Um espécime de anjo impulsivo precisou viver por aqui
Carlos Edu Ū - (arlã() Ū

Longe de Lennon ter sido um anjo, na acepção religiosa da palavra. Um anjo.
Quá! Mas daí haver malucos que o relacionem a um tratado com o coisa-ruim é
de doer. Vejam só: Dizem que, durante um porre ou embalado numa viagem
movida a drogas no início dos sixties, John teria vendido a alma ao rei do
enxofre em troca de sucesso. Ouch! Será que se fosse tão fácil assim fazer
um trato dessa natureza com o "capa", no torpor de uma carraspana ou mesmo
no auge de uma viagem in the sky with Lucy, o inferno não estaria mais cheio
do que o Japão, onde um zapon tropeça no centro da ilha e caem dois no mar
lá embaixo? Ok, o inferno está cheio, mas cheio de gente que fez coisas
terríveis e que em nada contribuiu para a paz, o amor e a fraternidade entre
a humanidade. John foi uma pessoa assim?
E quanto a Paul, Ringo e George? Eram medíocres? Eles, partes
importantíssimas de um conjunto que ainda rompe barreiras de todos os tipos,
compartilharam do sucesso sem "pagarem" nada? Ora, convenhamos...
Bom, mas um anjo precisa ter certos atributos. É... E John tinha. Mais ou
menos como naquele filme em que outro John, o Travolta, interpreta um anjo
fumante, meio que indolente, largadão, porém muito cool. Lennon lembra, de
longinho mas lembra, um anjo assim. A fuck rebel angel. Como se Deus
(que Lennon denominava de "O Usina De Força") tivesse dito: "Vá! Sofra, dê
umas porradas também, erre, construa coisas incríveis e depois suba logo.
Devo precisar de você aqui em cima. O bem não é feito só com olhinhos
meigos." Imagine!
E John veio para a Terra e viveu, sob o signo da pressa e equipado com olhos
e mente flamejantes. A real flaming eyes, cantando "Mind Games".
Meninote, viu o pai Fred rumando para o mar e quase foi junto. Abraçou-o,
hesitou, mas atravessou a rua e ficou com a mãe Julia.
Julia, a quem perdeu por duas vezes - primeiro porque ela foi morar com um
homem que não queria fedelhos de outro homem; segundo quando ele e a mãe
estavam se reconciliando e retornariam a morar juntos (ela até o havia
ensinado algumas música no banjo), e um policial bêbado
rompe o sonho, a atropela e a mata. John, posteriormente, externou um
coração arrebentado por essa perda em duas músicas: "Julia" - White Album e "My
Mummy Is Dead" - Plastic Ono Band. Claro que ele fez "Mother", mas aí ele
gritava pelos dois, Fred e Julia, sob orientação de Janov, um psicólogo que
estava em evidência.
Quanto ao marido de Mimi, os dois eram muito apegados. Afinal o Tio George
foi a única figura paterna estável que John teve na vida, mas que morreu
repentinamente quando John tinha 12 anos e voltava para casa, depois de umas
férias na Escócia. Na oportunidade John trazia um presentinho para a Tia
Mimi e outro para o Tio George. Segundo Mimi, ao saber da morte, John
fechou-se como uma concha e não falou mais do tio, porém quando ia para a
escola de arte usava sempre um velho blazer, apertado e curto, que
pertencera a ele.
Apressado e como que montado na velocidade estonteante dos fatos, que
invariavelmente o pegavam de surpresa - como se o seu tempo fosse
multiplicado por três ou quatro do tempo normal dos outros - perde o amigo
Stu, de apenas 21 anos, para um derrame cerebral. Stuart Sutcliff fora o
primeiro baixista do grupo, que já contava com Paul McCartney, George
Harrison e Pete Best - Ringo Starr (Richard Starkey) só chegaria para os
Beatles com a saída de Pete em 1962.
Nessa época, aos 21 anos também, as drogas já eram o seu lenitivo.
Barbitúricos, álcool... tudo para suportar as dores dos abandonos e para
continuar dando o recado nas temporadas malucas em Hamburgo, Alemanha. É
claro que todos estavam na onda, mas John tinha bem mais motivos para
exageros.
Depois, de volta à Liverpool e iniciando o mito do Cavern Club, um
empresário, Brian Epstein, dá ao conjunto o primeiro selo. Com uma namorada,
Cynthia Powell, tem o primeiro filho, John Charles Julian Lennon, o Julian,
que nasce em 1963.
- Cacete! Que pressa, John! - Como um atordoado bad anjo, ele grita:
"Help!".
Tudo muito rápido, tudo acontecendo num turbilhão de fatos encadeados. E
Cynthia querendo fazer do marido um perfeito "homem inglês", de chinelos,
robe e cachimbo... Aqui eclode um John angustiado, impedido e se impedindo
de acompanhar eventos e participar de diversas farras, que coloriam o
cenário daqueles anos incríveis. Compôs "I'm Only Sleeping".
- Merda! Como abandonar a família? Repetir com Julian aquilo que seus pais
fizeram com ele?
Ao voltar de Rishikesh, Índia, na viagem com os Beatles em 1968 - e após a
morte (mais uma de alguém próximo) do empresário Brian, por excesso de
tranquilizantes -, teria dito para Cynthia: "Vamos voltar a ser uma família,
Cyn. Eu, você e Julian!", mas as drogas e a insatisfação acabaram falando
mais forte. No seu armário, na residência de Kenwood, Londres, lia-se: "Safe
As Milk".
John ainda gritou "I'm So Tired" e mais tarde, com Yoko, declamou "Watching
The Wheels" onde, a exemplo de "I'm Only Sleeping", já tinha dito que não
estava nem aí para aqueles que o achavam preguiçoso. Talvez nessa afirmação
repetida ele tenha tentado dizer ao mundo que, mesmo supostamente parado, a
sua efervescência intelectual, artística e humana estavam sempre no ápice.
Como pode alguém, elétrico como Lennon, ficar cinco anos praticamente fora
de cena e exatamente, exatamente no ano em volta a compor e, com toda a
certeza, a preparar seu retorno ao panorama político e contestador, além do
artístico, à evidência mundial, simplesmente ser morto por um suposto
débil-mental?...
E foi morto no país e na cidade que tanto amava, cujo governo tentou
exportá-lo várias vezes. Sua briga com Richard Nixon, presidente americano
naquele período, foi célebre.
E foi morto cantando "I'm Losing You", onde ouve-se: "Eu ainda tenho que
carregar a cruz?"
E foi morto deixando uma enigmática frase na contra-capa do seu Long Play de
1972 - Some Time In New York City -, que soou mais misteriosa ainda depois
do envolvimento de uma grande empresa americana com o nazismo durante a
segunda guerra, que dizia "Donīt think they didnīt know about Hitler"...
Poucos homens públicos tiveram a coragem de expor o peito como John. Raros
homens atraíram tanta atenção e admiração nas diversas culturas e nos tantos
credos como John. Poucos homens amaram a humanidade como John. Acredito que
até hoje ainda há babacas dormentes tentando entender suas incríveis
sacadas.
Yoko deveria ter levado suas cinzas para Liverpool. Será que ela nunca ouviu
John cantar "Strawberry Fields Forever"?