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Músicas do White Album
BACK IN THE USSR (Lennon/McCartney)
Escrita por Paul como um pastiche dos Beach Boys e de Chuck Berry. A gênese da canção vem de um comentário feito por Mike Love a Paul, durante um café da manhã. O resultado foi uma homenagem ao tema do single que Berry lançou em 1959, Back In The USA, utilizando imagens e referências soviéticas, tudo com um som típico dos Beach Boys.
“Essa é de Paul. Talvez eu tenha ajudado com alguma coisa, mas acho que não...”. (John Lennon - 1972)
“Essa eu escrevi como uma espécie de paródia aos Beach Boys. De qualquer maneira, havia uma canção de Chuck Berry chamada Back In The USA, de forma que saquei umas coisas dali também. Me agradava a idéia sobre as garotas da Georgia e falar da Ucrania como se fosse a California”. (Paul McCartney - 1984)
“Eu estava à mesa do café quando McCartney chegou com seu violão. Ele estava tocando 'Back In The USSR', e eu lhe disse que deveria falar das garotas de toda a Rússia, Ucrânia e Geórgia. McCartney era criativo mais que o suficiente para não precisar de nenhuma ajuda minha com a letra, mas fui eu quem lhe deu a idéia para aquele trechinho... Achei bem humorado da parte deles fazer essa paródia dos Beach Boys”. (Mike Love - 1997)
“Nem sequer me dei conta disto, até que alguém falou alguma coisa. Achei realmente adorável”. (Brian Wilson - 1976)
Em 1987, Paul McCartney causou furor lançando seu primeiro disco oficial na Rússia. Gravado apenas para o mercado soviético, e trazendo versões para velhos clássicos do rock e do blues, o álbum se chama exatamente “Chobba B CCCP”, ou “Back In The USSR”. Alguns anos depois o disco foi relançado em escala mundial.
Gravação:
22 de agosto de 1968, Abbey Road Studios, com adições em 23 de agosto.
Instrumentação:
Paul McCartney - Guitarra solo, piano, vocais, backing vocais e bateria.
John Lennon - Baixo de seis cordas, vocais.
George Harrison - Baixo, vocais.
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DEAR PRUDENCE (Lennon/McCartney)
Prudence na verdade é Prudence Farrow (irmã mais nova da atriz americana Mia Farrow) que também estava na no grupo dos Beatles na Índia. A canção foi um apelo para que ela saísse de seus excessivamente longos períodos de meditação, confinada no quarto, para relaxar com o resto do grupo.
“Foi escrita na Índia. É sobre a irmã de Mia Farrow, que pareceu enlouquecer um pouco, já que meditava demais e não saía do bangalô em que vivíamos. Eu e George tentamos ajudá-la, porque ela confiava em nós”. (John Lennon - 1980)
Gravação:
28 de agosto de 1968, no Trident Studios, com adições em 29 e 30 de agosto.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, bateria, flugelhorn, vocais.
John Lennon - Guitarra solo, pandeiro, vocais principais e vocais de apoio.
George Harrison - Violão, vocais.
Mal Evans - pandeiro.
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GLASS ONION
(Lennon/McCartney)
Glass Onion foi uma resposta bem-humorada de John a aqueles que observavam seu trabalho em busca de significados ocultos. Ele começou a juntar os elementos da canção usando trechos e imagens de algumas das mais enigmáticas músicas dos Beatles - Strawberry Fields Forever, There's A Place, Within In Without You, I Am The Walrus, Lady Madonna, The Fool On The Hill e Fixing A Hole.
Ele espertamente fala que “The Walruns Was Paul”, para quem acreditava que McCartney realmente tinha morrido em 1966, em um acidente de automóvel. Glass Onion também foi o nome que Lennon sugeriu ao grupo The Iveys, contratados pela Apple em 1968. A banda preferiu mudar para Badfinger, sacado de “Badfinger Boogie”, título original para “With A Little Help From My Friends”.
“Meti o verso 'the walrus was Paul' só pra confundir mais as pessoas”. (John Lennon - 1980)
“Com Glass Onion eu só estava me divertindo às custas das muitas besteiras que escreveram sobre 'Sgt. Pepper'. Diziam: 'Se tocarem o disco ao contrário, ouvirão uma mensagem secreta e etc'”. (John Lennon)
Gravação:
11 de setembro de 1968, em Abbey Road, com adições em 12, 13 e 16 de setembro, e em 10 de outubro.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, flauta.
John Lennon - Violão, vocais principais (dobrados).
George Harrison - Guitarra solo.
Ringo Starr - Bateria, pandeiro.
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OB-LA-DI, OB-LA-DA
(Lennon/McCartney)
Paul aprendeu a expressão “Ob-La-Di Ob-La-Da” com o músico nigeriano Jimmy Scott, quando os dois se conheceram no Bag O'Nails Club, em Londres. A esposa de Scott, Lucrezia, diz que “Ob-La-Di Ob-La-Da” é a tradução fonética de algo que o pai de Jimmy costumava dizer em dialeto nigeriano. “Tinha um significado especial que ele não contava a ninguém”, diz ela. “Até mesmo os Beatles não sabiam o que significava”. Durante seus shows, Jimmy costumava gritar “Ob-La-Di!”, no qual a platéia respondia “Ob-La-Da!” e ele retornava com “Life Goes On!”, portanto a expressão já era conhecida na noite londrina.
Assim, quando a canção foi lançada, Jimmy quis receber sua cota pelo uso da frase de efeito. “Ele ficou chateado quando fiz a música, porque ele quis créditos”, comentou Paul McCartney à revista Playboy, em 1984. “Eu disse, 'Vamos, Jimmy, é só uma expressão. Se você tivesse escrito a canção, teria sim seu crédito'”. Anos mais tarde, em depoimento à Barry Miles publicado na biografia “Many Years From Now”, Paul jogou panos quentes no assunto: “Mais tarde, eu lhe mandei um cheque em reconhecimento, porque muito embora eu tenha composto a canção toda e ele não tenha me ajudado, a frase era dele.” McCartney adorava esta música e queria que fosse mais um single dos Beatles. Já Lennon e Harrison a detestavam.
“Talvez eu tenha escrito um par de versos, mas é uma canção dele, letra dele”. (John Lennon - 1980)
Pete Shotton, amigo de John Lennon dos tempos de Liverpool, visitou os Beatles durante uma das sessões de gravação desta música. Ele descreveu o ambiente:
“Quando finalmente chegaram em algo que parecia uma interpretação impecável, McCartney começou a rir: 'Merda!', disse ele. 'Vamos ter que fazer de novo!'”.
“Pois pra mim ficou tudo bem”, reclamou John.
“Sim”, concordou George, “Está perfeita”.
“Mas... vocês não notaram?”, perguntou Paul.
“Notaram o quê?”, disse John.
“Eu cantei 'Desmond stays at home and does his pretty face...' Era pra eu ter dito 'Molly!'.
Os demais não acreditaram, até que George Martin voltou a fita e viram que Paul tinha mesmo razão.
“Não importa, soa fantástico de qualquer jeito”, concluiu Paul.
“Vamos deixá-la como está... para criar um pouco de confusão. Todo mundo vai perguntar se Desmond é bissexual ou um travesti”.
Gravação:
3 de julho de 1968, em Abbey Road, com adições em 4 e 5 de julho. Regravada em 8 e 9 de julho, com mais adições em 11 e 15 do mesmo mês.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, vocal principal.
John Lennon - Maracas, piano, vocais.
George Harrison - Violão, vocais.
Ringo Starr - bateria
Músicos de estúdio - metais.
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WILD HONEY PIE (Lennon/McCartney)
A letra mais curta e repetitiva entre todas dos Beatles, “Wild Honey Pie” emergiu de uma cantoria espontânea em Rishikesh. “Era apenas um fragmento instrumental que não dávamos muita importância. Mas Pattie Harrison gostava muito, então decidimos deixá-la no disco”, já disse Paul McCartney.
Gravação:
20 de agosto de 1968, em Abbey Road, por Paul McCartney. Nenhum outro Beatle participou.
Instrumentação:
Paul McCartney -Baixo, guitarra, violão, bateria, vocais.
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THE CONTINUING STORY OF BUNGALOW BILL (Lennon/McCartney)
Escrita por John Lennon na Índia, esta música conta a história real de Richard Cooke III, um jovem estudante americano que visitou sua mãe, Nancy, durante a estadia dela em Rishikesh. A caça ao tigre que é citada na letra ocorreu a apenas três horas de distância do ashram do Maharishi, para onde Cooke e sua mãe foram de elefante. O nome Bungalow Bill, claro, é uma referência a “Bufallo Bill”, famoso astro cowboy americano, mas com alusão aos bangalôs nos quais os Beatles ficaram hospedados na ocasião.
Esta canção marca a estréia de Yoko Ono em disco. Foi a primeira vez que uma mulher cantou em destaque numa música dos Beatles.
Gravação:
Entre a meia-noite e o amanhecer de 09 de outubro de 1968, em Abbey Road. Gravada logo após “I'm So Tired”.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, vocais.
John Lennon - Violão, órgão e vocais principais.
George Harrison - Violão, vocais.
Ringo Starr - Bateria, pandeiro, vocais.
Yoko Ono - Vocais e vocal solo no trecho “not when he looked so fierce”.
Maureen Starkey - Vocais (refrão)
Chris Thomas - Mellotron
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WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS
(George Harrison)
De todas as faixas do White Album, While My Guitar Gently Weeps é, sem dúvida, a mais famosa. Ponto para George Harrison, que estava desabrochando como compositor e chegando a rivalizar em qualidade com Lennon e McCartney. E ele tinha consciência disto e, vendo o desinteresse dos outros Beatles em sua composição, convidou o amigo Eric Clapton para tocar com ele. George andava lendo o I-Ching e decidiu aplicar alguns princípios do livro em seu método de composição. Na casa de seus pais, em Lancashire, ele escolheu um livro na estante e abriu ao acaso, pensando em fazer uma música com as primeiras palavras visse.
“Tinha um exemplar do I-Ching, o Livro das Mudanças, que me parecia baseado no conceito de que tudo está relacionado, ao contrário da visão ocidental de que tudo acontece por mera coincidência. Estava com esta idéia na cabeça quando fui visitar meus pais no norte da Inglaterra. Decidi compor uma canção baseada na primeira coisa que visse ao abrir um livro, pois estaria relacionado com o aquele momento, com aquele instante. Escolhi um livro ao acaso, abri, li 'Gently Weeps', fechei e fiz a canção”. (George Harrison - 1980)
“Trabalhei nela com John, Paul e Ringo um dia, e não ficaram nem um pouco interessados. Eu sabia que era uma boa canção. No dia seguinte eu estava com Eric e, a caminho da sessão, disse a ele: 'Vamos gravar esta canção. Vem tocar nela'. Ele disse: 'Não posso. Ninguém toca em um disco dos Beatles'. Mas eu disse: 'Olhe, esta música é minha e EU quero que você toque'”. (George Harrison - 1987)
Gravação:
25 de julho de 1968 de uma versão acústica, em Abbey Road. Refeita em 16 de agosto com adições em 3 de setembro, e novamente em 5 e 6 de setembro de 1968.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, vocais.
John Lennon - Violão, órgão, vocais.
George Harrison - Violão, guitarra solo, vocais principais.
Ringo Starr - Bateria, pandeiro.
Eric Clapton - Guitarra solo.
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HAPPINESS IS A WARM GUN (Lennon/McCartney)
Para esta faixa, John reuniu três canções que havia iniciado, mas que não iam a lugar algum. A primeira era formada por uma série de imagens aleatórias, imaginadas durante uma viagem de ácido com Derek Taylor, Neil Aspinall e Pete Shotton. “John disse que havia composto metade de uma canção e queria que a gente soltasse frases ao acaso para Neil registrar no papel”, disse Taylor. A segunda parte começa na frase “I Need A Fix”, e veio do relacionamento com Yoko que, na época, já cumpria uma espécie de papel materno (superior) para Lennon. Também nesta época, o beatle estava envolvido com heroína. A última parte foi inspirada na frase “Happines is a warm gun in your hand...” que John viu na capa de uma revista americana sobre armas. “Pensei que era algo fantástico de se dizer”, segundo ele. Esta canção foi proibida pela BBC pelo simbolismo sexual contido na letra, especificamente no trecho "When I feel my finger on your trigger".
“Esta foi composta a partir de três fragmentos de canções diferentes, e parecia que transitava por diferentes tipos de rock”. (John Lennon)
“Acho que é a minha favorita do White Album”. (Paul McCartney)
“Considero como uma de minhas melhores músicas. É mesmo uma canção muito bonita, e gosto como as coisas se passam nela”. (John Lennon)
Gravação:
23 de setembro de 1968, em Abbey Road, embora nenhuma das tomadas tenha sido aproveitada. Em 24 de setembro, após mais 25 gravações, foram escolhidas duas partes, completadas pela terceira no dia seguinte.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, vocais.
John Lennon - Guitarra solo, pandeiro, vocais principais, vocais de apoio.
George Harrison - Guitarra solo, vocais de apoio.
Ringo Starr - Bateria.
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MARTHA MY DEAR (Lennon/McCartney)
Martha My Dear é uma homenagem de Paul a Martha, sua cadela sheep-dog, na época com dois anos de idade. A canção nasceu como um exercício de piano, o qual Paul praticava bastante, e que posteriormente teve sua letra composta. “Em geral eu penso na melodia, até que a letra venha na cabeça. Neste caso, aconteceu de ser 'Martha My Dear'. Não significa grande coisa. Eu nunca tento fazer temas com comentários sociais sérios. Você pode ler o que quiser nela, mas realmente é uma canção simples. Sou eu cantando para minha cadela”, explicou McCartney em 1968.
Gravação:
4 de outubro de 1968, com adições em 5 de outubro, no Trident Studios.
Instrumentação:
Paul McCartney - Piano, vocais.
John Lennon - Baixo.
George Harrison - Guitarra solo.
Ringo Starr - Bateria.
Músicos de estúdio - Metais e cordas.
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I'M SO TIRED
(Lennon/McCartney)
Durante a estadia dos Beatles em Rishikesh, haviam longos períodos de leitura e meditação. E, associado ao fuso-horário indiano no qual não estavam acostumados, eram rotinas que já estavam deixando Lennon cansado e aborrecido. Daí a inspiração para esta faixa, uma das mais belas do White Album. Também foi um período de tensão para Lennon, pois se encontrava dividido entre a relação familiar, com Cynthia, e o assédio cada vez maior de Yoko Ono, cujas cartas chegavam diariamente à Índia. O cansaço que ele sentia não era apenas físico. Esta música curiosamente contrasta com outra de Lennon, 'I'm Only Sleeping', em que dizia ter dificuldades em sair da cama.
“I'm So Tired era eu, novamente na India. Não podia dormir. Meditava o dia todo e de noite não conseguia dormir”. (John Lennon - 1980)
“É uma canção muito boa... é fabulosa. 'I'm So Tired' é um comentário muito John sobre o mundo, e tem aquele verso especial: 'And curse Sir Walter Raleigh, he was such a stupid get'. É um verso clássico, e é tão John que só pode ter sido ele quem escreveu. Acho que 'I'm So Tired' é 100% John. Estar cansado era um dos seus temas, ele até compôs 'I'm Only Sleeping'”. (Paul McCartney - 1997)
Gravação:
8 de outubro de 1968, em Abbey Road.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, vocais.
John Lennon - Violão, guitarra solo.
George Harrison - Guitarra solo, guitarra rítmica.
Ringo Starr - Bateria.
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BLACKBIRD
(Lennon/McCartney)
Existem algumas histórias envolvendo a criação de 'Blackbird'. Uma diz que Paul, numa manhã em Rishikesh, acordou com o som de um melro cantando, pegou o violão e tentou transcrever o som que ouvia do pássaro. Outra sugere que a letra seja uma metáfora, inspirada pelas notícias de manifestações pelos direitos raciais nos Estados Unidos, em voga em 1968. De qualquer forma, o próprio McCartney já declarou que a música nasceu como uma derivação do 'Bourée em Mi Menor', de Bach, que ele e George tocavam ainda adolescentes, em Liverpool, como um exercício de violão. Foi o mesmo tema que, quase 40 anos mais tarde, serviria de inspiração para 'Jenny Wren', faixa do aclamado 'Chaos And Creation In The Backyard'.
Para a gravação de 'Blackbird' foram utilizados três microfones: um para o violão, outro para a voz de McCartney, e um último para captar as batidas de seu pé, que marca o ritmo da música.
Na noite em que Linda Eastman chegou de Nova York para viver com Paul, em finais do verão de 68, um feliz McCartney se sentou no peitoril da janela de sua casa, com seu violão, e tocou 'Blackbird' para as fãs que cercavam a propriedade.
Esta foi uma das cinco músicas dos Beatles que Paul McCartney tocou em sua gloriosa turnê americana de 1976, com os Wings. Ela até hoje faz parte do repertório dos shows do beatle.
O som do melro veio de uma gravação ornitológica no arquivo da EMI.
Gravação:
11 de junho de 1968, em Abbey Road.
Instrumentação:
Paul McCartney - Violão, vocais, ritmo.
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PIGGIES
(George Harrison)
Em Piggies, George Harrison critica a classe média britânica dos anos 60, comparando seu estilo de vida com o dos porcos. Ele iniciou a composição ainda em 1966, e terminou tempos depois, durante uma visita à casa de seus pais. Em 1991, durante a turnê japonesa, ao lado do amigo Eric Clapton, Piggies teve sua estréia ao vivo, numa performance muito bem-humorada de George.
“Piggies é uma crítica social. Me vi travado em um dos versos, até que minha mãe veio com o trecho 'What they need is a damn good whacking!'”. (George Harrison - 1980)
“Há um par de versos meus nessa aí, algo sobre comer bacon”. (John Lennon - 1980)
Na letra original, havia uma estrofe que foi omitida na versão final:
“Everywhere there's lot of piggies
Playing piggy pranks
You can see them on their trotters
At the piggy banks
Paying piggy thanks
To thee pig brother!”
Gravação:
19 de setembro de 1968, em Abbey Road, com adições em 20 de setembro e em 10 de outubro.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo.
John Lennon - Loops de fita.
George Harrison - Violão, vocais principais.
Ringo Starr - Pandeiros.
Chris Thomas - Clavichord.
Músicos de estúdio - Cordas
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ROCKY RACOON
(Lennon/McCartney)
Um Western musical, composto por Paul McCartney na Índia. Situada nas montanhas de Dakota, conta a história do jovem Rocky cuja namorada, Nancy Magill, foge com um sujeito chamado Dan. Rocky enfrenta Dan, tenta atirar nele, mas é derrotado para logo depois ser tratado por um médico que fede a bebida.
“Estávamos sentados no telhado de um dos bangalôs do Maharishi, apenas curtindo o momento, quando eu fiz essa. Comecei a botar os acordes e originalmente o título era 'Rocky Sassoon'. Então eu, John e Donovan começamos a brincar com a letra, que veio bem rápido, e virou 'Rocky Racoon' porque soava mais cowboy”. (Paul McCartney)
“Fiz minha paródia de western e joguei uns versos divertidos. Na verdade, apenas tentei manter a canção divertida; era como se eu tivesse composto uma peça, uma breve peça de um só ato, para dar às personagens a maioria das falas. Rocky Racoon é o protagonista, e depois há a garota que se chama Magill, mas que se faz chamar Lil e é chamada de Nancy”. (Paul McCartney - 1997)
Gravação:
15 de agosto de 1968, em Abbey Road.
Instrumentação:
Paul McCartney - Violão, vocais principais.
John Lennon - Gaita, harmonium, vocais.
George Harrison - Baixo, vocais.
Ringo Starr - Bateria.
George Martin - Piano.
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DON'T PASS ME BY
(Richard Starkey)
Don't Pass Me By foi a primeira canção totalmente creditada a Ringo Starr a aparecer em um disco dos Beatles. Até então, além de sua sempre perfeita bateria, suas únicas contribuições foram os títulos para A Hard Day's Night e Tomorrow Never Knows, e o crédito de co-autor em What Goes On e Flying. Questionado em dezembro de 1967 sobre suas aspirações como compositor, Ringo respondeu: “Eu tento. Tenho uma guitarra e um piano em casa e toco alguns acordes, mas é só enrolação. Nenhuma grande melodia apareceu, até onde me lembro.”
A verdade é que ele já tentava fazer os Beatles gravarem Don't Pass My By há alguns anos. Durante uma entrevista dada a uma rádio da Nova Zelândia, em 1964, Ringo pode ser ouvido ao fundo, dizendo aos outros que “gravem a música que fiz, só de zona”. Paul responde dizendo: “Ringo escreveu uma canção chamada 'Don't Pass Me By'. Uma linda melodia. É sua primeira tentativa na composição”.
Don't Pass Me By é um country. A paixão de Ringo pelo Country & Western americano vem da infância e, após a separação dos Beatles, chegou a gravar um disco inteiro neste estilo, o ótimo Beaucoups of Blues.
Esta música fez um estrondoso sucesso na Escandinávia, onde foi editada como single. Nos Estados Unidos, sua versão mono integrou a compilação “Rarities”, formada apenas por mixagens desconhecidas no mercado americano, em 1980.
Gravação:
5 de junho de 1968, em Abbey Road, com adições nos dias 6 e 12, além de mais montagens no dia 22 de julho.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo.
John Lennon - Violão.
George Harrison - Violino.
Ringo Starr - Bateria, piano, vocais principais.
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WHY DON'T WE DO IT IN THE ROAD
(Lennon/McCartney)
Paul teve a idéia para esta faixa também na Índia, quando viu dois macacos copulando. Ele ficou intrigado pela liberdade com a qual os animais se relacionam, em contraste com os rituais, as regras e as rotinas do sexo entre humanos.
“Eu estava meditando no terraço do bangalô e vi um bando de macacos andar pela selva. Um dos machos simplesmente pulou às cosas de uma fêmea e, como dizem no popular, mandou ver. Dali a dois ou três segundos, ele saiu pulando e olhou em volta como quem diz: 'Não fui eu!'... 'Why Don't We Do It In The Road?' era uma declaração primária sobre o sexo - aliás, sobre a liberdade. Eu gosto, é tão infame que eu gosto dela”. (Paul McCartney - 1997)
“Essa Paul escreveu... é uma de suas melhores canções”. (John Lennon - 1972)
“Paul é assim. Gravou essa sozinho em outra sala. Naquela época, as coisas estavam assim. Chegávamos e ele já havia gravado tudo. Ele tocando bateria, tocando piano, ele cantando. Não posso falar por George, mas a mim sempre doía quando Paul terminava algo sem contar comigo. Mas assim eram as coisas naquele tempo”. (John Lennon - 1980)
“Só houve um incidente em que eu lembre de John ter reclamado publicamente. Foi quando chamei Ringo e gravamos 'Why Don't We Do It In The Road'. Não foi proposital. John e George estavam ocupados finalizando alguma outra coisa, e Ringo e eu não tínhamos o que fazer”. (Paul McCartney - 1981)
Gravação:
9 de outubro de 1968, em Abbey Road, com adições em 10 de outubro.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, guitarra solo, piano, vocais principais.
Ringo Starr - Bateria.
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I WILL
(Lennon/McCartney)
Consta que esta foi a primeira música composta por Paul McCartney inspirado em Linda Eastman, sua futura esposa. Ele ainda estava escrevendo a letra durante a gravação, mudando versos a todo o momento. Em 1997, ele revelou: “Eu estava compondo uma canção, ‘I Will’, para qual eu já tinha a melodia, mas não tinha a letra. Lembro que estava passando o tempo com Donovan e talvez algumas outras pessoas. Estávamos simplesmente sem fazer nada depois da meditação diária, e toquei a música para Donovan. Ele gostou. E estava tentando fazer alguma letra. Tentamos algumas coisas, algo sobre a lua, mas não ficou muito bom. Achei que a melodia era melhor que aquelas letras e, por isso, não as usei. Continuei procurando coisa melhor e acabei escrevendo eu mesmo a letra”.
“Não acho que tenha ajudado com a letra. Paul é muito produtivo e, numa jam session, sempre assume a composição. Ao ouvir a letra hoje, posso ver que Paul sem dúvida fez a letra quando foi gravá-la, depois de termos estado na Índia.” (Donovan – 1997)
Em 2005, durante a turnê americana que divulgou seu disco “Chaos And Creation In The Backyard”, Paul McCartney resgatou I Will, incluindo a canção no repertório.
Gravação:
16 de setembro de 1968, em Abbey Road. Foram gravadas 67 tomadas, nem todas completas. A de número 65 foi considerada a melhor, e escolhida para as adições de instrumentos e vocais no dia 17 de setembro.
Instrumentação:
Paul McCartney – Baixo, violão, vocal principal.
John Lennon – Percussão (metal na madeira).
Ringo Starr – Percussão, maracas.
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JULIA
(Lennon/McCartney)
Embora muitas das canções de John Lennon tenham sido baseadas no seu trama pela perda da mãe, em Julia foi a primeira vez em que ele introduziu diretamente o assunto em uma canção dos Beatles. Ao mesmo tempo, a música traz uma mensagem-código para Yoko Ono, seu então novo amor. O trecho sobre a “ocean child” que o chama alude diretamente ao nome de Yoko, que em japonês significa “criança do oceano”.
Esta foi a única música gravada somente por John Lennon enquanto ainda era um beatle.
“Julia era minha mãe, embora a canção seja uma combinação de Yoko e minha mãe em um único ser. Esta eu compus na Índia”. (John Lennon - 1980)
“'Julia' era uma canção de John sobre a mãe, no estilo folk solado. Uma canção muito boa”. (Paul McCartney - 1997)
Gravação:
13 de outubro de 1968, em Abbey Road.
Instrumentação:
John Lennon - Violão, vocais.
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BIRTHDAY
(Lennon/McCartney)
As músicas do Álbum Branco compostas na Índia são todas baseadas em violões, pois eram os únicos instrumentos que os Beatles possuíam por lá. Por outro lado, Birthday foi composta nos estúdios Abbey Road, em 18 de setembro de 1968, com McCartney burilando o tema principal no piano. Algumas fontes citam que a inspiração da música veio do fato de Pattie Harrison, esposa de George, ter feito aniversário durante a permanência do grupo na Índia. Após a gravação, os Beatles fizeram uma pausa na casa de McCartney, onde assistiram na TV ao filme "The Girl Can't Help It".
“Pensamos: 'Por que não inventar alguma coisa?' Pegamos um refrão e fizemos um arranjo em torno disso. Dissemos: 'A gente faz uns compassos disto e uns compassos daquilo...' Acrescentamos uma letra e depois chamamos para fazer o corinho os amigos que estavam lá. A canção é metade minha, metade de John. Foi feita lá mesmo, e gravamos tudo numa noite só”. (Paul McCartney - 1997)
“'Birthday' foi composta no estúdio. Lá mesmo. Acho que Paul queria fazer uma música como 'Happy Birthday Baby', um velho sucesso dos anos cinqüenta”. (John Lennon - 1980)
“Paul foi o primeiro a chegar e começou a tocar o riff de 'Birthday'. Quando os outros chegaram, Paul já havia composto literalmente toda a canção, ali mesmo, no estúdio”. (Chris Thomas - produtor da sessão)
Gravação:
18 de setembro de 1968, em Abbey Road.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, vocais principais.
John Lennon - Guitarra solo, vocais.
George Harrison - Baixo, pandeiro.
Ringo Starr - Bateria.
Yoko Ono & Pattie Harrison - coro vocal.
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YER BLUES
(Lennon/McCartney)
Yer Blues foi a canção mais desesperada escrita por John Lennon até então, representando um angustiante grito por socorro, obviamente direcionado a Yoko Ono. Ele sentia que sua vida estava numa encruzilhada, com sua carreira como beatle próxima do fim, com a dor da perda do amigo Brian Epstein e o fim de seu casamento. Apesar de ainda sentir lealdade a Cynthia, em Yoko ele encontrava sua alma-gêmea, alguém que ele considerava seu complemento artístico e intelectual. Anos mais tarde, John declarou que este dilema o levou ao extremo, chegando a pensar em suicídio.
Em dezembro de 68, já após o lançamento do Álbum Branco, John participou do especial de TV "Rock & Roll Circus", dos Rolling Stones, formando o super grupo The Dirty Mac com Eric Clapton, Keith Richards e Mitch Mitchell. Para a ocasião, a banda tocou exatamente Yer Blues. Quase um ano depois, em setembro de 1969, em show pela paz realizado em Toronto, John repetiu a dose com Eric Clapton, Klaus Voormann, Alan White e Yoko. Durante a gravação do Álbum Branco, John se encontrava no auge de seu vício em heroína, o que aumentava muito sua dor e seu desejo de gritar e querer morrer.
“'Yer Blues' foi composta na Índia... com desejos de suicídio”. (John Lennon - 1980)
“O fato de estar viciado em heroína também dificultava a gravação... porque ele sempre andava nervoso, entre a euforia e a depressão. Os outros Beatles pisavam em ovos para evitar suas explosões de raiva”. (Barry Miles - 1997)
Gravação:
13 de agosto de 1968, em Abbey Road, com adições em 14 de agosto. A contagem na abertura só foi adicionada no dia 20.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo.
John Lennon - Guitarra solo, vocais.
George Harrison - Guitarra solo.
Ringo Starr - Bateria.
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MOTHER NATURE'S SON
(Lennon/McCartney)
Tanto John quanto Paul compuseram canções após ouvirem uma palestra do Maharishi sobre a união do homem com a natureza, mas foi a de Paul, “Mother Nature's Son”, que acabou entrando da seleção final do disco. A música de Lennon, “Child Of Nature”, trazia observações muito parecidas sobre o sol, o céu, as montanhas, mas ao contrário da letra de Paul, cheia de elementos de ficção, John escreveu sobre ele mesmo “a caminho de Rishikesh”. Paul sempre foi um amante da natureza. Após iniciar a canção na Índia, completou tempos depois na casa de seu pai. Esta foi mais uma canção na qual Paul McCartney trabalhou sozinho, o que mais uma vez despertou a animosidade entre os Beatles.
“Essa é de Paul. O tema veio de uma palestra do Maharishi, em que ele falou sobre a natureza, e eu tinha uma música chamada 'I'm Just A Child Of Nature' (sic), que anos depois virou 'Jealous Guy'. Ambas as músicas foram inspiradas na mesma palestra do Maharishi”. (John Lennon - 1980)
“Paul estava repassando os arranjos com George Martin e os instrumentistas convidados. Tudo ia de modo fantástico, todos de muito bom humor. O clima era ótimo. De repente, na metade do trabalho, chegaram John e Ringo e o ambiente mudou completamente. A mudança foi instantânea. A coisa durou cerca de dez minutos e, logo após a saída deles, tudo voltou a ser fantástico. Foi muito estranho”. (Ken Scott - engenheiro de som)
Gravação:
9 de agosto, em Abbey Road, com adições no dia 20.
Instrumentação:
Paul McCartney - Violão, bongôs, vocais.
Músicos de estúdio - Trompas.
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EVERYBODY'S GOT SOMETHING TO HIDE EXCEPT ME AND MY MONKEY
(Lennon/McCartney)
“Nada mais que uma frase legal que transformei em música. Era sobre Yoko e eu. Todo mundo parecia paranóico, exceto nós dois, que estávamos completamente apaixonados... todos pareciam tensos com a gente”. (John Lennon – 1980)
Quando voltou da Índia e assumiu sua relação com Yoko, John Lennon virou alvo fácil para a imprensa, que acampou na frente do apartamento onde o casal estava vivendo, em Montagu Square. Para fugir do assédio, o casal ficou hospedado na casa de Paul McCartney, onde passaram uns dias confortáveis descansando, vendo TV e comendo biscoitos de haxixe. Nessa época, os dois estavam usando heroína juntos, e esta canção reflete bem o período.
“John e Yoko estavam tão concentrados um no outro, que excluíam de suas vidas todas as outras pessoas. O fato de usarem drogas também dificultava a comunicação. ‘Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey’ foi gravada mais ou menos nesta época. Monkey e to have a monkey on one’s back eram gíria dos anos 40 e 50, nomes que os jazzistas davam ao vício da heroína”. (Barry Miles – 1997)
“John estava usando drogas mais pesadas do que a gente tinha usado antes, e por isso suas músicas vinham fazendo mais menção da heroína. Até aquela época, tínhamos feito referências bem leves e oblíquas à maconha e ao LSD. Mas agora John estava começando a falar de fixing e monkey. Era uma terminologia mais pesada... John acabou largando, mas naquela fase ele usava. Foi uma fase brava, mas essa adversidade e essa doideira muitas vezes geram boa arte, e acho que foi o que aconteceu no caso dele”. (Paul McCartney – 1997)
O título original desta música era “Come On, Come On”.
Aqui também observamos uma alfinetada no Maharish, já que o título da canção, exceto pela menção ao macaco, vem de uma das frases de efeito do guru.
“Fats Domino gravou uma versão fantástica desta música”. (John Lennon – 1972)
Gravação:
26 e 27 de junho de 1968, em Abbey Road, com adições em 1 e 23 de julho.
Instrumentação:
Paul McCartney – Baixo, vocais.
John Lennon – Guitarra solo, maracas, vocais principais.
George Harrison – Guitarra rítmica.
Ringo Starr – Bateria.
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SEXY SADIE
(Lennon/McCartney)
Sexy Sadie parece ser uma música sobre uma mulher que conquista os homens, apenas para fazê-los de bobos em seguida. Mas na verdade e letra fala do Maharishi Mahesh Yogi, após John se desiludir sobre ele. Sabendo que não poderia gravá-la com o título original, “Maharishi”, Lennon decidiu trocar o nome.
Existiram dois fatores cruciais para o rompimento dos Beatles com o guru. Um foi desconfiarem de que o mestre estava atrás de exposição e dinheiro, usando os Beatles como janela. O outro foi o rumor sobre uma suposta tentativa de assédio sexual, envolvendo uma das participantes do retiro. Embora até hoje não existam evidências concretas sobre tais acusações, foi o bastante para chatear os Beatles, que foram deixando Rishikesh um a um, culminando com a saída de John e George após um enfretamento com o Maharishi. Um dos participantes do curso de meditação, Paul Horn, acredita que o rompimento ocorreu porque os Beatles tinham uma expectativa errada sobre tudo. “Estes cursos eram na verdade preparados para pessoas que tinham a intenção de lecionar, repassar as técnicas, e que já tinham uma sólida bagagem em meditação. Os Beatles realmente não tinham experiência alguma para estarem lá, e eu acho que eles esperavam ver milagres, ou coisa assim”.
“Voltei pra casa depois de quatro ou cinco semanas, sabendo ter sido aquele o período que me cabia, e pensando: 'Não, não vou sair e virar monge, mas foi mesmo muito interessante, e vou continuar meditando'. Foi com certeza uma experiência muito gratificante”. (Paul McCartney)
“No momento, medito todos os dias. Bom, talvez eu pule um dia ou outro quando acordo tarde ou chego de viagem ou coisa parecida...” (Ringo Starr - 1968)
“Originalmente a música se chamava 'Maharishi', mas George convenceu John a mudar o título e sugeriu 'Sexy Sadie', para proteger quem não tinha nada a ver com a coisa. Acho que George estava certo. Teria sido cruel”. (Paul McCartney - 1997)
“Foi mesmo inspirada no Maharishi. Escrevi já a ponto de partir, com as malas feitas... Abandonei o Maharishi com um péssimo sabor na boca”. (John Lennon - 1980)
Gravação:
19 de julho de 1968, em Abbey Road, mas regravada em 24 de setembro e novamente em 13 de agosto, com adições no dia 21.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, vocais.
John Lennon - Guitarra rítmica, violão, órgão, vocais principais e de apoio.
George Harrison - Guitarra solo, vocais.
Ringo Starr - Bateria, pandeiro.
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HELTER SKELTER
(Lennon/McCartney)
O conceito por trás de Helter Skelter vem de uma notícia que Paul McCartney teria lido no jornal sobre “I Can See For Miles”, single do Who, lançado em outubro de 67. McCartney não concordou com o review do autor, e tirou aquilo como um desafio para uma composição. O artigo, que consta ter sido escrito Chris Welch, do Melody Maker, dizia que o disco era “o mais barulhento, o rock mais visceral, a coisa mais suja já feita”.
“Aí pensei: ‘Que pena. Gostaria de fazer algo assim’. Depois ouvi o disco e não era nada do que haviam dito. Era direto e sofisticado. Por isso gravamos essa. Eu gosto de barulho”. (Paul McCartney - 1985)
A primeira versão de Helter Skelter era mais lenta. Foi gravada em 18 de julho de 1968, e um dos takes durava aproximadamente vinte e sete minutos. Paul McCartney possui uma cópia deste take em seu acervo particular.
“A versão do álbum estava totalmente fora de controle. Os Beatles estavam completamente doidos aquela noite. Mas, como sempre, todo mundo fazia vista grossa para o que eles faziam no estúdio. Todo mundo sabia que eles tomavam substâncias, mas no estúdio eles faziam o que bem queriam”. (Brian Gibson – Engenheiro de som)
Ao final da canção, pode-se ouvir Ringo gritar: “I got blisters on my fingers!!”
A mixagem mono de Helter Skelter é tão diferente da stereo, que em 1980 fez parte de uma compilação americana de raridades. “Rarities” saiu pela Capitol-EMI e fez sucesso o bastante para sair também no Brasil.
Helter Skelter foi gravada na mesa de oito canais que a EMI havia acabado de instalar.
Gravação:
9 de setembro de 1968, em Abbey Road, com adições no dia 10.
Instrumentação:
Paul McCartney – Baixo, guitarra solo, vocais principais.
John Lennon – Baixo, guitarra solo, saxofone, vocais.
George Harrison – Guitarra rítmica, vocais.
Ringo Starr – Bateria
Mal Evans – Trompete.
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LONG, LONG, LONG
(George Harrison)
De todos os Beatles, George sempre foi o mais ligado à religião. Ele foi o primeiro a mostrar interesse e foi o único que continuou praticando após a desilusão dos outros com o Maharishi. Tanto que durante uma parte de sua vida, sua devoção chegou a ser maior que a atenção dispensada a sua mulher, Pattie. Isso certamente contribuiu para a conturbada separação nos anos setenta.
Long, Long, Long é uma canção de amor, escrita por alguém que perdeu o objeto de sua afeição. “Mas o 'you' na letra de 'Long, Long, Long' é Deus. Não lembro de muita coisa, além de que os acordes saíram de 'Sad Eyes Lady Of The Lowlands' (de Bob Dylan): ré, mi menor, lá e ré. Estes três acordes e sua seqüência”, revelou Harrison em sua autobiografia, I Me Mine.
“Durante a gravação, havia uma garrafa de vinho Blue Nun sobre a caixa Leslie, e quando Paul tocava uma certa nota no órgão, o Leslie vibrava e a garrafa fazia barulho. Dá pra ouvir na gravação”. (George Harrison - 1980)
Gravação:
7 de outubro de 1968, em Abbey Road, com adições em 8 e 9 de outubro.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, órgão Hammond.
George Harrison - Violão, vocais principais.
Ringo Starr - Bateria.
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REVOLUTION 1
(Lennon/McCartney)
Canção composta por John Lennon na Índia, e que ganhou três versões: duas para o White Album e uma para o lado B do single “Hey Jude”. A versão original, acústica, era a idéia de Lennon para um próximo single dos Beatles, mas os outros três não concordaram. Assim, modificaram a música e a transformaram no rock de nome “Revolution”, fazendo com que a primeira ficasse como “Revolution 1”.
Na letra, Lennon se diz contra a violência na versão do single, mas se mostra ambíguo na versão lenta do White Album, acrescentando um "in" após "you can count me out".
"Era uma canção ótima, basicamente de John. Era uma época muito politizada, com a Guerra do Vietnam, Mao e todas aquelas manifestações. Na letra, acho que John está querendo dizer que podem contar com ele para uma revolução, mas que, 'se ficarem carregando o retrato do presidente Mao, não vão mesmo conseguir nada com ninguém'. Mas 'Revolution' é uma canção extremamente política, uma grande canção. A versão do álbum era muito boa mesmo". (Paul McCartney - 1997)
"Havia muita tensão entre os Beatles. Fiz a versão lenta e queria que fosse um single, que servisse como a declaração da atitude dos Beatles diante do Vietnam e a revolução. George e Paul estavam ressentidos e disseram que não era rápida o bastante". (John Lennon - 1980)
"A versão original que acabou no LP também dizia 'count me out...in'. Pus as duas porque eu não estava seguro". (John Lennon - 1971)
"Para mim e para aqueles da minha geração, esta música - cuja criação por John presenciei nos estúdios Abbey Road - era uma declaração honesta sobre as mudanças sociais, que saiu realmente de dentro dele e revelou o que ele realmente sentia". (James Taylor - 1988)
Gravação:
30 de maio de 1968, em Abbey Road, com adições no dia 31 de maio e em 4 e 21 de junho. Um dos takes durou cerca de dez minutos.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo, piano, segunda voz.
John Lennon - Guitarra, vocais principais e segunda voz.
George Harrison - Violão, segunda voz.
Ringo Starr - Bateria.
Músicos de estúdio - metais.
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HONEY PIE
(Lennon/McCartney)
Honey Pie foi escrita por Paul McCartney no estilo cabaré dos anos vinte, numa homenagem a seu pai, Jim McCartney. De acordo com Paul, “Meu pai sempre tocou canções antigas nesse estilo, e eu gosto disso. Eu adoraria ter sido compositor nos anos vinte”.
“...Tínhamos muito carinho pelo music hall, aquilo que os americanos chamam de vaudeville... ouvi muito esse tipo de música. Eu gostava muito daquele antigo estilo crooner, da voz melodiosa e esquisita que usavam. Em 'Honey Pie' eu escrevia uma canção assim para uma mulher imaginária que está trabalhando no cinema americano, do outro lado do oceano, e que se chama Honey Pie. É mais uma de minhas canções fantasiosas. Pusemos um som em minha voa para parecer um disco velho e arranhado. Não é paródia, é uma homenagem à tradição do vaudeville em que me criei”. (Paul McCartney - 1997)
“John tocou um solo fantástico em 'Honey Pie'... parecia Django Reinhardt ou algo do tipo. Era um daqueles em que você fecha os olhos e não erra nenhuma nota sequer, era como um pequeno solo de jazz”. (George Harrison - 1987)
“Dessa eu não quero nem lembrar”. (John Lennon - 1980)
Gravação:
1 de outubro de 1968, no Trident Studios, com adições nos dias 2 e 4. O arranjo de metais foi composto por George Martin.
Instrumentação:
Paul McCartney - Piano, vocais principais.
John Lennon - Guitarra solo.
George Harrison - Baixo.
Ringo Starr - Bateria.
Músicos de estúdio: metais.
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SAVOY TRUFFLE
(George Harrison)
A amizade de George Harrison e Eric Clapton surgiu em 1966 e durou até a morte do beatle, em 2001. Savoy Truffle trata do vício de Clapton em doces, hábito que estava acabando com seus dentes, e foi a forma que Harrison encontrou para alertar o amigo. George formou a letra com nomes exóticos de chocolates da marca Mackintosh, mais precisamente dos que vinham na caixa de sortidos Good News, como Montelimar, Creme Tangerine, Ginger Sling, Coffee Dessert e o próprio Savoy Truffle. Como complemento, ele criou os nomes Cherry Cream e Coconut Fudge.
O som pleno dos metais, característico de alguns trabalhos solo de George, se ouve pela primeira vez nesta música. Muitas fontes divergem sobre a participação de John Lennon nesta faixa. De acordo com Mark Lewisohn, a fonte mais confiável em se tratando das fitas das sessões dos Beatles, "não existem provas da participação de Lennon".
“'Savoy Truffle é uma onda que eu compus nos anos sessenta. Naquela época, estava muito com Eric Clapton, que tinha muitas cáries e precisava ir ao dentista. Seus dentes sempre doíam, mas não parava de comer doces: era mais forte que ele. Quando via uma caixa, tinha que comê-la toda. Um dia fui à sua casa e encima da mesa havia uma caixa de bombons 'Good News', e escrevi a música a partir dos nomes que saíam dela... Derek Taylor escreveu parte da letra do meio: 'You know that what you eat you are'.” (George Harrison - 1980)
Gravação:
3 de outubro de 1968, no Trident Studios, com adições em 5, 11 e 14 de outubro.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo.
George Harrison - Guitarra solo, órgão, vocais principais.
Ringo Starr - Bateria, pandeiros.
Músicos de estúdio - dois saxes barítono e quatro saxes tenor.
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CRY BABY CRY
(Lennon/McCartney)
Lennon compôs esta faixa na Índia, inspirado por um anúncio publicitário que utilizou a seguinte cantiga de roda: “Cry Baby Cry/Stick a finger in your eye/And tell your mother it wasn't I”. “Eu tenho outra música aqui, algumas rimas, que eu tirei de um anúncio”, revelou Lennon a Hunter Davies, o biógrafo oficial dos Beatles, em 1968. “'Cry baby cry, make your mother buy...' Vou guardá-la agora, mas voltarei à ela se eu quiser”.
“Acho que o imaginário da canção foi sacado das minhas músicas de contos de fada. Tínhamos nos tornado muito camaradas nessa coisa de trocar vibrações musicais”. (Donovan - 1994)
“Uma porcaria”. (John Lennon - 1980)
Gravação:
16 de julho de 1968, em Abbey Road, com adições no dia 18.
Instrumentação:
Paul McCartney - Baixo.
John Lennon - Violão, piano, órgão e vocais principais.
George Harrison - Guitarra solo.
Ringo Starr - Bateria, pandeiro.
George Martin - Harmonium.
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REVOLUTION 9
(Lennon/McCartney)
A terceira e última versão de “Revolution” também foi a mais estranha. Na verdade, “Revolution 9”, como acabou conhecida, é a faixa menos convencional presente em um disco dos Beatles. É toda formada por colagens e montagens sonoras, sobre uma base extraída de uma jam registrada durante a gravação de Revolution 1, original de um take de cerca de dez minutos.
Basicamente uma criação de John e Yoko Ono, Revolution 9 vem de fitas gravadas por Lennon privadamente, somadas ao que ele achou de interessante nos arquivos da EMI, formando um amontoado de sons quase impossível de se identificar isoladamente. A gravação utilizou três estúdios ao mesmo tempo, interligados e comandados por John. De qualquer forma, o pesquisador Mark Lewisohn, tentou identificar os elementos da faixa:
- Um coral
- Violinos ao contrário
- Uma sinfonia tocada ao contrário
- Um overdub de orquestra extraído de A Day In The Life
- Aplausos
- Trechos de ópera
- Sons de mellotron ao contrário
- Murmúrios diversos dos Beatles
- Frases pré-gravadas de John e George
- Um monólogo de Yoko Ono
- A gravação de um vaso se quebrando
- Uma fita K7 com John e Yoko gritando a palavra “right!”
O som mais marcante vem de uma fita onde uma voz entoa “Number Nine, Number Nine”. Ela foi encontrada nos arquivos da EMI, e parece ter vindo de um acervo de gravações didáticas da Royal Academy of Music.
“A versão lenta de 'Revolution' andava e andava sem parar, de forma que isolei essa parte do final... e pus sobre ela todo este material. Tem o ritmo básico da 'Revolution' original com uns vinte loops por cima, material de arquivo da EMI. Escolhemos fragmentos de música clássica e fizemos loops de diversos tamanhos, e logo depois peguei uma fita onde um técnico fazia testes de som dizendo “number nine, number nine, number nine'. Todos estes fragmentos de som e ruído foram compilados. Haviam uns dez reprodutores com gente segurando as fitas com um lápis... Gravei tudo junto e mixei na hora. Fiz umas quatro mixagens até ficar satisfeito. Yoko participou de tudo e decidiu quais loops utilizar”. (John Lennon - 1980)
Alguns dos sons foram gravados na casa de Pete Shotton, velho amigo de John Lennon dos tempos de adolescência.
“Dividimos uma dose de LSD, fumamos alguns baseados e começamos a brincar com os gravadores Brunell de John... Abrimos as janelas para entrar o ar e gritamos as primeiras coisas que vieram à cabeça, para uns pobres coitados que não entenderam nada, com as fitas rodando na sala, bem atrás de nós. Realmente eu não tinha a menor idéia de que essa brincadeira ia ficar para a posteridade... como parte de 'Revolution 9'”. (Pete Shotton - 1984)
Com uma duração total de 8:15 minutos, esta é a faixa mais longa presente em qualquer disco dos Beatles. Na verdade, George Martin e os demais Beatles tentaram tirá-la do álbum.
“'Revolution 9' não se parecia com nenhuma música dos Beatles...mais se encaixou bastante bem no contexto de canções tão diferentes. Me custa muito escutá-la... na verdade, não consigo”. (George Harrison - 1969)
Paul McCartney estava nos Estados Unidos quando Revolution 9 foi criada e ficou desapontado com sua inclusão no Álbum Branco, especialmente porque ele mesmo já vinha criando colagens sonoras desde 1966.
Gravação:
30 de maio de 1968, em Abbey Road, com adições em 6, 10, 11, 20 e 21 de junho.
Instrumentação:
Paul McCartney - Piano (logo no início, original da gravação de Revolution 1).
John Lennon - Voz.
George Harrison - Voz.
Ringo Starr - Voz.
Yoko Ono - Voz.
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GOOD NIGHT
(Lennon/McCartney)
Esta foi certamente a canção mais açucarada já escrita por John Lennon, daquelas que ele certamente chamaria de “lixo” se tivesse sido feita por Paul McCartney. Foi composta, segundo Lennon, como uma canção de ninar para seu filho Julian. Infelizmente o rapaz só ficou sabendo disso em 1994, entrevistado para um livro sobre os Beatles. Isso se deve ao fato de seus pais terem se separado poucas semanas antes da composição.
“”Good Night' foi composta para Julian, da mesma forma como 'Beautiful Boy' foi composta para Sean, mas dei a Ringo por achá-la melosa demais”. (John Lennon - 1980)
“As pessoas quase poderiam ser desculpadas por pensarem que 'Good Night' era minha, já que a música é tão suave, tão melódica e tão pouco parecida com as coisas de John. Acredito que ele a tenha composto como um acalanto para Julian. Era uma canção muito linda, que Ringo acabou cantando com acompanhamento de uma orquestra de cordas. Acho que John pensou que a música não faria bem à sua imagem, mas ele era fantástico quando a cantava. Nós o ouvimos fazer isso para ensiná-la a Ringo, e John a cantou com muita ternura. Ele raramente mostrava seu lado terno, mas minhas principais lembranças, as que ficaram mesmo comigo, são de quando John se mostrava mais meigo, aqueles momentos em que ele se revelava uma pessoa muito generosa, muito carinhosa. Sempre cito essa canção como exemplo do John que existia debaixo da superfície, aquele que só víamos de vez em quando... 'Good Night' é um exemplo de seu lado terno. Não creio que a versão dele no vocal tenha sido gravada alguma vez”. (Paul McCartney - 1997)
As primeiras versões tinham uma introdução declamada por Ringo: “Come on children, it's time to toddle off to bed...”
Gravação:
28 de junho de 1968, em Abbey Road, com adições em 2 de julho. Regravada completamente em 22 de julho. Orquestração composta por George Martin.
Instrumentação:
Ringo Starr - Vocais.
Músicos de estúdio - Orquestra de trinta instrumentos.
Coral infantil - Vocais.
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