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Fantasia Sobre Mozart
Caro Wolfgang, senhor,
Cheguei hoje ao Brasil, após terríveis noites naquele navio umedecido. Todo o mal tempo da Europa pareceu ter me acompanhado até o Rio de Janeiro e ainda ecoa, gélido, nos meus ossos.
Durante a jornada de volta apenas suas partituras me mantinham preso a algo bonito, aliás angelical, como a última tarde que passamos juntos eu, o senhor e madame Constanze, nos arredores de Salszburg.
Não sei se poderei voltar no verão. Entenda-me, senhor. Temo não ter conseguido terminar minha sinfonia até lá.
Gostei muito das suas idéias sobre uma cidade menina no coração do Brasil, devotada totalmente à música. O planalto central, pouco conhecido, guarda tesouros mil. Penso muito em transferir-me para lá e iniciar estudos sobre a música indígena. O Brasil é muito musical, senhor. Com as influências dos negros vindos da África, os tons melodiosos do fado português e a presença sempre bem humorada do brasileiro, creio que em breve o país terá um tipo de música que será elogiada mundo afora. Além do mais, senhor, tudo que aqui chega é bem recebido e assimilado. A calma e a curiosidade do povo brasileiro espocam nas mais diversas formas de criatividade, que são vistas em todas as esferas culturais.
Vejo o futuro do Brasil com muito bons olhos.
Os filhos da pátria, mesmo sendo hoje netos e bisnetos de hordas bárbaras que aqui aportaram desde o descobrimento, gerarão bons homens, que saberão amar o país e cuidar da sua política, pois o Brasil é uma terra riquíssima, em todos os aspectos, senhor. Imagino que daqui a alguns séculos o Brasil proverá o mundo com suas jazidas inesgotáveis de alimentos e recursos naturais, ditando rumos para uma humanidade igualitária e feliz.
Tenho certeza que também teremos alcançado a perfeição musical, a qual já nasceu velha no seu grande coração, senhor.
Afetuosos abraços do seu criado,
Carlos Edu
Rio de Janeiro, 1.790
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