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A Verdadeira estória de Martha
Eu já tinha acostumado com ela e até tinha dado-lhe um nome: Ivy. Lembro-me bem deste dia em 1.970, quando Mr. Mal Evans bateu palmas à porta. Nossa campainha havia estragado devido a uma chuva insistente no dia anterior - fato estranho, pois não chovia tão ininterruptamente assim no verão londrino - e por isso Lena, a governanta brasileira, foi até o portão de madeira e o abriu. Eu estava no alpendre, entretido com o preenchimento de um álbum de figurinhas dos tri-campeões mundiais de futebol - a figurinha do Tostão era a mais engraçada -, e Ivy, minha cachorrinha, pulava nas minhas pernas e fazia com que os cromos repetidos se espalhassem pelas escadas, que davam para o jardim, num típico e alegre alvoroço de cachorrinho recém-nascido.
De longe vi aquele homem gigante no portão, a cabeleira loura e uns óculos pretos muito gozados. Chamou-me também a atenção aquele paletó quadriculado e calças pretas um tanto quanto curtas, haja visto que suas meias apareciam quando ele nervosamente mexia nos bolsos enquanto falava.
- Big Charles! Esse senhor quer falar com o seu pai! Vá chamá-lo! Ele está no escritório! - Era sempre assim que Lena falava, apesar de papai ter lhe falado inúmeras vezes sobre a maneira britânica de atender pessoas, mas o seu jeitão carioca nunca mudava ou sumia e, invariavelmente, ela gritava mesmo e quando andava gingava sensualmente os seus quadris num passo de mulata corpulenta e bonita - para desespero dos meus pais e felicidade total de professores e colegas de papai, que vinham para conversarem sobre trabalho ou estudos.
Olhei mais uma vez para o gigante, que esboçou um tchauzinho, e fui procurar papai.
Estávamos havia três anos em Londres, papai trabalhava com bolsas de valores, e concluía um estudo na cidade, juntamente com outros companheiros de várias cidades do Brasil e da Argentina.
Papai estava ouvindo o disco novo de George Harrison, 'All Things Must Pass', e cantarolava alegremente, enquanto mexia nos livros, a linda 'Beware Of Darkness'.
-Pai! - Gritei também.
- Diz aí, Big Charles! Depois eu quero que você ouça esse disco do George. Está fantástico! Putz-grila! Eu sempre soube que George era um gênio, mas nunca pensei que ele tivesse tantas músicas assim guardadas na manga! Só falta o Ringo lançar um disco clássico agora!
- Pai! Há um homem lá fora querendo falar com o senhor.
Papai quase caiu de costas quando o homem se apresentou com Mal Evans, praticamente o escudeiro-mor dos Beatles. Mal Evans, o homem que resolvia inúmeros e variados pepinos em que os Beatles poderiam estar envolvidos. Inclusive - fiquei sabendo depois - figurava nos créditos do próprio 'All Things Must Pass' como o homem que servia o chá. Eu achava muito engraçado alguém se chamar 'Mal' e porque não 'Bem', afinal era tão óbvio que o 'Bem' era muito melhor!
Não gostei nada quando o papo ganhou ritmo e os olhos deles não saíam da minha cadela Ivy. Com muito jeito meu pai veio me dizer que a Ivy era irmã da cadela de Paul McCartney, Martha, e que Martha havia morrido misteriosamente no dia anterior. Paul e Linda estavam chegando de viagem hoje e Mal não queria entristecê-los com uma notícia ruim. Evans havia procurado a fazenda onde ele comprar Martha, mas já não havia mais nenhum filhote... E lhe deram o endereço de quem havia comprado a última cadelinha. Entendi tudo e, apesar de ter chorado um pouco, deixei que Ivy se transformasse em Martha. Quando meu pai tentava me convencer ele fixava bem nos meus olhos e dizia quase implorando: "É para o Paul, Big Charles! É para o Paul!".
Não sei até hoje se algum dia o Paul notou que a sua Martha, daquela época, era na verdade a minha Ivy. Provavelmente não, pois elas eram muito pequenas e talvez ainda não tivessem desenvolvido alguma personalidade canina peculiar, vai saber...
Hoje quando ouço 'Martha My Dear' do 'Álbum Branco' eu canto 'Ivy My Dear' (apesar de 'Martha My Dear' ter sido composta para uma 'Martha' anterior), porém aquela cadela que sempre aparece em fotos com Paul será uma e única: Martha para todos, Ivy para mim.
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