O Baile
Carlos Edu ®

Depois do sexto chope Tabken levantou e bradou:

- Nesta passagem de ano estarei rodeado de putas! Não quero nem saber!

Sommk, que estava fulo com Tabken por ele ter vindo primeiro pelo Portal Norte, não se conteve e envenenou:

- Mas a sua família não está neste espaço-tempo!

Sob o efeito do bom e venerado álcool do século XIX, Tabken voltou-se para mim e para Derrion retrucando numa espantosa calma:

- Estão vendo? Acabo de provar que quem bebe nem sempre é o tonto! - E encarando o colega respondeu: - Eu já lhe disse Sommk que essas viagens pelo tempo acabariam afetando o seu cérebro de ervilha! Faça um esforçinho vai: tente se lembrar que eu ainda não me casei com a sua irmã e, portanto, eu não poderia estar me referindo à NOSSA família!

Sommk, que não bebia nada alcoólico, além de ser o mais tenso de nós quatro, levou a mão no estilete-laser, mas Derrion, que era o líder da expedição 1886-7W, tinha ligado o aparelho sônico de comunicação telepática e mentalizara o que soou como uma repreensão e uma ordem:

- Parem com essas frescuras! Vamos nos concentrar para finalizarmos logo essa tarefa!

Como se não bastassem os seus extraordinários conhecimentos científicos, o comandante Derrion possuía um diferenciado controle emocional e conseguia manter, com muito carisma e objetividade, uma aceitável harmonia entre nós quatro, mesmo tratando-se de gênios terrivelmente diferentes.

Nesta missão específica estávamos em busca de sementes de algumas frutas que serviriam de matrizes para clonagens. O Novo Conselho Unimundial estava decidido a proceder rapidamente o reflorestamento do leste da Ásia, totalmente devastado nos cinco anos finais do século XXIII, agora já livre das perigosas radiações. Mesmo tendo que aturar as constantes discussões entre Tabken e Sommk, a nossa equipe era a mais eficiente nas missões que compreendiam pesquisas biontológicas veladas e colhimento, sem choques espaciais-temporais futuros, de amostras orgânicas e minerais nos anos abaixo do século XX.

Derrion 3Gla Nenx havia se formado em Engenharia Espaço-Tempo no ano de 2.604 na Índia e dois anos depois concluíra com distinção o seu Mestrado Eletrotelepático pela Celebridade Tônus de Saturno. Depois de apenas quatro meses no Estágio Lunar, Derrion assumiu o Comando Operacional das Missões Espaço-Tempo Unimundiais, com base no Suriname. Diga-se de passagem que em 2.599 - com apenas 15 anos de idade material - ele levou a Medalha Primeira-Louvor no concorrido certame de Aptidões Intelectuais Vertentes no panteão submarino de Atlântida, profundidade setentrional entre o que restou do Brasil e a África.

Apesar do seu raciocínio pender para a lógica, tanto para a concreta quanto para a agora aceita - e complicadíssima - lógica abstrata, Derrion gostava de compor e de cantar Rock and Roll, um tipo primitivo de música que fez muito furor até as vésperas da grande hecatombe mundial no ano de 2.307. E os fazia com a mesma intensidade, dedicação e esmero dos seus cálculos e projeções plurienergéticas temporais. Sempre que nos encontrávamos, nas horas vagas, ele me mostrava um ou outro conjunto musical do século XX, que eu ouvia com prazer, pois eram mesmo construções melódicas interessantíssimas e belas. Assim fui conhecendo cada vez mais as histórias e os acontecimentos culturais daquela época e até mesmo aprendendo a tocar - muito mal - um tal de contra-baixo...

O melhor episódio que eu conhecia de Derrion tinha se desenrolado no baile da sua formatura - eu me formaria dois anos depois e estava ali servindo os drinques. E era também o encerramento ecumênico anual da universidade de Rishikesh na Índia.

Com o desaparecimento de Nova Dehli no ano de 2.517, Rishikesh tornara-se o novo centro mundial das Engenharias. A reconstrução do Taj Mahal nas suas proximidades fora de tanta felicidade que quase ninguém mais se lembrava do seu lugar original.

Pois bem. Ali, no salão-mor, o evento transcorria alegremente quando a comissão de formatura foi avisada de que o teletransporte América Seis sofrera uma pane e que o conjunto que tocaria no baile não poderia estar presente (só depois de algum tempo eu soube que a pane fora causada pelo próprio Derrion, ao implantar um vírus de vida rápida num programa de comando de um dos vórtices eletromagnéticos).

Orador da turma, e com a maior cara de inocente, Derrion solicitou ao Reitor-Mestre que o permitisse dar uma olhada no computador central do teletransporte para, quem sabe (!!), tentar descobrir onde estava o problema. A sua habilidade era realmente estupenda - o Reitor-Mestre bem o sabia - e, tendo obtido o consentimento, fingiu digitar comandos no teclado enquanto o vírus expirava naturalmente... Tudo estava dando certo! Destravado o sistema, o espertíssimo formando então iniciou a configuração das coordenadas vetoriais que trariam o conjunto contratado mas, ao invés disso, as apontou para Londres, no ano de 1.969.

Naquele ano, momento e local, Derrion sabia que músicos que ele tanto adorava estavam reunidos num estúdio de gravação produzindo um novo trabalho. Eram eles: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, denominados The Beatles.

Assim, em poucos segundos, a sala onde os quatro rapazes se encontravam, e todos os seus estranhíssimos instrumentos musicais, foi materializada no gigantesco palco do salão-mor, gerando sussurrados comentários dos presentes, pois parecia não ser aquele o grupo aguardado.

John, Paul, George e Ringo conversavam e acertavam detalhes referentes à execução da próxima canção e nada notaram de diferente. Isto porque, após o corte seccional e a efetivação motora-físico-energética do teletransporte, apenas as paredes da sala foram trocadas por projeções holográficas. Todavia quem estivesse do outro lado delas, ou seja, a realidade absoluta do ano de 2.609, podia enxergar amplamente o que se passava lá dentro.

Sendo assim Derrion percebeu que John Lennon estava para abrir uma das portas, talvez para buscar um outro instrumento, e rapidamente postou-se na frente dela. John, ao abri-la, deu de cara com Derrion e com um local que parecia tudo, menos o corredor dos estúdios da Abbey Road. Mais ao fundo ele notou pessoas sorrindo em sua direção e com cálices brancos nas mãos. Antes que ele pudesse dizer algo, Derrion adiantou-se:

- Muito prazer, John. Sou Derrion, do ano de 2.609.

- Lennon tirou nervosamente os seus óculos redondos, passou as mãos nos olhos, encarou Derrion e respondeu:

- Eu não sou John Lennon, seja lá quem você for! Sou a Brigitte Bardot! E quando eu pegar aquele cara que me vendeu um "bagulho de primeira" vou enchê-lo de porradas!

- Calma John, eu posso explicar.

E Derrion fez uma rápida síntese sobre o porque deles estarem lá e da honra que seria ouvi-los tocar e cantar ao vivo. - Por favor, vocês podem fazer isso?.

- Um fã do século XXV? - perguntou John.

- Sim! E a partir de hoje serão muitos mais, tenho absoluta certeza!

John voltou para a sala, trancou a porta com a chave, colocou-a no bolso e disse:

- Vamos passar cinco músicas seguidas, certo? Do outro lado da sala estão 398 pessoas do século XXV esperando a gente fazer um som bem legal e eu não quero decepcioná-las!

Paul, George e Ringo trocaram uma olhadela e caíram na risada. Eu soube depois que, apesar das últimas sessões de gravação terem sido muito tensas, eles não precisaram dizer um para o outro que aquele dia ia ser bem produtivo. E eu entendi naquele momento, pelos seus semblantes descontraídos, como era bom contar novamente com o velho e fantástico humor de um cara chamado John Lennon.