanto. Mais ou menos uns dez minutos. Ao todo, eles atravessaram a faixa sete vezes. Indo e voltando. Então o fotógrafo gritou: "Ok. I got it!". Os quatro Beatles foram atenciosos com os fãs e distribuiram vários autógrafos antes da polícia liberar o trânsito. Depois, voltaram para o estúdio e a multidão foi se dispersando. Corri para o meu fusquinha e consegui o emprego. Como disse, aquele dia mudou minha vida. Hoje sou um velho Beatlemaníaco e guardo com muito carinho tudo o que se refere a eles. Principalmente as lembranças.

Tenho uma coleção de artefatos maravilhosos, dentre os quais, meu fusquinha branco 66, que ficou imortalizado na capa do LP Abbey Road. Aquele era o último disco dos Beatles como conjunto e termina com um verso que significa muito para cada fã: "E, no final, o amor que você leva é igual ao amor que você faz". Thanks, Beatles.