Bob Geldof e os Beatles
Aquele show em 1985 por pouco não sai. Como eu estava com a agenda muito cheia na sexta que antecedia o concerto, minha entrevista com Bob Geldof foi antecipada. Bob precisava estar noutro compromisso no horário que estava marcado comigo e por isso, como Lennon ainda não havia chegado em Londres, fui até o hotel onde estava Mr. Geldof (se eu soubesse que essa mudança de planos teria me amputado o direito de estar na coletiva de Lennon eu certamente não teria ido), e comecei a entrevista como um bom correspondente. Afinal remarcada estava.

Lembro-me de que Bob falou muito vagamente sobre o show, apesar de nos dias anteriores ele ter se mostrado tão ativo, e percebi que ele não estava tão bem assim. Só depois de meia garrafa de whisky foi que ele se soltou e me disse que não se sentia bem desde que fizera o papel de Pink no famoso filme de Alan Parker - The Wall. Dizia que o espectro de Pink não o deixava em paz e que o fantasma de Eric (o pai de Rogers Waters) sussurrava através de espelhos para que ele se alistasse num exército qualquer, pois a sua alma pedia uma granada. Eu, hem!

Bom, mas quando retirei meu gravador da bolsa, um dos seus empresários me pediu desculpas e literalmente arrastou Bob porta à fora.

Em vários anos de entrevistas e tendo presenciado coisas de fazer uma crise do Jim Morrison parecer ensaio do Côro dos Meninos de Viena, achei aquilo muito estranho. Mesmo porque Bob tentou falar alguma coisa para mim através de grunhidos pastosos e gestos que eu não pude entender. Pareceu-me que a sua boca tentava articular as palavras beat for us ou mesmo Beatles, mas daí deduzir algo estava difícil...

Fiquei tão chateado com aquilo que me mandei dali e entrei no primeiro pub que vi - acho que o "Stream Energy" - e me afoguei naquela cerveja inglesa de quatro quilos o caneco. Não sei se a cerveja não bateu bem com o whisky que eu havia tomado com o Bob, ou se pelo choque de ter presenciado aquele descontrole gratuito dele, ou se pelas duas coisas juntas, que, às quatro da manhã, eu realizava o sonho de vomitar do alto da famosa ponte da capa do disco do Paul, o London Town. Ali, imaginando-me sozinho e chamando o "hugo", passou um sujeito mais bêbado do que eu numa bicicleta gritando: "Brazilian! U bastard!" e, desenquilibrando-se, enfiou a roda dianteira do veículo numa fenda da ponte estatelando-se no chão e me apontando o dedo médio da mão esquerda em riste. Apesar de cair na risada, pensei em ir até lá e dar um belo pontapé no seu narigão vermelho, porém desisti, porque o vômito tinha sujado as lentes dos meus óculos. Sujeitinho sacripanta aquele irlandês! Quem ele pensava que era? Só porque trajava uma suéter imensa com a inscrição "IRA" tão grande que nem a sujeira dos meus óculos me impedia de ler? Ora! Já morei no Rio de Janeiro, rapá! Tenho medo de mais nada não, ora! Deixei pra lá e fui pro hotel.

No outro dia, dia do show, abandonei o gravador junto das minhas credenciais e misturei-me com a galera para ver o show. Minha cabeça pesava mais do que o Big Ben e fazia os insuportáveis bléns-bléns de cinco em cinco minutos. Putz, que ressaca...

Acho que a beberagem acabou fundindo minha cuca naquele dia, pois só no finalzinho do show - já haviam se apresentado Robert Plant & Jimmy Page, Janis Joplin, Rolling Stones, Pixies, Dire Straits, Jimmi Hendrix e outros menos aguardados - quando os holofotes foram mostrando Lennon, George, Paul e Ringo, que lembrei-me do Bob tentanto me dizer que os Beatles estariam juntos! E eu tinha entrado sem minhas credenciais!!! Tentei falar com os guardas, mas eles estavam tão transtornados com a multidão que parecia ter triplicado de tamanho ao notar quem estava no palco, que me brindaram com o cacetete na cabeça (por incrível que pareça a ressaca sumiu na hora - talvez porque eu tenha passado a me preocupar com o sangue que jorrava da minha sobrancelha direita e me melava o pescoço). Ainda não sei como foi que os meus óculos não caíram.

Resumindo: Não entrevistei Bob Geldof direito, não vi John Lennon e não consegui ouvir Come Together com os Beatles! Nem vou contar ao lado de quem que eu fui amanhecer na cadeia de Londres. Isso é assunto para outro papo...