O Sol
Tranquei a porta da entrada do estúdio da Abbey Road e me preparei para minha ronda noturna. Passando por umas das salas senti o cheiro de cigarro e abri a porta. George ainda estava ali. Ele devia ter ido ao banheiro ou algo assim, pois não o tinha visto ao chegar no meu turno de trabalho. Pensei em perguntar se ele queria alguma coisa, mas lembrei-me de quando John estava compondo uma parte de "Yer Blues", também sozinho, e ao ouvir a mesma pergunta levantou os olhos da guitarra por alguns minutos e me fitando disse:

- Quero sim, Carl. Cale a boquinha, ok? -, colocando em seguida a língua pra fora numa careta engraçada. Eu percebi a mancada, porém não levei a bronca muito a sério, pois John era um grande sujeito e eu nunca o tinha visto humilhar alguém. Era o jeito bacana dele de pedir privacidade e ao mesmo tempo zoar com as pessoas.

Agora George batia meio que nervosamente o cigarro na borda alta de um cinzeiro antigo e, percebendo a minha presença, chamou-me balançando os dedos que seguravam o cigarro. Aproximei-me e ele perguntou:

- Qual é a primeira coisa que você pensa quando acorda, Carl?

- Bom, George... Gosto muito de acordar, abrir a minha janela e ver se o dia será ensolarado. Isso me dá ânimo para começar o dia.

- Hum... Certo. Valeu, Carl.

George devia estar preocupado com a letra de uma nova canção. Afastei-me verificando o molho de chaves das outras salas e ainda tive tempo, aproveitando a deixa de George, para dizer que se ele precisasse de algo eu estaria na mesa perto da entrada, que eu poderia começar minha ronda mais tarde.

Ali na mesa, enquanto preenchia alguns formuários de segurança, lembrei-me também das três noites em que Paul chegava por volta das onze, dava três pancadinhas na porta, esperava uns segundos e depois dava mais duas (era a nossa senha) e me esperava abrir a porta. Entrava trazendo um café bem forte para mim, nada dizia além de esboçar um sorriso amigável ao mesmo tempo em que dava um tapinha nos meus ombros, e ia para o estúdio mais no fundo do prédio. Ele estava compondo "Oh! Darling!" e lá trancado eu podia ouvir seus berros forçando a voz para que ela parecesse cansada quando fosse gravar a música. "Tenho que parecer fudido, Carl. Preciso colocar essa sensação na música" - disse.

Depois de umas duas horas George apontou no corredor deslizando em passos de dança, no que concluí que ele havia conseguido o que tanto procurava. Deu-me um abraço rápido com aquele seu casaco peludo e falou:

-Consegui, Carl! Consegui!

No dia seguinte, ao chegar para o trabalho, aqueles quatro caras fantásticos estavam acabando de mixar "Here Comes The Sun".