O Mudinho

Carlos Edu Bernardes - (arlã()

Manhã de 9 de janeiro de 1.963 e eu na cadeira do dentista da Hartch Avenue em Londres. Meu pai havia me despachado para a capital inglesa na esperança de ver o meu problema de canal sanado e, principalmente, deixar com o meu tio Guilherme (a quem eu chamava Bill) a incumbência de obrigar-me a estudar qualquer coisa que fosse. Eu acabara de completar 19 anos e nada de decidir sobre uma profissão. Pobre papai.

Naquele dia em especial, Harry, o dentista, também amigo de papai, havia caprichado na anestesia e, terminado o trabalho daquela manhã, deu-me um tapinha no ombro e disse:

- Big Charles, prontinho! Pode ir e até amanhã! Ah, não se esqueça de passar ali naquele hotel da esquina, o Kingdom Place. Ouvi dizer que aqueles malucos dos Beatles estão hospedados lá. Você vai ao show deles hoje à noite?

Claro que eu iria! Até já havia comprado os ingressos! Vê-los assim tão de perto seria muito legal, apesar de muita gente estar dizendo que "aquele conjuntinho" era apenas uma moda passageira...

Cuspi a última bochechada, molhando o meu casaco, e despedi-me de Mr. Harry emitindo uma frase que nem eu entendi direito, devido à anestesia colossal que ele aplicara na minha boca.

Desci a rua rumo ao local onde os Beatles estavam hospedados e, ao passar pelo portão dos fundos do hotel, percebi uma movimentação muito grande de pessoas que estavam transportando vários materiais. Entre eles vi caixas de instrumentos e não precisaria ser um gênio para adivinhar a quem elas pertenciam. Ao chegar mais perto, um senhor esbaforido colocou-me dois bumbos pequenos nas mãos, deu-me um leve empurrão e ordenou que eu andasse rápido, apontando para dentro do portão. Confuso, sem poder pronunciar uma palavra sequer, segui aquela inusitada fila indiana rumo aos quartos, pelos fundos do hotel.

Depositei os bumbos num salão imenso, cheio de instrumentos e caixas com a inscrição 'The Beatles' e, já que estava ali, preparei-me para dar uma boa verificada naqueles corredores. Nesse momento, um sujeito grandalhão, que depois eu saberia ser Mal Evans - o escudeiro-mor dos Beatles -, perguntou-me:

- Ei! Quem é você? - Tentei falar alguma coisa, mas não consegui. Minha boca ainda estava dormente. Passei a gesticular para que ele entendesse que havia ocorrido um engano. Nisso, outro sujeito tocou nos seus ombros e disse ao gigante:

- Deve ser o primo do Alf, o motorista. Ele disse que mandaria alguém para ajudar a arrumar essa coisarada.

- Certo! Então pede ao mudinho aí para ele ir até a cozinha e trazer as bebidas dos rapazes. Eles já devem estar sedentos!

Bom, só o fato de poder ver de perto os "rapazes" já foi o bastante para que eu, "o primo do Alf", me prontificasse e zarpasse rumo à cozinha.

Naquele início de tarde, não podendo falar nada devido à bendita anestesia, conheci de perto os quatro beatles. Como não conseguia pronunciar uma palavra sequer fui chamado de "mute person", algo como "mudinho", pelo Ringo e logo todos estavam se referindo assim à minha pessoa e pedindo toda sorte de coisas.

Como ninguém perguntou mais nada, fiquei. Até o momento em que lembrei-me do show. Ora, eu já estava ali com os caras! Peguei o telefone, liguei para o Tio Bill e disse que iria direto para o show. Nesse momento a anestesia já havia passado, porém continuei no meu teatro de pantomimas, pois, afinal, eu era "o mudinho".

Foi assim que acabei enturmado com tão incrível trupe. Viajei para vários países junto com a banda e numa dessas viagens, nas Filipinas, levei uma pedrada na cabeça quando tentava protegê-los de uma multidão enfurecida. No Japão evitei uma gafe de Mr. Epstein, que quase dedicou flores brancas para a família imperial (flores brancas no Japão são enviadas a velórios!). Aquele martelo utilizado nas gravações de Maxwell Silver Hammer era meu, pois eu o havia levado para dar um jeito num prego da bota preferida de George. Quando estavámos nos E.U.A. era eu quem ia, de madrugada, comprar donuts para John, que os comia sem parar quando compunha. John adorava uma caneta que eu havia ganho de papai e que tinha uma foto da Brigitte Bardot nua. Quando você a virava de cabeça para baixo a tinta ia cobrindo o corpo dela, como um maiô. John adorava fazer isso e nos olhava com aquela cara de sacana, alçando as sobrancelhas. Claro que ele acabou ficando com ela.

Mas como tudo acaba um dia, e após a dissolução do conjunto, achei melhor abandonar a Apple, onde trabalhava no escritório (que estava uma verdadeira bagunça!). A separação da banda foi muito triste para mim e nem me lembro de quando vi os quatro pela última vez. Quando meu pai me pergunta por onde eu andei durante aqueles sete anos eu respondo:

- Estava a bordo de um sonho, pai. Um sonho que nunca acabará, pois ele se revigora nos corações de quem sabe que vale a pena sonhar.