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O Quarteto Seltaeb
Entre 1780 e 1850 em Viena, Áustria, não havia problemas de "nacionalidades" entre os habitantes, por mais variadas que fossem suas origens. Se algumas vezes caçoavam da pronúncia de um belga nas canções, comédias ou operetas, isso não afetava a unidade total da população, coisa que não se via na França, pois ali a gozação sobre o jeito de falar dos marselheses era proeminente.
Mais do que New York nos dias de hoje, Viena tem a música cosida no próprio coração. É impossível, mesmo agora em 2002, não ouvir frases musicais de um trio de Haydn ou de um quarteto de Mozart ao cair da tarde, quando cessam em grande parte os barulhos da cidade.
Pois bem, nesta Viena, na mesma época em que acolheu Mozat, Schubert, Lanner e Strauss, cujo povo apreciava desde o realejo até a admirável maestria da Hofmusikkapelle, esteve ali por alguns anos o competente quarteto Seltaeb, formado por músicos oriundos da Grã-Bretanha.
Esses músicos, de extremada originalidade e por isso tidos como "muito ousados e descabidos", eram tão diferenciados e realmente ousados em relação a outros grupos, que o próprio Mozart nutria por eles uma grande admiração, logo nos seus primeiros anos vivendo em Viena.
Foi após uma apresentação do quarteto, que executou a peça "Little Child" no jardim de Augarten, demoradamente aplaudida pelo público presente, que travou-se o primeiro encontro entre Mozart e o Seltaeb.
Mozart ficou tão encantado que decidiu fazer ali também, no jardim de Augarten, a sua primeira audição pública. Aliás, como se sabe, Mozart só se sentia realmente bem quando se via misturado com o povo em eventos como estes.
Por várias vezes, após as festas ou apresentações, as discussões sobre música entre Luap, Nonnel, Egroeg, Ognir e Mozart amanheciam, pois a sintonia dos seus gênios universais e simplificadores conseguiam quase sempre fazer de um amontoado de notas musicais uma peça nova e arrebatadora.
Todos os cinco eram artistas puros, que compunham, montavam e sonhavam ao sabor das suas fantasias, com a contundência paradoxalmente leve e amorosa que somente eclode nos grandes artistas.
Porém e infelizmente tais reuniões aconteceram muito pouco. O próprio trabalho de Mozart - que o detestava, pois era obrigado a executar suas criações em locais onde a nata da sociedade vienense costumava frequentar, como o salão de baile no Redoutenstadt - e as constantes brigas dentro do quarteto - Luap interferia muito na maneira de Egroeg compor ou acompanhar suas peças, com colocações do tipo: "Seria preciso, aqui, uma ária de ação, que revele paixão, mas que não seja patética, que não seja cantabile" no que Egroeg sempre respondia: "Tocarei como você quiser, e se não quiser, não toco" - foram fazendo com que eles se vissem cada vez menos.
Além disso, a própria liderança do quarteto atribuída a Luap, mas perturbada pela posição firme e incisiva de Nonnel, consistia numa outra mazela que viria a se juntar com outras desencadeando o fim da promissora sociedade.
A possibilidade de uma revigoração nos seus laços pessoais e profissionais enfraqueceu bastante com a sentida morte de Mozart em 1796, já que ele era um grande incentivador dos quatro músicos e, de uma forma ou de outra, os mantinha sintonizados numa ou noutra peça a ser iniciada ou concluída.
Por fim o assassinato de Nonnel em 1800, quando voltava de um ensaio, veio a selar o destino malfadado do Seltaeb.
Luap, Egroeg e Ognir tentaram carreiras solo, mas a eles já estava colada a pecha de "ousados demais". Se o próprio quarteto, com a recomendação e incentivo do conceituado e respeitado Her Mozart, não teve oficialmente nenhuma de suas peças registrada para a posteridade, não é inconcebível o fato deles não terem seus nomes lembrados na história da música ocidental.
Soma-se a tudo isso, ainda, o fato de que a vida dos quatro, principalmente a de Nonnel, foi pontuada por muitas decepções, injustiças e dissabores, porque a "leviandade da cúpula musical vienense", no fundo, não percebia seus gênios - como não perceberia o gênio de Schumann, meio século depois -, além, é claro, de não quererem colocar em risco as suas posições na modorrenta sociedade.
Há notícias, não comprovadas, de que a canção "Hey Nannerl", supostamente composta para a irmã de Mozart que abandonara a música muito cedo; a fantasia musical "Good Night Viena", atribuída a Ognir; a ópera completa "Sargent, Sargent", com frases melódicas, movimentos extremamente inovadores e situações nunca antes desenroladas num palco; todas elas escritas em partituras e detalhadas em textos no bom e velho inglês, foram enterradas por um serviçal dos Seltaeb num local chamado Strawberry Fields em Liverpool, Inglaterra.
Alguns estudiosos, na tentativa de encontrá-las, comandaram escavações secretas no terreno durante a última década de 1980, sem sucesso. Vizinhos dizem que seria difícil achar alguma coisa enterrada no local, pois vários garotos que ali gazeteavam aulas no final dos anos 50 reviravam o chão escondendo cigarros e bebidas para voltarem depois e consumí-los. Certa vez - lembra um senhor de 78 anos que não quis se identificar -, três deles retornaram trazendo violões e ficaram a tocar durante a noite toda...
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